Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Dalet · Mishná 5 de 6

As ofertas dos não-judeus e os limites da impureza

קָדְשֵׁי נָכְרִים, אֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם פִּגּוּל, נוֹתָר וְטָמֵא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná desloca-se do pigul propriamente dito para duas categorias vizinhas de desqualificação — notar (o que sobra além do prazo de consumo) e tumá (impureza) — comparando seu alcance ao do pigul, e acrescenta o caso especial das oferendas trazidas por não-judeus.

As coisas sagradas dos não-judeus não se é responsabilizado por elas por pigul, notar ou impureza. E quem as abate fora [do átrio] está isento — palavras de Rabi Meir. Rabi Yossei responsabiliza.A Torá permite que não-judeus tragam oferendas de subida e de paz ao Templo, do mesmo modo que israelitas trazem votos e doações voluntárias. Rabi Meir sustenta que essas oferendas, por sua origem, escapam inteiramente às três categorias de desqualificação por intenção ou tempo — pigul, notar, impureza —, e que abatê-las fora do átrio do Templo não gera a responsabilidade normalmente associada a esse ato; Rabi Yossei discorda, considerando que elas seguem as mesmas regras das oferendas trazidas por israelitas.

As coisas pelas quais não se é responsabilizado por pigul, responsabilizam-se por elas por notar, por impureza, exceto o sangue.Voltando à lista de itens sem outro habilitador (mishná anterior — o punhado, o incenso, etc.), a mishná esclarece que a isenção deles vale apenas quanto ao pigul; quanto a notar e impureza, permanecem plenamente sujeitos às regras normais, como qualquer item sagrado. A única exceção verdadeira é o próprio sangue, que a Torá isenta explicitamente também de notar e impureza, pois seu propósito exclusivo é a expiação, não sendo tratado como as demais coisas sagradas.

Rabi Shimon diz: [isso vale] numa coisa cujo costume é ser comida; mas como a lenha, o incenso [de acompanhamento] e a queima de incenso, não se é responsabilizado por elas por impureza.Rabi Shimon restringe ainda mais a sujeição à impureza: só os itens normalmente destinados ao consumo humano — como o punhado ou a oferenda vegetal dos sacerdotes, mesmo sendo queimados — estariam sujeitos à impureza; itens que nunca se destinam a ser comidos por ninguém, como a lenha do altar, o incenso de acompanhamento e a queima diária de incenso, escapariam também dessa categoria. A lei, porém, segue os sábios, que discordam de Rabi Shimon e incluem também esses itens sob a sujeição à impureza.

קָדְשֵׁי נָכְרִים, אֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם פִּגּוּל, נוֹתָר וְטָמֵא. וְהַשּׁוֹחֲטָן בַּחוּץ, פָּטוּר, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יוֹסֵי מְחַיֵּב. דְּבָרִים שֶׁאֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם פִּגּוּל, חַיָּבִים עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם נוֹתָר, מִשּׁוּם טָמֵא, חוּץ מִן הַדָּם. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, בְּדָבָר שֶׁדַּרְכָּן לְהֵאָכֵל. אֲבָל כְּגוֹן הָעֵצִים וְהַלְּבוֹנָה וְהַקְּטֹרֶת, אֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם טֻמְאָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 4:5
דָּבָר תּוֹרָה שֶׁעוֹבְדֵי כּוֹכָבִים מַקְרִיבִין קָרְבָּנוֹת וּמְקַבְּלִין אוֹתָן מֵהֶם... וְאָמַר רַחֲמָנָא בְּדָם: וַאֲנִי נְתַתִּיו לָכֶם עַל הַמִּזְבֵּחַ לְכַפֵּר, וְאָמַר: שֶׁלָּכֶם יְהֵא, וְאָמַר עוֹד: לְכַפָּרָה נְתַתִּיו וְלֹא לִמְעִילָה. וְכֵן אִם אָכַל מִדַּם הַקֳּדָשִׁים וְהָיָה זֶה הָאוֹכֵל טָמֵא הַגּוּף, אֵינוֹ חַיָּב כָּרֵת מִשּׁוּם אוֹכֵל קֳדָשִׁים בְּטֻמְאָה, נִמְצָא שֶׁאֵין חַיָּבִין עָלָיו לֹא מִשּׁוּם טֻמְאָה וְלֹא מִשּׁוּם נוֹתָר וְלֹא מִשּׁוּם פִּגּוּל, אֲבָל חַיָּב הָאוֹכֵל מִמֶּנּוּ מִשּׁוּם אוֹכֵל דָּם בִּלְבַד, כִּשְׁאָר הַדָּמִים; וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.

