Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Heh · Bameh Behemah
בַּמֶּה בְּהֵמָה

A etimologia bíblica de "kevulot" e "kevunot", a disputa sobre as cabras amarradas para secar ou ordenhar, e a nova Mishná sobre a coberta do camelo, o amarrado, a perna dobrada, e as cordas na mão contra kilayim

Shabbat 54a — conclui a citação bíblica interrompida ao final de 53b (Provérbios 7:10); explica "kevulot" (ovelhas com a cauda atada para baixo) com a etimologia de "Eretz Kavul" segundo Rav Huna e Rav Nachman bar Yitzchak; explica "kevunot" (cordeiros envolvidos para preservar a lã fina); traz três versões sucessivas da disputa entre Rav e Shmuel sobre as cabras amarradas, com a posição de Rabi Yehuda ben Beteira e a decisão de Rabi Yochanan; e a nova Mishná — e sua Guemará — sobre o camelo que não sai com coberta, amarrado ou de perna dobrada, e sobre não atar camelos em fileira, mas conduzi-los com cordas na mão, com a discussão de kilayim e a medida de um ou dois palmos entre Shmuel e sua escola, resolvida por Abaye.

O daf abre concluindo a frase que 53b deixara interrompida no limite exato da página: a citação de Provérbios 7:10 sobre a mulher que sai ao encontro do incauto "com traje de meretriz e coração dissimulado" — completando assim a prova de que o termo "shechuzot" carrega o sentido de exposição. A Guemará passa então a explicar os demais termos obscuros da baraita sobre as ovelhas e cabras: "kevulot" designa as ovelhas cuja cauda é atada para baixo, para impedir que os machos as montem, numa etimologia provada pelo versículo sobre as cidades que Shlomo deu a Chiram, chamadas "Eretz Kavul" por não produzirem — explicada por Rav Huna como referência a uma população rica e adornada de prata e ouro, mas ociosa e improdutiva, e por Rav Nachman bar Yitzchak como uma terra salgada onde o pé afunda até o tornozelo. Em seguida explica-se "kevunot": os cordeiros recém-nascidos, de lã ainda limpa, são envolvidos num pano para preservar essa lã fina destinada a um tecido especial, tal como a Mishná de Negaim compara a mancha de tzaraat "se'et" à lã branca. Retomando o tema das cabras amarradas, a Guemará traz, em três versões sucessivas, a disputa entre Rav (que segue Rabi Yehuda) e Shmuel (que segue Rabi Yossi, ou proíbe ambos os casos), incluindo a posição de Rabi Yehuda ben Beteira — que permite para secar mas não para ordenhar, ainda que reconhecendo a impossibilidade prática de distinguir um caso do outro — e a decisão final de Rabi Yochanan, transmitida por Ravin, de que a lei segue o tana kama, que permite em ambos os casos. O daf então introduz uma nova Mishná, ainda dentro do mesmo capítulo: o camelo não deve sair com uma coberta (metultelet), nem amarrado (akud), nem com a perna dobrada (ragul), regra que se estende aos demais animais; tampouco se deve atar vários camelos uns aos outros para conduzi-los em fileira, ainda que seja permitido segurar as cordas na mão, contanto que não sejam enroladas. A Guemará correspondente distingue onde a coberta pode e não pode ser atada no camelo, traz a explicação de Rav Yehuda para "akud" e "ragul" — comparando o amarrar de mão e pé ao próprio Yitzchak na Akedá —, enfrenta e resolve uma objeção de uma baraita alternativa, explica por meio de Rav Ashi por que atar camelos em fileira é proibido (por parecer uma procissão festiva) e por que segurar as cordas na mão só foi restringido por causa de kilayim — não da pessoa, mas das próprias cordas de lã e linho —, e fecha com a disputa entre Shmuel e a escola de Shmuel sobre se o limite da corda pendente é de um ou de dois palmos, resolvida por Abaye como duas camadas de uma mesma diretriz prática.

A citação bíblica concluída, e a etimologia de "kevulot" e "kevunot" · שִׁית זוֹנָה, כְּבוּלוֹת, כְּבוּנוֹת

01Conclusão da citação interrompida em 53b: "com traje de meretriz e coração dissimulado"
Guemará
שִׁית זוֹנָה וּנְצוּרַת לֵב״.

