Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Guimel · Mishná 2 de 6

O erro que se conserta: devolver o sangue ao lugar certo

קִבֵּל הַכָּשֵׁר וְנָתַן לַפָּסוּל, יַחֲזִיר לַכָּשֵׁר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de tratar de quem é apto para o recebimento do sangue, a mishná examina uma série de deslizes que podem ocorrer entre o recebimento e a aspersão — o sangue passa por mãos ou vasos que não deveria, ou é colocado no altar num ponto que não o seu. Em todos esses casos, o erro se corrige sem que a oferenda seja perdida.

Se o apto recebeu e deu ao desqualificado, que devolva ao apto. Se recebeu com a direita e deu à esquerda, que devolva à direita. Se recebeu em vaso sagrado e deu em vaso profano, que devolva a vaso sagrado.Estes três casos descrevem o mesmo tipo de situação: o sacerdote apto realizou corretamente o recebimento do sangue, mas, num segundo momento, o transferiu para uma condição imprópria — a mão de um desqualificado, sua própria mão esquerda, ou um vaso comum. Como o recebimento original foi válido, a oferenda não está perdida: basta que o sangue seja devolvido à condição correta — à mão do apto, à mão direita, ao vaso sagrado — para que o serviço prossiga normalmente.

Se derramou do vaso sobre o piso e o recolheu, é válido.Mesmo quando o sangue chega a tocar o chão do átrio — perdendo, por um instante, o contato com qualquer vaso —, ele não se torna, por isso, imprestável: pode ser recolhido do próprio piso e a oferenda permanece plenamente válida.

Se o colocou sobre a rampa, não em frente à base; se colocou os destinados a baixo, em cima, e os destinados a cima, embaixo; os destinados a dentro, fora, e os destinados a fora, dentro — se há sangue da alma, que o apto volte e receba.Este último caso é mais grave: aqui não se trata de um erro no manuseio do sangue antes da aspersão, mas de uma aspersão já realizada — por um desqualificado — no ponto errado do altar: na rampa de acesso em vez de sobre o próprio altar, num lado que não está em frente à base, acima da linha vermelha quando deveria ser abaixo (ou o inverso), ou dentro do Santuário quando deveria ser fora (ou o inverso). Como quem realizou essa aspersão era um desqualificado, ela não tem validade alguma — nem para o bem, nem para invalidar a oferenda. A solução, então, é a mesma do início do capítulo: se ainda houver sangue da alma no animal, um sacerdote apto simplesmente volta e recebe o sangue de novo, como se nada tivesse ocorrido.

קִבֵּל הַכָּשֵׁר וְנָתַן לַפָּסוּל, יַחֲזִיר לַכָּשֵׁר. קִבֵּל בִּימִינוֹ וְנָתַן לִשְׂמֹאלוֹ, יַחֲזִיר לִימִינוֹ. קִבֵּל בִּכְלִי קֹדֶשׁ וְנָתַן בִּכְלִי חֹל, יַחֲזִיר לִכְלִי קֹדֶשׁ. נִשְׁפַּךְ מִן הַכְּלִי עַל הָרִצְפָּה וַאֲסָפוֹ, כָּשֵׁר. נְתָנוֹ עַל גַּבֵּי הַכֶּבֶשׁ, שֶׁלֹּא כְנֶגֶד הַיְסוֹד, נָתַן אֶת הַנִּתָּנִין לְמַטָּה, לְמַעְלָה, וְאֶת הַנִּתָּנִים לְמַעְלָה, לְמַטָּה, אֶת הַנִּתָּנִים בִּפְנִים, בַּחוּץ, וְאֶת הַנִּתָּנִים בַּחוּץ, בִּפְנִים, אִם יֵשׁ דַּם הַנֶּפֶשׁ, יַחֲזֹר הַכָּשֵׁר וִיקַבֵּל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 3:2
הוֹדִיעָנוּ שֶׁמֵּאַחַר שֶׁהַקַּבָּלָה כְּשֵׁרָה, אֵינוֹ בָּא לִידֵי פְּסוּל מִן הַפְּסוּלִים... וְזֶה הַדָּם שֶׁקִּבֵּל אוֹתוֹ הַכָּשֵׁר וּנְתָנוֹ לַפָּסוּל, אִם זָרַק אוֹתוֹ הַפָּסוּל וְשִׁנָּה מְקוֹמוֹ, שֶׁהַקָּרְבָּן אֵינוֹ נִפְסָל, הוֹאִיל וְזֶה שֶׁשִּׁנָּה הַשִּׁנּוּי הַזֶּה אֵינוֹ רָאוּי לִזְרִיקָה, וּכְמוֹ שֶׁאֵין מַחְשַׁבְתּוֹ פּוֹסֶלֶת... הוֹאִיל וְאֵינוֹ רָאוּי לְאוֹתָהּ עֲבוֹדָה גַּם כֵּן, אֵין פּוֹסְלִין מַעֲשָׂיו, אֶלָּא שֶׁאִם נִשְׁאַר מִדַּם הַנֶּפֶשׁ, שֶׁיַּחֲזֹר הַכָּשֵׁר וִיקַבֵּל וְיִזְרֹק הַדָּם בִּמְקוֹמוֹ. וּזְכֹר זֶה הָעִקָּר, וְהוּא מַה שֶּׁאָמַר: אֵין מַחֲשָׁבָה מוֹעֶלֶת אֶלָּא בְּמִי שֶׁרָאוּי לָעֲבוֹדָה, וּבְדָבָר הָרָאוּי, וּבְמָקוֹם הָרָאוּי לַעֲבֹד.

