Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Bet · Mishná 1 de 5

Os desqualificantes no recebimento e na colocação do sangue

כָּל הַזְּבָחִים שֶׁקִּבֵּל דָּמָן זָר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná que abre o Perek Bet muda de assunto: em vez da intenção incorreta (que invalida apenas a oferenda pascal e a de pecado, tema do Perek Alef), trata dos desqualificantes objetivos e pessoais que invalidam qualquer oferenda, sem exceção — quem realizou o recebimento do sangue, e onde e como o sangue foi colocado sobre o altar.

Todas as oferendas cujo sangue foi recebido por um leigo; por um endoluto; por um imerso naquele dia; por um carente de vestes; por um carente de expiação; por quem não lavou as mãos e os pés; por um incircunciso; por um impuro; por quem estava sentado; ou em pé sobre vasos, sobre um animal, sobre os pés de seu companheiro — invalidou. Se o recebeu com a esquerda, invalidou; Rabi Shimon o valida.Ao contrário da intenção incorreta, que só invalida o pêssach e a chatat, esta lista de desqualificantes é universal: qualquer uma dessas onze condições, presente no momento do recebimento do sangue no vaso, invalida qualquer oferenda. A lista mistura impedimentos de aptidão sacerdotal (o leigo, que não é cohen; o endoluto, no dia da morte de um parente próximo; o carente de vestes, faltando as roupas sacerdotais mínimas; o incircunciso; o impuro) com impedimentos de pureza temporária (o imerso naquele dia, que já se banhou mas ainda aguarda o anoitecer; o carente de expiação, que completou sua purificação mas ainda não trouxe o sacrifício que a sela; quem não lavou as mãos e os pés na Bacia) e impedimentos de postura física (estar sentado, ou em pé sobre algo que o separe do piso do Templo — vasos, um animal, ou os pés de outra pessoa). Por fim, a mishná isola um caso à parte: receber o sangue com a mão esquerda também invalida — não por falta de aptidão da pessoa, mas por a ação em si exigir a mão direita — posição da qual Rabi Shimon discorda, validando o recebimento feito com a esquerda.

Se o sangue se derramou sobre o pavimento e ele o recolheu, é inválido. Se o colocou sobre a rampa; ou não em frente à base; se deu o que deve ser colocado embaixo, em cima, e o que deve ser colocado em cima, embaixo; o que deve ser colocado dentro, fora, e o que deve ser colocado fora, dentro — é inválido, e não há nele karet.A segunda metade da mishná desce ao próprio destino do sangue depois de recebido corretamente. Se ele caiu no chão antes de ser recolhido no vaso — mesmo que depois recolhido dali para dentro de um vaso — a oferenda se invalida, pois a Torá exige que o sangue seja recebido diretamente do animal, não do pavimento. Em seguida, uma série de erros de local: colocar o sangue sobre a rampa de acesso ao altar (que não é parte do altar propriamente); colocá-lo numa parte da parede do altar que não tem base de pedra por baixo; inverter o sangue que deve ir abaixo do fio vermelho que corta o altar ao meio (como o de uma oferenda de subida) com o que deve ir acima dele (como o de uma oferenda de pecado); ou inverter o sangue que deve ser aspergido dentro do Santuário com o que deve ser aspergido fora, no altar externo. Em todos esses casos a oferenda se invalida — mas, como não houve intenção incorreta de tempo ou lugar, apenas um erro de execução, não há a pena grave de karet para quem viesse a comer dessa carne.

כָּל הַזְּבָחִים שֶׁקִּבֵּל דָּמָן זָר, אוֹנֵן, טְבוּל יוֹם, מְחֻסַּר בְּגָדִים, מְחֻסַּר כִּפּוּרִים, שֶׁלֹּא רְחוּץ יָדַיִם וְרַגְלַיִם, עָרֵל, טָמֵא, יוֹשֵׁב, עוֹמֵד עַל גַּבֵּי כֵלִים, עַל גַּבֵּי בְהֵמָה, עַל גַּבֵּי רַגְלֵי חֲבֵרוֹ, פָּסָל. קִבֵּל בַּשְּׂמֹאל, פָּסָל. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַכְשִׁיר. נִשְׁפַּךְ הַדָּם עַל הָרִצְפָּה וַאֲסָפוֹ, פָּסוּל. נְתָנוֹ עַל גַּבֵּי הַכֶּבֶשׁ שֶׁלֹּא כְנֶגֶד הַיְסוֹד, נָתַן אֶת הַנִּתָּנִין לְמַטָּן, לְמַעְלָן, וְאֶת הַנִּתָּנִין לְמַעְלָן, לְמַטָּן, אֶת הַנִּתָּנִים בִּפְנִים, בַּחוּץ, וְאֶת הַנִּתָּנִין בַּחוּץ, בִּפְנִים, פָּסוּל וְאֵין בּוֹ כָרֵת:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A exigência de pureza para quem serve no Templo, e a exigência paralela de aptidão física do sacerdote.

