Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Chet · Mishná 1

"A mulher que estava comendo teruma"

הָאִשָּׁה שֶׁהָיְתָה אוֹכֶלֶת בִּתְרוּמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre-se o Perek Chet: a mulher, o servo, ou o cohen que estava comendo teruma legitimamente e, no meio da refeição, seu status muda — o marido morre ou a divorcia; o senhor do servo morre, o vende a um israelita, o presenteia ou o liberta; ou se descobre que o cohen é filho de divorciada ou de chalutzá — debate entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre a restituição do quinto, sobre a validade das oferendas já sacrificadas, e sobre o cohen com mácula física

A mulher (filha de israelita casada com um cohen, apta a comer teruma por causa do casamento) que estava comendo teruma (legitimamente, como esposa de cohen), vieram e lhe disseram: teu marido morreu, ou te divorciou (e, retroativamente ao momento da notícia, ela deixa de ter o direito de comer teruma — mas o que já comeu antes de saber, comeu licitamente). E, igualmente, o servo (de um cohen) que estava comendo teruma (pois o servo cananeu de um cohen come teruma por direito próprio de aquisição), e vieram e lhe disseram: teu senhor morreu, ou te vendeu a um israelita, ou te deu de presente (a um israelita), ou te libertou (passa a não poder mais comer teruma a partir do momento da notícia). E, igualmente, o cohen que estava comendo teruma (supondo-se apto), e se soube que ele é filho de divorciada ou de chalutzá (descendência que o desqualifica retroativamente do sacerdócio) — Rabi Eliezer obriga ao principal e ao quinto (sobre tudo o que foi comido, mesmo antes de se saber, por considerar que a proibição já existia objetivamente desde o nascimento), e Rabi Yehoshua isenta (considerando que, enquanto ele agiu de boa-fé sem saber de sua condição, não há obrigação de restituir com o acréscimo do quinto, reservado ao consumo consciente e culposo). Se ele estava de pé, oferecendo sobre o altar (realizando o serviço sacerdotal, supondo-se apto), e se soube que é filho de divorciada ou de chalutzá — Rabi Eliezer diz: todos os sacrifícios que ele ofereceu sobre o altar são inválidos (retroativamente, por ele nunca ter sido de fato apto). E Rabi Yehoshua valida (os serviços já realizados, mantendo a mesma lenidade do caso anterior). Se se soube que ele tem uma mácula física, seu serviço é inválido (mesmo segundo Rabi Yehoshua, pois a mácula física é uma desqualificação evidente e objetiva, diferente da genealogia oculta).

הָאִשָּׁה שֶׁהָיְתָה אוֹכֶלֶת בִּתְרוּמָה, בָּאוּ וְאָמְרוּ לָהּ, מֵת בַּעְלִיךְ אוֹ גֵרְשֵׁךְ, וְכֵן הָעֶבֶד שֶׁהָיָה אוֹכֵל בִּתְרוּמָה, וּבָאוּ וְאָמְרוּ לוֹ, מֵת רַבָּךְ, אוֹ מְכָרָךְ לְיִשְׂרָאֵל, אוֹ נְתָנָךְ בְּמַתָּנָה, אוֹ עֲשָׂאָךְ בֶּן חוֹרִין. וְכֵן כֹּהֵן שֶׁהָיָה אוֹכֵל בִּתְרוּמָה, וְנוֹדַע שֶׁהוּא בֶן גְּרוּשָׁה אוֹ בֶן חֲלוּצָה, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר מְחַיֵּב קֶרֶן וְחֹמֶשׁ, וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ פּוֹטֵר. הָיָה עוֹמֵד וּמַקְרִיב עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, וְנוֹדַע שֶׁהוּא בֶן גְּרוּשָׁה אוֹ בֶן חֲלוּצָה, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, כָּל הַקָּרְבָּנוֹת שֶׁהִקְרִיב עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ, פְּסוּלִים. וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ מַכְשִׁיר. נוֹדַע שֶׁהוּא בַעַל מוּם, עֲבוֹדָתוֹ פְּסוּלָה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná abre o Perek Chet com o tema da mudança de status de quem come teruma, e do cohen desqualificado por genealogia, cuja base está na proibição bíblica de "estranhos" comerem coisas sagradas.

