Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Bet · Bameh Madlikin
כָּאן קִיצֵּץ בֶּן זַכַּאי תּוּרְמְסֵי תְרוּמָה

A conclusão do relato de Rabi Shimon bar Yochai — o lugar de impureza suspeita, o fim de Yehuda ben Guerim — e a nova Mishná sobre as três coisas a dizer em casa na véspera de Shabat

Shabbat 34a — a continuação direta do relato de Rabi Shimon bar Yochai, interrompido no limite de 33b

O daf abre concluindo o relato iniciado em 33b: os moradores locais informam Rabi Shimon bar Yochai de que há um lugar sobre o qual paira dúvida de impureza, causando sofrimento aos kohanim, que precisam contorná-lo por um caminho longo. Um velho lhe indica que ali Ben Zakai (Rabban Yochanan ben Zakai) outrora cortou tremoços de teruma, marcando o solo; Rabi Shimon segue esse mesmo método, purificando tudo onde a terra estava firme e marcando com sinal tudo onde estava solta. O mesmo velho, então, proclama publicamente que "bar Yochai purificou um cemitério" — provocando de Rabi Shimon uma resposta cortante sobre a hipocrisia de quem participa de uma decisão e depois a denuncia, seguida da morte do velho pelo próprio olhar de Rabi Shimon. Ao sair para a praça, Rabi Shimon avista Yehuda ben Guerim — o delator cujas palavras haviam levado à sua sentença de morte em 33b — e, com um único olhar, o transforma num monte de ossos, fechando definitivamente o longo relato agádico iniciado ainda em 33b. O daf then passa à nova Mishná do Perek Bet: as três coisas que todo homem deve perguntar em sua casa na véspera de Shabat, ao anoitecer — "dizimastes?", "fizestes o eiruv?" e "acendei a vela" —, com a distinção, no caso de dúvida sobre se já escureceu, entre o que ainda se pode fazer (eiruv, e guardar comida quente) e o que não se pode mais (dizimar o certamente não dizimado, imergir utensílios, acender velas). A Guemará busca a fonte bíblica dessa Mishná no versículo de Jó sobre "saber que há paz em tua tenda", debate o tom correto — ameno, não autoritário — com que essas três coisas devem ser ditas, e resolve uma aparente contradição interna da Mishná quanto ao horário de dizer essas palavras. Segue-se um mnemônico e uma extensa sugya sobre eiruvei techumin e eiruvei chatzerot: o caso de dois vizinhos que pedem a alguém para fazer eiruv por eles em horários diferentes do crepúsculo, ambos adquirindo o eiruv por razões opostas mas complementares; a objeção lógica de que isso pareceria impossível dos dois lados, resolvida pela regra de que a dúvida sobre o crepúsculo, sendo uma dúvida rabínica, se resolve para a leniência; e, por fim, a pergunta de Rava sobre por que não se pode guardar comida quente, depois de escurecido, em material que não aumenta o calor — respondida como um decreto contra ferver a comida novamente, com a réplica de Abaye sobre o próprio crepúsculo e a resposta final de que panelas retiradas do fogo perto do anoitecer ainda estão fervendo, sem risco de esfriar.

A conclusão: o lugar de impureza suspeita e o fim de Yehuda ben Guerim · דּוּכְתָּא דְּאִית בֵּיהּ סְפֵק טוּמְאָה

01O sofrimento dos kohanim ao contornar o lugar suspeito; o velho indica onde Ben Zakai cortou tremoços de teruma; Rabi Shimon purifica pelo mesmo método
Rabi Shimon bar Yochai; um velho anônimo
וְאִית לְהוּ צַעֲרָא לְכֹהֲנִים לְאַקּוֹפֵי. אֲמַר: אִיכָּא אִינִישׁ דְּיָדַע דְּאִיתַּחְזַק הָכָא טָהֳרָה? אֲמַר לֵיהּ הָהוּא סָבָא: כָּאן קִיצֵּץ בֶּן זַכַּאי תּוּרְמְסֵי תְּרוּמָה. עֲבַד אִיהוּ נָמֵי הָכִי, כָּל הֵיכָא דַּהֲוָה קְשֵׁי — טַהֲרֵיהּ, וְכָל הֵיכָא דַּהֲוָה רְפֵי — צַיְּינֵיהּ.

E havia (por causa desse lugar) sofrimento para os kohanim, que precisavam contorná-lo (por um caminho longo, para não se contaminar). Disse (Rabi Shimon): há alguém que saiba (dizer) que aqui se estabeleceu (um estado de) pureza? Disse-lhe um certo velho: aqui Ben Zakai (Rabban Yochanan ben Zakai) cortou tremoços de teruma (marcando, com esse ato, que o solo daquele ponto específico era puro). Fez ele (Rabi Shimon) também assim: todo lugar em que (a terra) estava firme (compacta, sinal de que nunca fora escavada para sepultamento) — purificou-o; e todo lugar em que estava solta — marcou-o (com um sinal de impureza).

