Ninguém se exime de peru u'rvu, a menos que já tenha filhos. Bet Shamai diz: dois homens. E Bet Hilel diz: um homem e uma mulher, pois está dito: "homem e mulher os criou". Se um homem tomou esposa e permaneceu com ela dez anos sem que ela gerasse, não lhe é permitido eximir-se. Se a divorciou, ela pode casar-se com outro, e o segundo também pode permanecer com ela dez anos. E se ela abortou, conta-se a partir do momento em que abortou. O homem é ordenado quanto a peru u'rvu, mas não a mulher. Rabi Yochanan ben Beroka diz: sobre ambos está dito: "Deus os abençoou e Deus lhes disse: sede fecundos e multiplicai-vos". — A mishná estabelece que ninguém pode alegar estar isento do preceito de procriar sem já ter cumprido, de fato, esse preceito com filhos próprios. Bet Shamai e Bet Hilel discordam sobre o número mínimo: Bet Shamai exige dois filhos homens, tomando como modelo o próprio Moshé, que se separou de sua esposa depois de gerar dois filhos homens; Bet Hilel exige apenas um filho homem e uma filha, fundamentando-se no verso da criação que descreve a humanidade como "homem e mulher" — o par que reproduz o padrão original da criação. Se um homem permanece casado por dez anos sem que sua esposa gere filho algum, ele não pode simplesmente continuar casado sem agir: deve tomar alguma providência para não permanecer estéril de cumprir o preceito. Ele pode divorciá-la, e ela então fica livre para casar-se com outro homem — pois não se atribui automaticamente a esterilidade a ela, já que pode ser o primeiro marido a causa. E o segundo marido recebe, por sua vez, seus próprios dez anos de prazo antes de precisar agir. Se, durante esse período, a esposa engravidar e abortar, a contagem dos dez anos recomeça a partir do momento do aborto, e não do início do casamento — pois o aborto já prova que ela é capaz de conceber. A mishná fecha com uma regra fundamental sobre a natureza da obrigação: o preceito de peru u'rvu recai sobre o homem, não sobre a mulher — ela não é obrigada a se casar ou a gerar filhos por força deste preceito específico. Rabi Yochanan ben Beroka discorda dessa última regra, lendo o verso da bênção divina — dirigido tanto a Adão quanto a Eva, no plural — como prova de que a obrigação recai igualmente sobre ambos.
O verso da criação é a fonte do preceito de peru u'rvu, e sua formulação no plural — "os abençoou", "lhes disse" — é justamente o ponto de disputa entre a mishná e Rabi Yochanan ben Beroka. A opinião anônima da mishná lê o verso "e a sujeitai" — grafado de forma defectiva no hebraico, sugerindo o pronome singular masculino — como indicação de que apenas o homem, cuja natureza é "sujeitar", está encarregado do preceito; Rabi Yochanan ben Beroka, por sua vez, dá peso à formulação plural da bênção e do mandamento que a precedem, e conclui que ambos, homem e mulher, estão igualmente obrigados.
Rambam, em Mishné Torá, codifica a regra final da mishná — a obrigação recai sobre o homem e não sobre a mulher — como halachá definitiva, e fixa a idade a partir da qual o preceito se torna exigível.
Rambam codifica como halachá definitiva a regra final da mishná: o preceito de peru u'rvu obriga o homem, mas não a mulher. Rambam acrescenta um detalhe cronológico que a mishná não especifica: a obrigação nasce a partir dos dezessete anos de idade, e um homem que chega aos vinte anos sem ter se casado já está, a partir desse ponto, transgredindo e deixando de cumprir um preceito positivo da Torá — ainda que, como Rambam observa em seguida, haja exceção para quem está imerso no estudo da Torá e teme que o casamento o distraia de seu aprendizado.
Bartenura explica a base bíblica de cada posição sobre o número mínimo de filhos e sobre a contagem dos dez anos; Rashi, na Guemará, extrai da própria formulação da mishná a prova de que mesmo quem já tem filhos permanece obrigado a se casar — fechando o Perek Vav.
Rambam explica a raiz da disputa entre as duas escolas: Bet Shamai traz prova do próprio Moshé, que teve dois filhos homens — Guershom e Eliezer — e então se separou de sua esposa Tsiporá, concluindo que dois filhos homens já bastam para cumprir o preceito. Bet Hilel rejeita essa prova, argumentando que Moshé se absteve de sua esposa por uma razão única e não replicável — a profecia repousava sobre ele constantemente, exigindo pureza contínua — e por isso seu caso não pode servir de modelo para os demais homens. Para Bet Hilel, o padrão correto é "homem e mulher", pois é esse par — e não dois homens apenas — que reproduz o modelo pelo qual a espécie humana efetivamente se perpetua.
Bartenura localiza a fonte do prazo de dez anos no próprio relato de Avraham: depois de permanecer casado com Sará por dez anos na Terra de Canaã sem que ela gerasse filhos, ele tomou Hagar como esposa adicional — precedente que estabelece o prazo padrão de dez anos antes de o homem precisar agir. Bartenura acrescenta um detalhe técnico importante: os anos em que o casal viveu fora da Terra de Israel não entram na contagem, pois existe a possibilidade de que seja precisamente a permanência fora da terra — e não a esterilidade do casal — a causa da falta de filhos; apenas os anos vividos na Terra de Israel contam para o prazo de dez anos.
Rashi extrai uma leitura fina da formulação exata da mishná, que fecha o Perek Vav com um princípio adicional além da regra explícita: a mishná diz "não se exime de peru u'rvu", e não "não se exime do casamento" — o que ensina que, mesmo depois de já ter cumprido plenamente o preceito de peru u'rvu com filhos suficientes, o homem continua obrigado a permanecer casado, ainda que não precise mais, a partir desse ponto, buscar especificamente uma esposa capaz de gerar-lhe mais filhos. A obrigação de peru u'rvu em si termina quando os filhos mínimos nascem; mas a vida em casamento, como valor independente, permanece um dever contínuo — nota final que Rashi extrai da própria mishná para encerrar o Perek Vav, dedicado inteiramente às leis do casamento do kohen, do Sumo Sacerdote, e ao preceito fundamental de peru u'rvu.