Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Vav · Mishná 2

"Filha de israelita que comeu teruma e depois se casou com um cohen"

בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁאָכְלָה תְרוּמָה וְאַחַר כָּךְ נִשֵּׂאת לְכֹהֵן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Filha de israelita que comeu teruma por engano e depois se casou com um cohen: se comeu teruma que o cohen ainda não havia adquirido, paga o principal e o quinto a si mesma, pois já se tornou apta a comer teruma; mas se comeu teruma que já pertencia a um cohen, paga o principal ao dono original e o quinto a si mesma, pois a regra geral é que o principal vai ao dono e o quinto pode ir a quem quiser

Filha de israelita que comeu teruma (por engano, tendo ela mesma separado a teruma sem ainda entregá-la ao cohen, ou de outra forma tendo acesso a ela antes de o cohen adquiri-la) e depois se casou com um cohen (tornando-se, pelo casamento, apta a comer teruma como membro da casa sacerdotal): se comeu teruma que o cohen ainda não havia adquirido (ou seja, que ainda não pertencia a nenhum cohen especificamente, permanecendo disponível), paga o principal e o quinto a si mesma (pois, sendo agora ela mesma uma pessoa apta a consumir teruma, caso aquela mesma teruma que comeu ainda existisse fisicamente, ela teria o direito de comê-la sem dever nada a ninguém; portanto os pagamentos que faz — tornando-se eles próprios teruma — pertencem a ela mesma, podendo ela consumi-los). E se comeu teruma que já pertencia a um cohen (que já a havia adquirido especificamente, tornando-se dono dela antes de ela consumi-la), paga o principal ao dono (àquele cohen específico ou a seus herdeiros, pois seu ato configurou uma espécie de furto contra um proprietário determinado, e o principal, tornando-se teruma, deve ir para quem tinha direito a ela), e o quinto a si mesma (pois nisso segue-se a regra geral). Porque disseram: quem come teruma por engano (em geral, não sendo ele mesmo apto a comer teruma), paga o principal ao dono, e o quinto a quem quiser (pois o quinto é uma penalidade adicional imposta ao transgressor, e não uma simples restituição do que foi tomado; por isso a Torá não especifica a quem ele deve ir, e o próprio transgressor pode escolher a qual cohen entregá-lo, incluindo, no caso da filha de israelita já casada com cohen, a si mesma).

בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁאָכְלָה תְרוּמָה וְאַחַר כָּךְ נִשֵּׂאת לְכֹהֵן, אִם תְּרוּמָה שֶׁלֹּא זָכָה בָהּ כֹּהֵן אָכְלָה, מְשַׁלֶּמֶת קֶרֶן וְחֹמֶשׁ לְעַצְמָהּ. וְאִם תְּרוּמָה שֶׁזָּכָה בָהּ כֹּהֵן אָכְלָה, מְשַׁלֶּמֶת קֶרֶן לַבְּעָלִים, וְחֹמֶשׁ לְעַצְמָהּ, מִפְּנֵי שֶׁאָמְרוּ, הָאוֹכֵל תְּרוּמָה שׁוֹגֵג, מְשַׁלֵּם קֶרֶן לַבְּעָלִים, וְחֹמֶשׁ לְכָל מִי שֶׁיִּרְצֶה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná aplica o princípio geral do kéren e do chômesh (Vayikrá 22:14) ao caso específico da filha de israelita que se torna, pelo casamento, apta a comer teruma como membro da casa sacerdotal.

Vayikrá (Levítico) 22:11-13
וְכֹהֵן כִּי־יִקְנֶה נֶפֶשׁ קִנְיַן כַּסְפּוֹ הוּא יֹאכַל בּוֹ... וּבַת כֹּהֵן כִּי תִהְיֶה לְאִישׁ זָר הִוא בִּתְרוּמַת הַקֳּדָשִׁים לֹא תֹאכֵל.
"E o cohen que adquirir uma pessoa, aquisição de seu dinheiro, esta comerá dele... e a filha de cohen que se casar com homem estranho, ela não comerá da oferta das coisas sagradas" (Vayikrá 22:11,13) — estes versículos estabelecem o princípio de que a aptidão para comer teruma depende do vínculo com a casa sacerdotal: quem se casa com um cohen adquire o direito, e quem deixa essa casa o perde. É exatamente o caso inverso — filha de israelita que se casa com cohen — que gera a aptidão nova examinada por esta mishná, determinando se ela mesma pode reter os pagamentos que fez por seu erro anterior.

