A terceira mishná examina um caso específico de mistura entre tipos diferentes de kodshei kodashim e kodashim kalim — o asham (santidade superior) com o shelamim (santidade inferior) — onde Rabi Shimon propõe um atalho que evita a venda, e os Sábios o rejeitam com um princípio que se tornará central no restante do capítulo: não se traz consagrados a um estado de desqualificação. A mishná fecha com o caso das pedaços de carne já misturados, onde todos concordam.
O asham que se misturou com o shelamim — pastarão até que adquiram um defeito. — Aplica-se aqui, em princípio, o mesmo remédio da mishná anterior: esperar que os animais fiquem com defeito, vendê-los, e trazer com o dinheiro um asham e um shelamim de reposição.
Rabi Shimon diz: ambos serão abatidos no norte, e serão comidos segundo o mais rigoroso dentre eles. — Rabi Shimon propõe evitar a venda: como o asham exige abate no lado norte do átrio e o shelamim pode ser abatido em qualquer lugar do átrio — inclusive no norte — basta abater os dois ali, e depois comê-los segundo as leis mais restritivas do asham: apenas dentro do átrio, apenas por sacerdotes machos, e apenas no dia do abate e na noite seguinte.
Disseram-lhe: não se trazem consagrados a um estado de desqualificação. — Os Sábios rejeitam a proposta: submeter o shelamim — que por direito poderia ser comido por qualquer pessoa, em toda Jerusalém, por dois dias e uma noite — às restrições do asham significa antecipar artificialmente o momento em que ele se tornaria notar (sobra desqualificada), pois o que restasse após a noite seguinte ao abate seria queimado como se fosse asham, quando na verdade poderia ainda ser shelamim válido até o fim do segundo dia. Isso constitui, em si, um ato de trazer deliberadamente um consagrado a uma condição de desqualificação — o que nunca é permitido. A halachá segue os Sábios, não Rabi Shimon.
Se se misturaram pedaços com pedaços — kodshei kodashim com kodashim kalim, os que se comem em um dia com os que se comem em dois dias — serão comidos segundo o mais rigoroso dentre eles. — Aqui, mesmo os Sábios concordam com a lógica de Rabi Shimon: quando a mistura já ocorreu entre pedaços de carne cozida ou cortada — e não entre animais inteiros ainda vivos — não há como aplicar o remédio de deixar pastar e vender, pois a carne já foi separada do animal. Nesse caso, sem alternativa, a única solução possível é comer tudo segundo a lei mais restritiva presente na mistura.
Rambam localiza a raiz da disputa nas diferenças já estabelecidas no Perek Vav entre o asham (kodshei kodashim, abatido no norte, comido pelos sacerdotes até meia-noite) e o shelamim (kadashim kalim, abatido em qualquer lugar do átrio, comido por qualquer pessoa por dois dias e uma noite). Formula o princípio decisivo com precisão: não se traz consagrados a um estado de desqualificação — ou seja, não se realiza nenhum ato que resulte em torná-los desqualificados. Por isso os Sábios preferem deixar os animais pastarem até adquirirem defeito. Conclui explicitamente que a halachá não segue Rabi Shimon.
Bartenura explica que a proposta de Rabi Shimon é tecnicamente viável porque o shelamim, ao contrário do asham, pode ser abatido em qualquer ponto do átrio — inclusive no lado norte reservado ao asham — e mesmo assim o dono do shelamim cumpre integralmente seu voto, pois cada animal continua sendo oferecido em nome do seu próprio dono. Mas a objecção dos Sábios permanece: submeter o shelamim às restrições de tempo e de comensais do asham diminui indevidamente sua janela legítima de consumo, encaminhando-o precocemente ao notar. Já no caso final, sobre pedaços já misturados, os próprios Sábios admitem que não há alternativa — e por isso concordam com Rabi Shimon nesse ponto específico.
Rashi confirma o mecanismo exato da proposta de Rabi Shimon: comer "segundo o mais rigoroso dentre eles" significa aplicar à mistura inteira as restrições do asham — apenas sacerdotes machos, apenas no átrio, apenas até o fim da noite seguinte ao abate — e, apesar disso, o dono do shelamim continua tendo cumprido sua obrigação de voto, já que, como na mishná anterior, cada animal é oferecido em nome de seu próprio dono independentemente da mistura.