Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud-Alef · Mishná 5

"Sementes de teruma, quando as reúne"

גַּרְעִינֵי תְרוּמָה, בִּזְמַן שֶׁהוּא מְכַנְּסָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O critério da intenção do dono: sementes e ossos de teruma proibidos apenas enquanto reunidos com propósito, mas permitidos se descartados; o farelo permitido, mas o farelo de trigo novo proibido; e o limite de quanto se pode extrair como farinha refinada sem incorrer em perda da teruma

Sementes de teruma (caroços encontrados dentro de frutos de teruma consumidos pelo cohen), quando ele as reúne (guardando-as deliberadamente, com intenção de uso — por exemplo, para chupar sua umidade residual), são proibidas (aos estranhos, pois ainda mantêm status de teruma). Mas, se as descartou, são permitidas (uma vez que o cohen as jogou fora, demonstrando que já não as considera proveitosas, elas perdem seu status de teruma e podem ser livremente manuseadas por qualquer um). E, do mesmo modo, ossos de coisas consagradas (restos ósseos de carne de sacrifícios, que ainda retêm alguma carne ou tutano comestível), quando ele os reúne, são proibidos, e se os descartou, são permitidos. O farelo grosso (mursan — a camada mais externa e grossa da casca do grão, moída junto com a farinha) é permitido (aos estranhos, pois não é considerado alimento humano próprio). O farelo fino de trigo novo (subin — camada intermediária entre a casca grossa e a farinha, que no trigo recém-colhido ainda retém partículas de farinha úmida) é proibido, e o de trigo velho é permitido (pois, no trigo mais seco e antigo, o farelo fino já não contém farinha significativa aderida a ele). E se procede com a teruma (quanto a esse descarte de farelo) do mesmo modo que se procede com o chulin (não há necessidade de cuidado adicional além do que normalmente se toma com produto comum). Aquele que peneira (a farinha, extraindo dela a parte mais fina e refinada) um cav ou dois cavim por seá (uma medida generosa de farinha extra-refinada retirada de uma quantidade padrão de trigo), não deve destruir o restante (o farelo mais grosso que sobra da peneiração excessiva, pois ainda contém partículas comestíveis significativas), mas deve deixá-lo em lugar reservado (guardando-o com cuidado, em vez de descartá-lo como lixo, pois tecnicamente ainda é apto para consumo e não pode ser tratado como perda da teruma).

גַּרְעִינֵי תְרוּמָה, בִּזְמַן שֶׁהוּא מְכַנְּסָן, אֲסוּרוֹת, וְאִם הִשְׁלִיכָן, מֻתָּרוֹת. וְכֵן עַצְמוֹת הַקָּדָשִׁים, בִּזְמַן שֶׁהוּא מְכַנְּסָן, אֲסוּרִין, וְאִם הִשְׁלִיכָן, מֻתָּרִין. הַמֻּרְסָן מֻתָּר. סֻבִּין שֶׁל חֲדָשׁוֹת אֲסוּרוֹת, וְשֶׁל יְשָׁנוֹת מֻתָּרוֹת. וְנוֹהֵג בַּתְּרוּמָה כְּדֶרֶךְ שֶׁהוּא נוֹהֵג בַּחֻלִּין. הַמְסַלֵּת קַב אוֹ קַבַּיִם לִסְאָה, לֹא יְאַבֵּד אֶת הַשְּׁאָר, אֶלָּא יַנִּיחֶנּוּ בְּמָקוֹם הַמֻּצְנָע:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná ilustra dois princípios complementares derivados da proibição bíblica da teruma: a subjetividade da intenção do dono (machshavá) na determinação de quando um resto ainda é "alimento", e a proibição de destruir (ibbud) a teruma que retém valor comestível real.

Vayikrá (Levítico) 22:10
וְכָל זָר לֹא יֹאכַל קֹדֶשׁ, תּוֹשַׁב כֹּהֵן וְשָׂכִיר לֹא יֹאכַל קֹדֶשׁ.
"E nenhum estranho comerá coisa sagrada" (Vayikrá 22:10) — a proibição da teruma persiste enquanto o objeto em questão for considerado, na prática e na intenção do seu possuidor, um alimento potencial. Quando o próprio cohen o descarta como refugo — sementes jogadas fora, ossos sem mais préstimo —, ele deixa de ser tratado como "coisa sagrada" no sentido do versículo, pois a ação de descartar é, ela mesma, uma declaração de que aquele item já não serve à função de alimento que a Torá protege.

