Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Dalet · Bameh Tomnin
אַסּוֹקֵי הַבְלָא

A conclusão da dúvida sobre bagaço de azeitonas e de gergelim; o episódio de Rabá e Rabi Zeira na casa do Reish Galuta; a dúvida de Rav Adda bar Matna sobre mover trapos usados para guardar quente; e a sugya de Rav Chisda sobre devolver trapos ao travesseiro e abrir a gola da camisa em Shabat

Shabbat 48a — completa a frase interrompida no fim de 47b sobre gerar calor; traz o relato de Rabá e Rabi Zeira na casa do Reish Galuta com o jarro de água e a toalha sobre o jarro de vinho; a dúvida de Rav Adda bar Matna a Abaie sobre mover trapos que guardaram quente; e a sugya de Rav Chisda, Rav Chanan bar Chisda e a baraita sobre devolver os trapos ao travesseiro e abrir a gola da camisa

O daf abre completando exatamente a frase que ficara interrompida no fim de 47b: quanto à questão de guardar quente diretamente no bagaço, tanto o de azeitonas quanto o de gergelim são igualmente proibidos; mas quanto à questão de gerar calor ao redor, o bagaço de azeitonas gera calor, e o de gergelim não gera calor — resolvendo, assim, a dúvida entre os dois tipos de bagaço quanto a esse segundo efeito. A seguir, a Guemará traz um relato prático: Rabá e Rabi Zeira chegaram à casa do Reish Galuta e viram um servo colocar um jarro de água na boca de uma chaleira quente; Rabá o repreendeu, e, questionado por Rabi Zeira sobre a diferença entre isso e uma chaleira sobre outra chaleira (permitido por uma baraita), respondeu que ali apenas se mantém o calor já existente, enquanto aqui se gera calor novo. Depois viram o mesmo servo estender uma toalha sobre a boca de um jarro de vinho e pôr uma vasilha em cima; Rabá também o repreendeu, e, ao ser questionado, disse para esperar e ver — ao final, viram que ele espremia a toalha, o que Rabá comparou à cobertura de uma vasilha (permitida), sendo a diferença que ali não há apego à toalha, enquanto aqui há. A Guemará retorna à Mishná para tratar da palha: Rav Adda bar Matna pergunta a Abaie se é permitido mover em Shabat os trapos macios que serviram para guardar quente uma panela; Abaie responde com uma pergunta retórica — por acaso, só porque não tem um cesto de palha, alguém fica de pé e declara sem dono um cesto de trapos caros? — sugerindo que tais trapos não são muktzeh. A Guemará tenta apoiar essa posição com uma baraita sobre tosquias de lã, tufos de lã, tiras de púrpura e trapos usados para guardar quente, que não se pode mover — mas reinterpreta essa baraita como referindo-se apenas aos casos em que não se guardou quente com eles, esclarecendo, por meio da pergunta retórica de Rav Papa, que a baraita apenas ensina que tais materiais, quando de fato usados para guardar quente, adquirem a designação de utensílio e passam a poder ser movidos, mesmo sendo bons também para se deitar sobre eles. Encerrada essa sugya, o daf traz o relato de Rav Chisda, que permitiu devolver, em Shabat, trapos caídos ao travesseiro ou ao colchão; Rav Chanan bar Chisda o desafia com uma baraita que distingue abrir a gola da camisa (permitido) de desatá-la (proibido), e proíbe pôr trapos dentro de um travesseiro ou de uma almofada em Yom Tov, e tanto mais em Shabat — mas a Guemará resolve a dificuldade distinguindo trapos novos, nunca antes ali (proibidos, por constituir fabricação de um utensílio novo), de trapos velhos, que apenas caíram e se devolvem ao lugar de onde vieram (permitidos), confirmada por uma baraita paralela idêntica. O daf fecha com o ensinamento de Rav Yehuda em nome de Rav: quem abre a gola da camisa em Shabat é culpado de oferenda pelo pecado; e com a objeção de Rav Kahana, que abre a próxima sugya sobre a diferença entre a gola do manto e a manga de couro.

