Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Vav · Mishná 4 de 7

Como era realizada a oferenda de pecado da ave

חַטַּאת הָעוֹף כֵּיצַד הָיְתָה נַעֲשֵׂית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Após localizar o lugar da oferenda de pecado da ave (6:2), a mishná descreve agora seu procedimento passo a passo: a meliká (beliscamento com a unha, sem separar a cabeça do corpo), a aspergão do sangue e o escoamento do restante — um serviço único entre todos os sacrifícios, pois substitui simultaneamente o abate, o recebimento e a aspergão do sangue animal.

A oferenda de pecado da ave, como era realizada? Ele beliscava a cabeça dela defronte à sua nuca, sem separá-la, e aspergia do sangue dela sobre a parede do altar.O sacerdote realizava a meliká — o beliscamento com a unha do polegar — cortando a nuca da ave sem destacar completamente a cabeça do corpo, mantendo-os unidos por uma pequena porção. Segurando a própria ave, sem uso de utensílio ou dedo, ele aspergia diretamente do sangue sobre a parede inferior do altar, abaixo da linha vermelha.

O resto do sangue, ele fazia escorrer sobre a base.Depois da aspergão, o sacerdote aproximava o local do corte ao próprio muro do altar, pressionando-o contra a parede, de modo que o sangue restante escorresse e descesse até a base do altar — completando, assim, todo o serviço do sangue exigido para esta oferenda.

Ao altar não pertence senão o seu sangue, e toda ela pertence aos sacerdotes.Diferentemente das oferendas animais de pecado, cujas partes designadas (os emurin) são queimadas no altar, da oferenda de pecado da ave apenas o sangue vai ao altar; a ave inteira, sem separação de partes, torna-se alimento dos sacerdotes.

חַטַּאת הָעוֹף כֵּיצַד הָיְתָה נַעֲשֵׂית. הָיָה מוֹלֵק אֶת רֹאשָׁהּ מִמּוּל עָרְפָּהּ וְאֵינוֹ מַבְדִּיל, וּמַזֶּה מִדָּמָהּ עַל קִיר הַמִּזְבֵּחַ. שְׁיָרֵי הַדָּם, הָיָה מִתְמַצֶּה עַל הַיְסוֹד. אֵין לַמִּזְבֵּחַ אֶלָּא דָמָהּ, וְכֻלָּהּ לַכֹּהֲנִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 6:4
אָמַר רַחֲמָנָא בְּחַטַּאת הָעוֹף וְהִזָּה מִדַּם הַחַטָּאת עַל קִיר הַמִּזְבֵּחַ וְהַנִּשְׁאָר בַּדָּם יִמָּצֶה אֶל יְסוֹד הַמִּזְבֵּחַ... וְסֵדֶר מְלִיקַת חַטַּאת הָעוֹף הוּא שֶׁיֹּאחֹז שְׁתֵּי רַגְלָיו בִּשְׁתֵּי אֶצְבְּעוֹתָיו מִיָּדוֹ הַשְּׂמָאלִית וְהַכְּנָפַיִם בֵּין שְׁתֵּי הָאֶצְבָּעוֹת הָאֲחֵרוֹת... וּמוֹשֵׁךְ צַוָּארוֹ עַל הַבֹּהֶן כְּשִׁעוּר רֹחַב שְׁתֵּי אֶצְבָּעוֹת וּמוֹלֵק מִמּוּל הָעֹרֶף, וְזוֹ הִיא מִן הָעֲבוֹדוֹת הַקָּשׁוֹת שֶׁבַּמִּקְדָּשׁ.

Rambam cita o versículo bíblico como base da mishná e detalha a técnica física da meliká: o sacerdote segurava as duas pernas da ave entre dois dedos da mão esquerda e as asas entre outros dois, com a ave sobre o dorso da mão; esticava o pescoço sobre o polegar na largura de dois dedos e beliscava defronte à nuca. Rambam classifica esse procedimento como uma das tarefas mais difíceis realizadas no Templo, pela precisão exigida num movimento único e delicado.

