Rabi Yosei diz: tudo que se ferve com as acelgas (de teruma) é proibido, porque elas dão sabor (diferentemente da regra geral da mishná anterior, que tratava de conserva fria, Rabi Yosei observa que a fervura — processo com calor — faz com que até vegetais comuns, como a acelga, transmitam sabor suficiente para proibir). Rabi Shimon diz: repolho de irrigação (shikya, cultivado em terra seca que precisa ser regada artificialmente) com repolho de sequeiro (ba'al, cultivado em terra naturalmente úmida, sem necessidade de irrigação, de teruma), é proibido, porque ele absorve (o repolho de irrigação, por sua natureza mais seca, absorve com mais intensidade a umidade do repolho de sequeiro de teruma ao seu redor). Rabi Yehudá diz: tudo que se cozinha junto é permitido, exceto com a carne (retomando a regra geral de que cozimento conjunto normalmente não proíbe, com a única exceção sendo a carne, cuja natureza especial — rica em sangue e gordura — sempre transmite e recebe sabor de modo mais intenso). Rabi Yochanan ben Nuri diz: o fígado proíbe, mas não se torna proibido, porque ele libera (sangue e substância continuamente durante o cozimento) mas não absorve (o fígado, por sua composição rica em sangue que continuamente se expele durante a cocção, é capaz de transmitir sabor proibido a tudo que cozinha junto com ele, mas, precisamente por estar sempre "expelindo" e nunca "recebendo", ele mesmo nunca se torna proibido por aquilo com que é cozido — uma assimetria única entre os alimentos discutidos neste perek).
Esta mishná reúne quatro vozes tanaíticas que refinam e testam os limites do princípio central de noten taam à luz de casos concretos de cozimento — a etapa em que o calor intensifica a transferência de sabor além do que ocorre em simples conserva fria.
Por que o fígado ocupa uma posição tão singular — proibindo tudo ao seu redor, mas nunca se tornando ele próprio proibido? A observação de Rabi Yochanan ben Nuri revela uma assimetria fisiológica notável. O fígado é um órgão extremamente rico em sangue, e durante o cozimento ele continuamente expele (polete) esse sangue para o líquido ao redor — um processo ativo e constante de liberação. Precisamente por estar sempre nesse estado de "saída", o fígado nunca chega a um ponto de equilíbrio em que passaria a absorver (bolaat) substância de volta do meio que o cerca — ele está, por assim dizer, sempre "doando" e nunca "recebendo". Esse comportamento unidirecional explica por que ele é capaz de proibir qualquer alimento cozido junto com ele (por transmitir sua substância proibida a eles), mas nunca fica ele próprio proibido por aquilo que é cozido ao seu lado (por nunca absorver de volta). Rabi Akiva e os demais tanaim desta mishná, cada um a seu modo, testam variações desse mesmo princípio: quando o calor do cozimento é suficiente para vencer a barreira normal de "não dar sabor" que rege a conserva fria.
Como esta mishná trata sobretudo de leis gerais de cozimento envolvendo carne e fígado — não especificamente de teruma — sua halachá correspondente no Rambam encontra-se em Hilchot Ma'achalot Assurot, no capítulo dedicado às leis de sangue (dam) e seu tratamento.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Estes tanaim todos discordam da mishná anônima anterior (a mishná 10:10, que representa a posição consensual "sem nome"). E é que a afirmação anterior permitiu apenas a conserva (kevishá — fria, sem calor). E disse Rabi Yosei que mesmo os fervidos (shelakim — cozidos com calor), quando se ferveu vegetal de chulin com vegetal de teruma, o vegetal de chulin não fica proibido a menos que o vegetal de teruma fosse acelgas (Rabi Yosei restringe sua exceção especificamente às acelgas, e não a vegetais fervidos em geral).
E Rabi Shimon se inclina à sua posição, e disse que, se ferveu repolhos de irrigação e repolhos de sequeiro, e os repolhos de sequeiro eram teruma, é proibido comer os repolhos de irrigação, que são chulin, porque os caules do repolho são macios e absorvem a umidade dos outros repolhos, que são teruma (razão física específica: a textura mais porosa do repolho irrigado o torna mais suscetível à absorção).
E Rabi Akiva acrescentou (nota: o Rambam aqui nomeia Rabi Akiva onde o texto da mishná registra "Rabi Yehudá" — uma variante textual entre versões da mishná, sendo Rabi Akiva a atribuição em algumas edições), e disse que mesmo os cozidos, como sementes e outros, quando se cozinha teruma com chulin, não proíbem o chulin — a menos que se tenha cozido carne com vegetal de teruma; então a carne fica proibida aos estranhos, porque ela puxa o vegetal e melhora seu sabor (a carne, por sua composição gordurosa, absorve com particular intensidade o sabor de qualquer coisa cozida com ela).
E Rabi Yochanan ben Nuri acrescentou a isso, e disse que não toda carne, mas o fígado — quando é cozido com vegetal de teruma, não fica proibido, porque ele libera e não puxa nada (a assimetria específica do fígado: ele emite continuamente, sem nunca absorver de volta).
"Rabi Yosei diz: tudo que se ferve com as acelgas é proibido": Rabi Yosei discorda do tanna anônimo, e entende que todos os demais vegetais não proíbem mesmo fervidos, exceto as acelgas de proibição — como as de teruma e de kilei hakerem — pois estas dão sabor em sua fervura.
"Repolho de irrigação": o que cresce em terra seca que precisa ser irrigada — se ferveu com repolho de teruma que cresce em terra úmida... é proibido, pois o de irrigação, por causa de sua secura, absorve.
"Rabi Akiva diz": todo proibido e permitido cozidos juntos, sendo da mesma espécie, são permitidos... exceto carne proibida e permitida cozidas juntas, que é proibido. E não é lei segundo nenhum destes tanaim, mas segundo o tanna anônimo apenas (o Bartenura conclui que a halachá final não segue nenhuma das quatro opiniões desta mishná, mas retorna à posição consensual e mais restritiva da mishná anterior, 10:10 — a de que apenas a conserva fria de allium proíbe, e não o cozimento em geral).
"O fígado proíbe": fígado de trefá que foi cozido com permitido proíbe tudo cozido junto com ele.
"Mas não se torna proibido": por estar ocupado em constantemente liberar a abundância de sangue que há nele, não absorve. E a halachá é que o fígado cozido, mesmo sendo de coisa permitida, é proibido comê-lo, e proíbe tudo que é cozido junto com ele, porque está cheio de sangue, e libera e volta a absorver do sangue que liberou (o Bartenura nota que a halachá final, na prática, não segue exatamente a distinção de Rabi Yochanan ben Nuri: o fígado não tratado é sempre proibido comer, mesmo sozinho, precisamente porque, ao ferver em seu próprio sangue liberado, ele acaba reabsorvendo parte dele). E não tem remédio no cozimento, a menos que tenha sido chamuscado bem no fogo primeiro, e assim é o costume do povo (confirmando a prática de sempre chamuscar o fígado ao fogo antes de qualquer outro preparo, como o Rambam também codifica).