Nota

O daf abre retomando exatamente onde 33b parou: Rabi Shimon bar Yochai, já reintegrado ao mundo e desejoso de realizar um reparo em gratidão pelo milagre que lhe ocorrera, à semelhança de Jacó em Shechém, pergunta aos moradores locais se há algo que precise de conserto. A resposta é que existe um lugar cuja condição de pureza é duvidosa — presumivelmente suspeito de conter sepulturas antigas —, obrigando os kohanim, que não podem se contaminar por contato com os mortos, a um desvio longo e penoso para evitá-lo. Rabi Shimon pergunta se alguém tem uma tradição confiável sobre a pureza do local, e um velho lhe informa que ali mesmo Rabban Yochanan ben Zakai (uma das maiores autoridades da geração anterior à destruição do Templo) havia cortado tremoços de teruma — um alimento sagrado que só pode ser consumido em estado de pureza; o próprio ato de cortá-los ali, segundo a lógica do relato, era prova de que aquele ponto específico do terreno era conhecidamente puro. Rabi Shimon adota o mesmo método para investigar e demarcar toda a área: onde a terra estava firme e compacta — sinal de que o solo nunca fora revolvido para abrir uma sepultura —, ele a declara pura; onde estava solta e recém-mexida, ele a marca como impura, poupando os kohanim de precisar evitar toda a região.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre o sofrimento dos kohanim e o método de Ben Zakai
ואית להו צערא לאקופי - שהיה אותו שוק שהספק בו מקום מעבר העיר לרבים והכהנים לא היו יכולין ליכנס שם מפני טומאה וצריך להקיף דרך אחר ארוך:

"E havia sofrimento para (os kohanim, que precisavam) contornar" — pois aquele mercado, sobre o qual havia a dúvida, era o lugar de passagem da cidade para o público em geral, e os kohanim não podiam entrar ali por causa da impureza, e precisavam contornar por outro caminho, longo.

איכא דידע דאיתחזק טהרה - בהאי שוק מימיו שלא היה בית הקברות גמור ולא ניתן לפנותו:

"Há alguém que saiba que se estabeleceu pureza" — nesse mercado, desde sempre, (alguém que saiba) que não havia ali um verdadeiro cemitério, e que não fora concedido para (esse fim).

כאן קיצץ בן זכאי - שתלן ועקרן לאחר גידולן:

"Aqui cortou Ben Zakai" — plantou-os e os arrancou depois de crescidos.

תורמסי תרומה - הצריכות לשמרן בטהרה וגם הוא היה כהן כדאמרינן [בתוספתא דפרה] (פ"ג) אם מה שעשו ידי שכחתי:

"Tremoços de teruma" — que precisam ser guardados em pureza; e ele (Rabban Yochanan ben Zakai) também era kohen, como dizemos (na Tosefta de Pará, cap. 3): "se esqueci o que minhas (próprias) mãos fizeram (ainda assim confio no sinal que deixei)".

עבד איהו נמי הכי - היה מקצץ תורמסין ומשליכן שם ונעשה נס וצף המת במקום שהוא שם וציינו למקום הקבר הכי מפרש בפסיקתא דפרשת העומר ובסדר זרעים ירושלמי:

"Fez ele também assim" — cortava tremoços e os lançava ali, e ocorreu um milagre, e (o corpo do) morto flutuava (à superfície) no lugar em que estava, e marcavam o lugar da sepultura. Assim se explica na Pesikta, na porção do Omer, e no Seder Zeraim do Yerushalmi.

02O velho proclama que "bar Yochai purificou um cemitério"; a resposta cortante de Rabi Shimon e a morte do velho; o encontro com Yehuda ben Guerim na praça e seu fim como monte de ossos
Rabi Shimon bar Yochai; o velho anônimo; Yehuda ben Guerim
אֲמַר הָהוּא סָבָא: טִיהֵר בֶּן יוֹחַי בֵּית הַקְּבָרוֹת! אֲמַר לֵיהּ: אִילְמָלֵי לֹא הָיִיתָ עִמָּנוּ, וַאֲפִילּוּ הָיִיתָ עִמָּנוּ, וְלֹא נִמְנֵיתָ עִמָּנוּ — יָפֶה אַתָּה אוֹמֵר. עַכְשָׁיו שֶׁהָיִיתָ עִמָּנוּ, וְנִמְנֵיתָ עִמָּנוּ, יֹאמְרוּ: זוֹנוֹת מְפַרְכְּסוֹת זוֹ אֶת זוֹ, תַּלְמִידֵי חֲכָמִים לֹא כָּל שֶׁכֵּן?! יְהַב בֵּיהּ עֵינֵיהּ וְנָח נַפְשֵׁיהּ. נְפַק לְשׁוּקָא חַזְיֵיהּ לִיהוּדָה בֶּן גֵּרִים. אֲמַר: עֲדַיִין יֵשׁ לְזֶה בָּעוֹלָם? נָתַן בּוֹ עֵינָיו וְעָשָׂהוּ גַּל שֶׁל עֲצָמוֹת.

