Seder Moed · Massechet Yoma · Perek Chet · Mishná 9 de 9 — Última mishná do tratado

Quem diz "pecarei e me arrependerei", e o Pai que purifica

הָאוֹמֵר אֶחֱטָא וְאָשׁוּב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o tratado inteiro, a última mishná estabelece os limites morais do arrependimento — contra quem o manipula com premeditação, e contra a ilusão de que Yom Kipur expia transgressões contra o próximo sem reconciliação —, e fecha com a exposição de Rabi Elazar ben Azarya sobre o versículo central do dia e o louvor lírico de Rabi Akiva ao poder purificador de Deus.

Quem diz "pecarei e me arrependerei, pecarei e me arrependerei", não lhe dão meios de fazer arrependimento.Alguém que, de antemão, planeja pecar contando com a possibilidade de se arrepender depois, repetindo esse padrão deliberadamente, não recebe do Céu a assistência necessária para realmente completar o arrependimento quando finalmente tentar, pois usa o próprio conceito de arrependimento como licença para pecar.

"Pecarei, e Yom Kipur expiará" — Yom Kipur não expia.Da mesma forma, quem peca deliberadamente contando com que Yom Kipur, por si só, resolverá o problema, sem nenhum esforço genuíno de sua parte, descobre que Yom Kipur não cumpre essa função quando usado dessa maneira calculada.

As transgressões entre o homem e o Onipresente, Yom Kipur expia; as transgressões entre o homem e seu próximo, Yom Kipur não expia, até que aplaque o seu próximo.A mishná traça uma distinção fundamental: Yom Kipur tem o poder de expiar pecados cometidos exclusivamente contra Deus, mas é impotente diante de ofensas cometidas contra outra pessoa — para essas, é indispensável primeiro buscar a reconciliação e o perdão direto de quem foi prejudicado.

Isto expôs Rabi Elazar ben Azarya: "De todos os vossos pecados perante o Eterno vos purificareis" — as transgressões entre o homem e o Onipresente, Yom Kipur expia; as transgressões entre o homem e seu próximo, Yom Kipur não expia, até que aplaque o seu próximo.Rabi Elazar ben Azarya extrai essa mesma distinção diretamente do versículo de Vayikra 16:30, lendo a frase "perante o Eterno" como uma limitação: só as transgressões cometidas "perante o Eterno" — isto é, entre a pessoa e Deus — são cobertas pela purificação de Yom Kipur ali prometida.

Disse Rabi Akiva: felizes de vós, Israel! Perante quem vos purificais, e quem vos purifica? Vosso Pai que está nos céus, como está dito: "E aspergirei sobre vós águas puras, e vos purificareis". E diz: "Reservatório de Israel é o Eterno" — assim como o reservatório purifica os impuros, também o Santo, bendito seja, purifica Israel.Rabi Akiva fecha o tratado com uma reflexão de exaltação: Israel goza do privilégio único de ser purificado diretamente por seu Pai celestial, apoiando essa ideia em dois versículos — Yechezkel 36:25, sobre a aspersão de águas puras, e um jogo de palavras com Yirmiyahu 17:13, onde "mikvê", que significa tanto "esperança" quanto "reservatório de imersão", sugere que, assim como um mikvê purifica fisicamente quem nele imerge, o próprio Eterno purifica espiritualmente o povo de Israel.