A conclusão: quanto a guardar quente, ambos proibidos; quanto a gerar calor, só o de azeitonas · אַסּוֹקֵי הַבְלָא

01"Quanto a gerar calor — o de azeitonas gera calor, o de gergelim não gera calor"
Guemará (continuação direta de 47b)
אַסּוֹקֵי הַבְלָא — דְּזֵיתִים מַסְּקִי הַבְלָא, דְּשׁוּמְשְׁמִין לָא מַסְּקִי הַבְלָא.

(Continuação direta da frase interrompida no fim de 47b, sobre a dúvida entre bagaço de azeitonas e de gergelim:) ...quanto a gerar calor (ao redor, e não apenas dentro do próprio bagaço) — o (bagaço) de azeitonas gera calor, o de gergelim não gera calor.

Nota

O daf abre completando exatamente a frase que ficara interrompida no fim de 47b, na palavra "quanto a" (le-inyan). A resposta final distingue dois planos: quanto à questão de guardar quente diretamente dentro do próprio bagaço (hatmaná), tanto o de azeitonas quanto o de gergelim são igualmente proibidos, pois ambos, encostados diretamente à panela, aumentam seu calor; mas quanto à questão de gerar calor ao redor — relevante, por exemplo, para saber se um cesto já usado para guardar quente com trapos pode depois ser posto sobre uma camada de bagaço sem que isso constitua nova ação proibida —, apenas o bagaço de azeitonas de fato gera e emite calor para fora de si mesmo, ao passo que o de gergelim, mais fraco, não o faz. Resolve-se assim, por completo, a dúvida levantada no início da sugya em 47b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "asukei hevla"
אסוקי הבלא - כגון זה שהטמין בדבר אחר והניח קופה על הגפת דליכא אלא שהגפת מעלה הבל למעלה ומרתיח קדרה שבקופה:

"Gerar calor" — como neste caso, em que alguém guardou quente a panela com outro material e pôs o cesto sobre o bagaço: ali não há hatmaná direta, mas apenas o fato de que o bagaço faz subir o calor para cima e ferve a panela que está dentro do cesto.

O episódio de Rabá e Rabi Zeira na casa do Reish Galuta · רַבָּה וְרַבִּי זֵירָא אִיקְּלַעוּ לְבֵי רֵישׁ גָּלוּתָא

02O jarro de água na boca da chaleira: "ali se mantém o calor, aqui se gera calor"
Rabá; Rabi Zeira
רַבָּה וְרַבִּי זֵירָא אִיקְּלַעוּ לְבֵי רֵישׁ גָּלוּתָא. חַזְיוּהּ לְהָהוּא עַבְדָּא דְּאַנַּח כּוּזָא דְמַיָּא אַפּוּמָּא דְקוּמְקוּמָא. נַזְהֵיהּ רַבָּה. אֲמַר לֵיהּ רַבִּי זֵירָא: מַאי שְׁנָא מִמֵּיחַם עַל גַּבֵּי מֵיחַם? אֲמַר לֵיהּ: הָתָם אוֹקוֹמֵי קָא מוֹקֵים, הָכָא אוֹלוֹדֵי קָא מוֹלֵיד.

Rabá e Rabi Zeira chegaram à casa do Reish Galuta. Viram um certo servo colocar um jarro de água fria na boca de uma chaleira quente (cheia de água quente). Rabá o repreendeu. Disse-lhe Rabi Zeira: em que isso difere de uma chaleira quente sobre outra chaleira quente (permitido por uma baraita no fim deste capítulo)? Disse-lhe: ali (no caso das duas chaleiras) apenas se mantém o calor já existente, aqui (no caso do jarro de água fria) se gera calor novo.

