Este é o princípio: todo aquele que abate, que recebe, que transporta, ou que asperge, com a intenção de comer algo cujo costume é ser comido, ou de queimar algo cujo costume é ser queimado, fora de seu lugar — é inválido, e não há nele karet. Fora de seu tempo — é pigul, e são responsáveis por ele ao karet, contanto que o fator que permite seja oferecido conforme seu preceito. — Onde a mishná anterior falava apenas do abate, esta generaliza a regra para as quatro avodot inteiras: abate, recebimento, transporte e aspersão. Em qualquer uma delas, se o sacerdote tiver em mente comer a carne ou queimar as partes fora do lugar devido — a oferenda se invalida, sem a pena de karet. Se a intenção for de fazê-lo fora do tempo devido — a oferenda se torna pigul, com pena de karet para quem dela comer. Mas a mishná acrescenta uma condição essencial, nova em relação às mishnayot anteriores: essa gravidade de pigul só se aplica "contanto que o fator que permite seja oferecido conforme seu preceito" — isto é, que o sangue, cuja aspersão é o que "permite" a carne ser comida e as partes serem queimadas, tenha sido oferecido sem nenhum defeito que o desqualificasse por outra via. Se houve, além da intenção de pigul, algum outro defeito na oferenda do sangue, a oferenda sai da categoria de pigul (mais grave) e cai apenas na invalidação simples (sem karet) — pois um sangue já defeituoso não tem mais o poder de "permitir" definitivamente a carne, e por isso não pode transmitir a ela a gravidade do pigul.
O mesmo versículo de pigul, agora lido pela Guemará como fonte também da condição do "fator que permite oferecido conforme seu preceito".
A Guemará lê a palavra "לֹא יֵרָצֶה" (não será aceito) como referência específica à aspersão do sangue — o ato que, nas oferendas válidas, "aceita" e completa o processo de expiação no altar. Ao comparar a "aceitação" da oferenda válida com a "aceitação" (retórica) da oferenda pigul, a Guemará deriva que, assim como a aceitação de uma oferenda válida só se completa quando todos os quatro atos que a "permitem" (abate, recebimento, transporte e aspersão) tiverem sido realizados sem nenhum defeito, também a gravidade do pigul só se fixa definitivamente quando esses mesmos quatro atos tiverem sido realizados sem nenhum outro defeito além da própria intenção de pigul. Se algum defeito adicional entrar no processo, a oferenda escapa da categoria de pigul — daí a condição "contanto que o fator que permite seja oferecido conforme seu preceito" com que a mishná fecha o princípio geral.
Rambam explica que toda a mishná deriva do versículo de pigul, e detalha o mecanismo: se, em qualquer uma das quatro avodot, o sacerdote pensou em comer ou queimar a oferenda fora de seu tempo devido, ela se torna pigul, e quem dela come é punido com karet — não importa se a intenção foi de comer a carne (consumo humano) ou de queimar as partes (consumo do altar), pois ambos derivam da mesma expressão bíblica dobrada. Mas se não houve nenhum outro defeito na oferenda além dessa intenção de tempo, e sobrou carne além do prazo de consumo sem que tenha havido intenção prévia, isso se chama notar (sobra), não pigul — categoria que Rambam pede para o leitor lembrar ao longo de toda a mishná. Sobre a condição final, cita a regra da Guemará: assim como a aceitação de uma oferenda válida só se completa quando todas as avodot que a permitem forem realizadas sem defeito algum, a "aceitação" retórica da oferenda pigul segue a mesma lógica — só se fixa definitivamente como pigul se nenhum outro defeito, anterior ou posterior à intenção de tempo, tiver ocorrido nas mesmas avodot.
Bartenura confirma que a mishná fala de qualquer uma das quatro avodot, e detalha, a partir do versículo, por que o pigul se chama assim: da expressão "הֵאָכֹל יֵאָכֵל" derivam-se dois tipos de consumo, o humano e o do altar — e sobre ambos recai a mesma advertência "não será considerado, pigul será". Sobre "contanto que o fator que permite seja oferecido conforme seu preceito", explica que o termo "o que permite" refere-se ao sangue, e "conforme seu preceito" significa que ele não pode ter nenhum outro defeito — pois, se houver, o pigul "sai" dessa categoria mais grave. Ele funda essa regra na comparação da Guemará: assim como a aceitação de uma oferenda válida só é chamada "aceitação" a partir da aspersão, o último dos quatro atos que permitem a oferenda, também o pigul não se fixa como categoria definitiva enquanto o sangue não for aspergido sem nenhum outro defeito — permanecendo, até esse momento, "suspenso".
Rashi esclarece que a lista das quatro avodot na mishná é uma enumeração de alternativas — qualquer uma delas, isoladamente, é suficiente para produzir a invalidação ou o pigul. Sobre "algo cujo costume é ser comido" e "algo cujo costume é ser queimado", identifica-os respectivamente com a carne (destinada ao consumo humano) e as partes gordurosas (destinadas ao altar), lembrando que ambas derivam da mesma leitura dobrada do versículo de pigul, já explicada anteriormente na Guemará — e observa que a intenção deve ser de dar a cada elemento seu próprio destino impróprio: as partes para o altar, a carne para a pessoa. Sobre a condição final, confirma que "o que permite" é o sangue, e que "conforme seu preceito" significa livre de qualquer outro defeito — pois, havendo um pensamento adicional que desqualifique a oferenda por outra via, ela "sai" da categoria de pigul, já que, como explicado antes na Guemará, diferentes intenções desqualificantes se excluem mutuamente, e apenas uma predomina.