Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Vav · Mishná 7 de 7

Pigul na meliká e no mitsui das oferendas de aves

חַטַּאת הָעוֹף שֶׁמְּלָקָהּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do Perek Vav aplica às duas avodot exclusivas das oferendas de aves — a meliká (no lugar do abate) e o mitsui (no lugar da aspergão) — todo o sistema de intenção incorreta já estudado no Perek Bet: a invalidação simples por “não em seu nome” ou por intenção de lugar indevido, e a grave categoria de pigul por intenção de tempo indevido, sujeita à pena de karet.

A oferenda de pecado da ave que ele beliscou não em seu nome, ou fez escorrer o seu sangue não em seu nome, ou em seu nome e não em seu nome, ou não em seu nome e em seu nome — é desqualificada.Assim como o abate e a aspergão de animais se invalidam quando realizados com intenção de outra categoria de oferenda, também a meliká e o mitsui da ave se invalidam sob a mesma regra — em qualquer combinação entre as duas avodot, pois a oferenda de pecado exige intenção correta em ambas.

A oferenda de subida da ave é válida; contanto que não tenha sido creditada aos donos.Diferentemente da oferenda de pecado, a oferenda de subida realizada “não em seu nome” permanece válida — segue-se o princípio geral de 1:1, segundo o qual quase todas as oferendas são válidas sem a intenção correta — mas não cumpre a obrigação de quem a trouxe, que precisará trazer outra.

Tanto a oferenda de pecado da ave quanto a oferenda de subida da ave que ele beliscou e cujo sangue fez escorrer com a intenção de comer algo cujo costume é ser comido, ou de queimar algo cujo costume é ser queimado, fora do seu lugar — é desqualificada, mas não há nela extirpação.A intenção de consumir ou queimar a oferenda fora do local designado desqualifica-a — como ocorre com as oferendas de animais — mas não acarreta a pena de karet (extirpação) para quem dela participar.

Fora do seu tempo — é pigul, e responsabilizam-se por ele com extirpação, contanto que o elemento habilitante tenha sido oferecido conforme o seu preceito.Se, em vez disso, a intenção incorreta for quanto ao tempo — consumir ou queimar depois do prazo permitido — a oferenda torna-se pigul, a categoria mais grave, acarretando karet para quem a consumir, desde que o “elemento habilitante” (o sangue) tenha sido oferecido sem nenhuma outra falha.

Como o elemento habilitante foi oferecido conforme o seu preceito? Beliscou em silêncio e fez escorrer o sangue fora do seu tempo; ou beliscou fora do seu tempo e fez escorrer o sangue em silêncio; ou beliscou e fez escorrer o sangue fora do seu tempo — este é o caso em que o elemento habilitante foi oferecido conforme o seu preceito.A mishná especifica as combinações válidas: desde que a intenção de tempo indevido apareça em pelo menos uma das duas avodot — meliká ou mitsui — sem que a outra traga intenção de lugar indevido ou de nome incorreto, o pigul se estabelece.

Como o elemento habilitante não foi oferecido conforme o seu preceito? Beliscou fora do seu lugar e fez escorrer o sangue fora do seu tempo; ou beliscou fora do seu tempo e fez escorrer o sangue fora do seu lugar; ou beliscou e fez escorrer o sangue fora do seu lugar. A oferenda de pecado da ave que ele beliscou não em seu nome e fez escorrer o seu sangue fora do seu tempo; ou a beliscou fora do seu tempo e fez escorrer o seu sangue não em seu nome; ou a beliscou e fez escorrer o seu sangue não em seu nome — este é o caso em que o elemento habilitante não foi oferecido conforme o seu preceito.A mishná enumera agora as combinações opostas: sempre que a intenção de lugar indevido, ou de nome incorreto na oferenda de pecado, se mistura à de tempo indevido em qualquer uma das duas avodot, o pigul não se estabelece, pois o elemento habilitante não foi oferecido “conforme o seu preceito” — a oferenda fica apenas desqualificada, sem a pena de karet.

