Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Chet · Mishná 2 de 6

Quem é o pazua dacá e o kerut shafchá

אֵיזֶהוּ פְצוּעַ דַּכָּא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná anterior usou os termos pazua dacá e kerut shafchá sem defini-los; esta mishná fornece a definição técnica exata de cada um, e esclarece que o único efeito desses defeitos é a exclusão da assembleia de Israel — não da condição de israelita nem de kohen em geral.

Quem é o pazua dacá (de testículo esmagado)? Todo aquele cujos testículos foram esmagados, mesmo um deles apenas. E o kerut shafchá (de membro decepado), todo aquele cujo membro foi cortado. E se restou da coroa (atará) ainda que como um fio de cabelo, é apto. O pazua dacá e o kerut shafchá são permitidos com uma prosélita e uma liberta, e não são proibidos senão de entrar na assembleia, como está dito: "Não entrará o pazua dacá e o kerut shafchá na assembleia do Eterno."A mishná define com precisão cirúrgica os dois defeitos: o pazua dacá é qualquer esmagamento dos testículos, mesmo um só deles — não é preciso que ambos estejam afetados; e o kerut shafchá é o corte do próprio membro, mas com uma ressalva técnica crucial: se restou qualquer porção da coroa (a atará, a borda que circunda o local da circuncisão), por menor que seja — "ainda que como um fio de cabelo" —, o homem é considerado apto e não entra nesta categoria, pois o "membro" propriamente dito, para efeitos desta lei, só começa a partir da coroa em direção ao corpo. Depois de definir os termos, a mishná passa ao segundo ponto: apesar de esses homens serem proibidos de entrar na "assembleia do Eterno" — ou seja, de se casar com uma israelita de nascença — a Torá não os proíbe de se casar com uma prosélita ou uma liberta, pois estas também não pertencem à "assembleia" na acepção plena do termo; a única restrição real que a Torá impõe a eles é justamente essa exclusão da assembleia, citada literalmente do verso de Devarim.

אֵיזֶהוּ פְצוּעַ דַּכָּא, כֹּל שֶׁנִּפְצְעוּ הַבֵּיצִים שֶׁלּוֹ, וַאֲפִלּוּ אַחַת מֵהֶן. וּכְרוּת שָׁפְכָה, כֹּל שֶׁנִּכְרַת הַגִּיד. וְאִם נִשְׁתַּיֵּר מֵהָעֲטָרָה אֲפִלּוּ כְּחוּט הַשַּׂעֲרָה, כָּשֵׁר. פְּצוּעַ דַּכָּא וּכְרוּת שָׁפְכָה, מֻתָּרִין בְּגִיּוֹרֶת וּמְשֻׁחְרֶרֶת, וְאֵינָן אֲסוּרִין אֶלָּא מִלָּבֹא בַקָּהָל, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים כג), לֹא יָבֹא פְצוּעַ דַּכָּא וּכְרוּת שָׁפְכָה בִּקְהַל ה':

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 23:2
לֹא יָבֹא פְצוּעַ דַּכָּא וּכְרוּת שָׁפְכָה בִּקְהַל ה'
Não entrará o pazua dacá e o kerut shafchá na assembleia do Eterno.

Este é o único verso que a mishná cita literalmente, e é também a única restrição real que recai sobre esses dois homens: eles não podem desposar uma israelita de nascença ("קְהַל ה'"), mas continuam permitidos a tudo o mais — inclusive a se casar com uma prosélita ou uma liberta, que a Torá em nenhum lugar inclui na categoria de "קָהָל". A Guemará chega a esta conclusão por um raciocínio explícito comparando este caso ao dos netinim (os gibeonitas convertidos), que são proibidos por decreto rabínico até mesmo de se casar com prosélitas — provando, por contraste, que a proibição bíblica do pazua dacá e do kerut shafchá é mais restrita, limitada apenas à assembleia de nascença.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, em seu Perush HaMishná, resume o princípio médico-halachico por trás da definição: qualquer dano ao órgão da geração que a ciência natural reconhece como impedimento à fecundação desqualifica o homem.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 8:2
מִמַּה שֶׁאַתָּה צָרִיךְ לָדַעַת, שֶׁכְּשֶׁנִּפְצַע הַגִּיד אוֹ חוּטֵי הַבֵּיצִים, כְּמוֹ כֵן אוֹ נִכְרְתוּ הַבֵּיצִים, אוֹ נִקַּב הַגִּיד, אוֹ נִקְּבוּ הַבֵּיצִים, וּבִכְלַל כָּל חֹלִי שֶׁיִּתְחַדֵּשׁ בִּכְלֵי הַזֶּרַע מִמַּה שֶּׁיְּחַיֵּב חָכְמַת הַטֶּבַע שֶׁהוּא לֹא יַזְרִיעַ בָּהֶן, הֲרֵי הוּא פָּסוּל.