Rambam esclarece a lógica por trás de toda a mishná: uma vez que o recebimento inicial do sangue foi realizado corretamente por um sacerdote apto, nenhum manuseio incorreto posterior — passar o sangue a um desqualificado, trocá-lo de mão, mudar seu vaso — tem o poder de invalidar a oferenda, pois todos esses atos intermediários são apenas passagem, não a avodá que "conta" halachicamente. E, quanto à aspersão feita por um desqualificado no local errado do altar, aplica-se o mesmo princípio central que já apareceu na mishná anterior: como esse desqualificado não é apto para a avodá da aspersão, seu ato sequer produz um resultado halachico — nem para invalidar, nem para cumprir a mitzvá — restando apenas a necessidade prática de que um sacerdote apto refaça o recebimento, caso ainda haja sangue da alma disponível.

Bartenura · Zevachim 3:2
יַחֲזִיר לַכָּשֵׁר. וְלֹא מִפְּסַל בְּמַה שֶּׁנָּתַן אוֹתוֹ לַפָּסוּל. נְתָנוֹ. פָּסוּל. עַל גַּבֵּי הַכֶּבֶשׁ שֶׁלֹּא כְנֶגֶד הַיְּסוֹד. דְּהַוְיָא נְתִינָה שֶׁלֹּא בִמְקוֹמָהּ, אוֹ שֶׁנָּתַן אֶת הַנִּתָּנִים לְמַטָּה לְמַעְלָה, יַחֲזֹר הַכָּשֵׁר וִיקַבֵּל. וּצְרִיכָא לְאַשְׁמְעִינַן בְּכֻלְּהוּ דְּאִית לֵיהּ תַּקָּנְתָּא בַּחֲזָרָה... דְּאִי אַשְׁמְעִינַן בְּרֵישָׁא, הֲוָה אֲמֵינָא הָנָךְ דַּחֲזוּ לַעֲבוֹדַת צִבּוּר, כְּגוֹן טָמֵא דַּחֲזִי לְכַתְּחִלָּה בְּצִבּוּר, הִלְכָּךְ גַּבֵּי יָחִיד אִיכָּא תַקָּנְתָּא בַּחֲזָרָה, אֲבָל שְׂמֹאל דְּלֹא חַזְיָא לַעֲבוֹדַת צִבּוּר אֵימָא דְּלֵית לֵיהּ תַּקָּנְתָּא בַּחֲזָרָה... וְאִי אַשְׁמְעִינַן כְּלִי חֹל, מִשּׁוּם דַּחֲזוּ לְקַדְּשִׁינְהוּ, אֲבָל הָנָךְ אֵימָא לֹא, צְרִיכָא.

Bartenura afirma que dar o sangue a um desqualificado não invalida a oferenda — basta devolvê-lo ao sacerdote apto. E explica por que a mishná precisou repetir a mesma lição ("basta corrigir") em quatro variações aparentemente redundantes: cada caso poderia, isoladamente, levar a uma conclusão errada se não fosse dito explicitamente. Por exemplo, se só o caso do desqualificado fosse ensinado, poder-se-ia pensar que a possibilidade de correção existe apenas porque impuros são aptos para o serviço público em certas condições — mas a mão esquerda, que nunca serve para nenhuma avodá, poderia não ter essa mesma correção; e, inversamente, se só o caso da mão esquerda fosse ensinado, poder-se-ia pensar que ela tem correção por haver um precedente de uso da esquerda no serviço de Iom Kipur — mas o vaso profano, que nunca tem qualquer santidade, poderia não ter correção. Por isso a mishná precisou mencionar cada caso separadamente.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 32a
יחזיר לכשר — דלא מיפסיל בהכי, ובפרק ראשון (דף יד:) שנינן לה, למאן דאית ליה הולכה שלא ברגל שמה הולכה, למר כדאית ליה ולאידך כדאית ליה:

נתנו — הפסול, על גבי הכבש או שלא כנגד היסוד כו':

יחזור הכשר ויקבל — אי סבירא לן דפסול עושה שיריים, אשמעינן האי תנא דשלא במקומו לאו כמקומו דמי, לפיכך לא עשאן שיריים, ואי סבירא ליה דשלא במקומו כמקומו דמי והויא לה זריקה גמורה באדם פסול, אשמעינן דאין פסול עושה שיריים:

Rashi confirma que dar o sangue a um desqualificado não invalida a oferenda, e observa que a discussão sobre se "andar sem correr" já conta como o ato de "levar" o sangue — mencionada no Perek Alef — se aplica de formas diferentes conforme a opinião de cada amora, sem afetar a conclusão desta mishná. Sobre a aspersão feita por um desqualificado no lugar errado, Rashi explica a razão prática de a mishná precisar ensiná-la: há uma dúvida se um ato desqualificado (como a aspersão de um pasul) "consome" o sangue restante — tornando-o resíduo (shiyarim) mesmo sem cumprir a mitzvá corretamente. Se entendemos que uma aspersão "fora do seu lugar" não é equivalente a uma aspersão "no seu lugar", ela não consome nada, e por isso é necessário ensinar que um sacerdote apto pode voltar e receber de novo; mas, se entendêssemos que aspergir fora do lugar é como aspergir no lugar certo — e portanto contaria como uma aspersão completa, ainda que feita por um desqualificado —, a mishná vem ensinar que, mesmo assim, um ato de pessoa desqualificada nunca "consome" o sangue como resíduo, permitindo sempre a correção.