"...com traje de meretriz e coração dissimulado."

Nota

Este daf abre completando, palavra por palavra, o versículo de Provérbios 7:10 cuja citação fora interrompida exatamente no limite de 53b: "e eis que uma mulher lhe sai ao encontro, com traje de meretriz e coração dissimulado." A prova buscada pela Guemará — que o termo "shechuzot" (as ovelhas cuja cauda se prende para cima, expondo-as) carrega o sentido de exposição — completa-se assim: o versículo descreve uma mulher que se expõe deliberadamente, com trajes provocantes, ainda que dissimulando no coração; dessa mesma raiz se extrai o sentido de "exposição" aplicado às ovelhas "shechuzot".

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shit zonah" e "shit"
שית זונה - נוטריקון דשחוזות:

"Traje (shit) de meretriz" — é um acrônimo (notarikon) de "shechuzot".

שית - בית הבשת:

"Traje" (shit)(alude) à casa da vergonha (isto é, às partes íntimas expostas).

02As ovelhas saem "kevulot": atam-se-lhes a cauda para baixo, para que os machos não as montem — prova de "Eretz Kavul", terra que não produz frutos
Guemará
הָרְחֵלִים יוֹצְאוֹת כְּבוּלוֹת. מַאי ״כְּבוּלוֹת״? — שֶׁמְּכַבְּלִין אַלְיָה שֶׁלָּהֶן לְמַטָּה כְּדֵי שֶׁלֹּא יַעֲלוּ עֲלֵיהֶן זְכָרִים. מַאי מַשְׁמַע דְּהַאי ״כָּבוּל״ לִישָּׁנָא דְּלָא עָבֵיד פֵּירֵי הוּא — דִּכְתִיב: ״מָה הֶעָרִים [הָאֵלֶּה] אֲשֶׁר נָתַתָּ לִּי אָחִי וַיִּקְרָא לָהֶן אֶרֶץ כָּבוּל עַד הַיּוֹם הַזֶּה״.

As ovelhas saem "kevulot". O que é "kevulot"? Que se ata a cauda delas para baixo, para que os machos não montem sobre elas. De onde se infere que este termo "kavul" é uma expressão que significa "não produz frutos"? Pois está escrito: "que cidades são estas que me deste, meu irmão?" — e chamou-as terra de Kavul até o dia de hoje.

Nota

Concluída a citação, a Guemará retoma a explicação dos termos técnicos da baraita sobre os pequenos animais, citada em 53b. "Kevulot" designa as ovelhas cuja cauda é presa e amarrada para baixo, contra o corpo, exatamente o oposto do que se fazia às ovelhas "shechuzot" (cuja cauda era erguida para facilitar a monta): aqui, o propósito é impedir que os machos as montem fora do tempo apropriado. A Guemará justifica a raiz "kavul" com o sentido de infertilidade ou improdutividade, citando o relato de Melachim I (9:11-13): Shlomo dera a Chiram vinte cidades na Galileia, mas quando este foi vê-las, não lhe agradaram, e ele as chamou "Eretz Kavul" — terra que não produz — até hoje.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shekavlin" e "vayikra lahem"
שכבולין - לשון כבלי ברזל קשורה:

"Que se ata (mechabelin)" — expressão de amarras de ferro atadas.

ויקרא להם - בעשרים ושתים עיר שנתן שלמה לחירם משתעי קרא:

"E chamou-as" — o versículo fala das vinte e duas cidades que Shlomo deu a Chiram.

03Rav Huna: "Eretz Kavul" — havia ali gente rica e adornada de prata e ouro; Rava: mas então por que não agradou a Chiram? Porque, ricos e mimados, não trabalhavam a terra
Rav Huna; Rava
מַאי ״אֶרֶץ כָּבוּל״? אָמַר רַב הוּנָא: שֶׁהָיוּ בָּהּ בְּנֵי אָדָם שֶׁמְּכוּבָּלִין בְּכֶסֶף וּבְזָהָב. אֲמַר לֵיהּ רָבָא: אִי הָכִי, הַיְינוּ דִּכְתִיב: ״(כִּי לֹא) יָשְׁרוּ בְּעֵינָיו״ — מִפְּנֵי שֶׁמְּכוּבָּלִין בְּכֶסֶף וּבְזָהָב לֹא יָשְׁרוּ בְּעֵינָיו? אֲמַר לֵיהּ: אִין, כֵּיוָן דְּעַתִּירֵי וּמְפַנְּקִי, לָא עָבְדִי עֲבִידְתָּא.

