Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Chet · Mishná 2 de 12

Consagrados misturados com consagrados

קָדָשִׁים בְּקָדָשִׁים מִין בְּמִינוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A segunda mishná passa da mistura com animais desqualificados para a mistura de sacrifícios válidos entre si: quando dois sacrifícios consagrados, pertencentes a donos diferentes mas do mesmo tipo, se confundem, não há problema algum — cada um é oferecido para quem quer que seja seu dono. Já quando são de tipos diferentes, aplica-se o mesmo remédio da mishná anterior, com uma perda adicional. E a mishná fecha com o princípio geral: tudo pode se misturar, exceto a chatat com o asham.

Do caso mais simples — mesmo tipo, qualquer dono — ao caso que exige venda e reposição dupla, passando pelo bekhor e pelo ma'asser, até a regra geral de que tudo se mistura, menos a chatat com o asham.

Consagrados misturados com consagrados do mesmo tipo — este será oferecido em nome de quem quer que seja, e aquele será oferecido em nome de quem quer que seja.Quando dois animais consagrados como o mesmo tipo de sacrifício — por exemplo, duas chataot de donos diferentes — se misturam e já não se sabe qual pertence a qual, não há problema real algum: qualquer um dos dois pode ser oferecido por qualquer um dos donos, sem que a identidade precisa importe, pois ambos cumprem a mesma função e têm as mesmas leis.

Consagrados misturados com consagrados, tipo com tipo diferente, pastarão até que adquiram um defeito, e serão vendidos, e trará com o dinheiro do melhor dentre eles deste tipo, e com o dinheiro do melhor dentre eles daquele tipo, e perderá o excedente do seu próprio bolso.Quando os dois animais misturados são de tipos distintos — por exemplo, uma olá e um shelamim — não se pode simplesmente oferecer qualquer um por qualquer nome, pois cada tipo tem suas próprias leis de sangue, queima e consumo. Recorre-se então à mesma solução da mishná anterior, mas em dobro: vendem-se os dois animais separadamente, e com o dinheiro de cada um traz-se um sacrifício do tipo correspondente, calculado pelo valor do melhor exemplar — o que significa pagar duas vezes o preço do animal de maior qualidade, quando na verdade só um deles valia tanto. Essa diferença, o dono a perde do próprio bolso.

Se se misturaram com bekhor e com ma'asser, pastarão até que adquiram um defeito, e serão comidos como bekhor e como ma'asser.O primogênito do rebanho e o dízimo animal não têm resgate monetário como os demais sacrifícios — sua santidade não se transfere a dinheiro; por isso, quando misturados com outro sacrifício, ambos os animais simplesmente esperam adquirir um defeito e então são consumidos segundo as leis próprias do bekhor e do ma'asser, sem venda.

Tudo pode se misturar, exceto a chatat com o asham.Como regra geral, qualquer par de sacrifícios pode se confundir fisicamente e ter seu status resolvido por algum dos remédios acima — com uma única exceção: a chatat nunca vem de um carneiro macho, enquanto o asham vem exclusivamente de um carneiro macho; sendo as espécies animais estruturalmente distintas entre si, essas duas categorias jamais poderiam ser fisicamente confundidas em primeiro lugar.

קָדָשִׁים בְּקָדָשִׁים מִין בְּמִינוֹ, זֶה יִקְרַב לְשֵׁם מִי שֶׁהוּא וְזֶה יִקְרַב לְשֵׁם מִי שֶׁהוּא. קָדָשִׁים בְּקָדָשִׁים, מִין בְּשֶׁאֵינוֹ מִינוֹ, יִרְעוּ עַד שֶׁיִּסְתָּאֲבוּ, וְיִמָּכְרוּ, וְיָבִיא בִדְמֵי הַיָּפֶה שֶׁבָּהֶן מִמִּין זֶה, וּבִדְמֵי הַיָּפֶה שֶׁבָּהֶן מִמִּין זֶה, וְיַפְסִיד הַמּוֹתָר מִבֵּיתוֹ. נִתְעָרְבוּ בִבְכוֹר וּבְמַעֲשֵׂר, יִרְעוּ עַד שֶׁיִּסְתָּאֲבוּ, וְיֵאָכְלוּ כִּבְכוֹר וּכְמַעֲשֵׂר. הַכֹּל יְכוֹלִין לְהִתְעָרֵב, חוּץ מִן הַחַטָּאת וּמִן הָאָשָׁם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 8:2
קָדָשִׁים בְּקָדָשִׁים מִין בְּמִינוֹ זֶה יִקְרַב לְשֵׁם מִי שֶׁהוּא כוֹ': מִין בְּמִינוֹ מַקְרִיבִין אֶת כֻּלָּן וּבִשְׁבִיל הַבְּעָלִים, אַף עַל פִּי שֶׁאֵין אָנוּ מְיַחֲדִים אוֹתָן לוֹמַר זֶה קָרְבָּנוֹ שֶׁל זֶה… וְהוֹאִיל וְנִתְעָרֵב מִין בְּשֶׁאֵינוֹ מִינוֹ, כְּגוֹן שֶׁנִּתְעָרֵב לוֹ עוֹלָה בִּשְׁלָמִים, מַנִּיחַ אוֹתָן עַד שֶׁיִּפֹּל בָּהֶן מוּם, וְאָז מוֹכְרִים שְׁנֵיהֶם כָּל אֶחָד בִּפְנֵי עַצְמוֹ… וְעִנְיַן הַחַטָּאת שֶׁאִי אֶפְשָׁר לְהִתְעָרֵב עִם הָאָשָׁם בְּשׁוּם פָּנִים מְבֹאָר הֵיטֵב, וְהוּא שֶׁהָאָשָׁם לֹא יִהְיֶה אֶלָּא מִזִּכְרֵי הַצֹּאן… וְלֹא תִהְיֶה חַטָּאת מִמִּין הַצֹּאן אֶלָּא מִמִּין הַנְּקֵבוֹת בִּלְבַד.