Vayikrá 22:3
אֱמֹר אֲלֵהֶם לְדֹרֹתֵיכֶם כָּל אִישׁ אֲשֶׁר יִקְרַב מִכָּל זַרְעֲכֶם אֶל הַקֳּדָשִׁים אֲשֶׁר יַקְדִּישׁוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל לַה', וְטֻמְאָתוֹ עָלָיו, וְנִכְרְתָה הַנֶּפֶשׁ הַהִוא מִלְּפָנַי, אֲנִי ה'.
Dize-lhes: por vossas gerações, todo homem dentre toda a vossa descendência que se aproximar das coisas sagradas que os filhos de Israel consagrarem ao Eterno, estando sua impureza sobre ele, essa alma será extirpada de diante de Mim; Eu sou o Eterno.
Yechezk'el 44:9
כָּל בֶּן נֵכָר עֶרֶל לֵב וְעֶרֶל בָּשָׂר, לֹא יָבוֹא אֶל מִקְדָּשִׁי.
Nenhum filho de estrangeiro, incircunciso de coração e incircunciso de carne, entrará em Meu santuário.

Do versículo sobre a impureza a Guemará deriva que o leigo que serve profana as coisas sagradas — pois "que se afastem" (וְיִנָּזְרוּ) é lido não apenas como advertência aos sacerdotes impuros, mas como sinal de que também o leigo que serve invalida a oferenda por seu simples toque indevido. Já o versículo de Yechezkel sobre o incircunciso é lido por analogia (hekesh) ao estrangeiro (ben nechar) mencionado ao seu lado: assim como o estrangeiro que serve invalida, também o incircunciso invalida. Os demais desqualificantes da lista — endoluto, carente de vestes, carente de expiação, mãos e pés não lavados, postura sentada ou sobre objetos — cada um tem sua própria derivação bíblica específica, discutida em detalhe na Guemará desta mishná e já mencionada, quanto às vestes sacerdotais e à lavagem das mãos e pés, em outros lugares da Torá que empregam a expressão "estatuto perpétuo" (חֻקַּת עוֹלָם).

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 2:1
כָּל מִי שֶׁאֵינוֹ כֹהֵן נִקְרָא זָר... אוֹנֵן נִקְרָא הָאָדָם שֶׁיָּמוּת לוֹ מֵת שֶׁחַיָּב עָלָיו אֲבֵלוּת... וְטָבוּל יוֹם לֹא נִגְמְרָה טָהֳרָתוֹ עַד הָעֶרֶב... וּמְחֻסַּר בְּגָדִים הוּא כֹהֵן הֶדְיוֹט שֶׁלֹּא יְהֵא בְּפָחוֹת מִד' בְּגָדִים... נִשְׁפַּךְ עַל הָרִצְפָּה וַאֲסָפוֹ פָּסוּל, רְצוֹנִי לוֹמַר אִם שָׁתַת מִצַּוַּאר הַזֶּבַח עַל הָאָרֶץ... וּמַה שֶּׁאָמַר בְּכָאן פָּסוּל, רְצוֹנִי לוֹמַר הַבָּשָׂר, אֲבָל הַבְּעָלִים מִתְכַּפְּרִים... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Rambam percorre cada um dos desqualificantes: o leigo é quem não é sacerdote; o endoluto é aquele cujo parente morreu e ainda não foi sepultado, sendo-lhe proibido comer das coisas sagradas enquanto durar seu luto; o imerso naquele dia ainda não completou sua purificação, que só se conclui ao anoitecer; o carente de vestes é o sacerdote comum que serve com menos de quatro vestes (ou o sumo sacerdote com menos de oito) — e, explica Rambam, assim como faltar vestes desqualifica, também um excesso de vestes desqualifica. Sobre o sangue derramado no pavimento, esclarece que a invalidação ocorre porque a Torá exige que o sangue seja recebido diretamente do pescoço do animal — não do chão. E explica que, nesses casos de erro na colocação do sangue, "inválido" refere-se à carne, que não pode mais ser comida; mas os donos já estão perdoados, pois, assim que o sangue chega ao altar (mesmo que de forma incorreta), a expiação já se realizou — e é por isso que não há pena de karet para esses casos, mesmo que a carne se torne proibida. Rambam encerra observando que a lei não segue Rabi Shimon quanto ao recebimento com a mão esquerda.

