Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
אֲקַפֵּחַ אֶת בָּנַי

O juramento de Rabi Tarfon sobre o mardea, a resposta de Rabi Akiva, e o vindimador para o lagar

Shabbat 17a — Rabi Tarfon jura pelos filhos que uma halachá foi mal compreendida por quem ouviu que o aguilhão do boi contamina por completo, quando na verdade só transmite impureza a quem o carrega; Rabi Akiva propõe uma formulação que preserva as duas tradições; Rabi Yanai explica que a medida se refere à circunferência, não à espessura; a dificuldade sobre os dezoito decretos é resolvida, de novo, pelas filhas dos cutim; e uma nova baraita traz a disputa entre Shamai e Hillel sobre o vindimador que leva as uvas ao lagar em cestos, com o episódio dramático da espada cravada na casa de estudo, e as razões de Rabi Chanina e Rava — terminando em aberto no meio da explicação sobre os cachos que se mordem entre si.

O daf abre em pleno juramento de Rabi Tarfon: ele jura pelos filhos que uma halachá foi mal compreendida — quem ouviu que um lavrador que passa com o aguilhão do boi sobre o ombro, tocando de um lado no túmulo, tornou-o impuro "por causa dos utensílios que fazem toldo sobre o morto", entendeu errado, pois a impureza plena de sete dias não se transmite assim a ele mesmo, apenas àquilo que ele carrega. Rabi Akiva então propõe uma formulação que concilia as duas versões: o mardea traz impureza de sete dias à pessoa que o carrega apenas pela sua própria espessura, a ele mesmo por qualquer medida, e aos demais e a outros utensílios apenas por uma abertura de um palmo. Rabi Yanai esclarece que a medida do mardea se refere à circunferência, não à espessura direta. A Guemará então enfrenta de novo a dificuldade sobre os dezoito decretos — pois, segundo Rabi Tarfon, este item não conta entre eles — resolvida, como em 16b, pelo decreto sobre as filhas dos cutim. O daf passa então a uma nova baraita, trazida como outro exemplo de decreto que empresta severidade da Torá: a disputa entre Shamai e Hillel sobre se as uvas colhidas para o lagar já se tornam suscetíveis a impureza por causa do suco que escorre durante a vindima. O relato inclui o dramático episódio da espada cravada na porta da casa de estudo, no dia em que os discípulos de Shamai superaram em número os de Hillel e forçaram a votação — comparado pela Guemará ao dia em que Israel fez o bezerro de ouro. A Guemará busca a razão do decreto: primeiro o receio de que se vindime em cestos impuros, depois, refinando a objeção, o receio de cestos revestidos de piche (que não deixam o suco se perder), e por fim a explicação de Rava, sobre os cachos que se mordem uns aos outros e se espreme o suco ao separá-los — terminando em aberto, a continuar em 17b.

Continuação: o juramento de Rabi Tarfon · אֲקַפֵּחַ אֶת בָּנַי

01"Juro pelos meus filhos que essa halachá foi mal compreendida": o caso do lavrador e o mardea
Baraita (continuação de 16b)
אֲקַפֵּחַ אֶת בָּנַי שֶׁזּוֹ הֲלָכָה מְקוּפַּחַת, שֶׁשָּׁמַע הַשּׁוֹמֵעַ, וְטָעָה: הָאִיכָּר עוֹבֵר וּמַרְדְּעוֹ עַל כְּתֵפוֹ וְאִיהֵל צִדּוֹ אֶחָד עַל הַקֶּבֶר — טִימְּאוּ אוֹתוֹ, מִשּׁוּם כֵּלִים הַמַּאֲהִילִים עַל הַמֵּת.

(Continua a baraita, interrompida ao final de 16b:) "Que eu enterre meus filhos (expressão de juramento severo) se não é essa uma halachá mutilada (mal transmitida), que quem a ouviu, ouviu e errou: (o caso era de) um lavrador que passa com seu aguilhão de boi sobre o ombro, e uma de suas extremidades fez toldo sobre um túmulo (enquanto a outra ponta ficava sobre o próprio lavrador) — declararam-no impuro (a ele mesmo, por sete dias, como se tivesse tocado no morto), por causa dos utensílios que fazem toldo sobre o morto (e quem ouviu essa decisão a entendeu mal, pois o caso verdadeiro se refere a outra pessoa ou utensílio do outro lado, não ao próprio carregador)."