Rambam confirma, pela própria lei da Torá, que não-judeus podem trazer votos e doações voluntárias como oferendas — e que a lei segue Rabi Yossei, que as sujeita às mesmas regras normais. Quanto ao sangue, funda sua tríplice isenção diretamente no versículo: "e eu o dei a vocês sobre o altar para expiar" — o sangue é dado exclusivamente para expiação, é tratado como pertencendo ao povo (não como propriedade sagrada sujeita a apropriação indevida), e por isso escapa tanto ao pigul quanto ao notar e à impureza; quem o come em estado de impureza é responsável apenas pela transgressão geral de comer sangue, não por comer algo sagrado em impureza.

Bartenura · Zevachim 4:5
קָדְשֵׁי נָכְרִים. שֶׁהַנָּכְרִים נוֹדְרִים נְדָרִים וּנְדָבוֹת כְּיִשְׂרָאֵל... אֵין חַיָּבִין מִשּׁוּם פִּגּוּל נוֹתָר וְטָמֵא. דְּפִגּוּל יָלֵיף מִנּוֹתָר בִּגְזֵרָה שָׁוָה דְּעָוֹן עָוֹן, וְנוֹתָר יָלֵיף מִטָּמֵא בִּגְזֵרָה שָׁוָה דְּחִלּוּל חִלּוּל, וּבְטָמֵא כְתִיב וְיִנָּזְרוּ מִקָּדְשֵׁי בְנֵי יִשְׂרָאֵל, וְלֹא מִקָּדְשֵׁי נָכְרִים... וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים דְּעֵצִים וּלְבוֹנָה נַמִּי יֵשׁ בָּהֶן מִשּׁוּם טֻמְאָה, וְאֵין לְךָ עֵצִים דְּמִטַּמְאִין אֶלָּא עֵצִים שֶׁל קָרְבָּן בִּלְבַד, שֶׁאִם נָגְעָה בָהֶן טֻמְאָה אָסוּר לְשָׂרְפָן עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ.

Bartenura traça a cadeia exegética que liga as três categorias: pigul deriva-se de notar por uma analogia verbal ("iniquidade"–"iniquidade"), e notar deriva-se de impureza por outra analogia ("profanação"–"profanação"); como o versículo sobre impureza fala expressamente de "coisas sagradas dos filhos de Israel", e não das coisas sagradas dos não-judeus, toda a cadeia se rompe para elas. Sobre a disputa final, esclarece que a lei segue os sábios contra Rabi Shimon: também a lenha e o incenso podem se tornar impuros, embora, na prática, apenas a lenha já destinada ao altar seja relevante — se tocada por impureza, fica proibida para ser queimada sobre ele.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 45a–45b
מַתְנִי׳ קָדְשֵׁי עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים כוּ׳ — מְפָרֵשׁ בַּגְּמָ׳ וּכְשֶׁהִתְנַדְּבוּם לְגָבוֹהַּ קָאָמַר. מַתְנִי׳ דְּבָרִים שֶׁאֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם פִּגּוּל — כְּגוֹן הַקֹּמֶץ וְהַקְּטֹרֶת וְכָל הַשְּׁנוּיִים בְּמִשְׁנָתֵנוּ. חַיָּבִין עֲלֵיהֶן מִשּׁוּם טֻמְאָה — כָּרֵת הָאוֹכְלָן בְּטֻמְאַת הַגּוּף, וְעַל שִׁגְגָתָם חַטָּאת, כִּדְיָלֵיף בַּגְּמָרָא. חוּץ מִן הַדָּם — דְּאִתְמָעֵט בְּהֶדְיָא כִּדְאָמַר בַּגְּמָ׳. בְּדָבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לֶאֱכֹל — שֶׁדֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם לְאָכְלָן, וְאַף עַל פִּי שֶׁזֶּה מִן הַנִּקְטָרִים, כְּגוֹן קֹמֶץ וּמִנְחַת כֹּהֲנִים וְדוֹמִין לָהּ. אֲבָל לְבוֹנָה וְעֵצִים וּקְטֹרֶת אֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם טֻמְאָה — וְרַבָּנָן פְּלִיגֵי עֲלֵיהּ וּמְרַבִּים לְהוּ מִכָּל הַבָּשָׂר יְתֵרָא לְרַבּוֹת עֵצִים וּלְבוֹנָה.

Rashi esclarece que a mishná sobre as oferendas de não-judeus se refere especificamente ao caso em que a doação foi consagrada diretamente para o Alto — isto é, oferecida como votos ou doações comuns, e não trazida em circunstância especial. Repassa a lista dos itens sem habilitador (o punhado, a queima de incenso etc.) e confirma que, embora escapem ao pigul, permanecem sujeitos à impureza, cuja transgressão inadvertida obriga a uma oferenda de pecado; e explica a disputa final apontando que os sábios ampliam a sujeição à impureza também à lenha e ao incenso a partir da expressão bíblica redundante "toda a carne", entendida como incluindo-os.