Vayikrá (Levítico) 22:12-13
וּבַת־כֹּהֵן כִּי תִהְיֶה לְאִישׁ זָר, הִוא בִּתְרוּמַת הַקֳּדָשִׁים לֹא תֹאכֵל. וּבַת־כֹּהֵן כִּי תִהְיֶה אַלְמָנָה וּגְרוּשָׁה וְזֶרַע אֵין לָהּ, וְשָׁבָה אֶל־בֵּית אָבִיהָ כִּנְעוּרֶיהָ, מִלֶּחֶם אָבִיהָ תֹּאכֵל, וְכָל־זָר לֹא־יֹאכַל בּוֹ.
"E a filha de um cohen, se se tornar de um homem estranho, ela da oferenda das coisas sagradas não comerá. E a filha de um cohen, se ficar viúva ou divorciada, e não tiver descendência, e voltar à casa de seu pai como em sua juventude, do pão de seu pai comerá; mas nenhum estranho comerá dele" (Vayikrá 22:12-13) — o versículo estabelece o princípio de que o direito de comer teruma decorre diretamente do vínculo com a casa sacerdotal, e que esse direito se extingue ou se restabelece conforme a mudança desse vínculo. A mesma lógica aplica-se, por extensão, ao servo do cohen (que come teruma como parte da "casa" do cohen, conforme Vayikrá 22:11) e ao próprio cohen cuja aptidão genealógica é posta em dúvida.

Por que a mudança de status interrompe o direito de comer teruma apenas a partir do momento em que se sabe dela, e por que o debate entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua gira em torno da consciência da transgressão? A Torá vincula o direito de comer teruma à condição atual da pessoa — esposa de cohen, servo de cohen, ou o próprio cohen apto. Quando essa condição muda (morte, divórcio, venda, alforria, ou descoberta de desqualificação genealógica), o direito cessa a partir daquele momento. A questão que divide Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua é retroativa: o que foi comido antes de se saber da mudança de status — no caso da mulher e do servo, cuja condição efetivamente mudou naquele momento anterior (o marido já havia morrido, o senhor já havia vendido); e no caso do cohen filho de divorciada ou chalutzá, cuja desqualificação já existia objetivamente desde o nascimento, apenas desconhecida. Rabi Eliezer, ao exigir o principal e o quinto também nesses casos, entende que a proibição objetiva basta para gerar a obrigação de restituição, independentemente do conhecimento subjetivo. Rabi Yehoshua, ao isentar, entende que a obrigação do quinto (acréscimo de vinte por cento) é uma penalidade que pressupõe conhecimento da transgressão no momento em que ela ocorre — e, sem esse conhecimento, o consumo é tratado como inteiramente inocente, sem qualquer restituição adicional além do reconhecimento de que o produto era teruma (a Guemará, aliás, limita a isenção de Rabi Yehoshua ao caso específico de teruma de chametz consumida na véspera de Pêssach, quando a urgência da hora justificava presumir a boa-fé).

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam trata, no Perush HaMishná, o fundamento da posição vencedora de Rabi Yehoshua sobre a mudança de status e a mácula física.

O Rambam não dedica, dentro de Hilchot Terumot, uma halachá isolada especificamente a este caso combinado (mulher, servo e cohen que mudam de status durante a refeição) — a matéria pertence sobretudo às leis de aptidão sacerdotal e de restituição já codificadas de modo geral em outros capítulos de Hilchot Terumot (sobre quem come teruma e a obrigação do quinto). Registra-se aqui, honestamente, que não há uma halachá dedicada a este caso preciso; o Rambam, no entanto, no seu Perush HaMishná, já explicita o fundamento textual da posição vencedora — de que a isenção de Rabi Yehoshua se aplica especificamente à teruma de chametz consumida na véspera de Pêssach, quando a urgência da hora (הַשָּׁעָה דְּחוּקָה) justifica a lenidade, e que a validade da avodá do cohen desqualificado por genealogia, mas ainda não descoberto, deriva do versículo "Bendito, Eterno, seja o seu vigor, e a obra de suas mãos aceites" (Devarim 33:11), aplicado até ao chalal (profano por genealogia) enquanto sua condição não é conhecida — mas não ao cohen com mácula física, cuja invalidez é objetiva e não depende de conhecimento, por força do princípio de que o pacto sacerdotal requer o corpo "completo" (Bemidbar 25:12, "et beriti shalom").

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que abre o Perek Chet.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 8:1
מבואר זה כי זו האשה בת ישראל נשואה לכהן ואמרו בעבד מת רבך הוא שיניח יורשים שלא יאכילוהו תרומה כגון שהניח בת נשואה לישראל או הניח בנים שיהיו חללים ומאמר ר' יהושע שהוא פוטר לא נתקיים אלא בתרומת חמץ ערב פסח שזמנו בהול ענינו שהשעה דחוקה מאד ואמר השם יתברך בכהנים (דברים ל״ג:י״א) ברך ה' חילו ופועל ידיו תרצה ואמרו אפילו חולין שבו פועל ידיו תרצה ולפיכך חלל שעבד עבודתו כשרה אבל בעל מום שעבד עבודתו פסולה ולאמרו יתברך מום בו לא יגש להקריב (ויקרא כ״א:כ״א) והלכה כרבי יהושע.