הָאוֹמֵר, אֶחֱטָא וְאָשׁוּב, אֶחֱטָא וְאָשׁוּב, אֵין מַסְפִּיקִין בְּיָדוֹ לַעֲשׂוֹת תְּשׁוּבָה. אֶחֱטָא וְיוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר, אֵין יוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר. עֲבֵרוֹת שֶׁבֵּין אָדָם לַמָּקוֹם, יוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר. עֲבֵרוֹת שֶׁבֵּין אָדָם לַחֲבֵרוֹ, אֵין יוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר, עַד שֶׁיְּרַצֶּה אֶת חֲבֵרוֹ. אֶת זוֹ דָּרַשׁ רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה, מִכֹּל חַטֹּאתֵיכֶם לִפְנֵי יְיָ תִּטְהָרוּ, עֲבֵרוֹת שֶׁבֵּין אָדָם לַמָּקוֹם, יוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר. עֲבֵרוֹת שֶׁבֵּין אָדָם לַחֲבֵרוֹ, אֵין יוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר, עַד שֶׁיְּרַצֶּה אֶת חֲבֵרוֹ. אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא, אַשְׁרֵיכֶם יִשְׂרָאֵל, לִפְנֵי מִי אַתֶּם מִטַּהֲרִין, וּמִי מְטַהֵר אֶתְכֶם, אֲבִיכֶם שֶׁבַּשָּׁמַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר וְזָרַקְתִּי עֲלֵיכֶם מַיִם טְהוֹרִים וּטְהַרְתֶּם. וְאוֹמֵר מִקְוֵה יִשְׂרָאֵל יְיָ, מַה מִּקְוֶה מְטַהֵר אֶת הַטְּמֵאִים, אַף הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא מְטַהֵר אֶת יִשְׂרָאֵל:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra 16:30, Yechezkel 36:25 e Yirmiyahu 17:13
כִּי בַיּוֹם הַזֶּה יְכַפֵּר עֲלֵיכֶם לְטַהֵר אֶתְכֶם, מִכֹּל חַטֹּאתֵיכֶם לִפְנֵי יְהֹוָה תִּטְהָרוּ. / וְזָרַקְתִּי עֲלֵיכֶם מַיִם טְהוֹרִים וּטְהַרְתֶּם, מִכֹּל טֻמְאוֹתֵיכֶם וּמִכָּל גִּלּוּלֵיכֶם אֲטַהֵר אֶתְכֶם. / מִקְוֵה יִשְׂרָאֵל יְהֹוָה, כָּל עֹזְבֶיךָ יֵבֹשׁוּ.
Pois neste dia expiará sobre vós, para vos purificar; de todos os vossos pecados perante o Eterno vos purificareis. / E aspergirei sobre vós águas puras, e vos purificareis; de todas as vossas impurezas e de todos os vossos ídolos vos purificarei. / Esperança de Israel, ó Eterno; todos os que te abandonam se envergonharão.

O versículo de Vayikra 16:30 é o fecho da grande passagem de Yom Kipur no livro de Vayikra, e é sobre a expressão "perante o Eterno" que Rabi Elazar ben Azarya constrói toda a distinção entre pecados contra Deus e pecados contra o próximo — lendo a limitação implícita na frase como o próprio limite do poder expiatório do dia. Os dois versículos proféticos que Rabi Akiva reúne no final não fazem parte da passagem original de Yom Kipur, mas são trazidos por associação temática: Yechezkel fala da purificação escatológica de Israel por meio de água, e Yirmiyahu, através de um jogo de palavras entre "esperança" e "reservatório ritual", ambos grafados "mikvê" em hebraico, transforma a declaração profética numa metáfora sobre o próprio Deus como fonte última de pureza — o ponto culminante retórico e espiritual de todo o tratado.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam resume a lição prática da mishná: quem planeja pecar contando com Yom Kipur não recebe do Céu a ajuda necessária para verdadeiramente se arrepender.

Rambam · Perush HaMishná, Yoma 8:9
הָאוֹמֵר אֶחֱטָא וְיוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר, אֵין יוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר, כְּמוֹ אָמְרָם "אֵין מַסְפִּיקִין בְּיָדוֹ לַעֲשׂוֹת תְּשׁוּבָה". וּלְפִיכָךְ לֹא יַעֲזְרֵהוּ הַשֵּׁם שֶׁיַּעֲשֶׂה בְּצוֹם כִּפּוּר מַה שֶּׁרָאוּי לוֹ לַעֲשׂוֹת, כְּדֵי שֶׁיִּתְכַּפְּרוּ לוֹ עֲוֹנוֹתָיו בְּאוֹתוֹ הַיּוֹם. וְשָׂעִיר הַמִּשְׁתַּלֵּחַ אֵינוֹ מְכַפֵּר עֲבֵרוֹת שֶׁבֵּין אָדָם לַחֲבֵרוֹ.

Quem diz "pecarei, e Yom Kipur expiará", Yom Kipur não expia, assim como se disse "não lhe dão meios de fazer arrependimento". E por isso Deus não o ajudará a fazer, no jejum de Yom Kipur, o que lhe seria devido fazer, para que seus pecados sejam expiados naquele dia. E o bode enviado não expia as transgressões entre o homem e seu próximo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica a repetição de "pecarei e me arrependerei" e por que quem repete o padrão deliberadamente perde a capacidade de se arrepender; Rashi identifica no final do tratado a lista de transgressões que exigem, além do arrependimento, elementos adicionais de expiação.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yoma 8:9
אֶחֱטָא וְאָשׁוּב אֶחֱטָא וְאָשׁוּב. תְּרֵי זִמְנֵי. אֵין מַסְפִּיקִין בְּיָדוֹ וְכוּ'. שֶׁכֵּיוָן שֶׁעָבַר עֲבֵרָה וְשָׁנָה בָּהּ, שׁוּב אֵינוֹ פּוֹרֵשׁ מִמֶּנָּה, לְפִי שֶׁדּוֹמָה עָלָיו כְּהֶתֵּר.