Bartenura · Zevachim 6:4
הָיָה מוֹלֵק אֶת רֹאשָׁהּ. אוֹחֵז שְׁתֵּי גַפֶּיהָ בִּשְׁתֵּי אֶצְבְּעוֹתָיו... וּמוֹתֵחַ צַוָּארוֹ הַגָּרוֹן עַל רֹחַב שֶׁל שְׁתֵּי אֶצְבְּעוֹתָיו... וּמוֹלֵק בְּצִפָּרְנוֹ, וְזוֹ אַחַת מֵעֲבוֹדוֹת קָשׁוֹת שֶׁבַּמִּקְדָּשׁ. וְאֵינוֹ מַבְדִּיל. הָרֹאשׁ מִן הַגּוּף... עַד שֶׁמַּגִּיעַ לַוֶּשֶׁט אוֹ לַקָּנֶה, וְנוֹטֵל סִימָן אֶחָד לְבַדּוֹ. וּמַזֶּה מִדָּמָהּ. אוֹחֵז בָּעוֹף וּמַזֶּה, שֶׁלֹּא הָיָה מַזֶּה לֹא בִּכְלִי וְלֹא בְּאֶצְבַּע אֶלָּא בְּגוּפוֹ שֶׁל עוֹף.

Bartenura acrescenta que, ao cortar “sem separar”, o sacerdote atravessava a coluna e a nuca com a maior parte da carne, até alcançar o esôfago ou a traqueia, mas cortava apenas um dos dois órgãos (diferentemente da oferenda de subida, ver 6:5). E sublinha o detalhe notável de que a aspergão se fazia com o próprio corpo da ave — sem recipiente nem dedo — um procedimento sem paralelo entre os demais sacrifícios do Templo.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 64b, sobre a Guemará desta mishná
מַתְנִיתִין: וְאֵינוֹ מַבְדִּיל — הָרֹאשׁ מִן הַגּוּף, אֶלָּא סִימָן אֶחָד לְבַדּוֹ מוֹלֵק, דִּכְתִיב בָּהּ וּמָלַק אֶת רֹאשׁוֹ מִמּוּל עָרְפּוֹ וְלֹא יַבְדִּיל. וּמַזֶּה — אוֹחֵז בָּעוֹף עַצְמוֹ וּמַזֶּה. הָיָה מִתְמַצֶּה — שֶׁמַּקִּיף וּמִתְקָרֵב בֵּית מְלִיקָתוֹ לַמִּזְבֵּחַ וְדוֹחֲקוֹ בַּקִּיר, וְהַדָּם מִתְמַצֶּה וְיוֹרֵד לַיְסוֹד, שֶׁהֲרֵי לְמַטָּה מִן הַחוּט הִיא נַעֲשֵׂית.

Rashi confirma, com base no versículo, que apenas um dos dois órgãos do pescoço é cortado na oferenda de pecado. Explica o gesto da aspergão — o sacerdote segura o próprio corpo da ave para aspergir — e o do escoamento: ele aproxima o local do corte da parede do altar e o pressiona ali, fazendo o sangue descer até a base, jsutamente porque todo o serviço se realiza abaixo da linha vermelha.

גְּמָ’: אוֹחֵז שְׁנֵי גַפֶּיהָ בִּשְׁתֵּי אֶצְבָּעוֹת — גּוּף הָעוֹף עַל כַּפּוֹ מִבִּפְנִים, וּמַכְנִיס שְׁנֵי רַגְלֶיהָ בֵּין אֶצְבַּע קְטַנָּה זֶרֶת לַקְּמִיצָה, וּשְׁנֵי גַפֶּיהָ בֵּין אַמָּה לְאֶצְבַּע. וּמוֹתֵחַ צַוָּארָהּ — גְּרוֹנָהּ הַתַּחְתּוֹן מוֹתֵחַ עַל רֹחַב הַחִיצוֹן שֶׁל גּוּדָל... עֲבוֹדָה קָשָׁה מֵעֲבוֹדוֹת קָשׁוֹת — כְּלוֹמַר אַחַת מֵעֲבוֹדוֹת קָשׁוֹת שֶׁבַּמִּקְדָּשׁ.

A Guemará, segundo Rashi, detalha minuciosamente a posição dos dedos do sacerdote ao segurar a ave — as pernas entre o dedo mínimo e o anelar, as asas entre o indicador e o polegar — e como o pescoço era esticado sobre a largura externa do polegar. Rashi confirma a comparação com a retirada do punhado da oferenda vegetal e com o serviço do incenso em Yom Kipur, ambos também descritos como “serviços difíceis” que exigem destreza extrema das mãos do sacerdote.