Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Bet · Mishná 5 de 5 (última do perek)

Somando meios-azeitonas: quando o tempo precede o lugar

לֶאֱכֹל כַּזַּיִת בַּחוּץ וְכַזַּיִת לְמָחָר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do perek examina um caso-limite: e se a intenção de "fora do lugar" e a intenção de "fora do tempo" — que, juntas na mesma avodá, tirariam a oferenda da categoria de pigul (2:4) — vierem cada uma em quantidade menor que um azeitona, mas se somando entre si para completar essa medida? A resposta depende da ordem: qual intenção veio primeiro.

Se teve a intenção de comer um azeitona fora e um azeitona no dia seguinte; um azeitona no dia seguinte e um azeitona fora; meio azeitona fora e meio azeitona no dia seguinte; meio azeitona no dia seguinte e meio azeitona fora — é inválido, e não há nele karet.A mishná retoma o caso de 2:4 em que as intenções de lugar e de tempo se misturam — mas agora considerando também a possibilidade de que cada intenção, isoladamente, seja de apenas meio azeitona (metade da medida mínima que costuma invalidar). Mesmo assim, as duas metades se somam para completar a medida de um azeitona inteiro, e a mistura de dois tipos de intenção (lugar e tempo) na mesma avodá — seguindo o princípio de 2:4 — resulta apenas em invalidação simples, sem a gravidade do pigul, seja qual for a ordem em que as intenções ocorreram.

Disse Rabi Yehudá: este é o princípio: em qualquer caso em que a intenção de tempo precedeu a intenção de lugar, é pigul, e são responsáveis por ele ao karet; e se a intenção de lugar precedeu a intenção de tempo, é inválido, e não há nele karet. E os sábios dizem: neste caso e naquele caso, é inválido, e não há nele karet.Rabi Yehudá discorda do princípio geral de 2:4 e desta mishná: para ele, a ordem das intenções importa. Se o sacerdote primeiro teve em mente "fora do tempo" e só depois, na mesma ação, "fora do lugar", a primeira intenção já "fixou" a gravidade de pigul sobre a oferenda, e a intenção posterior de lugar não tem mais poder de neutralizá-la — permanecendo pigul. Mas, se a ordem for inversa (lugar primeiro, tempo depois), a intenção de lugar já retirou a oferenda de qualquer possibilidade de pigul, e a intenção de tempo posterior não pode mais "reintroduzi-la" nessa categoria — permanecendo apenas inválida. Os sábios, discordando, sustentam que a ordem é irrelevante: em ambos os casos, a simples presença de dois tipos de intenção já impede o pigul, e o resultado é sempre a invalidação simples.

Se teve a intenção de comer meio azeitona e de queimar meio azeitona, é válido, pois comer e queimar não se somam.A mishná fecha com um caso que, à primeira vista, parece semelhante — duas metades de azeitona — mas que na verdade não se soma de forma alguma: aqui as duas metades referem-se a dois destinos diferentes da mesma oferenda (uma parte destinada ao consumo humano, outra às partes queimadas no altar), não a duas ocasiões (lugar e tempo) do mesmo destino. Como o consumo humano e a queima no altar são categorias distintas, cada uma precisa atingir a medida de um azeitona inteiro por si mesma para invalidar — e, como nenhuma das duas chega sozinha a essa medida, a oferenda permanece totalmente válida.

