Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud-Alef · Mishná 1

"Não se coloca figo prensado e figo seco"

אֵין נוֹתְנִין דְּבֵלָה וּגְרוֹגָרוֹת לְתוֹךְ הַמּוּרְיָס
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre-se o Perek Yud-Alef, último do tratado: as leis sobre o processamento da teruma — o que se pode e não se pode fazer com figos, vinho, azeite — quando a mudança de forma implica perda do produto e é por isso vedada

Não se coloca figo prensado (develá) e figo seco (gerogarot, ambos de teruma) dentro do molho de peixe salgado (murias), porque isso os perde (o costume era espremer os figos ali dentro para extrair seu líquido e depois descartá-los, o que constitui destruição da teruma). Mas coloca-se o vinho no molho de peixe (pois o vinho é normalmente adicionado ao murias para adoçá-lo e dar-lhe sabor, não sendo em si perdido, mas incorporado e consumido no produto final). E não se perfuma o azeite (de teruma, misturando-o com raízes aromáticas, pois isso o torna impróprio para consumo, transformando-o em óleo de unção que já não serve como alimento), mas se faz do vinho um "ienomelin" (vinho misturado com mel e pimenta, uma bebida que continua própria para consumo, ao contrário do azeite perfumado). Não se ferve o vinho de teruma, porque isso o diminui (o cozimento reduz o volume do vinho, causando perda da teruma). Rabi Yehudá permite (ferver o vinho de teruma), porque isso o aperfeiçoa (em sua visão, o vinho fervido se conserva melhor e ganha em qualidade, não sendo portanto uma perda, mas uma melhoria — opinião individual que a halachá não segue).

אֵין נוֹתְנִין דְּבֵלָה וּגְרוֹגָרוֹת לְתוֹךְ הַמּוּרְיָס, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְאַבְּדָן, אֲבָל נוֹתְנִין אֶת הַיַּיִן לַמּוּרְיָס. וְאֵין מְפַטְּמִין אֶת הַשֶּׁמֶן, אֲבָל עוֹשִׂין אֶת הַיַּיִן יֵנוּמְלִין. אֵין מְבַשְּׁלִין יַיִן שֶׁל תְּרוּמָה, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַמְעִיטוֹ. רַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַשְׁבִּיחוֹ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Com esta mishná abre-se o Perek Yud-Alef, último do tratado, dedicado às regras de processamento e uso da teruma já separada — o que dela se pode fazer sem incorrer em perda proibida (ibbud), fundamentado na exigência bíblica de que o cohen desfrute plenamente da porção que lhe foi consagrada.

Bemidbar (Números) 18:8
וַאֲנִי הִנֵּה נָתַתִּי לְךָ אֶת מִשְׁמֶרֶת תְּרוּמֹתָי לְכָל קָדְשֵׁי בְנֵי יִשְׂרָאֵל, לְךָ נְתַתִּים לְמָשְׁחָה וּלְבָנֶיךָ לְחָק עוֹלָם.
"E Eu, eis que te dei a guarda das Minhas ofertas, de todas as coisas sagradas dos filhos de Israel; a ti as dei por unção, e a teus filhos por lei perpétua" (Bemidbar 18:8) — a teruma é entregue ao cohen para seu proveito e sustento pleno. Desse princípio deriva a proibição de destruí-la ou desperdiçá-la (ibbud teruma): quem a recebeu deve poder consumi-la ou usá-la de modo proveitoso, e todo processamento que a leve à perda — como espremer figos apenas para descartá-los, ou transformar o azeite comestível em óleo de unção impróprio para alimento — contraria essa entrega para benefício do cohen.

