Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Guimel · Mishná 1 de 6

Quem pode abater: desqualificados são aptos para o abate

כָּל הַפְּסוּלִין שֶׁשָּׁחֲטוּ שְׁחִיטָתָן כְּשֵׁרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O Perek Guimel abre tratando de quem é apto para realizar cada etapa do serviço sacrifical. O abate em si — diferente do recebimento, do transporte e da aspersão do sangue — não exige um sacerdote, e por isso a mishná começa afirmando sua validade mesmo quando realizado por quem, para as demais avodot, seria um desqualificado.

Todos os desqualificados para o serviço que abateram — seu abate é válido. Pois o abate é válido em não-sacerdotes, em mulheres, em escravos e em impuros, mesmo em ofertas de santidade máxima, contanto que os impuros não estejam tocando na carne.A Torá determina que o sangue seja recebido e oferecido pelos filhos de Aarão, mas não impõe essa mesma exigência ao abate: "e degolará o novilho... e os filhos de Aarão, os sacerdotes, oferecerão o sangue" (Vayikrá 1:5) — a obrigação sacerdotal começa apenas a partir do recebimento do sangue em diante. Por isso, o próprio abate, sendo uma etapa preparatória e não uma avodá reservada ao sacerdócio, pode ser realizado desde o início por qualquer pessoa apta a agir com intenção — homem ou mulher, sacerdote ou leigo, livre ou escravo — e até por um impuro, mesmo em oferendas de santidade máxima, desde que ele não toque com as mãos na carne já abatida, o que a tornaria impura.

Portanto, eles invalidam por intenção.Precisamente porque essas pessoas são aptas para o próprio ato do abate, sua intenção durante essa avodá tem o mesmo peso que a de um sacerdote apto: se, ao abater, tiverem em mente comer a carne ou queimar as partes fora de seu tempo ou de seu lugar devidos, a oferenda se torna pigul ou inválida, exatamente como se fosse um sacerdote íntegro abatendo. O princípio geral, que ficará ainda mais claro nas mishnayot seguintes, é que a intenção só tem poder de invalidar quando expressa por quem é apto para aquela avodá específica.

E todos eles, que receberam o sangue fora de seu tempo e fora de seu lugar — se há sangue da alma, que o apto volte e receba.Aqui a mishná muda de avodá: o recebimento do sangue (kabalat hadam), diferente do abate, é reservado aos sacerdotes — a Torá o exige explicitamente dos "filhos de Aarão". Por isso, quando um desqualificado — leigo, mulher, escravo ou impuro — realiza esse recebimento com intenção proibida, essa intenção não tem poder algum de invalidar a oferenda, pois ele não era apto para aquela avodá em primeiro lugar; sua ação sequer conta como um recebimento válido. A solução é simples: se ainda restar no animal sangue da alma — o sangue essencial cuja saída causa a morte —, um sacerdote apto simplesmente volta e o recebe corretamente, como se o recebimento anterior nunca tivesse ocorrido.