Bartenura · Zevachim 2:1
כָּל הַזְּבָחִים שֶׁקִּבֵּל דָּמָן זָר. שֶׁאֵינוֹ כֹהֵן, פָּסוּל, דִּכְתִיב וְיִנָּזְרוּ מִקָּדְשֵׁי בְנֵי יִשְׂרָאֵל וְלֹא יְחַלְּלוּ, לִמֵּד עַל הַזָּר שֶׁעָבַד שֶׁחִלֵּל אֶת הַקֳּדָשִׁים... קִבֵּל בַּשְּׂמֹאל פָּסָל, דִּכְתִיב וְלָקַח הַכֹּהֵן מִדַּם הַחַטָּאת בְּאֶצְבָּעוֹ וְנָתַן, מְלַמֵּד שֶׁלֹּא תְהֵא קַבָּלַת הַדָּם וְלֹא נְתִינָה אֶלָּא בְּיָמִין... וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים. נִשְׁפַּךְ עַל הָרִצְפָּה... נְתָנוֹ עַל הַכֶּבֶשׁ שֶׁלֹּא כְנֶגֶד הַיְסוֹד פָּסוּל, וּמִכָּל מָקוֹם נִתְכַּפְּרוּ הַבְּעָלִים, אֶלָּא שֶׁהַבָּשָׂר אֵינוֹ נֶאֱכָל.

Bartenura fundamenta cada desqualificante em seu versículo: o leigo, do versículo "que se afastem das coisas sagradas... e não profanem"; o recebimento com a esquerda, do versículo sobre o sacerdote que toma o sangue "com seu dedo" — expressão que, em todo lugar na Torá, indica a mão direita, derivada por analogia da purificação do leproso, onde o dedo direito é mencionado explicitamente. Sobre a disputa entre Rabi Shimon e os sábios quanto ao recebimento com a esquerda, explica que se trata de uma diferença na leitura do versículo — se ele se aplica também ao ato de "tomar" o sangue (posição dos sábios) ou apenas ao ato de "colocá-lo" no altar (posição de Rabi Shimon) — e que a lei segue os sábios: ambos os atos exigem a mão direita. Quanto aos erros de colocação sobre a rampa ou fora da base, confirma que os donos já estão expiados, mas a carne se torna proibida para consumo, pois a Torá dá o sangue "para expiar" — não para comer.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 15b
מתני' כל הזבחים. אונן — כל זמן שלא נקבר המת:

טבול יום — דשרץ ודמת ושאר טומאות שלא הוצרכו לקרבן:

מחוסר כפורים — זב ומצורע שטבלו והעריב שמשן ולא הביאו כפרתן:

מחוסר בגדים — כהן גדול ששימש בפחות משמונה וכהן הדיוט בפחות מד':

ערל — כהן שמתו אחיו מחמת מילה:

יושב או עומד על גבי כלים — שיש חציצה בין רגליו לרצפה, וכולהו יליף בגמ' דפסלי בעבודה:

גמ' וינזרו מקדשי וגו' — גבי מקריבים בטומאה כתיב... אלא הכי קאמר, וינזרו מקדשי — יתרחקו בטומאה מכל קדשים, בני ישראל לא יחללו — והזרים אף הם ינזרו, כדי שלא יחללום, לימד על זר שעבד שחילל את הקדשים ופסלם:

בעל מום שאוכל — את קדשי קדשים, דכתיב מקדשי הקדשים ומן הקדשים יאכל. אם עבד חילל — דכתיב מום בו ולא יחלל את מקדשי:

Rashi passa por cada termo da mishná: o endoluto permanece nesse estatuto enquanto seu parente não for sepultado; o imerso naquele dia é quem se purificou de um réptil, de um cadáver ou de outras impurezas que exigem esse tipo de sacrifício; o carente de expiação é o zav ou o metzora que já se imergiram e aguardaram o anoitecer, mas ainda não trouxeram o sacrifício que completa sua purificação; o incircunciso é o sacerdote cujos irmãos morreram por causa da circuncisão (e por isso ele próprio permanece incircunciso, por razão médica); e estar sentado ou em pé sobre objetos invalida porque cria uma separação entre os pés do sacerdote e o piso do Templo — todos esses casos, explica Rashi, a Guemará deriva como desqualificantes do serviço a partir de fontes bíblicas específicas. Sobre a fonte do leigo, Rashi explica que o versículo "que se afastem das coisas sagradas dos filhos de Israel" é lido em duas partes: os próprios sacerdotes impuros devem se afastar, e também os leigos devem se afastar — "para que não as profanem" — ensinando que o leigo que serve profana e invalida as coisas sagradas. E, por analogia com o portador de defeito físico, que profana o serviço quando serve (pois está excluído por "não profanará Meus santuários"), o mesmo se aplica, a fortiori, aos demais desqualificantes desta mishná.