Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud-Alef · Mishná 10 (última)

"Acende-se azeite de queima nas sinagogas"

מַדְלִיקִין שֶׁמֶן שְׂרֵפָה בְּבָתֵּי כְנֵסִיּוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná final do tratado: os locais onde se pode acender azeite de teruma impura sem necessidade de permissão explícita do cohen; a filha de israelita casada com cohen que acende em nome do pai; e o debate entre Rabi Yehudá, Rabi Yossei, Rabi Meir e Rabi Shimon sobre acender em casa de luto ou de festa — encerrando Massechet Terumot com as leis do azeite de queima

Acende-se azeite de queima (shemen sereifá — azeite de teruma que se tornou impuro e por isso não pode mais ser consumido, mas ainda pode ser usado para iluminação) nas sinagogas, e nas casas de estudo, e nos becos escuros (locais públicos ou semipúblicos onde o benefício da luz reverte, ainda que indiretamente, a toda a comunidade, incluindo cohanim que ali passem ou estudem — dispensando a necessidade de permissão explícita e individual de um cohen), e sobre o produto comum (chulin, isto é, pode-se acender azeite de teruma impura para iluminar um ambiente onde também se guarda ou consome chulin) com permissão do cohen (neste caso específico — um espaço privado, não público — é necessária a autorização explícita de um cohen para tal uso). Uma filha de israelita que se casou com um cohen, e ela está acostumada (a esse uso) na casa de seu pai (antes do casamento, seu pai israelita já tinha o costume de receber azeite de queima de algum cohen para iluminação doméstica): seu pai acende com sua permissão (a permissão da própria filha, agora casada com um cohen, é suficiente para que o pai continue acendendo o azeite de queima em sua casa, pois ela, como esposa de cohen, tem status para autorizar esse uso). Acende-se (o azeite de queima) na casa de festa, mas não na casa de luto — palavras de Rabi Yehudá. E Rabi Yossei diz: na casa de luto, mas não na casa de festa. Rabi Meir proíbe aqui e ali (tanto na casa de festa quanto na casa de luto). Rabi Shimon permite aqui e ali (tanto na casa de festa quanto na casa de luto — encerrando o tratado com um debate entre quatro opiniões sobre os limites de uso doméstico do azeite de queima, cada uma fundamentada em considerações práticas distintas sobre o risco de mau uso).

מַדְלִיקִין שֶׁמֶן שְׂרֵפָה בְּבָתֵּי כְנֵסִיּוֹת, וּבְבָתֵּי מִדְרָשׁוֹת, וּבַמְּבוֹאוֹת הָאֲפֵלִין, וְעַל גַּבֵּי הַחוֹלִין בִּרְשׁוּת כֹּהֵן. בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּשֵּׂאת לְכֹהֵן, וְהִיא לְמוּדָה אֵצֶל אָבִיהָ, אָבִיהָ מַדְלִיק בִּרְשׁוּתָהּ. מַדְלִיקִין בְּבֵית הַמִּשְׁתֶּה, אֲבָל לֹא בְבֵית הָאֵבֶל, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. וְרַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, בְּבֵית הָאֵבֶל, אֲבָל לֹא בְבֵית הַמִּשְׁתֶּה. רַבִּי מֵאִיר אוֹסֵר כָּאן וְכָאן. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר כָּאן וְכָאן:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná final baseia-se no princípio de que a teruma impura, embora proibida ao consumo, mantém valor de uso para o cohen — especificamente iluminação — desde que esse uso reverta, direta ou indiretamente, a um beneficiário legítimo da teruma.