O que é "Eretz Kavul"? Disse Rav Huna: que havia nela pessoas adornadas com prata e ouro. Disse-lhe Rava: se assim, é isto o que está escrito, que "não foram retas a seus olhos"? Por serem adornadas com prata e ouro não foram retas a seus olhos? Disse-lhe: sim; visto que eram ricas e mimadas, não faziam o trabalho (da terra).

Nota

Rav Huna explica que "kavul" alude aos próprios habitantes daquelas cidades, ricamente adornados com joias de prata e ouro. Rava objeta: se a população era próspera e adornada, isso deveria ter agradado a Chiram — mas o versículo diz o contrário, que as cidades "não foram retas a seus olhos"! Rav Huna responde que é exatamente o oposto: sendo ricos e mimados, os habitantes não trabalhavam a terra, de modo que as cidades, apesar da riqueza aparente de seu povo, eram improdutivas — e por isso desagradaram a Chiram, que buscava terras produtivas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mechubalin" e "avidta"
מכובלין - מעוטפין ומקושרין:

"Adornadas" (mechubalin) — envoltas e atadas (em joias).

עבידתא - אנגריא של מלך:

"O trabalho" (avidta) — o trabalho forçado (angaria) a serviço do rei.

04Rav Nachman bar Yitzchak: era terra salgada, onde o pé afunda até o tornozelo — "terra amarrada" é a que não produz frutos
Rav Nachman bar Yitzchak
רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק אָמַר: אֶרֶץ חוֹמְטוֹן הָיְתָה. וְאַמַּאי קָרֵי לַהּ ״כָּבוּל״ — דְּמִשְׂתָּרְגָא בַּהּ כַּרְעָא עַד כַּבְלָא. וְאָמְרִי אִינָשֵׁי: אַרְעָא מְכַבַּלְתָּא דְּלָא עָבְדָא פֵּירֵי.

Rav Nachman bar Yitzchak disse: era uma terra salgada. E por que a chamam de "Kavul"? Porque nela o pé afunda até o tornozelo. E dizem as pessoas: "terra amarrada" é a que não produz frutos.

Nota

Rav Nachman bar Yitzchak propõe uma explicação alternativa, agora sobre a própria terra: tratava-se de solo salgado e pantanoso, no qual o pé de quem caminhava afundava até o tornozelo — e é esse afundar, esse "prender" do pé, que dá origem ao nome "Kavul", associado à raiz de amarras e grilhões. Cita-se ainda um ditado popular, segundo o qual "terra amarrada" é expressão corrente para designar terra estéril, incapaz de produzir frutos — encerrando, com duas explicações complementares (a dos habitantes e a da terra), a etimologia de "Eretz Kavul" e, por extensão, de "kevulot".

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "chomton", "demistarga bah kar'a" e "ad kavla"
חומטון - מלחה ומתבקעת:

"Terra salgada" (chomton) — salgada e rachada.

דמשתרגא בה כרעא - טובעת בה הרגל:

"Que nela o pé afunda" — o pé se afunda nela.

עד כבלא - פרק התחתון שקורין קויל"ה:

"Até o tornozelo" (kavla) — a articulação inferior, chamada em língua estrangeira "coville".

05"Kevunot": envolvem-se os cordeiros recém-nascidos para preservar a lã fina, tal como a mancha "se'et" é comparada à lã branca
Guemará; Rav Bibi bar Abaye
כְּבוּנוֹת. מַאי ״כְּבוּנוֹת״? — שֶׁמְכַבְּנִין אוֹתָן לְמֵילָת. כְּדִתְנַן: שְׂאֵת — כְּצֶמֶר לָבָן. מַאי צֶמֶר לָבָן? אָמַר רַב בִּיבִי בַּר אַבָּיֵי: כְּצֶמֶר נָקִי בֶּן יוֹמוֹ שֶׁמְכַבְּנִין אוֹתוֹ לְמֵילָת.