"Pecarei e me arrependerei, pecarei e me arrependerei" — duas vezes, indicando repetição deliberada. "Não lhe dão meios etc." — pois assim que a pessoa transgride uma vez e repete a transgressão, ela já não consegue mais se afastar dela, porque passa a lhe parecer permitida.

Rashi · רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Yoma 85b
חוּץ מִפּוֹרֵק עֹל, וּמְגַלֶּה פָנִים בַּתּוֹרָה, וּמֵיפֵר בְּרִית בָּשָׂר. פּוֹרֵק עֹל. כּוֹפֵר בַּהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא: מְגַלֶּה פָנִים בַּתּוֹרָה. דּוֹרֵשׁ אֶת הַתּוֹרָה לִגְנַאי: וּמֵיפֵר בְּרִית בָּשָׂר. מִילָה.

[No decorrer da Guemará sobre esta mishná, aprende-se que há exceções à regra de que Yom Kipur e o arrependimento expiam:] "Exceto quem rejeita o jugo, e quem revela faces desonestas na Torá, e quem anula a aliança da carne." "Rejeita o jugo" — quem nega o Santo, bendito seja. "Revela faces desonestas na Torá" — interpreta a Torá de forma degradante. "E anula a aliança da carne" — a circuncisão. [Para estes, nem o arrependimento nem Yom Kipur bastam sozinhos.]

סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּיוֹמָא
Aqui se conclui Massechet Yoma — o quinto tratado de Seder Moed, "o Dia" por excelência, dedicado à preparação, ao serviço e ao significado de Yom Kipur. O Perek Chet, último do tratado, com nove mishnayot, tratou das cinco proibições do dia — comer, beber, lavar, ungir, calçar sandálias e relação conjugal — e das exceções concedidas e rejeitadas ao rei, à noiva e à parturiente (8:1); das medidas mínimas de comida e bebida que geram responsabilidade (8:2); da distinção entre uma e duas transgressões, e da isenção para alimentos impróprios (8:3); da habituação gradual das crianças ao jejum (8:4); da grávida que sentiu o cheiro e do doente, cuja necessidade de se alimentar prevalece sobre o jejum (8:5); do bulmos, da mordida de cão raivoso e do princípio de que toda dúvida sobre risco de vida afasta o Shabat (8:6); do escombro desabado e da busca por sobreviventes (8:7); dos quatro graus de expiação, do pecado leve ao mais grave (8:8); e, nesta última mishná, dos limites morais do arrependimento, da distinção entre pecados contra Deus e contra o próximo, e do louvor final de Rabi Akiva ao Pai celestial que purifica Israel (8:9).

Massechet Yoma percorreu, ao longo de seus oito capítulos e sessenta e uma mishnayot, todo o arco do dia mais sagrado do calendário judaico: os sete dias de separação do Cohen Gadol antes de Yom Kipur, em preparação para o serviço (Perek Alef); os quatro pêissim e a ordem do serviço diário no Templo (Perek Bet); as imersões do Cohen Gadol, as vestes de Yom Kipur, a confissão sobre o novilho e o sorteio dos dois bodes (Perek Guimel); o sorteio dos dois bodes, a confissão sobre o touro e as etapas específicas do serviço de Yom Kipur (Perek Dalet); a entrada do Cohen Gadol ao Santo dos Santos com o incenso, as aspersões do sangue do touro e do bode, e a purificação do altar de ouro (Perek Hei); o sorteio e a confissão do bode enviado, seu percurso até o deserto e a queima do touro e do bode (Perek Vav); a leitura pública da Torá pelo Cohen Gadol, a troca para as vestes de ouro e as oito vestes que habilitam a consulta ao Urim VeTumim (Perek Zayin); e, por fim, este último perek, sobre o jejum, as demais proibições do dia e o processo do arrependimento (Perek Chet). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, cada mishná deste tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud.

Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para os demais tratados de Seder Moed — Sucá, Beitzá, Rosh Hashaná, Taanit, Megilá, Moed Katan e Chagigá —, cada um dedicado a uma festividade ou aspecto do calendário sagrado judaico, somando-se aos tratados já concluídos de Shabat, Eruvin, Pessachim, Shekalim e agora Yoma.