Por que colocar figos no molho de peixe é proibido, mas colocar vinho é permitido? A distinção repousa no destino final do produto: quando se coloca a develá e a gerogarot no murias, o costume era espremê-las e depois jogá-las fora — o próprio alimento de teruma é descartado, configurando perda pura e simples. O vinho, ao contrário, permanece incorporado ao molho, sendo consumido junto com ele; nada se perde, apenas se transforma de uma forma de consumo (bebida pura) para outra (tempero de um prato). O mesmo raciocínio rege o azeite: perfumá-lo com raízes aromáticas o torna "sabão" ou óleo cosmético, tirando-o da categoria de alimento, enquanto misturar vinho com mel e pimenta (ienomelin) preserva sua natureza de bebida consumível. Quanto ao vinho fervido, a maioria dos sábios considera que o cozimento necessariamente reduz seu volume — uma perda direta da quantidade de teruma —, e por isso o proíbe; Rabi Yehudá, isoladamente, valoriza mais a melhoria qualitativa do que a redução quantitativa, mas sua opinião não prevalece.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lei em Hilchot Terumot, no capítulo dedicado ao uso e processamento da teruma pelo cohen.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:3-4
אֵין נוֹתְנִין דְּבֵלָה וּגְרוֹגָרוֹת לְתוֹךְ הַמֻּרְיָס מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְאַבְּדָן. אֲבָל נוֹתְנִין אֶת הַיַּיִן לְתוֹךְ הַמֻּרְיָס. וְאֵין מְפַטְּמִין אֶת הַשֶּׁמֶן מִפְּנֵי שֶׁהוּא מוֹצִיאוֹ מִכְּלַל מַאֲכָלוֹת וְעוֹשֵׂהוּ שֶׁמֶן מִשְׁחָה. אֲבָל מְעָרְבִין יַיִן וּדְבַשׁ וּפִלְפְּלִין וְכַיּוֹצֵא בָּאֵלּוּ לְאָכְלָן: אֵין מְבַשְּׁלִין יַיִן שֶׁל תְּרוּמָה מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְמַעֲטוֹ.
"Não se coloca figo prensado e figo seco dentro do molho de peixe salgado, porque isso os perde. Mas coloca-se o vinho dentro do molho de peixe salgado. E não se perfuma o azeite, porque isso o retira da categoria de alimentos e o transforma em óleo de unção. Mas mistura-se vinho, mel e pimenta e semelhantes a eles, para comê-los. Não se ferve o vinho de teruma, porque isso o diminui" (o Rambam segue quase literalmente a linguagem da mishná, explicitando o critério subjacente: o que importa não é a mudança de forma em si, mas se o produto final continua servindo como alimento pleno ao cohen, sem perda de sua substância ou de sua utilidade comestível).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que abre o Perek Yud-Alef, último do tratado.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 11:1
מורייס ידוע: מפטמין את השמן. כלומר מרקחים או מבשמים את השמן בדברים שריחם טוב לפי שאלו הדברים משנים טעם השמן ומוציאין אותו מתכונתו ומחזירין אותו במדרגת השמנים שעושין הרופאים שאינן ראוים לאכילה: ויינומלים הוא דבר מעורב משמן ויין ודבש ופלפלים וידוע כי היין כשנתבשל חסר בבשולו וטעמו וריחו יהיו משובחי' יותר ואין הלכה כרבי יהודה:

"Murias" é conhecido (o molho de peixe salgado, produzido a partir de peixes pequenos macerados em salmoura). "Perfumam o azeite": isto é, o adoçam ou o perfumam com substâncias de bom cheiro, pois essas substâncias mudam o sabor do azeite e o retiram de sua natureza própria, transformando-o na categoria dos óleos que os médicos preparam, que não são próprios para consumo.

