Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Tet · Mishná 3

"E está sujeita a dízimos"

וְחַיֶּבֶת בְּמַעַשְׂרוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O mesmo campo de gidulei teruma está sujeito a dízimos e ao dízimo do pobre, com a mesma regra de venda pelos pobres de Israel; quem debulha o grão com varas é louvável; quem debulha com um animal deve pendurar cestos ao pescoço do animal, contendo grão comum, de modo a não amordaçá-lo nem alimentá-lo com teruma

E está sujeita a dízimos (o primeiro dízimo, entregue ao levita) e ao dízimo do pobre (nos anos terceiro e sexto do ciclo sabático, substituindo o segundo dízimo — o mesmo campo de gidulei teruma da mishná anterior está sujeito também a estas obrigações). E os pobres de Israel e os pobres cohanim recebem (o dízimo do pobre, quando aplicável, seguindo a mesma regra distributiva). E os pobres de Israel vendem o seu aos cohanim pelo preço de teruma, e o dinheiro é deles (repetindo o mecanismo da mishná anterior: o pobre israelita tem pleno direito à dádiva, mas não pode comer o produto por ser gidulei teruma, e por isso o converte em dinheiro através da venda a um cohen). Quem debulha o grão batendo com varas é louvável (pois esse método evita o problema seguinte, sendo por isso a prática recomendada para lidar com este grão especial de teruma). E quem debulha com animal, como deve proceder? (pois a debulha tradicional emprega um animal pisando ou puxando um instrumento sobre o grão, e a Torá proíbe amordaçar o animal para impedi-lo de comer enquanto trabalha — mas alimentá-lo com o próprio grão de teruma que está sendo debulhado seria alimentá-lo com teruma, o que também é proibido). Pendura cestos ao pescoço do animal, e coloca neles do mesmo tipo (grão comum, da mesma espécie do que está sendo debulhado, para que o animal coma dali) — descobre-se, assim, que não o amordaça (cumprindo o mandamento de não impedir o animal de comer durante o trabalho), nem o alimenta com teruma (pois o que ele come é o grão comum dos cestos, e não o grão de teruma que pisa no chão).

וְחַיֶּבֶת בְּמַעַשְׂרוֹת וּבְמַעֲשַׂר עָנִי, וַעֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל וַעֲנִיֵּי כֹהֲנִים נוֹטְלִים, וַעֲנִיֵּי יִשְׂרָאֵל מוֹכְרִין אֶת שֶׁלָּהֶם לְכֹהֲנִים בִּדְמֵי תְרוּמָה, וְהַדָּמִים שֶׁלָּהֶם. הַחוֹבֵט מְשֻׁבָּח. וְהַדָּשׁ כֵּיצַד יַעֲשֶׂה, תּוֹלֶה כְפִיפוֹת בְּצַוְּארֵי בְהֵמָה וְנוֹתֵן לְתוֹכָן מֵאוֹתוֹ הַמִּין, נִמְצָא לֹא זוֹמֵם אֶת הַבְּהֵמָה וְלֹא מַאֲכִיל אֶת הַתְּרוּמָה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná combina duas fontes bíblicas distintas: a obrigação geral de dízimos sobre a colheita da terra, e o mandamento específico de não amordaçar o animal que trabalha debulhando o grão.

Devarim (Deuteronômio) 25:4
לֹא תַחְסֹם שׁוֹר בְּדִישׁוֹ.
"Não amordaçarás o boi durante sua debulha" (Devarim 25:4) — este mandamento proíbe impedir que o animal coma do produto que está processando enquanto trabalha. A mishná aplica esse princípio ao caso peculiar do grão de gidulei teruma: como o animal não pode ser alimentado com o próprio grão de teruma que debulha (por ser proibido a não-cohanim), mas também não pode ser amordaçado (por proibição explícita da Torá), a solução é pendurar cestos com grão comum ao seu pescoço, satisfazendo simultaneamente as duas exigências — o animal come livremente, mas de um grão que não é teruma.