Nota

A Guemará ilustra, com um relato prático, a distinção entre manter o calor de algo já quente e gerar calor novo em algo frio. Um servo na casa do Reish Galuta colocou um jarro de água fria sobre a boca de uma chaleira cheia de água quente, aproveitando o calor da chaleira para esquentar a água do jarro; Rabá considerou isso proibido e repreendeu o servo. Rabi Zeira questiona a aparente inconsistência com uma baraita, ensinada mais adiante neste mesmo capítulo, que permite pôr uma chaleira de água já quente sobre outra chaleira de água quente. Rabá explica que a diferença é fundamental: no caso permitido, ambas as chaleiras já contêm água quente, e uma simplesmente ajuda a outra a manter seu calor, sem gerar nada de novo; mas, no caso do jarro colocado sobre a chaleira, a água fria do jarro é efetivamente aquecida do zero pelo calor da chaleira — um verdadeiro ato de gerar calor, proibido em Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "afuma de-kumkuma", "nazhei" e "hatam okumei mokim"
אפומא דקומקומא - מיחם של חמין והכוזא היתה מלאה צונן:

"Na boca da chaleira" — uma chaleira de água quente, e o jarro estava cheio de água fria.

נזהיה - גער בו:

"Repreendeu-o" — repreendeu-o.

מאי שנא ממיחם על גבי מיחם - דתניא בברייתא בסוף פרקין דשרי:

"Em que difere de chaleira sobre chaleira" — que foi ensinado numa baraita, no fim deste capítulo, que é permitido.

התם אוקומי מוקים - שהמיחם העליון גם בו יש מים חמין והתחתון אינו אלא מעמיד חומו שלא יפיג:

"Ali apenas se mantém" — pois também a chaleira de cima tem água quente, e a de baixo apenas mantém seu calor, para que não se dissipe.

03A toalha sobre o jarro de vinho: "espera e vê" — depois viram que ele espremia a toalha
Rabá; Rabi Zeira
הֲדַר חַזְיֵיהּ דִּפְרַס דַּסְתּוֹדַר אַפּוּמֵּיהּ דְּכוּבָּא וְאַנַּח נַטְלָא עִילָּוֵיהּ. נַזְהֵיהּ רַבָּה. אֲמַר לֵיהּ רַבִּי זֵירָא: אַמַּאי? אֲמַר לֵיהּ: הַשְׁתָּא חָזֵית. לְסוֹף חַזְיֵיהּ דְּקָא מְעַצַּר לֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: מַאי שְׁנָא מִפְּרוֹנְקָא? אָמַר לֵיהּ: הָתָם לָא קָפֵיד עִילָּוֵיהּ, הָכָא קָפֵיד עִילָּוֵיהּ.

De novo (Rabá) o viu estender uma toalha de cabeça sobre a boca de um jarro de vinho e pôr uma vasilha de tirar vinho em cima dela. Rabá o repreendeu. Disse-lhe Rabi Zeira: por quê (isso é proibido)? Disse-lhe: agora tu vês (o que vai acontecer). Ao final, viu (Rabi Zeira) que ele espremia a toalha (extraindo o vinho absorvido nela). Disse-lhe: em que difere de uma cobertura comum (pronca, posta sobre um barril, o que é permitido)? Disse-lhe: ali (na cobertura comum) não se importa com ela (não há apego especial ao pano, que serve apenas de tampa), aqui (com a toalha sobre o vinho) importa-se com ela (há apego, pois se pretende espremer o vinho absorvido).

Nota

Um segundo episódio, com o mesmo servo: ele estendeu uma toalha de cabeça sobre a boca de um jarro de vinho e colocou por cima dela uma vasilha usada para retirar o vinho. Rabá imediatamente o repreendeu, mas, questionado por Rabi Zeira sobre o motivo, respondeu apenas "agora tu vês" — sugerindo que a proibição ficaria clara pelo desfecho. De fato, ao final, viram que o servo espremia a toalha, extraindo dela o vinho que havia absorvido — um ato de espremer (sechitá), uma das categorias de trabalho proibidas em Shabat quando aplicada a um líquido que se pretende usar. Rabi Zeira questiona a diferença com a cobertura comum (pronca) posta sobre um barril para tampá-lo, que é permitida apesar de também poder absorver líquido; Rabá explica que a diferença está na intenção: quem cobre um barril com uma pronca comum não se importa se ela absorve algo, pois seu único propósito é servir de tampa, e não há intenção de depois espremê-la; mas quem estende a toalha sobre o jarro de vinho o faz justamente para depois espremê-la e aproveitar o vinho absorvido, tornando o ato de espremer previsível e, portanto, proibido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "de-sestodar", "de-chuva", "natla", "de-ka meatzar", "mi-fronka" e "lo kafid alei"
דסתודר - סודר של ראש:

"Toalha de cabeça" (sestodar) — um lenço usado na cabeça.