Rambam ressalta que, no caso do mesmo tipo, oferece-se cada animal em nome dos respectivos donos mesmo sem conseguir individualizá-los, precisamente porque não há semikhá (imposição de mãos) exigida nesses casos. Explica ainda com precisão por que a chatat nunca pode se misturar fisicamente com o asham: o asham só provem de carneiros machos do rebanho miúdo, ao passo que a chatat, dentro dessa mesma espécie, só vem de fêmeas — portanto as duas categorias nunca compartilham o mesmo tipo de animal e não podem, na prática, confundir-se.

Bartenura · Zevachim 8:2
יַקְרִיב כָּל אֶחָד לְשֵׁם מִי שֶׁהוּא. וְלֹא יַזְכִּיר שֵׁם אָדָם. וְהָנֵי מִלֵּי בְּקָרְבְּנוֹת שֶׁל נָשִׁים דְּלֹא בָעֵי סְמִיכָה… אֲבָל בְּקָרְבַּן אֲנָשִׁים דְּבָעֵי סְמִיכָה, לֹא… וְיַפְסִיד הַמּוֹתָר מִבֵּיתוֹ. שֶׁאִם מָכַר אֶחָד מֵהֶן בִּשְׁנַיִם וְהָאַחֵר בְּאֶחָד, צָרִיךְ לְהָבִיא מִכָּל מִין בִּשְׁנַיִם… וְנִמְצָא מַפְסִיד אֶחָד מִבֵּיתוֹ… חוּץ מִן הַחַטָּאת עִם הָאָשָׁם. שֶׁהַחַטָּאת אֵינָהּ לְעוֹלָם אַיִל, וְאָשָׁם אֵינוֹ אֶלָּא אַיִל… אֲבָל חַטָּאת וְעוֹלָה מִתְעָרְבִים, כְּגוֹן שְׂעִיר נָשִׂיא בִּשְׂעִיר עוֹלַת נְדָבָה.

Bartenura precisa que, ao oferecer cada animal "em nome de quem quer que seja", o sacerdote não menciona nome algum — e isso vale apenas para sacrifícios de mulheres, que dispensam a semikhá (já que a Torá associa a semikhá aos "filhos de Israel"), pois em sacrifícios de homens, que exigem semikhá do próprio dono, seria impossível oferecer sem saber de quem é o animal. Sobre a perda do excedente: se um animal foi vendido por dois e o outro por um, mas não se sabe qual tipo correspondia ao de maior valor, é preciso trazer, de cada tipo, um sacrifício equivalente ao valor de dois — e assim se perde uma unidade do próprio bolso. Quanto à exceção, esclarece que a chatat e a olá podem, sim, se misturar — por exemplo, o bode do príncipe (chatat) com um bode de olá voluntária — pois ambos podem vir de machos; só a chatat com o asham jamais se confundem.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 74b–75a, sobre a Guemará desta mishná
וְהָא בָּעֲיָא סְמִיכָה — בְּבָעֳלָיו וְלֹא יְדִיעַ מַנּוּ… אֲבָל קָרְבַּן אֲנָשִׁים לֹא — מִתְכַּשֵּׁר בְּתַעֲרֹבֶת בִּתְמִיהָ… אֲבָל בְּבוֹלֵל — שְׁנֵי הַדָּמִים לְתוֹךְ כּוֹס אֶחָד, נוֹתֵן אַרְבַּע מַתָּנוֹת לְכֻלָּן, וְהַשְׁתָּא לֵיכָּא לְאוֹתוֹבֵי סְמִיכָה, דְּהָא לְאַחַר שְׁחִיטָה וּסְמִיכָה נִתְעָרְבוּ.

A Guemará discute justamente o limite que separa o caso simples da mishná (dois sacrifícios de mulheres, sem semikhá) do caso difícil: sacrifícios de homens não poderiam, em princípio, ser oferecidos assim, pois exigem que o próprio dono imponha as mãos sobre o animal antes do abate — e, uma vez misturados, já não se sabe quem deveria fazer a semikhá de qual. Rashi explica que a mishná só resolve o caso em que a mistura ocorreu depois do abate e da semikhá, quando os sangues já recolhidos se confundem num mesmo copo — nesse ponto, a semikhá já foi cumprida por cada dono em seu próprio animal antes da mistura, e só resta a questão de como aplicar o sangue.