כָּל הַפְּסוּלִין שֶׁשָּׁחֲטוּ, שְׁחִיטָתָן כְּשֵׁרָה. שֶׁהַשְּׁחִיטָה כְשֵׁרָה בְּזָרִים, בְּנָשִׁים, וּבַעֲבָדִים, וּבִטְמֵאִים, אֲפִלּוּ בְקָדְשֵׁי קָדָשִׁים, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִהְיוּ טְמֵאִים נוֹגְעִים בַּבָּשָׂר. לְפִיכָךְ הֵם פּוֹסְלִים בְּמַחֲשָׁבָה. וְכֻלָּן שֶׁקִּבְּלוּ אֶת הַדָּם חוּץ לִזְמַנּוֹ וְחוּץ לִמְקוֹמוֹ, אִם יֵשׁ דַּם הַנֶּפֶשׁ, יַחֲזֹר הַכָּשֵׁר וִיקַבֵּל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 3:1
אָמַר רַחֲמָנָא: וְשָׁחַט אֶת בֶּן הַבָּקָר לִפְנֵי ה', וְהִקְרִיבוּ בְּנֵי אַהֲרֹן. לֹא הִתְנָה בַּשְּׁחִיטָה "בְּנֵי אַהֲרֹן", אֶלָּא שׁוֹחֵט כָּל מִי שֶׁיִּרְצֶה, וּמִקַּבָּלַת הַדָּם וָאֵילָךְ צָרִיךְ כֹּהֵן... וְדַע שֶׁמֻּתָּר לְכַתְּחִלָּה לְזָר וּלְאִשָּׁה וּלְעֶבֶד שֶׁיִּשְׁחֲטוּ קָדָשִׁים... וְהַטָּמֵא לְכַתְּחִלָּה לֹא יִשְׁחֹט, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִגַּע בַּבָּשָׂר... וּכְבָר אָמַרְנוּ בְּפֶרֶק ב' מֵהַמַּסֶּכֶת הַזֹּאת שֶׁכָּל הַזְּבָחִים שֶׁקִּבֵּל דָּמָן אוֹנֵן וְזָר יִפָּסְלוּ... אֲבָל אֵלּוּ הַפְּסוּלִים שֶׁאֵינָן רְאוּיִין לְקַבָּלָה, אִם פְּסָלוּ בְּמַחֲשָׁבָה בִּשְׁעַת הַקַּבָּלָה, לֹא נִפְסַל הַקָּרְבָּן, לְפִי שֶׁאִם נוֹתַר כָּל שֶׁהוּא מִדַּם הַנֶּפֶשׁ, יַחֲזֹר הַכָּשֵׁר וִיקַבֵּל בְּמַחֲשָׁבָה כְּשֵׁרָה, שֶׁאֵין פּוֹסֵל הַקָּרְבָּן בְּמַחֲשָׁבָה בַּעֲבוֹדָה מִן הָעֲבוֹדוֹת אֶלָּא הָרָאוּי לְאוֹתָהּ עֲבוֹדָה.

Rambam funda a distinção da mishná diretamente no versículo: "e degolará o novilho... e os filhos de Aarão, os sacerdotes, oferecerão o sangue" — a exigência de "filhos de Aarão" recai apenas sobre o recebimento do sangue em diante, nunca sobre o abate. Por isso é permitido, mesmo a princípio (lechatchilá) e não apenas de fato consumado, que um leigo, uma mulher ou um escravo abatam oferendas sagradas; já o impuro, embora seu abate também seja válido, não deve fazê-lo a princípio, por receio de que toque na carne. Rambam então explica a lógica da segunda metade da mishná: já foi ensinado, no Perek Bet, que qualquer oferenda cujo sangue foi recebido por um endoluto ou um leigo é invalidada — mas isso vale para quem seria apto à avodá se não fosse por aquele impedimento específico. Os desqualificados aqui mencionados, porém, jamais são aptos ao recebimento do sangue; por isso, mesmo que tenham invalidado por intenção durante esse ato, a oferenda não se torna inválida — pois a intenção só desqualifica quando expressa por quem é apto para aquela avodá.