Com a intenção de comer o equivalente a uma azeitona fora e o equivalente a uma azeitona no dia seguinte, ou o equivalente a uma azeitona no dia seguinte e o equivalente a uma azeitona fora, ou meia azeitona fora e meia azeitona no dia seguinte, ou meia azeitona no dia seguinte e meia azeitona fora — é desqualificada, mas não há nela extirpação.Quando a intenção se divide entre lugar indevido e tempo indevido dentro da mesma medida mínima de consumo (o volume de uma azeitona), a oferenda é desqualificada sem chegar a pigul — pois as duas intenções incorretas, combinadas, não se somam para produzir a categoria mais grave.

Disse Rabi Yehudá: esta é a regra — se a intenção quanto ao tempo precedeu a intenção quanto ao lugar, é pigul, e responsabilizam-se por ele com extirpação; e se a intenção quanto ao lugar precedeu a intenção quanto ao tempo, é desqualificada, e não há nela extirpação. Mas os Sábios dizem: tanto esta quanto aquela são desqualificadas, e não há nelas extirpação.Rabi Yehudá introduz um critério de precedência: a ordem cronológica em que os dois pensamentos incorretos ocorrem na mente do sacerdote determina se o resultado é pigul ou mera desqualificação. Os Sábios rejeitam esse critério, sustentando que qualquer mistura entre as duas intenções, em qualquer ordem, permanece apenas desqualificação simples.

Com a intenção de comer o equivalente a meia azeitona e de queimar o equivalente a meia azeitona — é válida, pois comer e queimar não se combinam.A mishná encerra o capítulo com um princípio de fechamento: as medidas mínimas de intenção incorreta relativas ao consumo humano e à combustão no altar são contadas separadamente — meia azeitona destinada a ser comida não se une a meia azeitona destinada a ser queimada para completar a medida desqualificante de uma azeitona inteira.