Por que a intenção do dono determina o status da semente ou do osso? Este é um dos exemplos mais claros do princípio de machshavá (intenção subjetiva) na halachá de teruma: o mesmo objeto físico — um caroço de tâmara, um osso com tutano — pode ser proibido ou permitido dependendo unicamente de como seu possuidor o trata. Enquanto reunido e guardado (mechannes), o cohen está, por essa própria ação, declarando que ainda o considera de algum valor (seja para sugar sua umidade, seja para outro uso), e por isso o objeto retém seu status pleno de teruma. Uma vez descartado (hishlichan), essa declaração se inverte: o cohen está afirmando que já não vê valor ali, e a halachá aceita esse julgamento, liberando o item da proibição. Este mesmo princípio se estende, no fim da mishná, ao farelo produzido pela peneiração excessiva da farinha: mesmo que o objetivo do dono fosse produzir apenas farinha extra-fina, o farelo resultante — se ainda contém partículas comestíveis — não pode ser tratado como refugo descartável; ele deve ser guardado com cuidado, pois a proibição de destruir teruma (ibbud) prevalece sobre a conveniência de simplesmente jogá-lo fora.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lei em Hilchot Terumot, detalhando os critérios de comestibilidade que determinam a proibição das sementes e do farelo.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:11-12
גַּרְעִינֵי אֶתְרוֹג מֻתָּרִים. גַּרְעִינֵי זֵיתִים וּתְמָרִים וְחָרוּבִין אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא כְּנָסָן הַכֹּהֵן הֲרֵי אֵלּוּ אֲסוּרִין לְזָרִים. וּשְׁאָר הַגַּרְעִינִין בִּזְמַן שֶׁכְּנָסָן וְיֵשׁ בָּהֶן לַחְלוּחִית לִמְצֹץ אוֹתָן אֲסוּרִין לְזָר וְאִם הִשְׁלִיכָן מֻתָּרוֹת. הַסֻּבִּין שֶׁל חִטִּים חֲדָשׁוֹת אֲסוּרִין מִפְּנֵי שֶׁהוּא רָאוּי לְמַאֲכַל אָדָם. וְשֶׁל יְשָׁנוֹת מֻתָּר.
"Sementes de cidra são permitidas. Sementes de azeitonas, tâmaras e alfarrobas, ainda que o cohen não as tenha reunido, eis que estas são proibidas aos estranhos. E as demais sementes, quando ele as reuniu e há nelas umidade para sugá-las, são proibidas ao estranho, e se as descartou, são permitidas. O farelo fino de trigo novo é proibido, porque é próprio para alimento humano. E o de trigo velho é permitido" (o Rambam nuança consideravelmente a regra da mishná: nem todas as sementes seguem o critério de "reunir ou descartar" — sementes de cidra são sempre permitidas, por não terem qualquer valor comestível; sementes de azeitona, tâmara e alfarroba são sempre proibidas, mesmo sem terem sido reunidas, por serem intrinsecamente valiosas para sugar; e apenas as demais sementes — como as de maçã ou pera — seguem o critério intermediário de intenção do dono estabelecido pela mishná).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 11:5
גרעיגים ידועין והן אותן שבתוך הפרי ואלו הגרעינים שאמרו שהן אסורין עד שישליכם הכהן הוא על שני דרכים האחד שתהיה הגרעינה ראויה לאכילה כמו גרעיני החבושין והפרישים או שתהיה גרעינה שישאר בה לחלוחית שתהיה ראויה למציצה כגון גרעינת התמרה כשהיא לחה אבל הגרעינים האחרים מותרין באכילה לזרים כגון גרעיני החרובין אע"פ שלא השליכם הכהן: ומורסן הוא העולה מן הסובין: וסובין ידוע: ואמרם ונוהג בתרומה כדרך שהוא נוהג בחולין ענינו שמותר לו שיכבור את התרומה וישליך מן הסובין מה שאינו ראוי לאכילה כמו שהוא עושה בחולין: המסלת. נגזר מן סלת וענינו שאם לקח סאה חטה והוציא ממנה קב או קבים סלת שלא ישליך השאר לפי שהוא ראוי לאכילה ואסור לאבד התרומה אבל מניחין השאר במקום מוצנע:

Sementes são conhecidas, e são aquelas que ficam dentro do fruto. E estas sementes de que se disse que são proibidas até que o cohen as descarte se enquadram em dois casos: o primeiro, que a semente seja própria para consumo, como as sementes de marmelo e de pera; ou que a semente ainda retenha umidade própria para ser sugada, como o caroço da tâmara quando está úmido. Mas as demais sementes são permitidas em consumo aos estranhos, como as sementes de alfarroba, ainda que o cohen não as tenha descartado (o Rambam aqui explica a lógica geral por trás da distinção que depois codifica de modo mais técnico no Mishné Torá).

