A segunda mishná passa da mistura com animais desqualificados para a mistura de sacrifícios válidos entre si: quando dois sacrifícios consagrados, pertencentes a donos diferentes mas do mesmo tipo, se confundem, não há problema algum — cada um é oferecido para quem quer que seja seu dono. Já quando são de tipos diferentes, aplica-se o mesmo remédio da mishná anterior, com uma perda adicional. E a mishná fecha com o princípio geral: tudo pode se misturar, exceto a chatat com o asham.
Consagrados misturados com consagrados do mesmo tipo — este será oferecido em nome de quem quer que seja, e aquele será oferecido em nome de quem quer que seja. — Quando dois animais consagrados como o mesmo tipo de sacrifício — por exemplo, duas chataot de donos diferentes — se misturam e já não se sabe qual pertence a qual, não há problema real algum: qualquer um dos dois pode ser oferecido por qualquer um dos donos, sem que a identidade precisa importe, pois ambos cumprem a mesma função e têm as mesmas leis.
Consagrados misturados com consagrados, tipo com tipo diferente, pastarão até que adquiram um defeito, e serão vendidos, e trará com o dinheiro do melhor dentre eles deste tipo, e com o dinheiro do melhor dentre eles daquele tipo, e perderá o excedente do seu próprio bolso. — Quando os dois animais misturados são de tipos distintos — por exemplo, uma olá e um shelamim — não se pode simplesmente oferecer qualquer um por qualquer nome, pois cada tipo tem suas próprias leis de sangue, queima e consumo. Recorre-se então à mesma solução da mishná anterior, mas em dobro: vendem-se os dois animais separadamente, e com o dinheiro de cada um traz-se um sacrifício do tipo correspondente, calculado pelo valor do melhor exemplar — o que significa pagar duas vezes o preço do animal de maior qualidade, quando na verdade só um deles valia tanto. Essa diferença, o dono a perde do próprio bolso.
Se se misturaram com bekhor e com ma'asser, pastarão até que adquiram um defeito, e serão comidos como bekhor e como ma'asser. — O primogênito do rebanho e o dízimo animal não têm resgate monetário como os demais sacrifícios — sua santidade não se transfere a dinheiro; por isso, quando misturados com outro sacrifício, ambos os animais simplesmente esperam adquirir um defeito e então são consumidos segundo as leis próprias do bekhor e do ma'asser, sem venda.
Tudo pode se misturar, exceto a chatat com o asham. — Como regra geral, qualquer par de sacrifícios pode se confundir fisicamente e ter seu status resolvido por algum dos remédios acima — com uma única exceção: a chatat nunca vem de um carneiro macho, enquanto o asham vem exclusivamente de um carneiro macho; sendo as espécies animais estruturalmente distintas entre si, essas duas categorias jamais poderiam ser fisicamente confundidas em primeiro lugar.
Rambam ressalta que, no caso do mesmo tipo, oferece-se cada animal em nome dos respectivos donos mesmo sem conseguir individualizá-los, precisamente porque não há semikhá (imposição de mãos) exigida nesses casos. Explica ainda com precisão por que a chatat nunca pode se misturar fisicamente com o asham: o asham só provem de carneiros machos do rebanho miúdo, ao passo que a chatat, dentro dessa mesma espécie, só vem de fêmeas — portanto as duas categorias nunca compartilham o mesmo tipo de animal e não podem, na prática, confundir-se.
Bartenura precisa que, ao oferecer cada animal "em nome de quem quer que seja", o sacerdote não menciona nome algum — e isso vale apenas para sacrifícios de mulheres, que dispensam a semikhá (já que a Torá associa a semikhá aos "filhos de Israel"), pois em sacrifícios de homens, que exigem semikhá do próprio dono, seria impossível oferecer sem saber de quem é o animal. Sobre a perda do excedente: se um animal foi vendido por dois e o outro por um, mas não se sabe qual tipo correspondia ao de maior valor, é preciso trazer, de cada tipo, um sacrifício equivalente ao valor de dois — e assim se perde uma unidade do próprio bolso. Quanto à exceção, esclarece que a chatat e a olá podem, sim, se misturar — por exemplo, o bode do príncipe (chatat) com um bode de olá voluntária — pois ambos podem vir de machos; só a chatat com o asham jamais se confundem.
A Guemará discute justamente o limite que separa o caso simples da mishná (dois sacrifícios de mulheres, sem semikhá) do caso difícil: sacrifícios de homens não poderiam, em princípio, ser oferecidos assim, pois exigem que o próprio dono imponha as mãos sobre o animal antes do abate — e, uma vez misturados, já não se sabe quem deveria fazer a semikhá de qual. Rashi explica que a mishná só resolve o caso em que a mistura ocorreu depois do abate e da semikhá, quando os sangues já recolhidos se confundem num mesmo copo — nesse ponto, a semikhá já foi cumprida por cada dono em seu próprio animal antes da mistura, e só resta a questão de como aplicar o sangue.