Por que a filha de israelita, agora casada com um cohen, pode reter para si os pagamentos de sua própria restituição em certos casos, mas não em outros? A distinção da mishná gira em torno de quem tinha, no momento do consumo indevido, um direito de propriedade concreto sobre aquela teruma específica. Quando a teruma ainda não pertencia a nenhum cohen determinado — apenas havia sido separada, mas ainda não "adquirida" por um cohen específico —, o ato da mulher não prejudicou ninguém em particular; ela apenas consumiu algo que, hipoteticamente, poderia ter sido comido por qualquer cohen, incluindo, futuramente, ela mesma. Por isso, quando ela se torna apta a comer teruma pelo casamento, os pagamentos que fizer — que se tornam teruma nova — podem legitimamente permanecer com ela, pois ela é agora uma consumidora legítima de teruma. Mas quando a teruma já pertencia a um cohen específico que a havia adquirido, o consumo da mulher constituiu uma privação concreta contra aquele indivíduo — semelhante a um furto —, e por isso o principal (kéren) deve necessariamente reverter a ele ou a seus herdeiros, como restituição direta. Já o quinto (chômesh), por ser uma penalidade adicional imposta pela Torá ao transgressor e não uma simples restituição de perda alheia, não tem destinatário fixo determinado pela lei — podendo ir a qualquer cohen, incluindo a própria mulher, agora que ela mesma é elegível.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no capítulo dedicado a quem recebe o principal e o quinto na restituição por consumo indevido de teruma.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 10:2
הָאוֹכֵל תְּרוּמָה בְּשׁוֹגֵג מְשַׁלֵּם קֶרֶן לַבְּעָלִים וְחֹמֶשׁ לְכָל מִי שֶׁיִּרְצֶה מִן הַכֹּהֲנִים. בַּת יִשְׂרָאֵל שֶׁאָכְלָה תְּרוּמָה שֶׁלֹּא זָכָה בָּהּ כֹּהֵן וְאַחַר כָּךְ נִשֵּׂאת לְכֹהֵן מְשַׁלֶּמֶת קֶרֶן וָחֹמֶשׁ לְעַצְמָהּ. וְאִם תְּרוּמָה שֶׁזָּכָה בָּהּ כֹּהֵן אָכְלָה מְשַׁלֶּמֶת קֶרֶן לַבְּעָלִים וְחֹמֶשׁ לְעַצְמָהּ.
Quem come teruma por engano paga o principal ao dono, e o quinto a quem quiser dos cohanim. Filha de israelita que comeu teruma que o cohen ainda não havia adquirido, e depois se casou com um cohen, paga o principal e o quinto a si mesma. E se comeu teruma que já pertencia a um cohen, paga o principal ao dono e o quinto a si mesma.

O Rambam reproduz a regra da mishná com fidelidade quase literal, estabelecendo que o princípio geral — o principal vai sempre ao dono, o quinto a qualquer cohen escolhido — se aplica também no caso especial da mulher que se torna apta pelo casamento, permitindo-lhe reter o quinto para si mesma, e o principal também, quando não havia dono específico prejudicado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 6:2
כבר ידעת כי אשת כהן תאכל בתרומה לפי שהיא קנין כספו וה' יתברך אמר וכהן כי יקנה נפש קנין כספו הוא יאכל בו (ויקרא כ״ב:י״א) והמאמר כולו מבואר ואינו צריך באור:

Já sabes que a esposa de um cohen come teruma, porque ela é sua aquisição, e o Bendito disse: "e o cohen que adquirir uma pessoa, aquisição de seu dinheiro, esta comerá dele" (Vayikrá 22:11). E o restante desta mishná é claro e não requer explicação.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 6:2
בַּת יִשְׂרָאֵל. שֶׁהִפְרִישָׁה תְּרוּמָה וְלֹא נָתְנָה אוֹתָהּ לַכֹּהֵן וַאֲכָלָתָהּ שׁוֹגֵג: וְאַחַר כָּךְ נִשֵּׂאת לַכֹּהֵן. וַהֲרֵי הִיא רְאוּיָה לֶאֱכֹל בִּתְרוּמָה, דְּאֵשֶׁת כֹּהֵן אוֹכֶלֶת בִּתְרוּמָה: מְשַׁלֶּמֶת קֶרֶן וְחֹמֶשׁ לְעַצְמָהּ. שֶׁהֲרֵי אִם הָיְתָה אוֹתָהּ תְּרוּמָה שֶׁאָכְלָה עַכְשָׁיו בְּעַיִן לֹא הָיְתָה חַיֶּבֶת לִתְּנָהּ לַכֹּהֵן, דְּהִיא נַעֲשֵׂית כֹּהֶנֶת בְּנִשּׂוּאֶיהָ, הִלְכָּךְ עַתָּה נַמִּי הַתַּשְׁלוּמִים הֵן שֶׁלָּהּ: מְשַׁלֶּמֶת קֶרֶן לַבְּעָלִים. כְּדִין גּוֹזֵל חֲבֵרוֹ, אֲבָל הַחֹמֶשׁ תְּעַכֵּב לְעַצְמָהּ:

"Filha de israelita": que separou a teruma e não a entregou ao cohen, e a comeu por engano.

"E depois se casou com o cohen": e eis que ela agora é apta a comer teruma, pois esposa de cohen come teruma.

"Paga o principal e o quinto a si mesma": pois, se aquela teruma que comeu agora estivesse ainda intacta, ela não seria obrigada a entregá-la ao cohen, já que se tornou cohenet pelo seu casamento; portanto, agora também os pagamentos são seus.

"Paga o principal ao dono": conforme a lei de quem furta o próximo, mas retém o quinto para si mesma.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.