"Kevunot." O que é "kevunot"? Que as envolvem (com um pano) para (fazer delas) lã fina. Como aprendemos: (a mancha) "se'et" é como lã branca. O que é "lã branca"? Disse Rav Bibi bar Abaye: como lã limpa, de um dia, que se envolve para (fazer) lã fina.

Nota

Passa-se ao último termo obscuro da mesma baraita, já mencionado em 53b como a exceção de Rabi Yossi ("chutz min harechelot hakevunot"): as ovelhas "kevunot" são aquelas cujos cordeiros recém-nascidos, ainda com a lã limpa e intacta, são envolvidos num pano especial logo ao nascer, para preservar essa lã fina destinada à confecção de um tecido de qualidade superior, chamado "meilat". A Guemará ilustra o sentido de "lã fina e limpa" remetendo à Mishná de Negaim, que compara a mancha de tzaraat chamada "se'et" à cor da lã branca — explicada por Rav Bibi bar Abaye como a lã de um cordeiro no primeiro dia de vida, ainda limpa, do tipo que se envolve para fazer essa mesma lã fina.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shemechabnin", "mechabnin" e "lemeilat"
שמכבנין - קושרין בגד סביבו ביום שנולד שצמרו נקי ומשמר צמרו שלא יטנף:

"Que as envolvem" — atam um pano ao redor (do cordeiro) no dia em que nasce, quando sua lã está limpa, e assim se preserva a lã para que não se suje.

מכבנין - על שעושין כמין קרסי מתכת לחבר הבגד כמו תנתן כבינתי לבתי (גיטין דף טו.) נושק"א בלע"ז:

"Envolvem" (mechabnin) — porque fazem uma espécie de fivelas de metal para unir o pano, como em "que se me dê minha fivela para minhas casas" (Guitin 15a); em língua estrangeira, "nosca".

למילת - לעשות מצמרו כלי מילת:

"Lã fina" (meilat) — para fazer, de sua lã, um tecido fino.

As cabras amarradas: a disputa entre Rav e Shmuel, em três versões · וְהָעִזִּים יוֹצְאוֹת צְרוּרוֹת

06Primeira versão: Rav — a lei é como Rabi Yehuda; Shmuel — a lei é como Rabi Yossi
Rav; Shmuel
וְהָעִזִּים יוֹצְאוֹת צְרוּרוֹת. אִיתְּמַר, רַב אָמַר: הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה, וּשְׁמוּאֵל אָמַר: הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.

E as cabras saem amarradas. Disse-se: Rav disse: a lei é como Rabi Yehuda; e Shmuel disse: a lei é como Rabi Yossi.

Nota

Retomando a Mishná já citada por Rav Yosef em 53b (as cabras saem amarradas; Rabi Yossi proíbe em todos os casos, exceto para as ovelhas cobertas; Rabi Yehuda permite para secar, mas não para ordenhar), a Guemará agora registra a decisão prática: Rav decide como Rabi Yehuda, permitindo quando a bolsa serve para secar; Shmuel decide como Rabi Yossi, mais restritivo.

07Segunda versão, independente: Rav — para secar é permitido, não para ordenhar; Shmuel — ambos são proibidos
Rav; Shmuel
וְאִיכָּא דְמַתְנֵי לְהָא שְׁמַעְתָּא בְּאַפֵּי נַפְשַׁיהּ. רַב אָמַר: לְיַבֵּשׁ מוּתָּר וְלֹא לֵחָלֵב, וּשְׁמוּאֵל אָמַר: אֶחָד זֶה וְאֶחָד זֶה אָסוּר.

E há quem ensine este dito de modo independente: Rav disse: para secar é permitido, e não para ordenhar; e Shmuel disse: tanto isto quanto aquilo é proibido.

Nota

Uma segunda versão da mesma disputa é transmitida não como comentário à disputa da Mishná entre Rabi Yehuda e Rabi Yossi, mas como um dito independente dos próprios amoraítas: Rav distingue diretamente entre secar (permitido) e ordenhar (proibido), enquanto Shmuel proíbe ambos os casos sem distinção — resultado prático semelhante ao da primeira versão, mas fundamentado de outro modo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "be'apei nafshah"
באנפי נפשה - ולא אפלוגתא דמתני':

"De modo independente" — e não como (comentário) sobre a disputa da Mishná.