Vayikrá (Levítico) 22:9
וְשָׁמְרוּ אֶת מִשְׁמַרְתִּי וְלֹא יִשְׂאוּ עָלָיו חֵטְא וּמֵתוּ בוֹ כִּי יְחַלְּלֻהוּ.
"E guardarão Minha guarda, e não levarão sobre si pecado por causa dela, e morrerão por isso se a profanarem" (Vayikrá 22:9) — este versículo estabelece a gravidade de profanar a teruma através de consumo impróprio, incluindo comê-la em estado de impureza. Precisamente por essa gravidade, quando a teruma se torna impura e já não pode ser consumida, a halachá busca um uso alternativo que ainda a honre como "coisa sagrada" (Vayikrá 22:10, discutido nas mishnayot anteriores) sem violar sua santidade — e a iluminação, um uso que não envolve ingestão, permite que a teruma impura ainda sirva a seu propósito de beneficiar o cohen (e, por extensão, seus dependentes e ambientes de estudo comunitário), evitando tanto o desperdício quanto a profanação.

Por que sinagogas e casas de estudo dispensam permissão explícita do cohen, mas o uso sobre produto comum a exige? A resposta da mishná repousa numa presunção razoável (anan sahadei) sobre o interesse do cohen: sinagogas, casas de estudo e becos escuros são espaços cujo uso beneficia a comunidade em geral, e presume-se que qualquer cohen teria prazer em contribuir seu azeite de queima para tais fins — não sendo necessário obter sua autorização explícita a cada vez. Já a iluminação sobre produto comum em um contexto privado não goza dessa mesma presunção automática de consentimento comunitário, e por isso exige permissão específica. O caso da filha de israelita casada com cohen ilustra como o status de "beneficiária legítima da teruma" se transfere pelo casamento: agora que ela é esposa de cohen, sua própria permissão — e não mais a de seu pai israelita diretamente — é o que legitima o uso continuado do azeite de queima na casa paterna. Por fim, o debate entre os quatro sábios sobre casa de festa versus casa de luto reflete diferentes avaliações de risco: cada opinião pesa de modo distinto o perigo de que o azeite de teruma impura seja descuidadamente movido para um lugar sem cohen presente (transferência inadvertida), equilibrando esse risco contra a limpeza das vestes dos convidados em cada contexto social.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta mishná final em Hilchot Terumot, decidindo o debate final a favor de Rabi Shimon.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:18-19