Disse aquele velho: "bar Yochai purificou o cemitério"! Disse-lhe (Rabi Shimon): se não tivesses estado (presente) conosco (quando fiz o exame), e ainda que tivesses estado conosco, mas não tivesses sido contado entre nós (isto é, não tivesses participado da decisão) — bem dirias (criticando-me, e eu não teria do que reclamar). Mas agora que estiveste conosco, e foste contado entre nós (participando do próprio ato de marcação), dirão: "as prostitutas se enfeitam umas às outras (cobrindo-se mutuamente de elogios falsos), e os discípulos dos sábios, não seria ainda mais (razoável esperar lealdade)?!" Fixou nele seu olhar, e (o velho) descansou sua alma (morreu). Saiu (Rabi Shimon) para a praça, viu Yehuda ben Guerim. Disse: ainda tem este (homem lugar) no mundo? Fixou nele seus olhos, e o tornou um monte de ossos.

Nota

O mesmo velho que revelara o método de purificação a Rabi Shimon torna-se, em seguida, sua própria denúncia pública: ele proclama, diante de todos, que "bar Yochai purificou um cemitério" — uma acusação carregada de insinuação, sugerindo que Rabi Shimon teria agido de modo leviano ou incorreto em matéria de pureza ritual, um assunto de extrema gravidade. A resposta de Rabi Shimon é demolidora: ele não objeta à crítica em si, mas à hipocrisia de quem a formula — pois o próprio velho estivera presente durante todo o processo de exame e marcação do terreno, participando ativamente da decisão como parte do grupo consultado. Se ele tivesse permanecido à margem, sem envolvimento direto, sua crítica posterior seria legítima; mas, tendo participado da própria deliberação e, implicitamente, concordado com o resultado, sua denúncia pública equivale à falsidade das prostitutas que se elogiam mutuamente em público para depois se difamarem em segredo — um padrão de deslealdade que, argumenta Rabi Shimon, seria ainda mais grave e inaceitável entre discípulos dos sábios, que deveriam pautar-se por um padrão moral superior. Com um único olhar — o mesmo poder que, ao sair da caverna, incinerava tudo o que tocava — Rabi Shimon causa a morte do velho. Em seguida, ao sair para a praça pública, Rabi Shimon avista Yehuda ben Guerim, o mesmo delator cujas palavras relatadas ao governo, em 33b, haviam levado à sentença de morte contra o próprio Rabi Shimon, obrigando-o a fugir e se esconder por doze anos. Ao vê-lo ainda vivo, Rabi Shimon expressa sua indignação de que tal homem ainda tivesse lugar no mundo, e, com o mesmo olhar fulminante, o reduz instantaneamente a um monte de ossos — fechando definitivamente, com essa cena severa, todo o longo relato agádico que ocupou o final de 33b e o início deste daf.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "estiveste conosco", as prostitutas e o monte de ossos
היית - במעמד:

"Estiveste" — presente (no momento do exame).

ונמנית - הסכמת לדעתנו להיות מן המנין:

"E foste contado" — concordaste com nossa opinião, para seres (incluído) no número (dos que decidiram).

מפרכסות זו את זו - את שער חברתה להיות נאה:

"Se enfeitam umas às outras" — o cabelo de sua companheira, para que fique bela.

גל מעצמות - כמת שנרקב בשרו ונפל מזמן הרבה:

"Um monte de ossos" — como um morto cuja carne já apodreceu e caiu há muito tempo.

Nova Mishná: as três coisas a dizer em casa na véspera de Shabat · שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים צָרִיךְ אָדָם לוֹמַר בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ

03Mishná: dizimastes? fizestes o eiruv? acendei a vela — e a distinção, em caso de dúvida sobre o horário, entre o que ainda se pode e o que não se pode fazer
Mishná
שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים צָרִיךְ אָדָם לוֹמַר בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ עֶרֶב שַׁבָּת עִם חֲשֵׁכָה: עִשַּׂרְתֶּם? עֵרַבְתֶּם? — הַדְלִיקוּ אֶת הַנֵּר. סָפֵק חֲשֵׁכָה סָפֵק אֵינוֹ חֲשֵׁכָה — אֵין מְעַשְּׂרִין אֶת הַוַּדַּאי, וְאֵין מַטְבִּילִין אֶת הַכֵּלִים, וְאֵין מַדְלִיקִין אֶת הַנֵּרוֹת. אֲבָל מְעַשְּׂרִין אֶת הַדְּמַאי, וּמְעָרְבִין, וְטוֹמְנִין אֶת הַחַמִּין.

Três coisas precisa o homem dizer dentro de sua casa na véspera de Shabat, ao anoitecer: "dizimastes?"; "fizestes o eiruv?" — "acendei a vela". (Se houver) dúvida (se) já escureceu, dúvida (se) ainda não escureceu — não se dizima o (produto) certamente (não dizimado), nem se imergem (em pureza) os utensílios, nem se acendem as velas; mas se dizima o demai (produto de dizimação duvidosa), e se faz o eiruv, e se guarda comida quente.