דכובא - קנקן:

"Jarro" (chuva) — um cântaro.

נטלא - כלי ששואבין יין מן הכובא:

"Vasilha" (natla) — um utensílio com o qual se tira vinho do cântaro.

דקא עצר - שהיה סוחטו מן המים שנבלעו בו:

"Que espremia" — pois espremia dela o líquido que nela havia sido absorvido.

מאי שנא מפרונקא - בגד העשוי לפרוס על הגיגית שפורסין אותו בשבת:

"Em que difere de uma cobertura comum" — um pano feito para se estender sobre a tina, e que se costuma estender sobre ela em Shabat.

לא קפיד עליה - אם שרוי במים שהרי לכך עשוי ולא אתי לידי סחיטה:

"Não se importa com ela" — mesmo que fique molhada de água, pois é para isso que foi feita, e não se chega a espremê-la.

Retorno à Mishná: mover os trapos que serviram para guardar quente · מוֹכִין שֶׁטָּמַן בָּהֶן

04Rav Adda bar Matna pergunta a Abaie: é permitido mover os trapos que guardaram quente?
Rav Adda bar Matna; Abaie
וְלֹא בַּתֶּבֶן. בְּעָא מִינֵּיהּ רַב אַדָּא בַּר מַתְנָה מֵאַבָּיֵי: מוֹכִין שֶׁטָּמַן בָּהֶן, מַהוּ לְטַלְטְלָן בְּשַׁבָּת? אֲמַר לֵיהּ: וְכִי מִפְּנֵי שֶׁאֵין לוֹ קוּפָּה שֶׁל תֶּבֶן, עוֹמֵד וּמַפְקִיר קוּפָּה שֶׁל מוֹכִין?

"E nem com palha" (retomando a cláusula da Mishná): Rav Adda bar Matna perguntou a Abaie: os trapos macios com os quais se guardou quente (uma panela) — qual é a lei quanto a movê-los em Shabat? Disse-lhe: e será que, só porque alguém não tem um cesto de palha (barato, cuja perda ele não sentiria), ele se levanta e declara sem dono um cesto de trapos macios (caro)?

Nota

A Guemará retorna à Mishná para examinar a cláusula sobre a palha e materiais semelhantes, levantando uma nova dúvida: os trapos macios (mochin), que servem tanto para guardar quente quanto para forrar e vestir, e que normalmente são considerados muktzeh por serem destinados a um uso técnico (fazer feltro), quando de fato usados para guardar quente uma panela, tornam-se proibidos de mover em Shabat, como se tivessem sido "abandonados" para esse fim exclusivo? Ou permanecem permitidos, por serem materiais valiosos que o dono jamais abandonaria de fato a esse uso? Abaie responde com uma pergunta retórica: ninguém, só porque não possui um cesto barato de palha para guardar quente, abre mão da propriedade de um cesto caro de trapos macios apenas por tê-lo usado uma vez para esse fim — ou seja, o dono não tem a menor intenção de renunciar ao uso normal e valioso desses trapos, e por isso eles continuam permitidos para mover.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mochin" e "omed u-mafkir"
מוכין - אינן אלא לעשות מהן לבדין שקורין פלט"ר ומוקצין הן למלאכה ואסור לטלטלן ואלו שטמן בהן מי אמרינן יחדן להטמנה ואיכא תורת כלי עליהן ומותר לטלטלן בשבת או לא:

"Trapos macios" — servem apenas para se fazer deles feltro, chamado, em francês antigo, "faltre", e são muktzeh para essa fabricação, sendo proibido movê-los; e quanto a esses com os quais se guardou quente: dizemos que o dono os destinou para guardar quente e que há sobre eles a designação de utensílio, sendo permitido movê-los em Shabat, ou não?