E "mursan" é o que resulta do farelo (a camada mais externa, mais grosseira). E "subin" é conhecido (a camada intermediária). E o que disseram, "e se procede com a teruma do mesmo modo que se procede com o chulin", seu sentido é que é permitido peneirar a teruma e descartar do farelo o que não é próprio para consumo, do mesmo modo que se faz com o chulin.

"Aquele que peneira": derivado de "solet" (farinha fina), e seu sentido é que, se tomou uma seá de trigo e extraiu dela um cav ou dois cavim de farinha fina, não deve descartar o restante, pois ainda é próprio para consumo, e é proibido perder a teruma; mas deixa-se o restante em lugar reservado.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 11:5
גַּרְעִינֵי תְרוּמָה. גַּרְעִינִים שֶׁנִּמְצְאוּ בְּתוֹךְ פֵּרוֹת שֶׁל תְּרוּמָה כְּשֶׁהַכֹּהֵן אוֹכְלָם: בִּזְמַן שֶׁהַכֹּהֵן מַכְנִיסָן. וְדַעְתּוֹ עֲלֵיהֶם וְלֹא הִפְקִירָן אֲסוּרִים. וּכְגוֹן שֶׁהֵן רַכִּין וּרְאוּיִן לַאֲכִילָה... אֲבָל אֵינָם רְאוּיִם כְּלָל, אֲפִלּוּ הַכֹּהֵן מַכְנִיסָן הֲרֵי אֵלּוּ מֻתָּרִים: הַמֻּרְסָן. שֶׁל תְּרוּמָה, וְהֵן סֻבִּין הַגַּסִּין, מֻתָּר לְזָרִים: סֻבִּין. שֶׁל חִטִּין חֲדָשׁוֹת שֶׁל תְּרוּמָה אֲסוּרִים לְזָרִים, לְפִי שֶׁהַחֲדָשׁוֹת הֵן לַחוֹת וְאֵינָם נִטְחָנִים הֵיטֵב, וְנִשְׁאַר קֶמַח הַרְבֵּה מְעֹרָב בַּסֻּבִּין: וְשֶׁל יְשָׁנוֹת. שֶׁל חִטִּין יְשָׁנוֹת שֶׁהֵן יְבֵשׁוֹת וְנִטְחָנוֹת הֵיטֵב, מֻתָּרוֹת: הַמְסַלֵּת. שֶׁקּוֹלֵט אֶת הַסֹּלֶת כְּדֵי לַעֲשׂוֹת פַּת נְקִיָּה בְּיוֹתֵר, וְלֹא בֵרֵר מִסְּאָה אַחַת שֶׁהִיא שִׁשָּׁה קַבִּין אֶלָּא קַב אוֹ קַבַּיִם: לֹא יַשְׁלִיךְ אֶת הַשְּׁאָר. שֶׁהֲרֵי הוּא רָאוּי לַאֲכִילָה, וְנִמְצָא מְאַבֵּד אֶת הַתְּרוּמָה:

"Sementes de teruma": sementes que se encontram dentro de frutos de teruma quando o cohen os come. "Quando o cohen as reúne": e sua intenção está voltada a elas, e não as declarou sem dono, são proibidas — e trata-se de um caso em que são macias e próprias para consumo... Mas, se não são próprias de forma alguma, ainda que o cohen as reúna, eis que estas são permitidas (o Bartenura esclarece que a regra da "reunião" só se aplica a sementes intrinsecamente comestíveis — para sementes totalmente impróprias, nem mesmo a intenção do cohen de guardá-las lhes confere proibição).

"O mursan": de teruma, sendo o farelo grosso, é permitido aos estranhos. "Farelo fino": de trigo novo de teruma são proibidos aos estranhos, pois os grãos novos são úmidos e não se moem bem, restando muita farinha misturada ao farelo. "E de trigo velho": de trigos velhos, que são secos e se moem bem, são permitidos.

"Aquele que peneira": que extrai a farinha fina para fazer pão especialmente refinado, e não separou de uma seá inteira (que são seis cavim) senão um cav ou dois cavim. "Não deve descartar o restante": pois ainda é próprio para consumo, e assim se estaria perdendo a teruma.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.