Nota

Encerrado o relato agádico, a Mishná abre uma nova sugya, ainda dentro do Perek Bet, "Bameh Madlikin", sobre os deveres práticos do dono da casa na véspera de Shabat. Três lembretes devem ser feitos em voz alta dentro de casa, ao entardecer, pouco antes do anoitecer: perguntar se os alimentos já foram dizimados (separando o maasser, o dízimo, dos produtos agrícolas que serão consumidos na refeição de Shabat), perguntar se o eiruv foi providenciado (seja o eiruv de techumin, que estende o limite de caminhada permitido, seja o de chatzerot, que permite carregar objetos entre os pátios de uma vizinhança), e, por fim, ordenar diretamente que se acenda a vela de Shabat — este último formulado como mandamento direto, e não como pergunta, pois, sendo uma ação visível, não há razão para simplesmente perguntar se já foi feita. A Mishná então trata do caso em que há dúvida sobre se o anoitecer (o crepúsculo, bein hashmashot) já ocorreu ou não: nesse período incerto, três ações que envolvem uma proibição mais séria ou definitiva já não podem mais ser realizadas — dizimar um produto que é certamente não dizimado (pois isso constitui um "reparo" pleno do produto, proibido em Shabat mesmo por decreto rabínico), imergir utensílios em água para purificá-los, e acender velas (proibição de origem bíblica, mais grave que as demais). Mas três outras ações, de caráter mais leniente, ainda são permitidas nesse horário duvidoso: dizimar o demai (produto comprado de um am ha'aretz, cuja dizimação é apenas duvidosa e cuja separação é, portanto, apenas de instituição rabínica), fazer o eiruv, e guardar comida quente para preservar seu calor durante o Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ao anoitecer", "dizimastes" e as ações permitidas em caso de dúvida
מתני' עם חשכה - שאם ימהר להזכירם מבעוד יום יפשעו ויאמרו עדיין יש שהות:

"Mishná: ao anoitecer" — pois, se (o dono da casa) se apressasse a mencioná-las ainda de dia, (os da casa) poderiam negligenciar, dizendo: "ainda há tempo".

עשרתם - פירות האילן לסעודת שבת שאף אכילת עראי של שבת קובעת למעשר כדאמרינן במסכת ביצה (דף לד:) דשבת עונג איקרי מכל שהוא הוי עונג:

"Dizimastes" — os frutos da árvore para a refeição de Shabat, pois até a comida ocasional de Shabat torna (o produto) obrigado ao dízimo, como dizemos no tratado Beitzá (34b), pois Shabat se chama "prazer" (oneg) mesmo por qualquer quantidade, sendo (considerada) prazer.

ערבתם - ערובי תחומין וחצירות והני תרי שייכי למימרינהו בלשון שאלה דשמא כבר עשו אבל בנר לא שייך הדלקתם דדבר הנראה לעין הוא:

"Fizestes o eiruv" — eiruvei techumin e chatzerot; e estas duas (perguntas) convém dizê-las em forma de pergunta, pois talvez já tenham sido feitas; mas quanto à vela não convém (dizer) "acendestes", pois é coisa visível a olho nu (e não haveria dúvida).

ספק חשכה - כגון בין השמשות אין מעשרין את הודאי דתיקון מעליא הוא אע"ג דשבות בעלמא היא קסבר גזרו על השבות אף על בהש"מ:

"Dúvida (se) escureceu" — como no bein hashmashot (crepúsculo); não se dizima o (produto) certamente (não dizimado), pois é um reparo pleno; e ainda que seja apenas um shevut (proibição rabínica leve), (a Mishná) considera que decretaram o shevut mesmo sobre o bein hashmashot.

ואין מטבילין את הכלים - דהוי נמי שבות כדאמרינן במסכת ביצה (דף יח.) דנראה כמתקן כלי:

"Nem se imergem os utensílios" — pois isso também é um shevut, como dizemos no tratado Beitzá (18a), pois parece como quem repara um utensílio.

ואין מדליקין את הנרות - כ"ש דספיקא דאורייתא היא וזו ואין צריך לומר זו קתני:

"Nem se acendem as velas" — tanto mais, pois é dúvida (sobre proibição) de origem bíblica; e (a Mishná) ensina isto e "nem é preciso dizer" aquilo (em ordem crescente de gravidade).

אבל מעשרין את הדמאי - דלא דמי למתקן דרוב ע"ה מעשרין הן:

"Mas se dizima o demai" — pois isso não se assemelha a "reparar", já que a maioria dos amei ha'aretz (já) dizimam (e a separação é apenas uma precaução).

וטומנין את החמין - נותנן בקופה של מוכין להיות חומם משתמר בהן אבל משחשכה ודאי אין טומנין בהן כדמפרש בגמ':

"E se guarda comida quente" — colocando-a numa cesta de lã cardada, para que seu calor se preserve nela; mas depois que certamente escureceu, não se guarda (mais), como se explica na Guemará.