חַטַּאת הָעוֹף שֶׁמְּלָקָהּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ, מִצָּה דָמָהּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ, אוֹ לִשְׁמָהּ וְשֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ, אוֹ שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ וְלִשְׁמָהּ, פְּסוּלָה. עוֹלַת הָעוֹף, כְּשֵׁרָה, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא עָלְתָה לַבְּעָלִים. אֶחָד חַטַּאת הָעוֹף וְאֶחָד עוֹלַת הָעוֹף שֶׁמְּלָקָן וְשֶׁמִּצָּה דָמָן לֶאֱכֹל דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לֶאֱכֹל, לְהַקְטִיר דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לְהַקְטִיר, חוּץ לִמְקוֹמוֹ, פָּסוּל, וְאֵין בּוֹ כָרֵת. חוּץ לִזְמַנּוֹ, פִּגּוּל, וְחַיָּבִין עָלָיו כָּרֵת, וּבִלְבַד שֶׁיִּקְרַב הַמַּתִּיר כְּמִצְוָתוֹ. כֵּיצַד קָרַב הַמַּתִּיר כְּמִצְוָתוֹ. מָלַק בִּשְׁתִיקָה וּמִצָּה הַדָּם חוּץ לִזְמַנּוֹ, אוֹ שֶׁמָּלַק חוּץ לִזְמַנּוֹ וּמִצָּה הַדָּם בִּשְׁתִיקָה, אוֹ שֶׁמָּלַק וּמִצָּה הַדָּם חוּץ לִזְמַנּוֹ, זֶה הוּא שֶׁקָּרַב הַמַּתִּיר כְּמִצְוָתוֹ. כֵּיצַד לֹא קָרַב הַמַּתִּיר כְּמִצְוָתוֹ. מָלַק חוּץ לִמְקוֹמוֹ וּמִצָּה הַדָּם חוּץ לִזְמַנּוֹ, אוֹ שֶׁמָלַק חוּץ לִזְמַנּוֹ וּמִצָּה הַדָּם חוּץ לִמְקוֹמוֹ, אוֹ שֶׁמָּלַק וּמִצָּה הַדָּם חוּץ לִמְקוֹמוֹ, חַטַּאת הָעוֹף שֶׁמְּלָקָהּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ וּמִצָּה דָמָהּ חוּץ לִזְמַנָּהּ, אוֹ שֶׁמְּלָקָהּ חוּץ לִזְמַנָּהּ וּמִצָּה דָמָהּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ, אוֹ שֶׁמְּלָקָהּ וּמִצָּה דָמָהּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ, זֶה הוּא שֶׁלֹּא קָרַב הַמַּתִּיר כְּמִצְוָתוֹ. לֶאֱכֹל כַּזַּיִת בַּחוּץ וְכַזַּיִת לְמָחָר, כַּזַּיִת לְמָחָר וְכַזַּיִת בַּחוּץ, כַּחֲצִי זַיִת בַּחוּץ וְכַחֲצִי זַיִת לְמָחָר, כַּחֲצִי זַיִת לְמָחָר וְכַחֲצִי זַיִת בַּחוּץ, פָּסוּל, וְאֵין בּוֹ כָרֵת. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, זֶה הַכְּלָל, אִם מַחֲשֶׁבֶת הַזְּמָן קָדְמָה לְמַחֲשֶׁבֶת הַמָּקוֹם, פִּגּוּל, וְחַיָּבִין עָלָיו כָּרֵת. וְאִם מַחֲשֶׁבֶת הַמָּקוֹם קָדְמָה לְמַחֲשֶׁבֶת הַזְּמָן, פָּסוּל, וְאֵין בּוֹ כָרֵת. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, זֶה וָזֶה פָסוּל, וְאֵין בּוֹ כָרֵת. לֶאֱכֹל כַּחֲצִי זַיִת וּלְהַקְטִיר כַּחֲצִי זַיִת, כָּשֵׁר, שֶׁאֵין אֲכִילָה וְהַקְטָרָה מִצְטָרְפִין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 6:7
הַמְּלִיקָה בָעוֹף הִיא כְּמוֹ הַשְּׁחִיטָה בִּבְהֵמָה, וְהַמִּצּוּי כְּמוֹ הַזְּרִיקָה, וְאֵין בָּעוֹף לֹא קַבָּלָה וְלֹא הִלּוּךְ, וּבְאֵלּוּ שְׁתֵּי הָעֲבוֹדוֹת בִּלְבַד תִּפְסֹל בּוֹ הַמַּחֲשָׁבָה... וְכֻפַּל אוֹתָן בְּכָאן פַּעַם שְׁנִיָּה בְּקָרְבַּן הָעוֹף לְהַשְׁווֹת אוֹתוֹ לְקָרְבַּן בְּהֵמָה בְּדִינֵי הַמַּחֲשָׁבָה, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rambam explica a estrutura de fundo de toda a mishná: como a ave não passa por recebimento nem transporte do sangue, apenas as duas avodot que ela tem — a meliká (equivalente ao abate) e o mitsui (equivalente à aspergão) — podem ser invalidadas pela intenção incorreta. Nota que a mishná repete aqui, para as aves, todo o sistema já ensinado no Perek Bet para equiparar as duas categorias de oferenda quanto às leis da intenção, e conclui explicitamente que a lei não segue Rabi Yehudá, mas sim os Sábios.