לֶאֱכֹל כַּזַּיִת בַּחוּץ וְכַזַּיִת לְמָחָר, כַּזַּיִת לְמָחָר וְכַזַּיִת בַּחוּץ, כַּחֲצִי זַיִת בַּחוּץ וְכַחֲצִי זַיִת לְמָחָר, כַּחֲצִי זַיִת לְמָחָר וְכַחֲצִי זַיִת בַּחוּץ, פָּסוּל וְאֵין בּוֹ כָרֵת. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, זֶה הַכְּלָל, אִם מַחֲשֶׁבֶת הַזְּמָן קָדְמָה לְמַחֲשֶׁבֶת הַמָּקוֹם, פִּגּוּל וְחַיָּבִים עָלָיו כָּרֵת. וְאִם מַחֲשֶׁבֶת הַמָּקוֹם קָדְמָה לְמַחֲשֶׁבֶת הַזְּמָן, פָּסוּל וְאֵין בּוֹ כָרֵת. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים זֶה וָזֶה פָסוּל וְאֵין בּוֹ כָרֵת. לֶאֱכֹל כַּחֲצִי זַיִת וּלְהַקְטִיר כַּחֲצִי זַיִת, כָּשֵׁר, שֶׁאֵין אֲכִילָה וְהַקְטָרָה מִצְטָרְפִין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 2:5
זֶה הָעִנְיָן כֻּלּוֹ מְבֹאָר אִם תָּבִין מַה שֶּׁזָּכַרְנוּ לְעֵיל מֵהַפֵּרוּשׁ, וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים. וְרָאוּי לֵידַע בְּכָאן, שֶׁאִם חָשַׁב עַל חֲצִי זַיִת חוּץ לִמְקוֹמוֹ וְעַל חֲצִי זַיִת חוּץ לִזְמַנּוֹ, בֵּין שֶׁקָּדְמָה מַחְשֶׁבֶת הַזְּמַן אוֹ לֹא קָדְמָה, הַזֶּבַח פִּגּוּל וְחַיָּבִים עָלָיו כָּרֵת, לְפִי שֶׁעִקָּר בְּיָדֵינוּ שֶׁחֲצִי זַיִת אֵינוֹ מוֹעִיל בִּמְקוֹם כְּזַיִת... וְאִם חָשַׁב לֶאֱכֹל כַּחֲצִי זַיִת וְשֶׁתֹּאכַל הַבְּהֵמָה אוֹ חַיָּה חֲצִי זַיִת, הוּא מִצְטָרֵף, כִּי שֵׁם אֲכִילָה אֶחָד הוּא.

Rambam declara que a lei segue os sábios, não Rabi Yehudá — ou seja, a ordem entre a intenção de lugar e a de tempo não importa: sempre que ambas estiverem presentes na mesma avodá, o resultado é a invalidação simples, sem pigul. E acrescenta um esclarecimento importante: a regra de que "meio azeitona não se soma a meio azeitona" para produzir pigul, mencionada por ele em nota, refere-se a quando os dois meios-azeitonas são de tipos diferentes de intenção (lugar e tempo) — pois, se ambos forem exatamente da mesma intenção (por exemplo, dois meios-azeitonas, ambos de "fora do tempo"), eles se somam normalmente para produzir pigul completo, já que "meio azeitona não vale sozinho no lugar de um azeitona inteiro", mas soma-se com outro meio da mesma categoria. Sobre o consumo humano, Rambam nota ainda que, se a intenção foi de que o próprio sacerdote comesse meio azeitona e que um animal ou fera comesse o outro meio, os dois se somam — pois, para fins desta lei, "comer" é uma única categoria, não importa quem come.

Bartenura · Zevachim 2:5
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר כוּ'. אַכֻּלַּהּ מַתְנִיתִין פָּלֵיג, דְּלֵית לֵיהּ דְּמַחֲשֶׁבֶת שְׁאָר פְּסוּלִים מוֹצִיאָה מִידֵי פִּגּוּל, אֶלָּא אִם כֵּן קָדַם פְּסוּלוֹ לְפִגּוּלוֹ... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. לֶאֱכֹל כַּחֲצִי זַיִת וּלְהַקְטִיר כַּחֲצִי זַיִת. וּשְׁנֵיהֶן חוּץ לִזְמַנּוֹ אוֹ חוּץ לִמְקוֹמוֹ: כָּשֵׁר שֶׁאֵין אֲכִילָה וְהַקְטָרָה מִצְטָרְפִין. לְפָסְלוֹ, דְּהָכָא לֵיכָּא שִׁעוּרָא וְהָכָא לֵיכָּא שִׁעוּרָא.