Explica-se isto: esta mulher é filha de israelita casada com um cohen. E o que disseram, no caso do servo, "teu senhor morreu" — refere-se a quando ele deixou herdeiros que não o alimentam com teruma, como se deixou uma filha casada com um israelita, ou deixou filhos que sejam chalalim (profanos por genealogia, e portanto sem direito à teruma). E a afirmação de Rabi Yehoshua de que isenta não se estabelece senão no caso da teruma de chametz na véspera de Pêssach, cujo tempo é urgente, cujo sentido é que a hora está apertada (pois todo chametz, incluindo o de teruma, deve ser eliminado antes da festa, e não haveria tempo de verificar a condição do consumidor). E disse o Nome, bendito seja, sobre os cohanim (Devarim 33:11): "Bendiz, Eterno, o seu vigor, e a obra de suas mãos aceites" — e disseram: mesmo o que é profano nele, a obra de suas mãos é aceita (estendendo a bênção até ao serviço do chalal, enquanto sua condição não é conhecida); e por isso o chalal cujo serviço já realizou é válido. Mas o portador de mácula física, cujo serviço é inválido — pois disse, bendito seja: "mácula nele, não se aproximará para oferecer" (Vayikrá 21:21, uma desqualificação objetiva e visível, não dependente de conhecimento genealógico). E a halachá é como Rabi Yehoshua.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 8:1
הָאִשָּׁה. בַּת יִשְׂרָאֵל הַנְּשׂוּאָה לְכֹהֵן: מֵת רַבָּךְ. וִירָשׁוֹ בֶן בִּתּוֹ מִיִּשְׂרָאֵל, אוֹ בִתּוֹ הַנְּשׂוּאָה לְיִשְׂרָאֵל: שֶׁהוּא בֶן גְּרוּשָׁה אוֹ בֶן חֲלוּצָה. וּפָסוּל מִלֶּאֱכֹל בִּתְרוּמָה: רַבִּי אֱלִיעֶזֶר מְחַיֵּב קֶרֶן וְחֹמֶשׁ. בְּכֻלְּהוּ: וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ פּוֹטֵר. בַּגְּמָרָא מוֹקֵי לַהּ דַּוְקָא בְּאוֹכֵל תְּרוּמַת חָמֵץ בְּעֶרֶב פֶּסַח, מִפְּנֵי שֶׁזְּמַנּוֹ בָּהוּל, שֶׁהַשָּׁעָה דְחוּקָה וְעוֹמֵד לְבַעֵר הֶחָמֵץ שֶׁל תְּרוּמָה. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ: וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ מַכְשִׁיר. דִּכְתִיב (דברים לג) בָּרֵךְ ה' חֵילוֹ וּפֹעַל יָדָיו תִּרְצֶה, אֲפִלּוּ חָלָל שֶׁבּוֹ פֹּעַל יָדָיו תִּרְצֶה: נוֹדַע שֶׁהוּא בַעַל מוּם עֲבוֹדָתוֹ פְּסוּלָה. אַף לְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, דִּכְתִיב (במדבר כח) אֶת בְּרִיתִי שָׁלוֹם, כְּשֶׁהוּא שָׁלֵם וְלֹא כְּשֶׁהוּא חָסֵר. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ.

"A mulher": filha de israelita casada com um cohen.

"Teu senhor morreu": e o herdou um filho de sua filha casada com israelita, ou sua filha casada com israelita.

"Que ele é filho de divorciada ou de chalutzá": e é desqualificado de comer teruma.

"Rabi Eliezer obriga ao principal e ao quinto": em todos os casos.

"E Rabi Yehoshua isenta": na Guemará, estabelece-se que isso se refere especificamente a quem come teruma de chametz na véspera de Pêssach, porque seu tempo é urgente, pois a hora está apertada e ele está prestes a eliminar o chametz da teruma. E a halachá é como Rabi Yehoshua.

"E Rabi Yehoshua valida": pois está escrito (Devarim 33): "Bendiz, Eterno, o seu vigor, e a obra de suas mãos aceites" — mesmo o chalal, a obra de suas mãos é aceita.

"Se se soube que ele tem mácula, seu serviço é inválido": mesmo segundo Rabi Yehoshua, pois está escrito (Bemidbar 28): "Minha aliança de paz" — quando ele está completo, e não quando lhe falta algo. E a halachá é como Rabi Yehoshua.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná abre-se o Perek Chet de Massechet Terumot, que tratará das consequências de comer teruma quando o status do consumidor muda, e, ao longo do capítulo, dos perigos à vida (sakanat nefashot) que tornam certos alimentos e bebidas proibidos mesmo sendo teruma.