E "ienomelin" é algo misturado de azeite, vinho, mel e pimentas (o Rambam observa que existe variação entre as fontes sobre se o ienomelin contém azeite ou não; a mishná fala apenas em vinho, mel e pimenta). E é sabido que o vinho, quando fervido, diminui em seu cozimento, mas seu sabor e cheiro se tornam mais aperfeiçoados (o Rambam reconhece o argumento de Rabi Yehudá como fisicamente correto — o vinho fervido de fato melhora em qualidade —, mas isso não muda a conclusão legal). E a halachá não é como Rabi Yehudá (pois a redução quantitativa constitui perda proibida da teruma, independentemente do ganho qualitativo).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 11:1
אֵין נוֹתְנִין דְּבֵלָה וּגְרוֹגָרוֹת. שֶׁל תְּרוּמָה: לְתוֹךְ הַמּוּרְיָס. שֻׁמָּן שֶׁל דָּגִים: מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְאַבְּדָן. שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ דְּבֵלָה וּגְרוֹגָרוֹת הַנְּתוּנִים בְּמוּרְיָס לְסָחֲטָן וּלְהוֹצִיא אֶת מֵימֵיהֶן וְאַחַר כָּךְ מַשְׁלִיכָן: אֲבָל נוֹתְנִים אֶת הַיַּיִן לַמּוּרְיָס. רְגִילִים הָיוּ לָתֵת יַיִן לַמּוּרְיָס שֶׁלֹּא הָיָה בוֹ שַׁמְנוּנִית כָּל כָּךְ כְּדֵי לְמַתְקּוֹ וְלָתֵת בּוֹ טַעַם. הִלְכָּךְ מֻתָּר לִתֵּן יַיִן שֶׁל תְּרוּמָה לְתוֹכוֹ, וְלֹא אָמְרִינַן לַעֲבוּרֵי זֻהֲמָא בִּלְבָד הוּא נוֹתֵן אֶת הַיַּיִן וַהֲוָה כִּמְאַבְּדוֹ: אֵין מְפַטְּמִין אֶת הַשֶּׁמֶן. שֶׁל תְּרוּמָה בְּעִקְּרֵי בְשָׂמִים, שֶׁבּוֹלְעִים אֶת הַשֶּׁמֶן וְאָזֵיל לְאִבּוּד. אִי נַמִּי דְּלֹא חָזֵי הַשֶּׁמֶן לַאֲכִילָה כְּשֶׁהוּא מְפֻטָּם: יֵנוּמְלִים. נוֹתְנִים לְתוֹךְ הַיַּיִן דְּבַשׁ וּפִלְפְּלִין: מַמְעִיטוֹ. שֶׁמִּתְחַסֵּר וּמִתְמַעֵט עַל יְדֵי הַבִּשּׁוּל. וְאִית דִּמְפָרְשֵׁי שֶׁמַּמְעִיטוֹ מִשּׁוֹתָיו, שֶׁאֵין בְּנֵי אָדָם רְגִילִין לִשְׁתּוֹת יַיִן מְבֻשָּׁל כְּמוֹ חַי: מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַשְׁבִּיחוֹ. וּמִתְקַיֵּם יוֹתֵר. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

"Não se coloca figo prensado e figo seco": de teruma. "Dentro do molho de peixe": a gordura dos peixes (o murias é um caldo salgado extraído de peixes pequenos). "Porque isso os perde": pois é costume que a develá e a gerogarot colocadas no murias sejam espremidas para extrair sua água, e depois se descartem (o objetivo do processo já pressupõe o descarte final do próprio alimento de teruma).

"Mas colocam-se o vinho no molho de peixe": era costume colocar vinho no murias — que não tinha tanta gordura — para adoçá-lo e lhe dar sabor. Por isso, é permitido colocar vinho de teruma nele, e não dizemos que ele é colocado apenas para remover o mau cheiro e por isso equivaleria a perdê-lo (diferentemente da cebola de 10:1, aqui a função do vinho é efetivamente incorporar-se e ser consumido, não apenas neutralizar odor).

"Não se perfuma o azeite": de teruma com raízes de especiarias, pois elas absorvem o azeite e ele se perde; ou ainda porque o azeite não fica próprio para consumo quando perfumado.

"Ienomelin": coloca-se dentro do vinho mel e pimentas. "Diminui-o": pois se reduz e diminui por meio do cozimento. E há quem interprete que o diminui de seus bebedores, pois as pessoas não costumam beber vinho fervido como bebem o vinho cru (interpretação alternativa: a perda não é de volume físico, mas de valor de mercado, já que menos pessoas desejam vinho cozido).

"Porque isso o aperfeiçoa": e se conserva mais. E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná abre-se o Perek Yud-Alef, último capítulo de Massechet Terumot, dedicado às leis de processamento e uso da teruma já separada — o que se pode e não se pode fazer com figos, vinho e azeite, os produtos de sementes e ossos comestíveis, os celeiros e barris esvaziados, e o azeite de queima usado para iluminação.