Nota

O daf 16b terminou no meio de uma afirmação severa de Rabi Tarfon, introduzida por um juramento sobre a vida de seus próprios filhos — expressão usada quando alguém tem convicção absoluta de estar corrigindo um erro grave de transmissão. Rabi Tarfon relata o caso concreto que gerou a confusão: um lavrador caminhava carregando o mardea (aguilhão para guiar bois) sobre o ombro, e uma das pontas do aguilhão, ao passar perto de um túmulo, formou um "toldo" — uma cobertura contínua que liga o espaço sobre o morto ao espaço do lado de fora. Os sábios declararam que havia impureza envolvida "por causa dos utensílios que fazem toldo sobre o morto" — mas quem ouviu esse relato, sem entender os detalhes, concluiu erroneamente que o próprio lavrador se tornara impuro por sete dias completos (a impureza plena de quem toca ou faz toldo com um morto). Rabi Tarfon virá explicar, na continuação, que essa não é a leitura correta: a impureza plena de sete dias, transmitida por toldo, só se aplica àquilo que está do outro lado do aguilhão (a pessoa ou objeto que ele carrega ligado ao morto), não ao próprio lavrador que segura o mardea.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "que eu enterre meus filhos", "enterre" e "que quem a ouviu"
אקפח את בני - מצער היה על תורה המשתכחת ומקלל את עצמו:

"Que eu enterre meus filhos" — estava angustiado com o esquecimento da Torá, e amaldiçoava a si mesmo.

אקפח - אקברם לשון חיתוך וקיצור:

"Que eu enterre" — (literalmente) "que eu os sepulte", expressão de corte e encurtamento (da vida deles).

ששמע השומע - כשנשאלה השאלה על ידי מעשה בבית המדרש ושמע שטמאוהו וטעה ולא ידע משום מה טמאוהו הם טמאו את המרדע משום כלים המאהילים על המת שהכלי עצמו המאהיל טמא בכל שהו דלא בעינן פותח טפח אלא לשוויה אהל להביא טומאה תחת ראשו השני להביא טומאה על אחרים אבל לגבי דידיה בכל שהו וטמאוהו לאיכר טומאת ערב משום שנגע באותו כלי שהוא אב הטומאה וזה שנגע בו ראשון והשומע טעה לומר שעשאוהו לאיכר אב הטומאה לטמא ז' ולטעון הזייה:

"Que quem a ouviu" — quando se formulou a pergunta a partir de um caso ocorrido na casa de estudo, e (o ouvinte) ouviu que declararam (o aguilhão) impuro, e errou, não sabendo por que o declararam impuro: eles declararam impuro o mardea por causa dos utensílios que fazem toldo sobre o morto — pois o próprio utensílio que faz o toldo se torna impuro por qualquer medida (sem precisar da abertura de um palmo), já que não se exige abertura de um palmo senão para que ele se torne um "toldo" que traz impureza sob sua outra extremidade a outros; mas quanto a ele mesmo (o utensílio que faz o toldo), por qualquer medida (basta). E declararam impuro o lavrador com impureza de contato até a noite (apenas), por ter tocado naquele utensílio, que é fonte primária de impureza, sendo ele quem tocou nele em primeiro lugar. E o ouvinte errou ao dizer que fizeram do lavrador uma fonte primária de impureza, para ficar impuro sete dias e precisar de aspersão.

02Rabi Akiva concilia as duas versões: três medidas diferentes, conforme quem recebe a impureza
Baraita
אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא, אֲנִי אֲתַקֵּן שֶׁיְּהוּ דִּבְרֵי חֲכָמִים קַיָּימִים: שֶׁיְּהוּ כׇּל הַמִּטַּלְטְלִים מְבִיאִין אֶת הַטּוּמְאָה עַל הָאָדָם שֶׁנּוֹשֵׂא אוֹתָן בְּעוֹבִי הַמַּרְדֵּעַ, וְעַל עַצְמָן בְּכָל שֶׁהֵן. וְעַל שְׁאָר אָדָם וְכֵלִים — בְּפוֹתֵחַ טֶפַח.