08Terceira versão: em nome de Rabi Yehuda ben Beteira, permitido secar mas não ordenhar — mas quem distingue? Por isso ambos proibidos; Rabi Yochanan decide pelo tana kama
Rabi Yehuda ben Beteira; Shmuel; Ravin em nome de Rabi Yochanan
וְאִיכָּא דְמַתְנֵי לַהּ אַהָא: עִזִּים יוֹצְאוֹת צְרוּרוֹת לְיַבֵּשׁ אֲבָל לֹא לֵחָלֵב. מִשּׁוּם רַבִּי יְהוּדָה בֶּן בְּתֵירָא אָמְרוּ: כָּךְ הֲלָכָה, אֲבָל מִי מֵפִיס אֵיזוֹ לְיַבֵּשׁ וְאֵיזוֹ לֵחָלֵב? וּמִתּוֹךְ שֶׁאֵין מַכִּירִים, אֶחָד זֶה וְאֶחָד זֶה אָסוּר. אָמַר שְׁמוּאֵל: וְאָמְרִי לַהּ אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה בֶּן בְּתֵירָא. כִּי אֲתָא רָבִין אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הֲלָכָה כְּתַנָּא קַמָּא.

E há quem ensine isto ligado a isto: as cabras saem amarradas para secar, mas não para ordenhar. Em nome de Rabi Yehuda ben Beteira disseram: assim é a lei; mas quem pode distinguir qual é para secar e qual é para ordenhar? E, por não se poder reconhecer, tanto isto quanto aquilo é proibido. Disse Shmuel — e há quem diga que disse Rav Yehuda em nome de Shmuel: a lei é como Rabi Yehuda ben Beteira. Quando veio Ravin, disse em nome de Rabi Yochanan: a lei é como o tana kama.

Nota

Uma terceira versão liga essa disputa a um ensinamento anterior sobre secar ou ordenhar, e acrescenta a posição de Rabi Yehuda ben Beteira: em princípio, a lei permitiria secar mas proibiria ordenhar — mas, na prática, ninguém consegue distinguir de fora qual cabra está amarrada para um propósito e qual para o outro; por isso, para evitar que se permita indevidamente o caso da ordenha, ambos os casos acabam proibidos. Shmuel decide a lei conforme essa posição de Rabi Yehuda ben Beteira. Mas a palavra final vem de Ravin, transmitindo em nome de Rabi Yochanan (a autoridade de Eretz Israel) que a lei segue o tana kama da Mishná — o primeiro sábio anônimo, que permite em ambos os casos, sem essa distinção.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve'ika dematnei", "kach halachah", "aval mi mefis" e "ketana kama"
ואיכא דמתני - להא דשמואל אהא:

"E há quem ensine" — este dito de Shmuel ligado a isto.

כך הלכה - דליבש מותר ולחלב אסור:

"Assim é a lei" — que para secar é permitido, e para ordenhar é proibido.

אבל מי מפיס - מי מטיל גורל ומבחין איזו ליבש ואיזו לחלב והרואה אותם צרורות ליבש אומר דלחלב הוא ואתי למישרי תרווייהו:

"Mas quem pode distinguir" — quem lança sortes e discerne qual é para secar e qual é para ordenhar? E quem as vir amarradas para secar dirá que é para ordenhar, e virá a permitir ambas.

כת"ק - דמתני' דשרי בתרוייהו:

"Como o tana kama" — o da Mishná, que permite em ambos os casos.

Mishná: o camelo que não sai com coberta, amarrado ou de perna dobrada; não atar camelos em fileira · וּבַמָּה אֵינָהּ יוֹצְאָה

09Mishná: não sai o camelo com coberta, amarrado ou de perna dobrada — e assim os demais animais
Mishná
וּבַמָּה אֵינָהּ יוֹצְאָה? — לֹא יֵצֵא גָּמָל בִּמְטוּלְטֶלֶת, לֹא עָקוּד וְלֹא רָגוּל, וְכֵן שְׁאָר כׇּל הַבְּהֵמוֹת. לֹא יִקְשׁוֹר גְּמַלִּים זֶה בָּזֶה וְיִמְשׁוֹךְ, אֲבָל מַכְנִיס חֲבָלִים לְתוֹךְ יָדוֹ וְיִמְשׁוֹךְ, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִכְרוֹךְ.