Por que a Torá exige simultaneamente que o animal não seja amordaçado e que não coma teruma, e como os cestos resolvem essa tensão? A mishná apresenta aqui um caso clássico de duas obrigações que, à primeira vista, parecem entrar em conflito direto: de um lado, o mandamento bíblico de não amordaçar o animal durante seu trabalho de debulha, que existe por compaixão ao animal que trabalha rodeado de comida sem poder tocá-la; de outro, a proibição de alimentar o animal com teruma, que embora não seja idêntica à proibição de um israelita comer teruma (o próprio dono não comete transgressão por permitir que seu animal coma teruma, mas ainda assim perde-se produto sagrado que deveria ir ao cohen). A solução dos cestos pendurados ao pescoço do animal, contendo grão comum da mesma espécie do que está sendo debulhado, dissolve completamente a tensão: o animal permanece livre para comer durante todo o trabalho, satisfazendo plenamente "não amordaçarás", mas aquilo que come é grão comum, preservando integralmente o grão de teruma que está sendo processado no chão. É uma solução que demonstra como a halachá busca, sempre que possível, cumprir duas obrigações aparentemente conflitantes sem sacrificar nenhuma delas.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica esta lei em Hilchot Terumot, unindo as leis de dádivas aos pobres e o método correto de debulha.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:27-28
שָׂדֶה שֶׁל גִּדּוּלֵי תְּרוּמָה חַיֶּבֶת בְּלֶקֶט שִׁכְחָה וּפֵאָה וּבִתְרוּמָה וּמַעַשְׂרוֹת וּבְמַעֲשַׂר עָנִי... הַחוֹבֵט גִּדּוּלִין אֵלּוּ מְשֻׁבָּח. וְהַדָּשׁ בִּבְהֵמָה כֵּיצַד יַעֲשֶׂה. תּוֹלֶה כְּפִיפוֹת בְּצַוְּארֵי בְּהֵמָה וְנוֹתֵן לְתוֹכָן מֵאוֹתוֹ הַמִּין. נִמְצָא לֹא זוֹמֵם אֶת הַבְּהֵמָה וְלֹא מַאֲכִיל אֶת הַתְּרוּמָה.
"Um campo de gidulei teruma está sujeito a leket, esquecimento, peá, teruma, dízimos e dízimo do pobre... Quem debulha estes gidulin com varas é louvável. E quem debulha com animal, como deve proceder? Pendura cestos ao pescoço do animal e coloca neles do mesmo tipo. Descobre-se, assim, que não amordaça o animal, nem o alimenta com teruma." O Rambam codifica as duas leis (dádivas e método de debulha) em sequência direta dentro do mesmo halachá 27-28 de Hilchot Terumot, capítulo 11, tratando-as como parte de uma única unidade legal sobre o campo de gidulei teruma.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 9:3
כמו שעניי ישראל מוכרים לכהנים המעשר שלהן כך הלוים מוכרין לכהנים המעשר שלהם בדמי תרומה לפי שאם תהיה החטה מדה בזוז בדרך הדמיון תהיה החטה של תרומה יותר ממדה בזוז לפי שאינה ראויה לאכילת כל אדם: החובט משובח. הוא שיחבוט אותן במטה ואם רצה לדוש אותו זרע בבהמות יקח קופה מחטים של חולין אם הוא דש חטים או משעורים אם הוא דש שעורים יתלה בפי הבהמה כדי שתאכל מהם בעת הדישה וידוש לפי שאסור לו לקשור פי הבהמה בעת הדישה שהכתוב אומר לא תחסום שור בדישו (דברים כה) ואסור לו גם כן להכניסה בזרע התרומה לפי שהיא אוכלת ממנו אלא אם היתה בהמת כהן.