Disse Rabi Akiva: eu vou consertar (reformular) para que as palavras dos sábios permaneçam (válidas, conciliando as duas tradições): que todos os bens móveis trazem a impureza sobre a pessoa que os carrega pela espessura do mardea (mesmo sem um palmo de espessura, a impureza de contato se transmite a quem o carrega); e sobre si mesmos (os próprios utensílios que fazem o toldo, tornam-se impuros) por qualquer medida (por menor que seja); mas sobre o restante das pessoas e utensílios (do outro lado do toldo) — apenas por uma abertura de um palmo.

Nota

Rabi Akiva propõe uma formulação de três níveis que reconcilia a tradição original com o erro de transmissão que Rabi Tarfon denunciou. Primeiro: a pessoa que carrega o objeto móvel (o mardea) torna-se impura por contato — apenas impureza leve, até o anoitecer — assim que o objeto toca no morto, independentemente de sua espessura, pois basta o contato direto com uma fonte de impureza. Segundo: o próprio utensílio que forma o toldo (a extremidade que passou sobre o túmulo) torna-se impuro por qualquer medida, por mínima que seja sua espessura, pois não se exige abertura de um palmo para que o objeto que efetivamente cobre o morto se torne, ele mesmo, impuro. Terceiro: para que essa impureza se propague, através do toldo, a outras pessoas ou utensílios do lado oposto (não quem carrega, mas alguém ou algo distante, ligado apenas pela cobertura contínua), aí sim se exige a abertura mínima de um palmo — a menos que se trate especificamente do mardea, cuja circunferência (ainda que não sua espessura direta) equivale, por decreto, a um palmo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "eu vou consertar para que as palavras dos sábios"
אני אתקן שיהו דברי חכמים - שאומרים עובי המרדע מביא טומאה קיימין יש דבר שמביאין עליו טומאה ממש לטעון הזייה מדבריהם כגון על האדם הנושאן שטמא בו טומאת מגע מן התורה גזרו עליו בעובי המרדע ליטמא טומאת אהל מדבריהם גזירה הקיפו משום עביו דכיון דמטמאת ליה על כרחך טומאה דאורייתא לאצרוכיה הערב שמש והוא לא נגע במת כסבור שמשום אהל אתה מטמאו ומשום שיש בהיקפו טפח וכיון דלא מטמאת ליה טומאת ז' אתי למימר באהל גמור נמי טומאת ערב אבל שאר אדם וכלים שאין נוגעין בו ואין עליך לטמאן כלל אין מביאין שום טומאה אלא בפותח טפח ר"ע מילתייהו דרבנן פריש:

"Eu vou consertar para que as palavras dos sábios" — que dizem que a espessura do mardea traz a impureza, permaneçam válidas: há algo sobre o qual se traz impureza de fato, a ponto de exigir aspersão, por palavras dos sábios — como sobre a pessoa que os carrega, que já é impura por contato, por lei da Torá; sobre ela decretaram, pela espessura do mardea, que se torne impura por toldo, por palavras dos sábios, decreto pela circunferência por causa de sua espessura. Pois, uma vez que ela já é impura de qualquer modo por impureza da Torá (por contato), que exige aguardar o pôr do sol, e ela não tocou no morto (diretamente), pensaria que é por causa do toldo que a declaras impura, e por causa de (o objeto) ter em sua circunferência um palmo; e, uma vez que (esse toldo) não a torna impura por sete dias, viria a dizer que também num toldo completo (real, da Torá) basta a impureza até o anoitecer. Mas o restante das pessoas e utensílios, que não tocam nele e que não haveria razão nenhuma para declará-los impuros, não trazem impureza alguma senão por abertura de um palmo. Rabi Akiva esclareceu as palavras deles (dos sábios anteriores).

03Rabi Yanai: a medida do mardea é a circunferência, não a espessura
Guemará
וְאָמַר רַבִּי יַנַּאי: וּמַרְדֵּעַ שֶׁאָמְרוּ, אֵין בְּעׇבְיוֹ טֶפַח וְיֵשׁ בְּהֶיקֵּפוֹ טֶפַח — וְגָזְרוּ עַל הֶיקֵּפוֹ מִשּׁוּם עׇבְיוֹ.

