O saris chamá kohen que desposou uma filha de Israel a alimenta com trumá. Rabi Yosei e Rabi Shimon dizem: o androginos kohen que desposou uma filha de Israel a alimenta com trumá. Rabi Yehuda diz: o tumtum que se rasgou e se revelou macho não faz chalitzá, porque é como um saris. O androginos desposa, mas não é desposado. Rabi Eliezer diz: os que têm relação com ele são passíveis de apedrejamento (sekilá), como com um macho. — A mishná retorna ao tema inicial do perek — o direito da esposa de comer trumá — para tratar de um caso que, à primeira vista, poderia parecer duvidoso: o saris chamá, apesar de estar totalmente fora do sistema de yibum e chalitzá (como decidido na mishná anterior), é ainda assim considerado plenamente kohen para todos os outros efeitos, incluindo o casamento válido com uma bat Israel; por isso, ele a alimenta com trumá como qualquer outro kohen casado legitimamente — sua incapacidade reprodutiva não afeta em nada seu status sacerdotal nem a validade de seu casamento. Rabi Yosei e Rabi Shimon estendem exatamente o mesmo princípio ao androginos — a pessoa que apresenta características sexuais tanto masculinas quanto femininas —, tratando-o, para efeitos de casamento e trumá, como um homem pleno. Rabi Yehuda acrescenta um caso relacionado: o tumtum (pessoa cujos órgãos genitais estão ocultos, impossibilitando a determinação do sexo) que, ao ser operado ou examinado, revela-se definitivamente macho, ainda assim não pode fazer chalitzá — porque, como o saris, ele carrega uma incerteza que o Rabi Yehuda equipara à condição de saris para este efeito específico. A mishná então apresenta a posição mais restrita sobre o androginos quanto ao casamento propriamente dito: ele pode desposar uma mulher (como o lado masculino de sua natureza permite), mas não pode ser desposado por um homem como se fosse mulher — reconhecendo nele, ao menos parcialmente, a masculinidade plena. E fecha com a posição de Rabi Eliezer sobre a gravidade penal de uma relação homossexual com um androginos: quem tem relação com ele "pelo lado masculino" é passível da pena de apedrejamento (sekilá) como se tivesse tido relação com qualquer outro homem — a pena bíblica para mishkav zachar.
O verso de mishkav zachar estabelece a pena de morte — que a tradição oral especifica como sekilá (apedrejamento) — para a relação homossexual entre dois homens. A posição de Rabi Eliezer nesta mishná aplica esse mesmo verso ao androginos, na medida em que ele possui um órgão masculino: quem tem relação com ele "pelo lado de seu sexo masculino" é tratado, para efeitos penais, exatamente como alguém que teve relação com um homem comum — a incerteza quanto ao seu status pleno de gênero não diminui, na visão de Rabi Eliezer, a gravidade penal do ato quando ocorre especificamente através de sua masculinidade.
A halachá segue Rabi Eliezer quanto à pena de sekilá, e segue a posição final de Rabi Yosei — que o androginos é criatura à parte, de status indefinido — quanto à trumá; por não haver citação direta e breve em Mishné Torá para este caso específico, seguimos aqui o próprio Perush HaMishná de Rambam, como alternativa honesta.
Rambam explica que a posição citada nesta mishná em nome de Rabi Yosei e Rabi Shimon — que o androginos alimenta sua esposa com trumá como um kohen pleno — reflete uma fase inicial de seu pensamento, na qual ele o tratava simplesmente como macho. Mas em uma baraita posterior, o próprio Rabi Yosei recua dessa posição e declara que o androginos é "uma criatura à parte" (בְּרִיָּה בִּפְנֵי עַצְמוֹ), cujo sexo os sábios nunca chegaram a determinar com certeza — nem definitivamente macho, nem definitivamente fêmea. Rambam decide a halachá segundo esta posição final e mais cautelosa de Rabi Yosei: por ser uma dúvida genuína quanto ao status, e por seguir-se o princípio de que dúvida em matéria proibida se resolve para o lado mais restritivo, o androginos kohen não alimenta sua esposa com trumá.
Bartenura explica a evolução da posição de Rabi Yosei e confirma a halachá segundo Rabi Eliezer; Rambam detalha o raciocínio da baraita; Rashi, na Guemará, fecha o Perek Chet esclarecendo os termos técnicos finais da mishná.
Bartenura confirma a mesma leitura de Rambam sobre a evolução da posição de Rabi Yosei: inicialmente tratando o androginos como macho para efeitos de trumá, depois recuando na baraita para declará-lo uma criatura à parte, de sexo indeterminado — e por isso não alimenta sua esposa com trumá, já que a dúvida se resolve para o lado restritivo. Bartenura nota que a halachá não segue Rabi Yehuda quanto ao tumtum. Sobre "o androginos desposa mas não é desposado", Bartenura explica que isso reflete seu lado masculino reconhecido — ele pode agir como homem tomando esposa, mas ninguém pode desposá-lo como se ele fosse mulher, pois quem tivesse relação com ele nesse contexto estaria, na verdade, tendo relação com o macho nele. E confirma que a halachá segue Rabi Eliezer: a pena de sekilá se aplica especificamente quando a relação ocorre pelo lado de sua masculinidade.
Rambam explica por que a mishná abre com o saris chamá alimentando sua esposa com trumá sem qualquer disputa — pois seu status de kohen pleno, apesar da incapacidade reprodutiva, nunca foi posto em dúvida —, e usa isso como pano de fundo para a disputa mais complexa sobre o androginos, cujo próprio sexo é incerto. Quanto ao tumtum de Rabi Yehuda, Rambam nota que, uma vez estabelecido que o saris adam faz chalitzá plenamente (mishná 8:4), não há razão para equiparar o tumtum revelado macho a um saris incapaz — por isso a halachá não segue Rabi Yehuda aqui. E, quanto à pena final de Rabi Eliezer, Rambam precisa exatamente o escopo da halachá: a pena de sekilá por mishkav zachar aplica-se apenas quando a relação ocorre especificamente pelo lado masculino do androginos; se ocorrer pelo lado feminino, não há essa pena específica, pois ali ele é tratado como mulher.
Rashi fecha o Perek Chet explicando a lógica assimétrica por trás de "desposa mas não é desposado": como o androginos é uma dúvida entre macho e fêmea, o caminho mais cauteloso é permitir apenas o lado que não gera risco de proibição séria — ele mesmo tomando uma esposa como faria um macho certo é uma ação relativamente segura, mas permitir que um homem o desposasse como mulher arriscaria uma transgressão grave de ervá em caso de dúvida, o que os sábios preferem evitar. Já quanto à posição final de Rabi Eliezer sobre a sekilá, Rashi enfatiza que, no seu entender, a Torá trata o lado masculino do androginos não como uma mera possibilidade duvidosa, mas como uma masculinidade certa e plena — por isso a pena capital se aplica com toda a força da lei, como se a relação tivesse ocorrido com um homem inequívoco, fechando o Perek Chet com o tema dos estados intermediários de gênero que atravessou todo o perek desde o pazua dacá e o saris até o tumtum e o androginos.