Bartenura · Zevachim 6:7
חַטַּאת הָעוֹף שֶׁמְּלָקָהּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ. מְלִיקָה בָּעוֹף בִּמְקוֹם שְׁחִיטָה בַּבְּהֵמָה, וּמִצּוּי בָּעוֹף בִּמְקוֹם זְרִיקַת הַדָּם בַּבְּהֵמָה... אֲבָל קַבָּלָה וְהִלּוּךְ אֵין בָּעוֹף. עוֹלַת הָעוֹף כְּשֵׁרָה. כִּדְתְנַן בְּרֵישׁ פֶּרֶק קַמָּא גַּבֵּי בְהֵמָה, כָּל הַזְּבָחִים שֶׁנִּזְבְּחוּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן כְּשֵׁרִים אֶלָּא שֶׁלֹּא עָלוּ לַבְּעָלִים לְשֵׁם חוֹבָה, חוּץ מִן הַפֶּסַח וּמִן הַחַטָּאת. שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ. אֵין מוֹצִיא עוֹלָה מִיָּדֵי פִּגּוּל, לְפִי שֶׁהִיא כְשֵׁרָה שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ.

Bartenura remete explicitamente à primeira mishná do tratado (1:1): assim como a maioria das oferendas de animais permanece válida quando abatida “não em seu nome” — exceto a oferenda pascal e a de pecado — o mesmo princípio se aplica à oferenda de subida da ave, que permanece válida embora não cumpra a obrigação do dono. E explica por que a intenção de “não em seu nome” nunca produz pigul na oferenda de subida: justamente porque ela é válida mesmo com essa intenção, tal pensamento não tem o poder de a tornar pigul.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 64b, sobre a Guemará desta mishná
מַתְנִיתִין: שֶׁלֹּא לִשְׁמָן — אֵין מוֹצִיא עוֹלָה מִידֵי פִגּוּל, לְפִי שֶׁהִיא כְּשֵׁרָה שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ. לֶאֱכֹל דָּבָר שֶׁדַּרְכּוֹ לֶאֱכֹל — חַטַּאת הָעוֹף. שֶׁדַּרְכּוֹ לְהַקְטִיר — עוֹלַת הָעוֹף.

Rashi confirma a lógica de Bartenura: como a oferenda de subida é válida mesmo com intenção incorreta de nome, essa mesma intenção não consegue transformá-la em pigul — um princípio geral já visto para as oferendas de animais no Perek Bet e agora aplicado às aves. Identifica também as duas oferendas mencionadas na cláusula seguinte: a que se destina normalmente a ser comida (a de pecado) e a que se destina normalmente a ser queimada (a de subida).

סְלִיקָא לַהּ מַסֶּכְתָּא — פֶּרֶק ו׳
Aqui se conclui o Perek Vav de Massechet Zevachim, o sexto capítulo do primeiro tratado de Seder Kodashim. Enquanto o Perek Hei havia estabelecido o lugar de abate e aspergão das oferendas de animais grandes, o Perek Vav dedicou-se inteiramente às oferendas de aves — a chatat ha-of e a olat ha-of — que dispensam abate por faca, recebimento em vaso e transporte, substituindo tudo isso pela meliká e pelo mitsui (escoamento) realizados com as próprias mãos do sacerdote sobre o corpo da ave. O capítulo abriu retomando, num caso-limite, a disputa sobre o topo do altar e o lugar das oferendas vegetais (6:1); localizou o chifre sudoeste como sede de seis serviços divididos entre a metade inferior e superior do altar (6:2); descreveu a coreografia da subida e descida pela rampa, com a exceção dos três serviços daquele mesmo chifre (6:3); detalhou passo a passo o procedimento da oferenda de pecado da ave (6:4) e da oferenda de subida da ave (6:5), duas avodot espelhadas e opostas em quase todo detalhe; e encerrou com os limites exatos entre o que invalida e o que não invalida cada uma delas (6:6), e com a extensão das regras de intenção incorreta — sheló lishmáh, chuts lim'komo e chuts lizmano, culminando no pigul — já estudadas para as oferendas de animais no Perek Bet, agora aplicadas às duas avodot exclusivas das aves: a meliká e o mitsui (6:7). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste capítulo se distribuem por Zevachim 63a–65a, e a maioria reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya. O estudo de Massechet Zevachim prossegue nos oito perakim seguintes, ainda por construir.