04A fonte bíblica de Rabi Yehoshua ben Levi; o tom correto — ameno — para dizer as três coisas, segundo Rabá bar Rav Huna e Rav Ashi
Guemará; Rabi Yehoshua ben Levi; Rabá bar Rav Huna; Rav Ashi
מְנָא הָנֵי מִילֵּי? אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: אָמַר קְרָא: ״וְיָדַעְתָּ כִּי שָׁלוֹם אָהֳלֶךָ וּפָקַדְתָּ נָוְךָ וְלֹא תֶחֱטָא״. אָמַר רַבָּה בַּר רַב הוּנָא: אַף עַל גַּב דַּאֲמוּר רַבָּנַן שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים צָרִיךְ אָדָם לוֹמַר וְכוּ׳ — צְרִיךְ לְמֵימְרִינֵהוּ בְּנִיחוּתָא, כִּי הֵיכִי דְּלִיקַבְּלִינְהוּ מִינֵּיהּ. אָמַר רַב אָשֵׁי: אֲנָא לָא שְׁמִיעַ לִי הָא דְּרַבָּה בַּר רַב הוּנָא, וְקַיֵּימְתַּהּ מִסְּבָרָא.

De onde (se aprendem) estas coisas? Disse Rabi Yehoshua ben Levi: disse o versículo: "e saberás que há paz em tua tenda, e visitarás tua morada, e não pecarás" (Jó 5:24). Disse Rabá bar Rav Huna: ainda que os Sábios tenham dito "três coisas precisa o homem dizer (em sua casa)", etc. — precisa dizê-las com tranquilidade (de modo ameno, não ríspido), para que as aceitem dele. Disse Rav Ashi: eu não tinha ouvido este ensinamento de Rabá bar Rav Huna, mas o estabeleci por raciocínio próprio.

Nota

A Guemará busca a base bíblica para a exigência da Mishná de que essas três coisas sejam ditas explicitamente antes de Shabat. Rabi Yehoshua ben Levi encontra a fonte num versículo de Jó, que promete a quem age corretamente: "saberás que há paz em tua tenda, e visitarás tua morada, e não pecarás" — interpretado como uma instrução para "visitar", isto é, verificar ativamente, o estado da própria casa antes do início do Shabat, garantindo que tudo esteja em ordem para que não se venha a pecar por transgredir inadvertidamente uma proibição sabática. Rabá bar Rav Huna acrescenta uma qualificação importante sobre o modo de dizer essas três coisas: mesmo sendo um lembrete necessário, ele deve ser pronunciado com tranquilidade e delicadeza, não como uma ordem ríspida ou uma repreensão — pois um tom ameno tem muito mais chance de ser bem recebido e efetivamente seguido pelos membros da casa do que uma cobrança agressiva, que tende a gerar resistência. Rav Ashi confirma essa mesma conclusão, mas esclarece que chegou a ela de forma independente, por seu próprio raciocínio, sem conhecer previamente o ensinamento de Rabá bar Rav Huna — uma nota editorial que confirma a solidez do princípio, alcançado por duas vias distintas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ao anoitecer" na Guemará
גמ' עם חשכה - מבעוד יום הוא ויש שהות לעשר ולערב:

"Guemará: ao anoitecer" — (isto é, o momento de dizer as três coisas) ainda é de dia, e há tempo para dizimar e fazer o eiruv (antes que efetivamente escureça).

05Contradição interna na Mishná sobre o horário exato de dizer as três coisas, e sua resolução
Guemará
הָא גוּפָא קַשְׁיָא: אָמְרַתְּ שְׁלֹשָׁה דְּבָרִים צָרִיךְ אָדָם לוֹמַר בְּתוֹךְ בֵּיתוֹ עֶרֶב שַׁבָּת עִם חֲשֵׁכָה. עִם חֲשֵׁכָה — אִין, סָפֵק חֲשֵׁכָה סָפֵק אֵינוֹ חֲשֵׁכָה — לָא. וַהֲדַר תָּנֵי: סָפֵק חֲשֵׁכָה סָפֵק אֵינוֹ חֲשֵׁכָה — מְעָרֵב.

Isto mesmo é (uma) dificuldade: disseste (na Mishná): "três coisas precisa o homem dizer dentro de sua casa na véspera de Shabat, ao anoitecer". (Isso implica que) "ao anoitecer" — sim (se diz); "dúvida (se) escureceu, dúvida (se) ainda não escureceu" — não (se diz, isto é, não se faz mais o eiruv nesse horário). Mas (a Mishná) depois ensina: "dúvida (se) escureceu, dúvida (se) ainda não escureceu — se faz o eiruv" (contradizendo a implicação anterior).

Nota

A Guemará aponta uma tensão interna na própria Mishná. A primeira cláusula, ao especificar que as três coisas — incluindo a pergunta sobre o eiruv — devem ser ditas "ao anoitecer" (um momento ainda de dia, com tempo suficiente para agir), parece implicar, por exclusão, que no horário de dúvida sobre o crepúsculo (bein hashmashot) já não seria mais apropriado sequer perguntar sobre o eiruv, pois seria tarde demais. No entanto, a própria Mishná, em sua segunda cláusula, afirma explicitamente que, mesmo nesse horário duvidoso, ainda se pode fazer o eiruv — uma aparente contradição entre as duas partes do mesmo texto, que a Guemará agora precisa resolver.

06Resposta de Rav: sem contradição — um caso trata de eiruvei techumin, o outro de eiruvei chatzerot
Rabi Aba em nome de Rav Chiya bar Ashi em nome de Rav
אָמַר רַבִּי אַבָּא אָמַר רַב חִיָּיא בַּר אָשֵׁי אָמַר רַב: לָא קַשְׁיָא, כָּאן בְּעֵירוּבֵי תְּחוּמִין, כָּאן בְּעֵירוּבֵי חֲצֵרוֹת.

