Aquele que abate a oferenda com a intenção de aspergir seu sangue fora, ou parte de seu sangue fora; de queimar suas partes fora, ou parte de suas partes fora; de comer sua carne fora, ou um azeitona de sua carne fora, ou de comer um azeitona da pele da cauda gorda fora — é inválida, e não há nela karet. — Se, no momento do abate, o sacerdote teve em mente que o sangue seria aspergido, as partes gordurosas seriam queimadas, ou a carne seria comida — mesmo que apenas na medida mínima de um azeitona — fora dos limites do pátio do Templo, a oferenda se torna inválida. A menção específica da pele da cauda gorda (que normalmente acompanha a cauda gorda ao altar, sendo queimada com ela) ensina que essa pele é tratada como algo "que costuma ser comido" — e não como parte do que "costuma ser queimado" — de modo que a intenção de comê-la fora do Templo também invalida por essa via específica. Em todos esses casos, porém, a Torá não impõe a pena de karet a quem vier a comer dessa carne, pois a intenção era de lugar, não de tempo.
Mas se teve a intenção de aspergir seu sangue no dia seguinte, ou parte de seu sangue no dia seguinte; de queimar suas partes no dia seguinte, ou parte de suas partes no dia seguinte; de comer sua carne no dia seguinte, ou um azeitona de sua carne no dia seguinte, ou um azeitona da pele da cauda gorda no dia seguinte — é pigul, e são responsáveis por ele ao karet. — A mesma lista de ações e medidas, mas com a intenção voltada não para o espaço, e sim para o tempo — realizar a aspersão, a queima ou o consumo apenas no dia seguinte, além do prazo em que a oferenda deveria ser consumida — produz uma categoria de invalidação muito mais grave: o pigul. Diferentemente da invalidação simples por "fora do lugar", que apenas proíbe a carne, o pigul acarreta a pena de karet, extirpação espiritual, para quem vier a comer dessa carne — mesmo que a coma dentro do prazo correto, pois o defeito está na intenção original do sacerdote, não no momento real do consumo.
O versículo central da categoria de pigul, que estabelece a invalidação grave por comer a oferenda além de seu prazo.
A Guemará desta mishná lê o versículo como referindo-se a quem, no momento do abate, já tinha em mente comer da oferenda no terceiro dia — não a quem realmente vem a comer nesse dia, pois, se a oferenda já foi validamente aceita no altar, um ato posterior não poderia mais desqualificá-la retroativamente. Da expressão dobrada "הֵאָכֹל יֵאָכֵל" (comer, será comido) a tradição deriva que o versículo fala de dois tipos de "comer": o consumo humano da carne, e o "consumo" do altar, isto é, a queima das partes gordurosas sobre o fogo. Por isso a mishná lista tanto a intenção de comer a carne quanto a de queimar as partes fora do prazo devido, unindo-as sob a mesma categoria grave de pigul — em contraste com a intenção de lugar (fora do Templo), que a Torá não submete a essa pena, mas apenas à invalidação simples.
Rambam observa que a cauda gorda em si é uma das partes queimadas no altar, mas sua pele não segue o mesmo estatuto — pois a intenção de invalidar exige que se pense em comer algo cujo costume normal seja ser comido (como a carne), ou em queimar algo cujo costume normal seja ser queimado (como as partes gordurosas). Como a pele da cauda gorda não é normalmente queimada, pensar em comê-la é tratado como a intenção de comer algo comestível — daí sua menção separada na mishná. Rambam explica ainda a diferença entre as duas categorias de invalidação usadas ao longo da massechet: quando a mishná diz "inválido e sem karet", a carne fica proibida, mas os donos já estão expiados; quando diz "pigul, e responsáveis ao karet", quem come da carne é punido com karet, e os donos não se consideram expiados por aquele sacrifício, precisamente porque ele é pigul.
Bartenura esclarece que "a oferenda" da mishná refere-se à oferenda de paz ou a outras oferendas cuja carne é comida pelos donos. Sobre a pele da cauda gorda, confirma que a mishná vem justamente ensinar que ela não é tratada como a própria cauda gorda (que é queimada), mas como algo comestível — por isso a intenção de comê-la fora invalida. E faz uma observação técnica importante: quando a mishná fala em "comer sua carne no dia seguinte" como caso de pigul, isso só pode se referir à oferenda de agradecimento ou à oferenda de pecado — pois, no caso da oferenda de paz comum, cujo prazo de consumo já se estende por dois dias e uma noite, "o dia seguinte" ainda está dentro do prazo permitido para comer a carne. Mas quanto à aspersão do sangue e à queima das partes, mesmo na oferenda de paz, fazê-las apenas no dia seguinte já está fora do prazo devido — pois essas ações devem ocorrer no mesmo dia do abate.
Rashi confirma que "a oferenda" desta mishná se refere às oferendas de paz e às demais categorias cuja carne é comida pelos donos ou sacerdotes — e não às oferendas totalmente queimadas, como a oferenda de subida. Sobre "inválido e sem karet", esclarece que mesmo quem come dessa carne fora do Templo — o que normalmente seria uma transgressão grave por si só — não recebe aqui a pena de karet especificamente por causa dessa invalidação prévia (embora possa haver, por outro motivo, proibição de comer fora). Repete a observação técnica de que "comer sua carne no dia seguinte" só se aplica à oferenda de agradecimento, à de pecado e à de culpa, já que a oferenda de paz comum ainda está em seu prazo de consumo no dia seguinte ao abate; mas a aspersão do sangue e a queima das partes gordurosas, mesmo na oferenda de paz, tornam-se "fora do tempo" já no dia seguinte. E remete à Guemará para a derivação bíblica completa de por que a intenção de pigul acarreta karet mesmo para quem come dentro do prazo correto.