E disse Rabi Yanai: e quanto ao mardea de que falaram (os sábios) — não há em sua espessura (direta) um palmo, mas há em sua circunferência um palmo; e decretaram sobre sua circunferência por causa de sua espessura (isto é, trataram a circunferência de um palmo como equivalente à espessura de um palmo, para fins deste decreto).

Nota

Rabi Yanai esclarece um detalhe técnico da medida envolvida: o mardea, sendo um objeto comprido e relativamente fino (como um bastão ou vara), não tem literalmente um palmo de diâmetro ou espessura — mas, se medido pela circunferência (o contorno ao redor de sua seção), soma um palmo. Os sábios, ao formular o decreto de que o mardea traz impureza "pela espessura", na verdade se basearam nessa medida de circunferência, tratando-a como equivalente, para este efeito específico, à espessura de um palmo que normalmente seria exigida para que um objeto forme um toldo pleno.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "e disse Rabi Yanai: e devemos ler" e "não há em sua espessura"
וא"ר ינאי גרסינן:

"E disse Rabi Yanai" — assim devemos ler (o texto, confirmando a atribuição correta).

מרדע שאמרו - דמביא את הטומאה על נושאו לטמאו שבעה מדבריהם:

"O mardea de que falaram" — que traz a impureza sobre quem o carrega, para torná-lo impuro sete dias, por palavras deles (dos sábios, num toldo pleno).

אין בעביו טפח - דאם כן הוי אהל דאורייתא:

"Não há em sua espessura um palmo" — pois, se houvesse, seria toldo (pleno) por lei da Torá (e não haveria necessidade de decreto).

Nova dificuldade sobre os dezoito decretos · וּלְרַבִּי טַרְפוֹן בָּצְרוּ לְהוּ

04Para Rabi Tarfon também faltaria um decreto; a mesma resposta das filhas dos cutim
Guemará
וּלְרַבִּי טַרְפוֹן דְּאָמַר אֲקַפֵּחַ אֶת בָּנַי שֶׁהֲלָכָה זוֹ מְקוּפַּחַת — בָּצְרוּ לְהוּ! אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: אַף בְּנוֹת כּוּתִים נִדּוֹת מֵעֲרִיסָתָן, בּוֹ בַּיּוֹם גָּזְרוּ. וּבְאִידַּךְ סְבִירָא לֵיהּ כְּרַבִּי מֵאִיר.

E para Rabi Tarfon, que disse: "que eu enterre meus filhos se essa halachá não é mutilada" (negando, portanto, que o caso do mardea sobre o lavrador seja de fato um decreto autônomo entre os dezoito)(isso também os) reduziria (o número de dezoito decretos)! Disse Rav Nachman bar Yitzchak: também (o decreto de que) as filhas dos cutim são (consideradas) nidá desde seu berço — (foi) no mesmo dia que (o) decretaram. E quanto à outra (baraita, a dos utensílios sob a calha), ele (Rabi Tarfon) entende como Rabi Meir (que houve, de fato, votação decisiva a favor de Bet Shamai, contando-a entre os dezoito, e retirando esta e inserindo a das filhas dos cutim).

Nota

A Guemará repete, num segundo caso, a mesma dificuldade estrutural enfrentada em 16b a respeito de Rabi Yossei. Se Rabi Tarfon nega que o episódio do lavrador e o mardea seja, de fato, um decreto genuíno e autônomo (pois insiste que foi um mal-entendido de transmissão, "halachá mutilada"), então esse item não poderia ser contado entre os famosos dezoito decretos promulgados naquele dia histórico — o que deixaria a lista incompleta. A resposta é idêntica à anterior: Rav Nachman bar Yitzchak aponta o decreto das filhas dos samaritanos, consideradas em estado de nidá desde o nascimento, como o item que preenche essa lacuna. A Guemará acrescenta que, quanto à outra baraita relevante (a dos utensílios deixados sob a calha, discutida em 16b), Rabi Tarfon segue a opinião de Rabi Meir — de que houve, sim, uma votação final que decidiu a favor de Bet Shamai —, de modo que aquele item permanece contado entre os dezoito, e é apenas o caso do mardea que precisa ser substituído pelo decreto das filhas dos cutim.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "e para Rabi Tarfon", "e quanto à outra" e "ele entende"
ולר' טרפון - דאמר לא גזרו שום גזירה אלא בדין תורה דלא טמאוהו אלא טומאת ערב משום מגע בצרי להו י"ח: בנות כותים כו':

"E para Rabi Tarfon" — que disse que não decretaram decreto algum (neste caso), mas (o caso segue) apenas a lei da Torá, pois não o declararam impuro senão com impureza até o anoitecer, por causa do contato — (isso) os reduziria, os dezoito. (Resposta:) as filhas dos cutim, etc.