Bartenura resume a posição de Rabi Yehudá como uma discordância de fundo com toda a mishná anterior (2:4): para ele, não é verdade, em geral, que a mistura de outro tipo de defeito sempre "retire" a oferenda do pigul — isso só ocorre quando o defeito de lugar precedeu, no tempo, a intenção de pigul. E confirma que a lei não segue Rabi Yehudá, mas os sábios. Sobre o último caso da mishná — meio azeitona para comer e meio azeitona para queimar —, esclarece que ambas as metades têm a mesma intenção de lugar ou de tempo (a diferença está apenas no destino: consumo humano ou queima), e mesmo assim não se somam, "pois aqui falta a medida, e ali falta a medida" — isto é, tratando-se de duas categorias de consumo diferentes (comer e queimar), cada uma precisa, por si só, atingir a medida completa de um azeitona para que a invalidação se aplique a ela.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 29b
לאכול כזית בחוץ כזית למחר — היינו הך דאמרן, אלא דרישא איירי בב' עבודות, וכאן בעבודה אחת, ששחט על מנת לאכול כזית למחר כזית בחוץ, ולמאן דמוקי לה בגמרא להא נמי בשתי עבודות, משום כחצי זית נקט לה, לאשמועינן דמצטרפין זה עם זה:

רבי יהודה אומר כו' — אכולה מתניתין פליג, דלית ליה תפוס לשון ראשון... ובעבודה אחת נמי פליג:

לאכול כחצי זית ולהקטיר כחצי זית — ושניהם חוץ לזמנו או חוץ למקומו, כשר שאין אכילה והקטרה מצטרפין לפוסלו, דהכא ליכא שיעורא והכא ליכא שיעורא:

Rashi observa que o primeiro caso desta mishná é, em essência, o mesmo já discutido na mishná anterior (2:4) — a diferença é que ali a mistura ocorria entre duas avodot distintas, enquanto aqui a mesma mistura ocorre dentro de uma única avodá (por exemplo, no próprio abate, o sacerdote já teve em mente comer parte fora e parte no dia seguinte). E explica que, segundo a leitura da Guemará que também situa este caso em duas avodot, a mishná precisou repetir o exemplo usando meio-azeitonas justamente para ensinar que essas metades se somam entre si, mesmo vindo de avodot diferentes. Sobre Rabi Yehudá, confirma que ele discorda de toda a mishná anterior, sustentando o princípio de que a primeira intenção expressa "prevalece" sobre a segunda — tanto entre avodot diferentes quanto dentro de uma única avodá. E, sobre o caso final, confirma que comer e queimar não se somam precisamente porque, tomadas separadamente, nenhuma das duas metades atinge a medida mínima exigida em sua própria categoria.

סְלִיקָא לַהּ מַסֶּכְתָּא — פֶּרֶק ב׳
Aqui se conclui o Perek Bet de Massechet Zevachim, o segundo capítulo do primeiro tratado de Seder Kodashim. Enquanto o Perek Alef tratou exclusivamente da intenção "não em seu nome" — que só invalida a oferenda pascal e a de pecado —, o Perek Bet ampliou o campo de estudo em duas direções distintas. Primeiro, com os desqualificantes objetivos e pessoais que invalidam qualquer oferenda: quem recebe o sangue (leigo, endoluto, impuro, e as demais dez condições de 2:1) e onde ele é colocado sobre o altar. Depois, com a categoria central de pigul: a intenção, durante qualquer uma das quatro avodot, de comer a carne ou queimar as partes fora do lugar devido (invalidação simples, sem karet) ou fora do tempo devido (pigul, com karet) — tema que ocupou as quatro últimas mishnayot do capítulo (2:2 a 2:5), com o princípio geral (2:3), os exemplos de quando o sangue é "oferecido conforme seu preceito" (2:4), e o caso-limite das metades de azeitona somadas, com a disputa entre Rabi Yehudá e os sábios sobre a ordem das intenções (2:5). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste capítulo se distribuem por Zevachim 15b, 27b e 29b, e cada uma reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya. O estudo de Massechet Zevachim prossegue nos doze perakim seguintes, ainda por construir.