Assim como os pobres de Israel vendem aos cohanim o dízimo deles, também os levitas vendem aos cohanim o dízimo deles pelo preço de teruma (o levita, que recebe o primeiro dízimo, também não pode comer o grão de gidulei teruma, e portanto o vende de modo semelhante) — pois, se o trigo comum vale uma medida por um zuz, por comparação, o trigo de teruma valerá menos que uma medida por um zuz, já que não é apto para o consumo de qualquer pessoa (apenas cohanim puros podem comê-lo, reduzindo seu valor de mercado).

"Quem debulha é louvável": é aquele que bate o grão com uma vara. E se quiser debulhar essa semente com animais, deve tomar um cesto de trigo comum, se está debulhando trigo, ou de cevada, se está debulhando cevada, e pendurá-lo na boca do animal, para que coma dali durante a debulha, e assim debulhe — pois é proibido amarrar a boca do animal durante a debulha, já que o versículo diz: "não amordaçarás o boi durante sua debulha" (Devarim 25) — e também é proibido deixá-lo comer da semente de teruma, pois ele estaria comendo dela, a menos que fosse um animal pertencente a um cohen (caso em que não haveria problema, pois o próprio cohen tem direito de comer teruma).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 9:3
וְחַיֶּבֶת בְּמַעַשְׂרוֹת. מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וְשֵׁנִי. וְהוּא הַדִּין בִּתְרוּמָה: וּבְמַעֲשַׂר עָנִי. אִם הִיא שָׁנָה שְׁלִישִׁית אוֹ שִׁשִּׁית שֶׁל שְׁמִטָּה שֶׁמַּעֲשֵׂר עָנִי נוֹהֵג בָּהֶן: הַחוֹבֵט. גִּדּוּלֵי תְרוּמָה הַלָּלוּ בְּמַקְלוֹת, הֲרֵי זֶה מְשֻׁבָּח, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִצְטָרֵךְ לַחֲסֹם אֶת הַבְּהֵמָה שֶׁדָּשׁ בָּהּ, שֶׁאָסוּר לְהַנִּיחָהּ לֶאֱכֹל בִּתְרוּמָה אִם אֵינָהּ פָּרָתוֹ שֶׁל כֹּהֵן: כְּפִיפוֹת. סַלִּין: מֵאוֹתוֹ הַמִּין. שֶׁל חֻלִּין, אִם חִטִּים חִטִּים וְאִם שְׂעוֹרִים שְׂעוֹרִים: נִמְצָא לֹא זוֹמֵם. כְּלוֹמַר אֵינוֹ חוֹסֵם וְנוֹתֵן זֶמֶם לְתוֹךְ פִּיהָ, שֶׁהֲרֵי הִיא אוֹכֶלֶת מֵאוֹתוֹ הַמִּין: וְלֹא מַאֲכִילָהּ תְּרוּמָה. דְּמִשֶּׁל חֻלִּין שֶׁבַּכְּפִיפָה הַתְּלוּיָה בְּצַוָּארָהּ הִיא אוֹכֶלֶת.

"E está sujeita a dízimos": primeiro e segundo dízimo; e o mesmo se aplica à teruma (mesmo o próprio gidulei teruma deve, teoricamente, separar sua própria teruma e dízimos como qualquer colheita comum, antes de ser consumido pelos cohanim).

"E ao dízimo do pobre": se é o terceiro ou sexto ano do ciclo sabático, quando o dízimo do pobre está em vigor.

"Quem debulha": estes gidulei teruma com varas, é louvável — para que não precise amordaçar o animal com que debulha, sendo proibido deixá-lo comer teruma, se não for vaca de um cohen.

"Cestos": cestas.

"Do mesmo tipo": de grão comum — se é trigo, trigo; se é cevada, cevada.

"Descobre-se que não o amordaça": isto é, não fecha e coloca focinheira em sua boca, pois ela come daquele mesmo tipo.

"Nem o alimenta com teruma": pois é do grão comum que está no cesto pendurado ao seu pescoço que ela come.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.