ובאידך - דמניח כלים:

"E quanto à outra" — (baraita), a de quem deixa utensílios (sob a calha).

סבר לה - ר' טרפון כר' מאיר דחשיב ליה בי"ח דבר ואפיק הא ועייל הך דבנות כותים:

"Ele entende" — Rabi Tarfon, como Rabi Meir, que a conta entre os dezoito itens; e (por isso) retira este (caso do mardea) e insere aquele das filhas dos cutim.

Nova baraita: o vindimador para o lagar · הַבּוֹצֵר לַגַּת

05A disputa: Shamai diz que se torna suscetível a impureza, Hillel discorda
Baraita
וְאִידַּךְ — הַבּוֹצֵר לַגַּת, שַׁמַּאי אוֹמֵר: הוּכְשַׁר, הִלֵּל אוֹמֵר: לֹא הוּכְשַׁר. אָמַר לוֹ הִלֵּל לְשַׁמַּאי: מִפְּנֵי מַה בּוֹצְרִין בְּטָהֳרָה וְאֵין מוֹסְקִין בְּטָהֳרָה?

E a outra (baraita, trazida agora como novo exemplo de decreto que empresta severidade da Torá)(o caso de) quem vindima (as uvas) para o lagar: Shamai diz: (a uva) se tornou suscetível (a receber impureza, por causa do suco que escorreu sobre ela durante a vindima, contando como um líquido que a predispõe); Hillel diz: não se tornou suscetível. Disse-lhe Hillel a Shamai: por que (seguindo tua opinião) se vindima (as uvas) em pureza (isto é, se exige cuidado ritual ao vindimar as uvas para o lagar), mas não se colhem as azeitonas (para o lagar de azeite) em pureza (sem essa exigência)?

Nota

A Guemará traz mais um exemplo de decreto rabínico com força de lei da Torá, desta vez no contexto das leis de "hechsher" — a regra de que um alimento seco só se torna suscetível a receber impureza depois de entrar em contato com um dos sete líquidos que a Torá especifica (água, vinho, azeite, sangue, leite, orvalho, mel), e apenas se esse contato foi desejado pelo dono. A disputa entre Shamai e Hillel gira em torno das uvas levadas ao lagar para serem pisadas: durante o transporte e a vindima, algum suco naturalmente escorre e toca nas próprias uvas. Shamai entende que isso já basta para tornar as uvas "suscetíveis" a impureza, exigindo, portanto, cuidados de pureza ritual ao vindimar. Hillel discorda, e desafia Shamai com uma comparação: por que, então, essa mesma exigência não se aplica à colheita de azeitonas para o lagar de azeite, onde presumivelmente ocorreria situação análoga? A implicação de Hillel é que, se o suco que escorre durante a vindima não é considerado "desejado" pelo dono (mas um efeito colateral indesejado), ele não deveria tornar a uva suscetível — e o mesmo raciocínio deveria valer para as azeitonas.

06A espada cravada na casa de estudo: o dia comparado ao bezerro de ouro
Guemará
אָמַר לוֹ: אִם תַּקְנִיטֵנִי, גּוֹזְרַנִי טוּמְאָה אַף עַל הַמְּסִיקָה. נָעֲצוּ חֶרֶב בְּבֵית הַמִּדְרָשׁ, אָמְרוּ: הַנִּכְנָס — יִכָּנֵס, וְהַיּוֹצֵא — אַל יֵצֵא. וְאוֹתוֹ הַיּוֹם הָיָה הִלֵּל כָּפוּף וְיוֹשֵׁב לִפְנֵי שַׁמַּאי כְּאֶחָד מִן הַתַּלְמִידִים. וְהָיָה קָשֶׁה לְיִשְׂרָאֵל כַּיּוֹם שֶׁנַּעֲשָׂה בּוֹ הָעֵגֶל. וּגְזוּר שַׁמַּאי וְהִלֵּל וְלָא קַבִּלוּ מִינַּיְיהוּ, וַאֲתוֹ תַּלְמִידַיְיהוּ גְּזוּר וְקַבִּלוּ מִינַּיְיהוּ.