בְּקָרוֹ שֶׁל כֹּהֵן שֶׁהָיָה עוֹמֵד אֵצֶל בְּקָרוֹ שֶׁל יִשְׂרָאֵל... הֲרֵי זֶה מַדְלִיק עֲלֵיהֶן שֶׁמֶן שְׂרֵפָה שֶׁלֹּא בִּרְשׁוּת הַכֹּהֵן. וְכֵן מַדְלִיקִין שֶׁמֶן שְׂרֵפָה בְּבָתֵּי כְּנֵסִיּוֹת וּבְבָתֵּי מִדְרָשׁוֹת וּבַמְּבוֹאוֹת הָאֲפֵלִים שֶׁלֹּא בִּרְשׁוּת כֹּהֵן... בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּשֵּׂאת לְכֹהֵן וְהִיא לְמוּדָה אֵצֶל אָבִיהָ מַדְלִיק בִּרְשׁוּתָהּ. מֻתָּר לְכֹהֵן לְהַדְלִיק שֶׁמֶן שְׂרֵפָה אֲפִלּוּ בְּבֵית הָאָבֵל אוֹ בְּבֵית הַמִּשְׁתֶּה שֶׁיֵּשׁ שָׁם עִרְבּוּב. וְאֵין חוֹשְׁשִׁין שֶׁמָּא יְסֻפְּקוּ מִמֶּנָּה בְּבֵית הַמִּשְׁתֶּה שֶׁמִּפְּנֵי נִקְיוֹן כְּלֵיהֶם אֵין נוֹגְעִין בּוֹ. וּבְבֵית הָאָבֵל מִפְּנֵי שֶׁאֵין לָהֶם פְּנַאי מִפְּנֵי הָאָבֵל.
"O gado de um cohen que estava próximo ao gado de um israelita... eis que este pode acender sobre eles azeite de queima sem permissão do cohen. E, do mesmo modo, acende-se azeite de queima nas sinagogas, e nas casas de estudo, e nos becos escuros, sem permissão de um cohen... Uma filha de israelita que se casou com um cohen, e ela está acostumada na casa de seu pai, ele acende com sua permissão. É permitido ao cohen acender azeite de queima mesmo na casa de luto ou na casa de festa, onde há mistura de pessoas. E não se teme que dele se sirvam na casa de festa, pois, devido à limpeza de suas vestes, não tocam nele; e na casa de luto, porque não têm tempo livre por causa do luto" (o Rambam decide explicitamente a favor de Rabi Shimon — permitindo o acendimento tanto na casa de festa quanto na casa de luto —, e explica a razão prática por trás dessa permissão ampla: em ambos os contextos sociais, por motivos diferentes, o risco de manuseio indevido do azeite por pessoas presentes é considerado suficientemente baixo).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta última Mishná de Massechet Terumot.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 11:10
שמן שרפה. הוא שמן תרומה שנטמא לפי שהוא אסור באכילה כמו שבארנו פעמי' ודינו שישרף: ואמרו ברשות כהן ענינו במאמרו ומצותו שירשה לנו זה: ורבי יהודה מתיר. להדליקו בבית המשתה לפי שכליהם נקיים... ואסור להדליקו בבית האבל לפי שכליהם מלוכלכין ואינם נקיים ושמא ישתמשו בו בדבר אחר מלבד הדלקה: ורבי יוסי אומר בבית האבל. אין משתמשין בו במאכל ודומה לו מפני כי באבילותם אינם מתעסקין במאכל ולא בזולתו ובבית המשתה מפני שמחתם שמא ישתמשו בו בדבר אחר לבד ההדלקה: ור"מ אוסר. בבית המשתה מפני השמחה כדברי ר' יוסי ואוסר בבית האבל מפני טנוף הכלים כדברי רבי יהודה: ור"ש מתיר. בבית המשתה מפני נקיות הכלים שלהם ובבית האבל מפני אבלותם ודאגת נפשם שאין מתעסקין בשום דבר... והלכה כרבי שמעון:

