O daf abre completando, no meio do raciocínio, a objeção de Rav Nachman bar Yitzchak com que terminara 44a: se a própria lâmpada, feita para arder, pode ser movida assim que não está mais acesa, não deveria a cama — que nem sequer foi feita para guardar dinheiro — poder ser movida com muito mais razão, mesmo tendo tido dinheiro sobre ela? A objeção derruba a formulação original de Rav, e a Guemará propõe que o ensinamento, na verdade, sempre foi transmitido de outra forma, mais detalhada: uma cama que a pessoa designou desde a véspera para guardar dinheiro — se chegou a colocar dinheiro sobre ela, é proibido movê-la mesmo depois de removido o dinheiro; se nunca chegou a colocar dinheiro sobre ela, é permitido movê-la. E uma cama que não foi designada para isso — se há dinheiro sobre ela agora, é proibido movê-la; se não há, é permitido, contanto que não tenha havido dinheiro sobre ela no crepúsculo de sexta-feira, o momento que fixa o status de muktzeh para todo o Shabat. Em seguida, Ulla traz uma objeção em nome de Rabi Eliezer, a partir de uma Mishná sobre o mucni — a base de rodas destacável de uma arca móvel (shidá) usada para transportar pessoas: ensina-se ali que essa base não se considera unida à arca para fins de pureza ritual, nem se mede com ela, nem protege com ela sob a tenda do morto, e não se arrasta em Shabat apenas quando há dinheiro sobre a arca — o que sugere que, quando não há dinheiro no momento, é permitido arrastá-la, mesmo que tenha havido dinheiro sobre ela no crepúsculo de sexta-feira, contradizendo a regra recém-formulada de Rav. A Guemará resolve a dificuldade explicando que aquela Mishná do mucni segue a opinião de Rabi Shimon, que praticamente não reconhece a categoria de muktzeh, ao passo que Rav, ao formular sua regra em quatro casos, segue a opinião mais restritiva de Rabi Yehudá. O daf termina aqui, de forma fechada — a discussão prossegue em 45a com um novo argumento que reforça essa mesma conclusão.
…e, se a própria lâmpada, que é feita para esse fim (arder), quando não se acendeu nela, é permitido movê-la — a cama, que não é feita para esse fim, não seria, com muito maior razão, permitida?! Mas, se foi dito, assim foi dito: disse Rav Yehudá, disse Rav: uma cama que se designou para (guardar) dinheiro — se se colocou dinheiro sobre ela, é proibido movê-la; se não se colocou dinheiro sobre ela, é permitido movê-la. Não se designou para dinheiro — se há dinheiro sobre ela, é proibido movê-la; se não há dinheiro sobre ela, é permitido movê-la. E isso, contanto que não houvesse (dinheiro) sobre ela no crepúsculo (de sexta-feira).
O daf abre completando exatamente a objeção interrompida no fim de 44a. Rav Nachman bar Yitzchak argumenta a fortiori: a lâmpada de óleo foi feita especificamente para arder, e ainda assim, uma vez que não está mais acesa (ou nunca se acendeu naquele Shabat), é permitido movê-la; a cama, por sua vez, não foi feita para guardar dinheiro — é apenas usada ocasionalmente para esse fim —, de modo que, com muito mais razão, deveria ser permitida, mesmo tendo tido dinheiro sobre ela. Essa objeção derruba a formulação original e simples de Rav ("uma cama designada para dinheiro é proibida de ser movida, mesmo sem dinheiro sobre ela"), e a Guemará propõe que o ensinamento de Rav, na realidade, sempre foi transmitido de forma mais precisa, distinguindo quatro situações: cama designada com dinheiro efetivamente colocado sobre ela — proibida, mesmo depois de removido o dinheiro, pois a designação junto ao uso real a torna muktzeh de modo permanente; cama designada mas que nunca chegou a receber dinheiro — permitida, pois a mera intenção sem uso real não basta; cama não designada mas com dinheiro sobre ela agora — proibida, pelo próprio dinheiro que está ali; cama não designada e sem dinheiro agora — permitida. Em todos os casos, a condição decisiva é o estado do objeto no crepúsculo de sexta-feira, o momento que fixa o status de muktzeh para todo o Shabat que se segue.
"Colocou dinheiro sobre ela" — mesmo em dia de semana, eis que se tornou muktzeh por proibição, e é proibido movê-la, ainda que o dinheiro tenha sido removido já de dia (antes do Shabat); e não se compara à lâmpada de metal, que Rabi Yehudá permite (quando não acesa), pois ali não houve designação.
"Não a designou para dinheiro" — (refere-se ao caso em que) não há dinheiro sobre ela em Shabat.
"É permitido movê-la" — ainda que se tenha colocado dinheiro sobre ela em dia de semana.
"E isso" — (contanto) que (o dinheiro) tenha sido removido ainda de dia, de modo que não estivesse sobre ela durante todo o crepúsculo; mas, se esteve sobre ela durante todo o crepúsculo, tornou-se muktzeh para o dia inteiro.
Disse Ulla — objetou Rabi Eliezer: seu mucni (a base de rodas destacável da arca móvel), quando é destacável, não se considera unido a ela (para fins de pureza ritual), nem se mede junto com ela, nem protege junto com ela sob a tenda do morto, e não se arrasta em Shabat — quando há dinheiro sobre ela.