Disse Rabi Aba, disse Rav Chiya bar Ashi, disse Rav: não é (uma) dificuldade: aqui (a primeira cláusula, que exclui o horário duvidoso) trata de eiruvei techumin (eiruv de limites de caminhada); ali (a segunda cláusula, que permite no horário duvidoso) trata de eiruvei chatzerot (eiruv de pátios).

Nota

Rav resolve a contradição distinguindo os dois tipos de eiruv mencionados implicitamente pela Mishná. O eiruv de techumin, que estabelece o ponto a partir do qual se conta o limite de dois mil cótovelos que uma pessoa pode caminhar em Shabat, é considerado um "reparo" mais substancial e formal — por isso, no horário duvidoso do crepúsculo, já não se deve mais fazê-lo, assim como não se dizima o certamente não dizimado nesse mesmo período. Já o eiruv de chatzerot, que permite aos moradores de um pátio comum carregar objetos entre suas casas e o pátio em Shabat, é considerado uma estringência meramente adicional, de menor gravidade — e por isso ainda pode ser feito mesmo no horário de dúvida sobre o anoitecer, de modo semelhante à leniência concedida ao dízimo do demai.

07Rava: dois vizinhos pedem eiruv em horários diferentes do crepúsculo — ambos adquirem o eiruv, por razões opostas
Rava
וְאָמַר רָבָא: אָמְרוּ לוֹ שְׁנַיִם צֵא וְעָרֵב עָלֵינוּ, לְאֶחָד עֵירַב עָלָיו מִבְּעוֹד יוֹם, וּלְאֶחָד עֵירַב עָלָיו בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת — זֶה שֶׁעֵירַב עָלָיו מִבְּעוֹד יוֹם נֶאֱכַל עֵירוּבוֹ בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת, וְזֶה שֶׁעֵירַב עָלָיו בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת נֶאֱכַל עֵירוּבוֹ מִשֶּׁחָשֵׁכָה. שְׁנֵיהֶם קָנוּ עֵירוּב.

E disse Rava: disseram-lhe dois (vizinhos a um terceiro): "vai e faze eiruv por nós" (estabelecendo um eiruv de techumin em nosso nome, depositando comida no local desejado); para um, ele fez eiruv ainda de dia; para o outro, ele fez eiruv no bein hashmashot (crepúsculo). Aquele para quem fez eiruv ainda de dia — seu eiruv foi comido (por um animal ou pessoa) no bein hashmashot; e aquele para quem fez eiruv no bein hashmashot — seu eiruv foi comido depois que já escureceu (certamente). Ambos adquiriram o eiruv.

Nota

Rava apresenta um caso complexo que ilustra a leniência do horário duvidoso do crepúsculo aplicada de modo simultâneo, mas em direções opostas, a dois vizinhos diferentes. Ambos pedem a um terceiro que estabeleça, em seu nome, um eiruv de techumin — depositando comida num ponto específico antes do anoitecer, o que lhes permitirá, no Shabat seguinte, caminhar dois mil cótovelos a partir daquele ponto, em vez de a partir de sua própria casa. Para o primeiro vizinho, o eiruv foi depositado ainda de dia, com tempo de sobra; para o segundo, foi depositado apenas durante o próprio bein hashmashot, o crepúsculo duvidoso. O problema surge quando, em ambos os casos, o alimento depositado como eiruv acaba sendo consumido por um animal ou uma pessoa — mas em momentos diferentes: o eiruv do primeiro vizinho é comido justamente durante o bein hashmashot, enquanto o eiruv do segundo é comido só depois que certamente já escureceu. A conclusão de Rava é que, surpreendentemente, ambos os vizinhos adquirem validamente seu eiruv, apesar de a comida ter sido destruída em ambos os casos — um resultado que a Guemará explicará no segmento seguinte através da natureza dupla e ambígua do próprio bein hashmashot.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre eiruvei techumin e eiruvei chatzerot
בעירובי תחומין - תיקון מעליא דאסמכוה רבנן תחומין אקראי ואפי' למאן דאמר תחומין דרבנן כדאמרינן בעירובין (דף נא.) ילפינן מקום ממקום ומקום מניסה כו' אבל עירובי חצרות חומרא בעלמא הוא ולא מיקרי שביתה מעלייתא וספקא דבין השמשות שפיר דמי:

"Em eiruvei techumin" — (é considerado) um reparo pleno, pois os Sábios o basearam (no versículo) "lugar" (referente ao maná), e mesmo segundo quem diz que os limites (techumin) são de instituição rabínica, como dizemos em Eruvin (51a): "deriva-se 'lugar' de 'lugar', e 'lugar' de 'fuga'", etc. Mas eiruvei chatzerot é apenas uma estringência adicional, e não se chama "repouso pleno", e a dúvida do bein hashmashot convém (ser tratada com leniência).