עומד ומפקיר לכך - קופה של מוכין שדמיה יקרין אין דרך בכך ולא בטלי להטמנה:

"Levanta-se e declara sem dono para isso" — um cesto de trapos macios, cujo valor é alto: não é costume fazer isso, e eles não ficam anulados só por terem servido para guardar quente.

05A tentativa de apoio pela baraita das tosquias e tufos de lã, reinterpretada por Rav Papa
Guemará; Rav Papa
לֵימָא מְסַיַּיע לֵיהּ: טוֹמְנִין בְּגִיזֵּי צֶמֶר וּבְצִיפֵּי צֶמֶר וּבִלְשׁוֹנוֹת שֶׁל אַרְגָּמָן וּבְמוֹכִין, וְאֵין מְטַלְטְלִין אוֹתָן. אִי מִשּׁוּם הָא — לָא אִירְיָא, הָכִי קָאָמַר: אִם לֹא טָמַן בָּהֶן אֵין מְטַלְטְלִין אוֹתָן. אִי הָכִי מַאי לְמֵימְרָא! מַהוּ דְתֵימָא חֲזֵי לְמִזְגָּא עֲלַיְיהוּ, קָמַשְׁמַע לַן.

Digamos que (uma baraita) apoia essa opinião (de Abaie): guarda-se quente com tosquias de lã, com tufos de lã, com tiras de púrpura e com trapos macios, e não se move nada disso. Se por isso (concluíres que os trapos usados para guardar quente ficam proibidos) — não há prova; é isto o que diz (a baraita): se não se guardou quente com eles, não se move nada disso (mas, se de fato se guardou quente com eles, é permitido movê-los). Se assim é, o que há para dizer (por que a baraita precisaria dizer isso, sendo óbvio)! Poderias pensar que servem para se deitar sobre eles (e por isso seriam sempre permitidos, mesmo sem terem sido usados para guardar quente) — veio ela (a baraita) ensinar-nos (que, sem esse uso específico, permanecem muktzeh, apesar de servirem também para se deitar sobre eles).

Nota

A Guemará tenta apoiar a posição de Abaie com uma baraita que lista tosquias de lã, tufos de lã, tiras de púrpura e trapos macios como materiais permitidos para guardar quente, mas proibidos de mover — o que, à primeira vista, contradiz Abaie, sugerindo que mesmo trapos valiosos ficam muktzeh depois de usados para essa finalidade. A Guemará rejeita essa leitura: a baraita na verdade quer dizer que, se não se guardou quente com esses materiais, eles não podem ser movidos (por serem, em princípio, destinados à fabricação de feltro); mas, se de fato se guardou quente com eles, tornam-se permitidos, exatamente como afirmara Abaie. A Guemará então questiona por que a baraita precisaria dizer algo tão óbvio, e responde que havia razão para pensar o contrário: como esses materiais também servem para se deitar sobre eles, poder-se-ia supor que, por esse uso alternativo, permaneceriam sempre permitidos de mover, mesmo sem terem sido usados para guardar quente; a baraita vem ensinar que isso não basta, e que, sem o uso efetivo para guardar quente, eles continuam muktzeh, reservados à sua fabricação original.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "gizei tzemer", "tzifei tzemer", "leshonot" e "im lo taman bahen"
גיזי של צמר - כמות שנגזזו:

"Tosquias de lã" — tal como foram tosquiadas.

ציפי צמר - לאחר שנפצוה ושטחוה כמין מחצלות משטיחין:

"Tufos de lã" — depois de a terem cardado e estendido, como esteiras que se estendem.

לשונות - לאחר שצבען וסורקין אותן כעין לשונות ארוכין לטוותן:

"Tiras" — depois de as terem tingido e penteado, em forma de tiras longas, para depois fiá-las.

