Uma seá de teruma impura que cai em cem seá de teruma pura: Bet Shamai proíbe, e Bet Hilel permite (o debate diz respeito a se a proporção padrão de cem e mais se aplica também quando ambos os lados da mistura são teruma — uma impura e outra pura — e não apenas quando um lado é produto comum). Disse Bet Hilel a Bet Shamai: já que a pura é proibida aos que não são cohanim e a impura é proibida aos cohanim, assim como a pura se eleva, também a impura deveria se elevar (Bet Hilel argumenta por uma analogia lógica: se o bittul funciona para tornar permitida uma teruma pura que caiu em produto comum — apesar de também ser proibida a um grupo, os não-cohanim —, o mesmo princípio deveria valer para a teruma impura, que é proibida a outro grupo, os cohanim). Disseram-lhe Bet Shamai: não! Se o produto comum leve, que é permitido aos que não são cohanim, eleva a pura, elevaria a teruma grave, que é proibida aos que não são cohanim, a impura? (Bet Shamai rejeita a analogia: o produto comum tem um status "leve" — é permitido de forma ampla a quem quer que seja não-cohen —, e é justamente essa leveza que lhe permite absorver e neutralizar a teruma pura; já a teruma pura, sendo ela mesma "grave" — proibida à maioria das pessoas —, não teria essa mesma capacidade de neutralizar a teruma impura). Depois que concordaram (Bet Shamai, ao final, aceitou a posição de Bet Hilel, um caso raro de reversão), Rabi Eliezer diz: separa-se e queima-se (mantendo sua posição rigorosa já vista nas mishnayot anteriores, de que a seá retirada continua sendo tratada como a teruma impura original). Mas os sábios dizem: perde-se por ser minoria (os sábios vão além até de Bet Hilel: não é necessário sequer separar formalmente uma seá para queimar — a teruma impura simplesmente se anula, sem exigir nenhuma ação adicional, pois não há aqui a preocupação de roubo à tribo sacerdotal que existe quando produto comum se mistura com teruma).
Esta mishná traz um caso raro de reversão de opinião entre as escolas de Bet Shamai e Bet Hilel, e amplia a discussão do bittul para o caso em que ambos os lados da mistura são teruma.
Por que Bet Shamai, que inicialmente proibia, acabou concordando com Bet Hilel — e por que, mesmo após esse acordo, Rabi Eliezer e os sábios ainda discordam sobre o tratamento da seá retirada? O argumento de Bet Hilel repousa numa lógica de "quanto mais": se mesmo o produto comum — que é permitido de forma ampla a qualquer pessoa que não seja cohen, e por isso teria um status mais "fraco" — já é suficiente para elevar e neutralizar a teruma pura (que é proibida aos não-cohanim), por que a própria teruma, mais "forte" nesse sentido, não conseguiria fazer o mesmo à teruma impura (que é proibida apenas aos cohanim)? Bet Shamai inicialmente rejeitou essa lógica invertendo os termos da comparação, mas ao final reconheceu a força do argumento e concordou que a teruma impura se eleva em teruma pura, tal como a pura se eleva em produto comum. A disputa remanescente entre Rabi Eliezer e os sábios repete o padrão já visto nas mishnayot anteriores: Rabi Eliezer, fiel à sua posição de que "a seá que caiu é a seá que se eleva", ainda exige que a seá retirada seja queimada como teruma impura; os sábios, indo ainda além ao afirmar que a teruma impura simplesmente "se perde por ser minoria" sem exigir sequer a separação formal de uma seá — pois, ao contrário do caso de produto comum, aqui não há preocupação de prejudicar financeiramente a tribo sacerdotal, já que tanto a teruma que caiu quanto a teruma em que caiu pertencem igualmente aos cohanim.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no capítulo dedicado ao bittul de teruma impura misturada em teruma pura — decidindo como os sábios.
O Rambam decide como os sábios contra Rabi Eliezer: não é necessário separar e queimar uma seá — a teruma impura simplesmente se anula na maioria de teruma pura, e toda a mistura pode ser comida em pureza pelos cohanim, sem qualquer restrição adicional.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Depois que concordaram": seu sentido é: depois que Bet Shamai concordou com Bet Hilel que se eleva. E assim se explica na guemará que não se encontra em nenhum outro lugar, jamais, que Bet Shamai retorne às palavras de Bet Hilel, senão aqui. E quando concordaram que a seá que caiu se eleva, disse Rabi Eliezer: separa-se e queima-se, conforme a lei de teruma impura, seguindo seu princípio fundamental de que "a seá que caiu é a seá que se eleva", e para ser mais rigoroso. E disseram os sábios: anula-se por ser minoria, e é permitido comer tudo, e não é necessário separar. E a lei segue os sábios.
"Bet Shamai proíbe": pois entendem que teruma impura que se mistura com pura não se eleva na proporção de um para cem, conforme se explica o motivo adiante.
"Depois que concordaram": Bet Shamai com as palavras de Bet Hilel — porque Bet Hilel lhes fez uma pergunta a Bet Shamai: e se a teruma pura, que acarreta morte para os que não são cohanim caso a comam, se eleva, a impura, que acarreta apenas transgressão de um preceito positivo para o cohen, não se elevaria com maior razão? E Bet Shamai voltou a decidir conforme as palavras de Bet Hilel.
"Separa-se e queima-se": e o restante é permitido.
"Perde-se por ser minoria": já que tudo é teruma e não há aqui roubo à tribo sacerdotal, nem mesmo é necessário separar. E a lei segue os sábios.