08A objeção: como podem ambos adquirir, se de um lado ou outro o bein hashmashot deveria ser dia ou noite de modo consistente? Resposta: é dúvida rabínica, resolvida para a leniência
Guemará
מָה נַפְשָׁךְ. אִי בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת יְמָמָא הוּא — בָּתְרָא לִיקְנֵי קַמָּא לָא לִיקְנֵי. וְאִי בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת לֵילְיָא הוּא — קַמָּא לִיקְנֵי בָּתְרָא לָא לִיקְנֵי! בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת סְפֵקָא הוּא, וּסְפֵקָא דְרַבָּנַן לְקוּלָּא.

Seja como for (há uma dificuldade): se o bein hashmashot é (considerado) dia — que adquira o último (o segundo vizinho, cujo eiruv foi comido depois de certamente escurecido, isto é, depois que o dia terminou), e que não adquira o primeiro (cujo eiruv foi comido justamente durante o bein hashmashot, ainda de dia)! E se o bein hashmashot é (considerado) noite — que adquira o primeiro, e que não adquira o segundo! (Resposta:) o bein hashmashot é uma dúvida, e dúvida (de origem) rabínica (se resolve) para a leniência.

Nota

A Guemará levanta a objeção lógica óbvia ao caso de Rava: o bein hashmashot deveria ter um status fixo — ou é considerado parte do dia anterior, ou já é considerado parte da noite seguinte — e, seja qual for a resposta, apenas um dos dois vizinhos deveria conseguir adquirir seu eiruv, não ambos. Se o crepúsculo é tratado como ainda sendo dia, então o eiruv do primeiro vizinho (comido durante esse período, portanto "durante o dia") deveria ser considerado destruído antes que o eiruv tivesse efeito, invalidando-o; enquanto o eiruv do segundo vizinho, comido só depois que certamente escureceu (ou seja, comido à noite, depois que o eiruv já teria tomado efeito no início da noite), deveria ser válido. Inversamente, se o crepúsculo é tratado como já sendo noite, a lógica se inverteria completamente. A resposta da Guemará resolve essa aparente incoerência apontando que o próprio status do bein hashmashot é, por definição, uma dúvida não resolvida — ele pode ser dia ou pode ser noite, e o próprio sistema legal talmúdico trata essa incerteza como uma dúvida de caráter rabínico (pois a categoria em si é produto da preocupação rabínica com o momento exato da transição). Por serem dúvidas de origem rabínica, ambas se resolvem para a leniência: no caso do primeiro vizinho, aplica-se a leniência de considerar o bein hashmashot como noite (de modo que seu eiruv já havia tomado efeito antes de ser comido); no caso do segundo vizinho, aplica-se a leniência oposta, considerando o bein hashmashot como dia (de modo que seu eiruv só foi efetivamente destruído depois que a noite — e portanto o efeito do eiruv — já havia começado). Cada vizinho recebe a leniência que lhe é favorável, ainda que as duas leniências sejam logicamente opostas entre si.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "adquire o eiruv" e a dúvida do bein hashmashot
בין השמשות קונה עירוב - שהוא תחילת קדושת היום:

"O bein hashmashot adquire o eiruv" — pois é o início da santidade do dia (de Shabat, quando tratado como noite).

נאכל - שאכלו כלב או אדם:

"Foi comido" — que um cão ou uma pessoa o comeu.

שעירב עליו מבעוד יום - הניח עירוב לסוף התחום מבעוד יום ולא הספיק להחשיך ממש עד שנאכל בין השמשות:

"Que fez eiruv (por ele) ainda de dia" — depositou o eiruv no fim do limite (techum) ainda de dia, e não deu tempo de escurecer de fato, até que foi comido no bein hashmashot.

שניהם קנו עירוב - דלגבי האי שנאכל בין השמשות משוינן ליה ליליא ואמרינן כבר קדש היום בעוד העירוב קיים וקנה עירוב דהלכה כר' יוסי דאמר בעירובין (דף לה.) ספק עירוב כשר ולגבי דהאי שהונח עליו בין השמשות ונתקיים עד שחשכה משוינן לבין השמשות יממא ועדיין לא קדש היום כשהונח ונמצא שהיה שם כבר בשעת קניית עירוב:

"Ambos adquiriram o eiruv" — pois, quanto a este cujo (eiruv) foi comido no bein hashmashot, tratamo-lo como noite, e dizemos que o dia (de Shabat) já havia se santificado enquanto o eiruv ainda existia, e (portanto) adquiriu o eiruv — pois a halachá segue Rabi Yosei, que diz em Eruvin (35a) que "eiruv duvidoso é válido"; e quanto a este cujo (eiruv) foi depositado no bein hashmashot e perdurou até escurecer, tratamos o bein hashmashot como dia, e o dia ainda não se havia santificado quando foi depositado, e resulta que (o eiruv) já estava ali no momento da aquisição do eiruv.