E com que (o animal) não sai? Não sai o camelo com uma coberta (metultelet), nem amarrado (akud), nem com a perna dobrada (ragul); e o mesmo vale para todos os demais animais. Não se deve atar camelos uns aos outros e puxá-los (em fileira); mas pode-se colocar as cordas dentro da mão e puxá-los, contanto que não as enrole.

Nota

Encerrada a discussão sobre ovelhas e cabras, a Guemará introduz uma nova Mishná — ainda dentro do mesmo Perek Heh, que trata do que os animais podem e não podem sair usando em Shabat. Agora o foco recai sobre o camelo (e, por extensão, os demais animais): ele não pode sair com uma coberta ou manta (metultelet) presa de certas formas, nem "akud" (amarrado, com uma pata dianteira e uma traseira presas juntas, para impedir fuga), nem "ragul" (com uma pata dianteira dobrada e presa ao corpo, restando-lhe apenas três pernas livres). A Mishná acrescenta uma regra sobre conduzir vários camelos: é proibido atá-los uns aos outros em fileira para conduzi-los assim atrelados, mas é permitido ao condutor segurar as cordas de vários camelos na própria mão e puxá-los individualmente, contanto que não enrole essas cordas juntas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "metultelet", "lo akud velo ragul", "lo yikshor gemalim" e "uvilvad shelo yichroch"
מתני' מטולטלת - י"מ פושל"א (רתמת זנב) שתחת זנבו וי"מ מרדעת והאחרון נראה בעיני דאי רצועה שתחת הזנב קשורה ומחוברת לסרגא ואיך תפול וטעמא דמתני' משום שמא תפול ומייתי לה הוא:

Mishná. "Coberta" (metultelet) — há quem explique (como) a correia sob a cauda (que sustenta o arreio), e há quem explique (como) a manta; e esta última explicação me parece (correta), pois, se fosse a correia sob a cauda, amarrada e presa à sela, como cairia? E a razão da Mishná é o receio de que caia, e ele venha a trazê-la de volta.

לא עקוד ולא רגול - מפרשינן בגמ' שעוקדים ידיהם עם רגליהם בכבלים שלא יברחו:

"Nem amarrado, nem com a perna dobrada" — explicaremos na Guemará que se amarram suas patas dianteiras com as traseiras em grilhões, para que não fujam.

ולא יקשור גמלים זו לזו וימשוך - האחד כדמפרש בגמרא:

"Não se deve atar camelos uns aos outros e puxá-los" — um (atrás do outro), como se explica na Guemará.

ובלבד שלא יכרוך - החבלים בכרך אחד ובגמרא מפרש טעמא:

"Contanto que não as enrole" — as cordas, todas juntas; e a Guemará explica a razão.

Guemará: a coberta do camelo, "akud" e "ragul", e a razão de não atar camelos em fileira · עֲקֵידַת יָד וָרֶגֶל כְּיִצְחָק בֶּן אַבְרָהָם

10Não sai o camelo com a coberta presa só na cauda, mas sai com ela presa na cauda e na corcova; Rabah bar Rav Huna: também sai com ela presa pela correia
Guemará; Rabah bar Rav Huna
תָּנָא לֹא יֵצֵא הַגָּמָל בִּמְטוּלְטֶלֶת הַקְּשׁוּרָה לוֹ בִּזְנָבוֹ, אֲבָל יוֹצֵא הוּא בִּמְטוּלְטֶלֶת הַקְּשׁוּרָה בִּזְנָבוֹ וּבְחוֹטַרְתּוֹ. אָמַר רַבָּה בַּר רַב הוּנָא: יוֹצֵא הַגָּמָל בִּמְטוּלְטֶלֶת הַקְּשׁוּרָה לוֹ בְּשִׁילְיְיתָא.

Ensinou-se: não sai o camelo com a coberta amarrada apenas em sua cauda; mas sai com a coberta amarrada em sua cauda e em sua corcova. Disse Rabah bar Rav Huna: sai o camelo com a coberta amarrada por meio de sua correia.