Bartenura · Zevachim 3:1
כָּל הַפְּסוּלִין שֶׁשָּׁחֲטוּ שְׁחִיטָתָן כְּשֵׁרָה. וְהוּא הַדִּין דַּאֲפִלּוּ לְכַתְּחִלָּה שׁוֹחֲטִין, דִּכְתִיב "וְשָׁחַט אֶת בֶּן הַבָּקָר וְהִקְרִיבוּ בְּנֵי אַהֲרֹן הַכֹּהֲנִים אֶת הַדָּם", מִקַּבָּלָה וָאֵילָךְ מִצְוַת כְּהֻנָּה, לִמֵּד עַל הַשְּׁחִיטָה שֶׁכְּשֵׁרָה בְּזָרִים וּבִפְסוּלִים... אֶלָּא מִשּׁוּם טְמֵאִים בִּלְבָד, דְּטָמֵא לְכַתְּחִלָּה לֹא יִשְׁחֹט, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִגַּע בַּבָּשָׂר. לְפִיכָךְ הֵן פּוֹסְלִים אֶת הַקָּרְבָּן בְּמַחֲשָׁבָה. הוֹאִיל וּרְאוּיִין לַעֲבוֹדָה זוֹ, מַחֲשַׁבְתָּן מַחֲשָׁבָה וּפוֹסֶלֶת. אִם יֵשׁ דַּם הַנֶּפֶשׁ. עוֹד בַּבְּהֵמָה, יַחֲזֹר הַכָּשֵׁר לָעֲבוֹדָה וִיקַבֵּל וְיִזְרֹק, וְהַזֶּבַח כָּשֵׁר, שֶׁאֵין מַחֲשַׁבְתָּן שֶׁל אֵלּוּ פּוֹסַלְתָּן בְּקַבָּלָה, לְפִי שֶׁאֵינָן רְאוּיִין לָהּ, וְאֵין הַמַּחֲשָׁבָה פּוֹסֶלֶת אֶלָּא בְּמִי שֶׁרָאוּי לָעֲבוֹדָה, וּבַדָּבָר הָרָאוּי, וּבַמָּקוֹם הָרָאוּי לַעֲבֹד, דִּכְתִיב "הַמַּקְרִיב אֹתוֹ לֹא יֵחָשֵׁב" — בָּרָאוּי לְהַקְרָבָה הַכָּתוּב מְדַבֵּר.

Bartenura confirma que a permissão vale desde o início, não apenas em retrospecto: leigos e demais desqualificados podem abater oferendas sagradas mesmo a princípio; apenas o impuro deve evitá-lo a priori, por receio de tocar na carne. Explica a segunda cláusula com clareza: como esses desqualificados são aptos justamente para esta avodá — o abate —, sua intenção durante ela é uma intenção válida, capaz de invalidar. E, sobre o recebimento do sangue, fecha com o princípio geral, apoiado no versículo de Vayikrá 7 ("aquele que a oferece, não lhe será imputado") — a Escritura fala de quem é apto para a oferenda: a intenção só invalida quando expressa por quem é apto para aquela avodá, com o objeto adequado, e no lugar adequado para realizá-la.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 31b
מתני' כל הפסולין ששחטו שחיטתן כשרה — כדיליף בגמ':

ובטמאים — בטמא שרץ קאמר שאינו מטמא כלי דלאו אב הטומאה הוא, או בטמא מת וכגון שבדק קרומית של קנה ושחט בה, אבל בסכין לא, שהוא מטמא את הסכין והסכין מטמא את הבשר, וכגון דעביד סכין אריכא ושחיט:

לפיכך הן פוסלין — את הקרבן במחשבה, אם שחטוהו במחשבה, הואיל וראוין לעבודה זו מחשבתן מחשבה:

Rashi remete a validade do abate por desqualificados à derivação que a Guemará faz do versículo. Sobre o impuro, precisa duas situações em que ele consegue abater sem transmitir impureza ao instrumento: se sua impureza vem de um réptil (sheretz), que não é uma "fonte primária de impureza" e por isso não contamina o utensílio; ou, no caso de impureza por contato com um morto, se ele abate com uma lasca de caniço em vez de faca de metal — pois o metal se tornaria impuro e transmitiria a impureza à carne —, valendo-se ainda de uma faca comprida que lhe permita ficar fora do átrio enquanto abate o animal que está dentro. E confirma o motivo da segunda cláusula: precisamente porque são aptos para esta avodá específica, a intenção desses desqualificados durante o abate é uma intenção plena, capaz de invalidar a oferenda.