09Precisão da lógica: por que exatamente "o último adquire, o primeiro não" seria a alternativa — e a reafirmação de que é dúvida rabínica resolvida para a leniência
Guemará
[אָמַר] רָבָא: מִפְּנֵי מָה אָמְרוּ אֵין טוֹמְנִין בְּדָבָר שֶׁאֵינוֹ מוֹסִיף הֶבֶל מִשֶּׁחָשֵׁכָה? — גְּזֵרָה שֶׁמָּא יַרְתִּיחַ. אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: אִי הָכִי, בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת נָמֵי נִיגְזַר?! אֲמַר לֵיהּ: סְתָם קְדֵירוֹת רוֹתְחוֹת הֵן.

Disse Rava: por que disseram que não se guarda (comida quente) em algo que não aumenta o calor, depois que escureceu? — (É) decreto, para que não venha a fervê-la novamente. Disse-lhe Abaye: se assim, que se decrete também sobre o bein hashmashot! Disse-lhe: as panelas, em geral, ainda estão fervendo (nesse horário, e não há risco).

Nota

A Guemará passa a uma nova pergunta de Rava, relacionada à última cláusula da Mishná — a permissão de guardar comida quente mesmo no horário duvidoso do crepúsculo. Rava pergunta qual é a razão pela qual os Sábios proibiram guardar comida quente, depois que já escureceu com certeza, mesmo num material que não aumenta o calor da comida (apenas preserva o calor já existente, sem acrescentar calor novo, o que a princípio pareceria inofensivo). A resposta é que se trata de um decreto preventivo: teme-se que, ao constatar que a comida esfriou mais do que o desejado, a pessoa seja tentada a colocá-la de volta ao fogo para fervê-la novamente — um ato que constituiria cozinhar em Shabat, uma violação bíblica grave. Abaye então desafia essa lógica: se o receio é esse, por que a mesma preocupação não se aplicaria igualmente ao próprio horário do bein hashmashot, quando a Mishná permite explicitamente guardar a comida quente? Rava responde que, nesse horário específico — o crepúsculo, imediatamente antes do anoitecer —, é razoável presumir que as panelas retiradas do fogo ainda estão efetivamente fervendo, tão pouco tempo se passou desde que estavam sobre o fogo; não havendo, portanto, risco realista de que a pessoa sinta necessidade de reaquecê-las, o decreto preventivo simplesmente não se aplica a esse caso.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não se guarda em algo que não aumenta o calor" e "as panelas ainda fervem"
ה"ג אמר רבא מפני מה אמרו אין טומנין בדבר שאינו מוסיף הבל - כגון צמר ומוכין:

Assim se lê o texto: "disse Rava: por que disseram que não se guarda em algo que não aumenta o calor" — como lã e algodão cardado.

משחשכה - כדתנן במתניתין וטומנין את החמין טעמא דספק חשכה הא ודאי חשכה אין טומנין וסתם הטמנה בדבר שאינו מוסיף הבל דאילו בדבר המוסיף הבל אפי׳ מבעוד יום אסור כדתנן בפ״ד (דף מז:) אין טומנין לא בגפת כו׳ גזירה שמא ימצא קדרתו שנצטננה כשירצה להטמינה וירתיחנה תחילה ונמצא מבשל בשבת:

"Depois que escureceu" — como ensinamos na Mishná: "e se guarda comida quente"; a razão é que (há apenas) dúvida (se) escureceu; mas se certamente já escureceu, não se guarda; e o guardar comum é feito em algo que não aumenta o calor, pois em algo que aumenta o calor é proibido mesmo ainda de dia, como ensinamos no Perek Dalet (47b): "não se guarda em bagaço de azeitonas", etc. — (é) decreto, para que não encontre sua panela esfriada, ao querer guardá-la, e a ferva primeiro, resultando em cozinhar em Shabat.

אי הכא בין השמשות נמי ניגזר - דהא שבות מעלייתא היא דהא איכא גזירת איסור דאורייתא ותנא דמתניתין אית ליה דגזרו על השבות ביה"ש דקתני אין מעשרין את הודאי:

"Se aqui, que se decrete também sobre o bein hashmashot" — pois este (decreto) é um shevut pleno, já que há (nele) um decreto contra uma proibição de origem bíblica; e o (autor da) Mishná sustenta que decretaram o shevut mesmo no bein hashmashot, pois ensina: "não se dizima o certamente (não dizimado)".

רותחות הן - שסמוך לביה"ש הוא מעבירם מעל האור וליכא למיחש לשמא נצטננה וירתיחנה:

"Estão fervendo" — pois é perto do bein hashmashot que (a pessoa) as retira do fogo, e não há (razão) para temer que (a comida) tenha esfriado e venha a fervê-la (novamente).

10Rava abre um novo ensinamento, cuja continuação prossegue em 34b
Rava
וְאָמַר רָבָא:

E disse Rava: (o daf termina aqui, com a abertura de um novo ensinamento de Rava, cuja continuação prossegue em 34b).

Nota

O daf se encerra, em seu último segmento, no meio de uma nova citação: "e disse Rava" — a fórmula introdutória de um ensinamento que fica genuinamente interrompido no limite do daf, sem que seu conteúdo seja revelado. A continuação dessa frase, e o ensinamento que Rava está prestes a transmitir, seguem apenas no início de 34b, mantendo o padrão característico do Talmud Bavli de encerrar folhas no meio de uma unidade de pensamento, obrigando o leitor a prosseguir para a página seguinte.