Nota

A Guemará detalha a proibição da Mishná quanto à coberta do camelo: se ela está presa apenas à cauda, corre o risco de escorregar e cair, e o condutor viria a recolhê-la, transgredindo o limite de Shabat — por isso é proibida. Mas se está presa tanto à cauda quanto à corcova, dupla fixação que a mantém firme, é permitida. Rabah bar Rav Huna acrescenta que também é permitida quando presa por meio de uma correia própria (shilyata), que a segura com igual firmeza, sem risco de queda.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "bizenavo uvechotarto", "chotarto" e "beshilyata"
גמ' בזנבו ובחוטרתו - דכיון דקשורה בשניהם לא נפלה:

GUEMARÁ. "Em sua cauda e em sua corcova" — pois, estando amarrada em ambas, não cai.

חוטרתו - חלדרוב"א שיש לכל גמלים על גביהם:

"Sua corcova" — a corcova que todos os camelos têm sobre o dorso.

בשלייתה - דכיון דכאיב לא מנתחא לי' ול"נ מטולטלת כר קטן מלא מוכין נותנין לו תחת הזנב כדי שלא תשחית הרצועה הבשר לפי שהמשוי שעל גבה כשהגמל יורד מכביד ויורד כלפי צוארה אלא שהרצועה מעכבתו:

"Por meio de sua correia" — pois, doendo (se solta), não se separa (dele). E a mim parece que "coberta" (aqui) é uma pequena almofada cheia de estopa, que se coloca sob a cauda, para que a correia não danifique a carne, pois, quando o camelo desce (uma ladeira), a carga sobre seu dorso pesa e desliza em direção ao seu pescoço, mas a correia o retém.

11Rav Yehuda: "akud" é amarrar mão e pé como Yitzchak filho de Avraham; "ragul" é dobrar a perna dianteira sobre o antebraço e amarrá-la
Rav Yehuda
לֹא עָקוּד וְלֹא רָגוּל. אָמַר רַב יְהוּדָה: ״עָקוּד״ — עֲקֵידַת יָד וָרֶגֶל, כְּיִצְחָק בֶּן אַבְרָהָם. ״רָגוּל״ — שֶׁלֹּא יָכוֹף יָדוֹ עַל גַּבֵּי זְרוֹעוֹ וְיִקְשׁוֹר.

"Nem amarrado, nem com a perna dobrada." Disse Rav Yehuda: "akud" é a amarração de mão e pé, como (a amarração de) Yitzchak, filho de Avraham. "Ragul" é para que não dobre sua perna sobre seu antebraço e a amarre.

Nota

Rav Yehuda define os dois termos da Mishná com uma comparação notável: "akud" — o particípio que dá nome à própria Akedá de Yitzchak — designa a amarração de uma pata dianteira junto com uma pata traseira, tal como Avraham amarrou as mãos e os pés de seu filho no altar; "ragul" designa dobrar uma das patas dianteiras do animal para cima, contra o próprio antebraço, e prendê-la nessa posição, deixando-lhe apenas três patas livres para andar — uma restrição de movimento que impede a fuga, mas que a Mishná proíbe por dar ao animal a aparência de estar sendo levado para vender, ou por outros motivos que a Guemará ainda discutirá.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "yad varegel" e "yad al gav zero'o"
יד ורגל - אחד מן הידים ואחד מן הרגלים כובל ביחד:

"Mão e pé" — amarra juntos uma das (patas dianteiras) e uma das (patas traseiras).

יד על גב זרועו - אחד מידיו כופף כלפי מעלה וקושר כדי שלא יהו לו אלא ג' רגלים לברוח:

"A perna sobre seu antebraço" — dobra uma de suas (patas dianteiras) para cima e a amarra, de modo que lhe restem apenas três pernas para fugir.

12Objeção de uma baraita: "akud" é duas mãos e duas pernas — Rav Yehuda segue outro tanaíta, que ensina ambas as formas
Guemará (objeção e resposta)
מֵיתִיבִי: ״עָקוּד״ — שְׁתֵּי יָדַיִם וּשְׁתֵּי רַגְלַיִם. ״רָגוּל״ — שֶׁלֹּא יָכוֹף יָדוֹ עַל גַּבֵּי זְרוֹעוֹ וְיִקְשׁוֹר! הוּא דְּאָמַר כִּי הַאי תַּנָּא, דְּתַנְיָא: ״עָקוּד״ — עֲקֵידַת יָד וָרֶגֶל אוֹ שְׁתֵּי יָדַיִם וּשְׁתֵּי רַגְלַיִם, ״רָגוּל״ — שֶׁלֹּא יָכוֹף יָדוֹ עַל גַּבֵּי זְרוֹעוֹ וְיִקְשׁוֹר.