Disse-lhe (Shamai a Hillel): se me provocas (insistindo nessa comparação), decreto impureza também sobre a colheita (das azeitonas, em vez de recuar quanto às uvas). Cravaram uma espada na casa de estudo (como sinal de determinação e advertência), e disseram: quem quiser entrar, que entre, mas quem (já estiver dentro), que não saia (até se decidir a votação). E naquele dia, Hillel estava curvado e sentado diante de Shamai como um dos discípulos (pois os discípulos de Shamai eram, naquele momento, mais numerosos). E foi (um dia) tão difícil para Israel quanto o dia em que se fez o bezerro (de ouro, no deserto). E Shamai e Hillel decretaram (as dezoito medidas), mas (os sábios da geração) não as aceitaram deles; e vieram os discípulos deles (de Shamai e Hillel) e decretaram, e eles (os sábios) as aceitaram deles.

Nota

A resposta de Shamai à provocação de Hillel não é uma explicação lógica, mas uma ameaça: em vez de recuar da posição sobre as uvas, ele ameaça estender o mesmo rigor também à colheita de azeitonas — tornando ainda mais extensa a lista de decretos, em vez de menos. Esse confronto é o pano de fundo do relato dramático que se segue: os discípulos de Shamai, temendo que a discussão se arrastasse indefinidamente ou que a maioria não comparecesse para votar a seu favor, cravaram uma espada na entrada da casa de estudo — um gesto de intimidação — e declararam que ninguém que já estivesse lá dentro poderia sair antes da votação (embora outros pudessem entrar), garantindo assim que os presentes, majoritariamente discípulos de Shamai, decidissem a votação. Naquele dia excepcional, o próprio Hillel, apesar de ser o Nasi (o mais alto cargo de liderança) e conhecido por sua humildade e mansidão, sentou-se curvado diante de Shamai, como um simples discípulo — pois os votos favoráveis a Shamai superavam em número os de Hillel. A Guemará compara a gravidade desse dia — em que se impôs uma votação por coação, e não por consenso genuíno de todos os sábios — à gravidade do pecado do bezerro de ouro, um dos episódios mais sombrios da história de Israel. Por fim, se explica que, por causa dessa circunstância problemática, os dezoito decretos originalmente promulgados por Shamai e Hillel (ou pelas escolas deles) não foram aceitos de imediato pela geração dos sábios devido à forma coercitiva como a votação ocorreu; foi somente quando os discípulos das duas escolas, já sem a mesma pressão, decretaram de novo as mesmas dezoito medidas, que os sábios as aceitaram como válidas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "por que se vindima em pureza" e sobre a espada
מפני מה בוצרין בטהרה - מפני מה אתה מצריך לבצור בכלים טהורים דקאמרת הוכשר ואין אתה מצריך למסוק זיתים בכלים טהורים:

"Por que se vindima em pureza" — por que exiges vindimar em utensílios puros, já que disseste que (a uva) se tornou suscetível, mas não exiges colher azeitonas em utensílios puros?

יכנס - לבית המדרש:

"Que entre" — na casa de estudo.

והיוצא אל יצא - לפי שהיו רוצין לעמוד במנין:

"Mas quem (já estiver dentro), que não saia" — porque queriam se manter na contagem (para a votação).

קשה - לפי שהלל נשיא וענוותן:

"Foi difícil" — porque Hillel era o Nasi e um homem humilde.

וגזור שמאי והלל - ולא קבלו מינייהו ואתו תלמידייהו וגזור וקבלו מינייהו:

"E Shamai e Hillel decretaram" — mas não os aceitaram deles; e vieram os discípulos deles e decretaram, e os aceitaram deles.

07A razão do decreto: primeiro, o receio de cestos impuros
Guemará
מַאי טַעְמָא? אָמַר רַבִּי זְעֵירִי אָמַר רַבִּי חֲנִינָא: גְּזֵירָה שֶׁמָּא יִבְצְרֶנּוּ בְּקוּפּוֹת טְמֵאוֹת.