Rambam explica que a categoria de pazua dacá e kerut shafchá não se limita aos dois casos explícitos da mishná — testículos esmagados e membro decepado —, mas se estende, por princípio, a qualquer dano no órgão reprodutor que a ciência natural reconheça como impeditivo da fecundação: seja um corte, um esmagamento, uma perfuração no membro ou nos testículos, ou qualquer doença que produza o mesmo efeito. O critério halachico é funcional — a incapacidade real de gerar — e não meramente descritivo dos dois exemplos citados pela mishná.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a definição anatômica exata da atará e as diferentes causas do defeito; Rambam explicita o critério funcional por trás da lei; Rashi, na Guemará, discute quem pode se casar com quem entre os desqualificados.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 8:2
וְאִם נִשְׁתַּיֵּר מֵהָעֲטָרָה. שֶׁנֶּחְתַּךְ מֵהָעֲטָרָה וְאֵילָךְ, כָּשֵׁר, שֶׁאֵין גִּיד אֶלָּא מֵהָעֲטָרָה וּלְמַעְלָה לְצַד הַגּוּף. עֲטָרָה הִיא שׁוּרַת בָּשָׂר הַמַּקֶּפֶת בִּמְקוֹם הַמִּילָה. וּבֵין שֶׁנִּפְצַע הַגִּיד כְּמִין מַכַּת חֶרֶב וְסַכִּין, בֵּין שֶׁנִּתְמַעֵךְ וְהֻקְטַן מֵאֵלָיו, בֵּין שֶׁנִּכְרַת, בֵּין בַּגִּיד בֵּין בַּבֵּיצִים בֵּין בְּחוּטֵי הַבֵּיצִים, כֻּלָּם פְּסוּלִים. וְהָנֵי מִילֵי בִּידֵי אָדָם, אֲבָל מֵחֲמַת חֹלִי הַכֹּל כָּשֵׁר.

Bartenura precisa a anatomia por trás da regra "כְּחוּט הַשַּׂעֲרָה": a atará é a faixa de carne que circunda o local da circuncisão, e o "membro", para os fins desta lei, só é considerado tal a partir da atará em direção ao corpo — de modo que qualquer corte abaixo dela, por mais extenso que seja, deixa o homem apto, contanto que sobre pelo menos um fio da própria atará. Bartenura também esclarece, num ponto essencial que não está explícito na mishná: seja o defeito por corte de arma, por esmagamento espontâneo ou por decepação — no membro, nos testículos ou nos cordões dos testículos —, todos desqualificam igualmente; mas isso vale apenas quando o dano é causado por mão humana. Quando o defeito resulta de doença natural, sem intervenção humana, o homem permanece apto — distinção que se tornará central na próxima mishná, sobre o saris chamá.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 8:2
אֵיזֶהוּ פְצוּעַ דַּכָּא כֹּל שֶׁנִּפְצְעוּ הַבֵּיצִים שֶׁלּוֹ כוּ׳: פְּצוּעַ דַּכָּא וּכְרוּת שָׁפְכָה מֻתָּרִין כוּ׳: מִמַּה שֶׁאַתָּה צָרִיךְ לָדַעַת שֶׁכְּשֶׁנִּפְצַע הַגִּיד אוֹ חוּטֵי הַבֵּיצִים.

Rambam, ao comentar esta mishná, situa a definição precisa dos dois defeitos dentro de um princípio mais amplo: o que a Torá proíbe não é uma lista fechada de lesões específicas, mas qualquer condição — por acidente, ferimento ou doença adquirida por causas externas — que prive o órgão reprodutor de sua função. É por isso que, no verso seguinte de seu comentário, Rambam já antecipa a distinção da mishná seguinte entre o defeito adquirido "por mão humana" e aquele que a pessoa já trazia consigo desde o nascimento — o saris chamá —, cujo status halachico será objeto de disputa entre os sábios.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 76a
מַתְנִיתִין. מֻתָּרִין בְּגִיּוֹרֶת וּמְשֻׁחְרֶרֶת — דְּלָא אִיקְרוּ קָהָל. גְּמָרָא. כֹּהֵן — אֲבָל כֹּהֵן כָּשֵׁר אָסוּר בְּגִיּוֹרֶת וּמְשֻׁחְרֶרֶת מִשּׁוּם זוֹנָה שֶׁנִּבְעֲלָה מִקֹּדֶם. פְּצוּעַ דַּכָּא כֹּהֵן — שֶׁאָסוּר בְּיִשְׂרְאֵלִית, מַהוּ לִישָּׂא גִּיּוֹרֶת.

Rashi explica o motivo técnico pelo qual prosélita e liberta são permitidas ao pazua dacá e ao kerut shafchá: elas simplesmente não são chamadas "קָהָל" — não pertencem à categoria da assembleia de nascença israelita, que é precisamente a única coisa vedada a estes homens pelo verso de Devarim. A Guemará então investiga um caso mais complexo, discutido a seguir no daf: se o próprio pazua dacá for um kohen — que já está proibido de se casar com uma israelita comum por outras razões da kehuná —, permanece a dúvida se ele pode se casar com uma prosélita, já que o kohen íntegro está proibido de se casar com prosélitas por serem consideradas "zoná", uma categoria distinta da simples exclusão do קהל que afeta apenas o pazua dacá e o kerut shafchá.