Ulla traz uma objeção formulada por Rabi Eliezer, a partir de uma Mishná do tratado Kelim sobre a shidá — uma arca de madeira montada sobre rodas, usada para transportar pessoas —, cuja base de rodas se chama mucni. Quando essa base é destacável do corpo da arca, ela é considerada um utensílio à parte para fins de pureza ritual: não se une à arca para determinar se juntas alcançam a medida de quarenta se'á que as isentaria de impureza, não se mede em conjunto com ela, e não protege, junto com ela, o que está sob a mesma tenda de um morto contra a impureza. A cláusula final acrescenta que essa arca com seu mucni não se arrasta em Shabat quando há dinheiro sobre ela — implicando, por contraste, que a lei de mover em Shabat depende apenas da presença atual de dinheiro.
"Seu mucni" — ensinou-se, a respeito da shidá, no tratado Kelim; e ela é uma carroça de madeira cercada de divisórias, para transportar homens e mulheres. O mucni é o mecanismo de rodas.
"Quando é destacável" — como as rodas de nossas carroças, que se pode remover do veículo.
"Não se considera unido a ela" — pois é considerado um utensílio à parte: se a arca é suscetível a impureza (por não conter a medida de quarenta se'á para líquidos) e a arca se contaminou, o mucni não se contamina junto; e se a arca não é suscetível a impureza e a impureza tocou o mucni, o mucni se contamina por si mesmo, pois não é considerado parte da arca — e ele se move, cheio ou vazio, por ter capacidade própria de conter.
"Nem se mede com ela" — quanto à impureza, como já expliquei: um utensílio de madeira que contém quarenta se'á de líquido, que equivalem a certa medida em seco, é puro (imune à impureza), como se diz no capítulo Bameh Madlikin, pois o utensílio de madeira se equipara ao saco, que deve poder ser carregado cheio e vazio — e este (a arca grande) não se carrega cheio. Ensinou-se no tratado Kelim, e traz-se na Guemará de Menachot, que a Casa de Hillel diz que a arca se mede por fora — considera-se como se estivesse dentro de um utensílio maior, e, se esse utensílio contém quarenta se'á, a arca é pura, ainda que ela mesma não contenha essa medida, pois se entende que até sua espessura se mede junto. Mas o mucni não se mede com ela para completar essa medida — considera-se como se o mucni fosse removido, e só depois a arca fosse colocada dentro do utensílio maior.
"Nem protege junto com ela sob a tenda do morto" — pois, se a arca contém quarenta se'á e por isso não recebe impureza, ela protege sob a tenda do morto, formando uma tenda própria — não se trata de ter entrado numa casa onde está o morto, pois nesse caso não haveria proteção alguma, já que o teto da casa já cobre as coisas puras por cima; trata-se, antes, de ter entrado num cemitério a céu aberto, como se diz em Eiruvin: Rabi Yehudá afirma que também no cemitério é possível isolar-se com uma arca, um baú ou uma torre, pois sustenta que uma "tenda lançada" — isto é, uma tenda móvel — ainda se considera tenda, e interrompe a impureza. Já o mucni, se é mais alto que as paredes da arca, e há utensílios que se projetam acima dessas paredes e a altura do mucni os protege, não os protege de fato, pois o mucni é um utensílio à parte, que recebe impureza por si mesmo e não serve de anteparo contra ela.
Isso implica que, quando não há dinheiro sobre ela, é permitido (arrastá-la), ainda que houvesse (dinheiro) sobre ela no crepúsculo! (Resposta:) aquela (Mishná) é (segundo) Rabi Shimon, que não tem (o conceito de) muktzeh; e Rav sustenta como Rabi Yehudá.
A Guemará torna explícita a contradição: a Mishná do mucni parece ensinar que a única condição relevante para proibir arrastar a arca é a presença atual de dinheiro sobre ela, sem qualquer referência ao que havia no crepúsculo de sexta-feira — o que contradiz diretamente a condição final que Rav acabara de estabelecer ("contanto que não houvesse sobre ela no crepúsculo"). A resposta separa as duas fontes por seus autores: a Mishná do mucni segue Rabi Shimon, que, não reconhecendo a categoria de muktzeh, permite mover qualquer objeto assim que a condição que o tornaria proibido deixa de existir, sem se importar com o que ocorreu no crepúsculo; Rav, por sua vez, ao formular sua regra em quatro casos, não segue Rabi Shimon, mas Rabi Yehudá, para quem o status fixado no crepúsculo de sexta-feira determina o muktzeh de um objeto para todo o Shabat, mesmo que as circunstâncias mudem depois.
"Aquela é Rabi Shimon" — mas, ainda assim, o dinheiro em si não serve para nada (no Shabat), e mesmo Rabi Shimon concorda que, enquanto ainda está sobre o objeto, é proibido (movê-lo por causa do próprio dinheiro).
Ao contrário de 44a, que terminara em plena frase interrompida, o daf 44b termina de forma fechada, com a resposta completa de que a Mishná do mucni segue Rabi Shimon e Rav segue Rabi Yehudá. A discussão, porém, continua em 45a, que abre com um novo argumento — "הָכִי נָמֵי מִסְתַּבְּרָא דְּרַב כְּרַבִּי יְהוּדָה סְבִירָא לֵיהּ" ("também é razoável dizer que Rav sustenta como Rabi Yehudá") —, trazido a partir do costume de Rav quanto à lâmpada colocada sobre uma palmeira em Shabat e em Yom Tov, reforçando essa mesma conclusão.