ואין מטלטלין אותן - קס"ד דהכי קאמר ואע"פ שטמן בהן אין מטלטלין אותן:

"E não se move nada disso" — pensava-se, a princípio, que a baraita queria dizer: mesmo que se tenha guardado quente com eles, não se move nada disso.

אם לא טמן בהן כו' - ומילי מילי קתני ברישא אשמועינן דטומנין בהן דלא מוספי הבלא ואשמועינן סיפא דסתם מוכין מוקצות נינהו אבל הני דטמן בהן הוי כמי שיחדן לכך:

"Se não se guardou quente com eles..." — e a baraita ensina cada coisa separadamente: na primeira parte, ensina-nos que se guarda quente com eles, por não aumentarem o calor; e, na segunda parte, ensina-nos que trapos macios comuns são muktzeh, mas esses com os quais se guardou quente são como se o dono os tivesse destinado para isso.

Rav Chisda: devolver os trapos ao travesseiro; abrir a gola da camisa · לְאַהְדּוֹרֵי אוּדְרָא לְבֵי סַדְיָא

06Rav Chisda permite devolver trapos ao travesseiro; a objeção de Rav Chanan bar Chisda
Rav Chisda; Rav Chanan bar Chisda
רַב חִסְדָּא שְׁרָא לְאַהְדּוֹרֵי אוּדְרָא לְבֵי סַדְיָא בְּשַׁבְּתָא. אֵיתִיבֵיהּ רַב חָנָן בַּר חִסְדָּא לְרַב חִסְדָּא: מַתִּירִין בֵּית הַצַּוָּאר בְּשַׁבָּת, אֲבָל לֹא פּוֹתְחִין. וְאֵין נוֹתְנִין אֶת הַמּוֹכִין לֹא לְתוֹךְ הַכַּר וְלֹא לְתוֹךְ הַכֶּסֶת בְּיוֹם טוֹב, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר בְּשַׁבָּת.

Rav Chisda permitiu devolver trapos macios ao travesseiro (ou ao colchão, de onde haviam caído) em Shabat. Objetou-lhe Rav Chanan bar Chisda a Rav Chisda (a partir de uma baraita): desatam-se (os laços que fecham) a gola da camisa em Shabat, mas não se abre (pela primeira vez, um utensílio novo). E não se põem trapos macios nem dentro do travesseiro nem dentro da almofada em Yom Tov, e nem é preciso dizer em Shabat.

Nota

A Guemará traz um novo ensinamento de Rav Chisda, que permitiu, em Shabat, devolver ao travesseiro ou ao colchão os trapos macios que dele haviam caído. Rav Chanan bar Chisda objeta a partir de uma baraita com duas cláusulas: primeiro, que se pode desatar (mas não abrir pela primeira vez) a gola fechada de uma camisa em Shabat — pois desatar algo já feito é permitido, mas abrir um fechamento novo equivaleria a fabricar um utensílio; segundo, que é proibido pôr trapos macios dentro de um travesseiro ou de uma almofada mesmo em Yom Tov (mais permissivo quanto a atividades de preparo de comida), e tanto mais em Shabat — o que pareceria contradizer diretamente a permissão de Rav Chisda de devolver trapos ao travesseiro.

07A resolução: trapos novos são proibidos, trapos velhos que apenas caíram são permitidos
Guemará
לָא קַשְׁיָא, הָא בְּחַדְתֵי הָא בְּעַתִּיקֵי. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: אֵין נוֹתְנִין אֶת הַמּוֹכִין לֹא לְתוֹךְ הַכַּר וְלֹא לְתוֹךְ הַכֶּסֶת בְּיוֹם טוֹב, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר בְּשַׁבָּת. נָשְׁרוּ, מַחֲזִירִין אוֹתָן בְּשַׁבָּת, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר בְּיוֹם טוֹב.