"Shemen sereifá" é o azeite de teruma que se tornou impuro, e por isso é proibido em consumo, como já explicamos várias vezes, e sua lei é que se queime (entenda-se: seu destino apropriado é ser consumido pela chama da iluminação, e não jogado fora). E o que disseram, "com permissão do cohen", seu sentido é: com sua declaração e seu mandado, que nos autorize isso.

E Rabi Yehudá permite acendê-lo na casa de festa, pois suas vestes estão limpas (e as pessoas evitam tocar em algo que possa sujá-las)... e é proibido acendê-lo na casa de luto, pois suas vestes estão sujas e não estão limpas, e talvez se sirvam dele para outra coisa além de acender.

E Rabi Yossei diz, na casa de luto: não se servem dele para comida, e semelhante, pois em seu luto não se ocupam com comida nem com outra coisa; e na casa de festa, por causa de sua alegria, talvez se sirvam dele para outra coisa além de acender.

E Rabi Meir proíbe: na casa de festa por causa da alegria, como as palavras de Rabi Yossei, e proíbe na casa de luto por causa da sujeira das vestes, como as palavras de Rabi Yehudá (Rabi Meir combina os dois receios, proibindo em ambos os casos).

E Rabi Shimon permite: na casa de festa por causa da limpeza de suas vestes, e na casa de luto por causa de seu luto e da preocupação de sua alma, que não se ocupam com nada (Rabi Shimon combina as duas razões permissivas, uma de cada opinião anterior)... E a halachá é como Rabi Shimon.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 11:10
שֶׁמֶן שְׂרֵפָה. שֶׁמֶן תְּרוּמָה שֶׁנִּטְמֵאת. וְאַמַּאי קָרֵי לֵיהּ שֶׁמֶן שְׂרֵפָה, הוֹאִיל וְלִשְׂרֵפָה עוֹמֵד: בִּרְשׁוּת כֹּהֵן. הַיְנוּ כְּשֶׁיֵּשׁ שָׁם כֹּהֵן, דְּנֵר לְאֶחָד נֵר לְמֵאָה: מַדְלִיק בִּרְשׁוּתָהּ. כְּשֶׁהִיא שָׁם: מַדְלִיקִין בְּבֵית הַמִּשְׁתֶּה. מִתּוֹךְ שֶׁעוֹמְדִים בִּבְגָדִים נְקִיִּים אֵין רְגִילִין לְטַלְטֵל נֵרוֹת שֶׁל שֶׁמֶן מִמְּקוֹמָן... הִלְכָּךְ לֵיכָּא לְמֵיחַשׁ שֶׁמָּא יְטַלְטְלוּ הַנֵּר... אֲבָל בְּבֵית הָאֵבֶל שֶׁלּוֹבְשִׁין בְּגָדִים צוֹאִים חַיְשִׁינַן: בְּבֵית הָאֵבֶל אֲבָל לֹא בְבֵית הַמִּשְׁתֶּה. בְּבֵית הָאֵבֶל מִתּוֹךְ שֶׁלִּבָּן נִשְׁבָּר וְנִכְנָע לֹא חַיְשִׁינַן... אֲבָל בְּבֵית הַמִּשְׁתֶּה שֶׁהֵן שְׂמֵחִים... חַיְשִׁינַן: אוֹסֵר כָּאן וְכָאן. דְּתוֹפֵס סְבָרַת שְׁנֵיהֶן לְחֻמְרָא: ור״ש מתיר כאן וכאן. דתופס סברת שניהם לקולא. והלכה כר״ש:

"Shemen sereifá": azeite de teruma que se tornou impuro. E por que se chama "azeite de queima"? Porque está destinado a ser queimado (seu único uso legítimo restante). "Com permissão do cohen": isto é, quando há ali um cohen, pois "uma vela para um serve para cem" (o custo adicional de deixar a mesma vela acesa para mais pessoas presentes é irrelevante, tornando a permissão de um único cohen suficiente para todo o ambiente).

"Acende com sua permissão": quando ela está presente. "Acende-se na casa de festa": já que estão com roupas limpas, não costumam mover as lamparinas de azeite de seu lugar... por isso não há que temer que movam a lamparina (para um lugar sem cohen); mas na casa de luto, onde se vestem roupas sujas, há que temer.

"Na casa de luto, mas não na casa de festa": na casa de luto, como seu coração está partido e humilhado, não há que temer... mas na casa de festa, onde estão alegres, há que temer.

"Proíbe aqui e ali": pois adota o raciocínio de ambos para o rigor. "E Rabi Shimon permite aqui e ali": pois adota o raciocínio de ambos para a leniência. E a halachá é como Rabi Shimon.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná encerra-se o Perek Yud-Alef, e com ele todo o tratado de Massechet Terumot.
סְלִיק מַסֶּכְתָּא דִּתְרוּמוֹת
Aqui se conclui Massechet Terumot — onze perakim, cento e uma mishnayot, sobre as leis da teruma: quem está apto e quem está desqualificado para separá-la (Perek Alef); as combinações de puro e impuro, de espécie sobre espécie, e do melhor sobre o pior (Perek Bet); a teruma duvidosa, os sócios, a delegação, e a precedência entre bikurim, teruma e dízimos (Perek Guimel); a medida (shiur) da teruma e as leis do medumá (Perakim Dalet e Heh); a restituição — kéren vachômesh — devida por quem come teruma por engano ou deliberadamente, e as dúvidas entre cestos (Perakim Vav e Zayin); a mudança de status de quem come teruma, os perigos à vida, e o princípio de que nenhuma vida humana pode ser entregue para salvar outras (Perek Chet); a semeadura da teruma e os gidulei teruma (Perek Tet); as leis de mistura entre teruma e chulin — noten taam (Perek Yud); e, neste último capítulo, o processamento da teruma — o que se pode e não se pode fazer com frutas, sementes, celeiros e barris — e as leis do azeite de queima que encerram o tratado (Perek Yud-Alef). Como Peá, Demai, Kilayim e Sheviit, Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli, e por isso todo o seu perush, ao longo dos onze perakim, apoiou-se no Rambam (Perush HaMishná e Mishné Torá) e no Bartenura.