Qual é a razão (de Shamai, ao considerar a uva suscetível pelo suco da vindima)? Disse Rabi Zeiri, disse Rabi Chanina: (é um) decreto, para que não (aconteça de alguém) vindimá-la (as uvas) em cestos impuros (pois, se a uva já está molhada pelo suco, torna-se suscetível e o contato com o cesto impuro a contaminaria de fato).

Nota

A Guemará busca a razão subjacente à posição de Shamai, que trata a uva vindimada como já suscetível a impureza. A explicação inicial de Rabi Chanina é que se trata de um decreto preventivo: como o suco que escorre durante a vindima molha naturalmente as uvas, tornando-as tecnicamente suscetíveis à impureza (ainda que sem intenção direta do dono), há o receio de que as pessoas, não percebendo essa suscetibilidade, vindimem as uvas em cestos ritualmente impuros — o que de fato as contaminaria, já que estariam molhadas e, portanto, aptas a receber impureza. Ao declarar, por decreto, que a vindima já torna a uva suscetível, Shamai visa alertar as pessoas a usarem cestos puros desde o início do processo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "qual é a razão" e "em cestos impuros"
מ"ט - הוכשר הא לא ניחא ליה בההיא משקה דנפיק וקאזיל לאיבוד:

"Qual é a razão" — de (dizer que) se tornou suscetível, já que (o dono) não tem satisfação com aquele líquido que sai e se perde (e, segundo a regra geral, um líquido indesejado não torna o alimento suscetível)?

בקופות טמאות - דאתיא טומאת הכלי ומחשבה ליה למשקה להכשיר הואיל וטומאתו והכשרו כאחת:

"Em cestos impuros" — pois vem a impureza do utensílio, e (essa própria impureza) conta o líquido como (algo que serve para) tornar suscetível, visto que sua impureza e sua suscetibilidade ocorrem ao mesmo tempo.

08Refinando a objeção: cestos revestidos de piche
Guemará
הָנִיחָא לְמַאן דְּאָמַר כְּלִי טָמֵא חוֹשֵׁב מַשְׁקִין — שַׁפִּיר, אֶלָּא לְמַאן דְּאָמַר אֵין כְּלִי טָמֵא חוֹשֵׁב מַשְׁקִין — מַאי אִיכָּא לְמֵימַר? אֶלָּא אָמַר זְעֵירִי אָמַר רַבִּי חֲנִינָא: גְּזֵירָה שֶׁמָּא יִבְצְרֶנּוּ בְּקוּפּוֹת מְזוּפָּפוֹת.

Isso está bem para quem diz que um utensílio impuro (torna) os líquidos (nele contidos) considerados (como desejados, tornando o alimento suscetível) — bem (explicado). Mas para quem diz que um utensílio impuro não (torna) os líquidos considerados (dessa forma), o que há para dizer? Mas (a resposta correta é que) disse Zeiri, disse Rabi Chanina: (é um) decreto, para que não (aconteça de alguém) vindimá-la (as uvas) em cestos revestidos de piche (impermeabilizados, que não deixam o suco escoar e se perder).

Nota

A Guemará refina a explicação anterior, notando que ela depende de uma opinião específica e disputada — a de que o mero fato de um líquido estar dentro de um utensílio impuro já basta para considerá-lo "desejado" pelo dono (tornando, assim, o alimento em contato com ele suscetível a impureza). Mas há outra opinião que rejeita essa premissa, sustentando que a impureza do utensílio, por si só, não converte um líquido indesejado em desejado. Para conciliar a explicação com essa segunda opinião, Rabi Chanina reformula: o receio não é sobre cestos comuns (onde o suco simplesmente escorreria e se perderia, sem se tornar "desejado"), mas especificamente sobre cestos revestidos internamente de piche (uma substância impermeabilizante) — pois, nesses cestos vedados, o suco que escorre da uva não consegue escoar para fora e se perder, mas se acumula dentro do cesto junto às uvas. Esse acúmulo intencional (ou pelo menos não evitado) already demonstra satisfação do dono com o líquido, tornando-o, de fato, "desejado" e capaz de conferir suscetibilidade — independentemente da disputa sobre utensílios impuros.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "isso está bem para quem diz" e "revestidos de piche"
הניחא למאן דאמר - לא ידענא היכא:

"Isso está bem para quem diz" — não sei onde (essa opinião se encontra explicitamente formulada).