Não há dificuldade: esta (a baraita que proíbe) fala de trapos novos (que nunca estiveram ali), aquela (a permissão de Rav Chisda) fala de trapos velhos (que já estavam ali e apenas caíram). Também foi ensinado assim (numa baraita paralela): não se põem trapos macios nem dentro do travesseiro nem dentro da almofada em Yom Tov, e nem é preciso dizer em Shabat; caíram, devolvem-se em Shabat, e nem é preciso dizer em Yom Tov.

Nota

A Guemará resolve a aparente contradição distinguindo dois casos completamente diferentes: pôr trapos macios pela primeira vez dentro de um travesseiro ou almofada, onde nunca estiveram antes, constitui fabricar um utensílio novo (dar ao travesseiro sua forma e função definitivas), e por isso é proibido mesmo em Yom Tov, e com maior razão em Shabat; mas devolver trapos que já estavam ali e apenas caíram para fora não fabrica nada de novo, apenas restaura o estado anterior do utensílio, e por isso é permitido mesmo em Shabat, e com maior razão em Yom Tov. Uma baraita paralela, com formulação quase idêntica, confirma exatamente essa distinção, resolvendo por completo a objeção.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "le-ahadurei udra le-vei sadya", "matirin beit ha-tzavar" e "be-chadtei / be-atikei"
לאהדורי אודרא לבי סדיא - להחזיר מוכין שנפלו מן הכר לתוכן:

"Devolver trapos ao travesseiro" — devolver ao travesseiro os trapos macios que dele caíram.

מתירין בית הצואר - שדרך הכובסים לקושרן:

"Desatam-se a gola da camisa" — pois é costume dos lavandeiros amarrá-la.

אבל לא פותחין - לכתחילה דהשתא עביד ליה מנא:

"Mas não se abre" — de saída, pois agora se estaria fabricando dela um utensílio.

בחדתי - שלא היו מעולם לתוכו אסור דהשתא עביד ליה מנא:

"Com trapos novos" — que nunca estiveram ali, é proibido, pois agora se estaria fabricando dele um utensílio.

בעתיקי - להחזירו לכר זה שנפלו ממנו:

"Com trapos velhos" — devolvê-los ao mesmo travesseiro de onde caíram.

08Rav Yehuda em nome de Rav: quem abre a gola da camisa em Shabat é culpado de oferenda; a objeção de Rav Kahana
Rav Yehuda em nome de Rav; Rav Kahana
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: הַפּוֹתֵחַ בֵּית הַצַּוָּאר בְּשַׁבָּת — חַיָּיב חַטָּאת. מַתְקִיף לַהּ רַב כָּהֲנָא:

Disse Rav Yehuda em nome de Rav: quem abre (pela primeira vez) a gola da camisa em Shabat é culpado de oferenda pelo pecado. Fez uma objeção a isso Rav Kahana: (o texto se interrompe aqui, prosseguindo apenas em 48b)

Nota

Encerrada a sugya sobre devolver trapos, a Guemará retoma o tema da gola da camisa mencionado na baraita anterior, trazendo o ensinamento de Rav Yehuda em nome de Rav: quem abre, de saída, a gola fechada de uma camisa nova em Shabat — completando assim a fabricação da peça de vestuário — torna-se culpado da oferenda pelo pecado, como qualquer outra fabricação completa de um utensílio. O daf termina em texto interrompido, no meio da objeção de Rav Kahana a esse ensinamento, cuja continuação e resolução seguem apenas em 48b, com a comparação entre a gola do manto e a manga de couro.

Nota sobre o texto

O daf 48a termina em pleno meio da frase da Guemará, de forma interrompida, logo após a palavra "מַתְקִיף לַהּ רַב כָּהֲנָא" ("fez uma objeção a isso Rav Kahana") — a continuação aparece apenas no início de 48b: "מָה בֵּין זוֹ לִמְגוּפַת חָבִית" ("qual é a diferença entre isso e a rolha de um barril?"), seguida da resposta de Rava distinguindo o que é "ligação" (chibur) e o que não é. A sugya sobre a gola da camisa e a fabricação de utensílios prossegue então em 48b, que também abre a nova pergunta de Rabi Yirmeya a Rabi Zeira sobre a trouxa dos lavandeiros e a corrente de chaves.