Quem é o pazua dacá (de testículo esmagado)? Todo aquele cujos testículos foram esmagados, mesmo um deles apenas. E o kerut shafchá (de membro decepado), todo aquele cujo membro foi cortado. E se restou da coroa (atará) ainda que como um fio de cabelo, é apto. O pazua dacá e o kerut shafchá são permitidos com uma prosélita e uma liberta, e não são proibidos senão de entrar na assembleia, como está dito: "Não entrará o pazua dacá e o kerut shafchá na assembleia do Eterno." — A mishná define com precisão cirúrgica os dois defeitos: o pazua dacá é qualquer esmagamento dos testículos, mesmo um só deles — não é preciso que ambos estejam afetados; e o kerut shafchá é o corte do próprio membro, mas com uma ressalva técnica crucial: se restou qualquer porção da coroa (a atará, a borda que circunda o local da circuncisão), por menor que seja — "ainda que como um fio de cabelo" —, o homem é considerado apto e não entra nesta categoria, pois o "membro" propriamente dito, para efeitos desta lei, só começa a partir da coroa em direção ao corpo. Depois de definir os termos, a mishná passa ao segundo ponto: apesar de esses homens serem proibidos de entrar na "assembleia do Eterno" — ou seja, de se casar com uma israelita de nascença — a Torá não os proíbe de se casar com uma prosélita ou uma liberta, pois estas também não pertencem à "assembleia" na acepção plena do termo; a única restrição real que a Torá impõe a eles é justamente essa exclusão da assembleia, citada literalmente do verso de Devarim.
Este é o único verso que a mishná cita literalmente, e é também a única restrição real que recai sobre esses dois homens: eles não podem desposar uma israelita de nascença ("קְהַל ה'"), mas continuam permitidos a tudo o mais — inclusive a se casar com uma prosélita ou uma liberta, que a Torá em nenhum lugar inclui na categoria de "קָהָל". A Guemará chega a esta conclusão por um raciocínio explícito comparando este caso ao dos netinim (os gibeonitas convertidos), que são proibidos por decreto rabínico até mesmo de se casar com prosélitas — provando, por contraste, que a proibição bíblica do pazua dacá e do kerut shafchá é mais restrita, limitada apenas à assembleia de nascença.
Rambam, em seu Perush HaMishná, resume o princípio médico-halachico por trás da definição: qualquer dano ao órgão da geração que a ciência natural reconhece como impedimento à fecundação desqualifica o homem.
Rambam explica que a categoria de pazua dacá e kerut shafchá não se limita aos dois casos explícitos da mishná — testículos esmagados e membro decepado —, mas se estende, por princípio, a qualquer dano no órgão reprodutor que a ciência natural reconheça como impeditivo da fecundação: seja um corte, um esmagamento, uma perfuração no membro ou nos testículos, ou qualquer doença que produza o mesmo efeito. O critério halachico é funcional — a incapacidade real de gerar — e não meramente descritivo dos dois exemplos citados pela mishná.
Bartenura detalha a definição anatômica exata da atará e as diferentes causas do defeito; Rambam explicita o critério funcional por trás da lei; Rashi, na Guemará, discute quem pode se casar com quem entre os desqualificados.
Bartenura precisa a anatomia por trás da regra "כְּחוּט הַשַּׂעֲרָה": a atará é a faixa de carne que circunda o local da circuncisão, e o "membro", para os fins desta lei, só é considerado tal a partir da atará em direção ao corpo — de modo que qualquer corte abaixo dela, por mais extenso que seja, deixa o homem apto, contanto que sobre pelo menos um fio da própria atará. Bartenura também esclarece, num ponto essencial que não está explícito na mishná: seja o defeito por corte de arma, por esmagamento espontâneo ou por decepação — no membro, nos testículos ou nos cordões dos testículos —, todos desqualificam igualmente; mas isso vale apenas quando o dano é causado por mão humana. Quando o defeito resulta de doença natural, sem intervenção humana, o homem permanece apto — distinção que se tornará central na próxima mishná, sobre o saris chamá.
Rambam, ao comentar esta mishná, situa a definição precisa dos dois defeitos dentro de um princípio mais amplo: o que a Torá proíbe não é uma lista fechada de lesões específicas, mas qualquer condição — por acidente, ferimento ou doença adquirida por causas externas — que prive o órgão reprodutor de sua função. É por isso que, no verso seguinte de seu comentário, Rambam já antecipa a distinção da mishná seguinte entre o defeito adquirido "por mão humana" e aquele que a pessoa já trazia consigo desde o nascimento — o saris chamá —, cujo status halachico será objeto de disputa entre os sábios.
Rashi explica o motivo técnico pelo qual prosélita e liberta são permitidas ao pazua dacá e ao kerut shafchá: elas simplesmente não são chamadas "קָהָל" — não pertencem à categoria da assembleia de nascença israelita, que é precisamente a única coisa vedada a estes homens pelo verso de Devarim. A Guemará então investiga um caso mais complexo, discutido a seguir no daf: se o próprio pazua dacá for um kohen — que já está proibido de se casar com uma israelita comum por outras razões da kehuná —, permanece a dúvida se ele pode se casar com uma prosélita, já que o kohen íntegro está proibido de se casar com prosélitas por serem consideradas "zoná", uma categoria distinta da simples exclusão do קהל que afeta apenas o pazua dacá e o kerut shafchá.