חושב משקה - להכשיר אוכל שבתוכו ואף על גב דלא אחשביה הוא:

"(Torna) o líquido considerado" — para tornar suscetível o alimento que está dentro dele (do utensílio), ainda que (o próprio dono) não o tenha considerado (desejado).

מזופפות - כיון דלא אזיל לאיבוד. ניחא ליה ליציאתו:

"Revestidos de piche" — visto que (o líquido) não se perde, (o dono) tem satisfação com sua saída (do cacho para dentro do cesto).

09A explicação de Rava: os cachos que se mordem entre si
Guemará
רָבָא אָמַר: גְּזֵירָה מִשּׁוּם הַנּוֹשְׁכוֹת. דְּאָמַר רַב נַחְמָן אָמַר רַבָּה בַּר אֲבוּהּ: פְּעָמִים שֶׁאָדָם הוֹלֵךְ לְכַרְמוֹ לֵידַע אִם הִגִּיעוּ עֲנָבִים לִבְצִירָה אוֹ לֹא, וְנוֹטֵל אֶשְׁכּוֹל עֲנָבִים לְסוֹחֳטוֹ, וּמְזַלֵּף עַל גַּבֵּי עֲנָבִים — וּבִשְׁעַת בְּצִירָה עֲדַיִין מַשְׁקֶה טוֹפֵחַ עֲלֵיהֶם.

Rava disse: (é um) decreto por causa das (uvas) "que se mordem" (cachos entrelaçados que se tocam e se espremem mutuamente). Pois disse Rav Nachman, disse Rabá bar Avuh: às vezes uma pessoa vai à sua vinha para saber se as uvas já chegaram ao ponto da vindima ou não, e toma um cacho de uvas para espremê-lo, e borrifa (o suco) sobre as (demais) uvas (para testar o sabor ou a maturação) — e, no momento da vindima (subsequente), ainda há líquido úmido sobre elas.

Nota

Rava propõe uma terceira explicação para o decreto, independente das anteriores. Ele observa que é prática comum o dono da vinha, antes da vindima propriamente dita, visitar o vinhedo para verificar se as uvas já amadureceram o suficiente: para isso, ele arranca um cacho, espreme algumas uvas para testar o suco, e borrifa esse suco sobre outras uvas próximas — um ato deliberado e desejado. Esse líquido borrifado permanece sobre as uvas até o momento real da vindima, tornando-as já suscetíveis a impureza antes mesmo do processo de colheita começar. Rava chama isso de razão "por causa das uvas que se mordem" — uma referência aos cachos apertados que se tocam e se espremem mutuamente durante o manuseio, deixando suco residual sobre a superfície de uvas vizinhas, de modo semelhante ao ato de testar a maturação. A explicação de Rava, portanto, localiza a origem da suscetibilidade não no momento da vindima em si, mas em atos anteriores e certamente desejados pelo dono, evitando a necessidade de recorrer à disputa sobre utensílios impuros.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "as que se mordem"
הנושכות - אשכולות הנושכות זו את זו וכשבא להפרידן נסחט המשקה עליהן וכיון דעבד בידים ולא אפשר בלא סחיטה מכשר:

"As que se mordem" — cachos que se mordem (se entrelaçam e se tocam) uns aos outros, e quando (alguém) vem separá-los, o líquido se espreme sobre eles; e, visto que (o próprio dono) o fez com as próprias mãos, e não é possível (separá-los) sem espremer, (esse líquido) torna (a uva) suscetível (por ser considerado desejado, já que resulta de um ato inevitável e consciente).

10E a outra opinião (continua em 17b)
Guemará
וְאִידַּךְ, אָמַר

E a outra (explicação, referente à opinião que discorda de Rava, começa aqui e prossegue em Shabbat 17b): disse

Nota

O daf termina exatamente no ponto em que a Guemará introduz a explicação alternativa à razão de Rava — indicando que outro amora oferece uma justificativa diferente para o mesmo decreto de Shamai sobre a vindima. O texto se interrompe na própria atribuição ("disse"), e a explicação completa só aparece no início de Shabbat 17b, que já foi confirmado como existente na Sefaria.