Levantaram uma objeção: "akud" é (a amarração de) duas mãos e duas pernas; "ragul" é para que não dobre sua perna sobre seu antebraço e a amarre! Ele (Rav Yehuda) falou segundo este tanaíta, pois se ensinou: "akud" é a amarração de mão e pé, ou de duas mãos e duas pernas; "ragul" é para que não dobre sua perna sobre seu antebraço e a amarre.

Nota

Objeta-se contra Rav Yehuda com outra baraita, que define "akud" de modo diferente: não a combinação de uma pata dianteira com uma traseira, mas duas patas dianteiras juntas ou duas traseiras juntas. A Guemará resolve identificando a fonte de Rav Yehuda com um terceiro tanaíta, cuja baraita combina as duas definições: "akud" pode ser tanto a amarração de mão e pé (como Yitzchak) quanto a de duas mãos ou duas pernas juntas — ambas recebendo o mesmo nome.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shtei yadayim"
שתי ידים - כאחד או שתי רגלים כאחד:

"Duas mãos" — juntas, ou duas pernas juntas.

13Mas ainda não se ajusta: a cláusula intermediária ("ou duas mãos e duas pernas") é difícil para Rav Yehuda — resolve-se atribuindo-a a outro tanaíta
Guemará
וְאַכַּתִּי לָא דָּמֵי: בִּשְׁלָמָא רֵישָׁא וְסֵיפָא — נִיחָא, מְצִיעֲתָא קַשְׁיָא! אֶלָּא הוּא דְּאָמַר כִּי הַאי תַּנָּא, ״עָקוּד״ — עֲקֵידַת יָד וָרֶגֶל, כְּיִצְחָק בֶּן אַבְרָהָם. ״רָגוּל״ — שֶׁלֹּא יָכוֹף יָדוֹ עַל גַּבֵּי זְרוֹעוֹ וְיִקְשׁוֹר.

Mas ainda assim não é semelhante: convém, é certo, a cláusula inicial e a final; mas a cláusula intermediária é difícil! Antes, ele falou segundo este outro tanaíta: "akud" é a amarração de mão e pé, como (a amarração de) Yitzchak, filho de Avraham; "ragul" é para que não dobre sua perna sobre seu antebraço e a amarre.

Nota

A harmonização anterior é ainda insuficiente: se essa baraita combinada fosse mesmo a fonte de Rav Yehuda, sua cláusula inicial (mão e pé) e final (ragul) se ajustariam bem à posição dele, mas a cláusula intermediária — que acrescenta "ou duas mãos e duas pernas" como definição alternativa e igualmente válida de "akud" — contradiz Rav Yehuda, que restringira "akud" apenas à combinação de mão e pé. A Guemará conclui, então, que Rav Yehuda na verdade segue um terceiro tanaíta distinto, cuja baraita define "akud" exclusivamente como a amarração de mão e pé — tal como a de Yitzchak —, sem a alternativa de duas mãos ou duas pernas juntas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve'achati lo dami" e "reisha veseifa nicha"
ואכתי לא דמי - האי תנא לדרב יהודה:

"Mas ainda assim não é semelhante" — este tanaíta, à opinião de Rav Yehuda.

רישא וסיפא ניחא - כדרב יהודה אבל מציעתא דקתני או שתי ידים או שתי רגלים קשיא לדרב יהודה דלא קרי עקוד אלא יד ורגל כיצחק בן אברהם דכתיב (בראשית כב) ויעקד כפף ידיו ורגליו לאחוריו וקשר יד ורגל יחד ונפשט צוארו לאחוריו:

"A cláusula inicial e a final convêm" — segundo Rav Yehuda; mas a cláusula intermediária, que ensina "ou duas mãos, ou duas pernas", é difícil para Rav Yehuda, que não chama de "akud" senão a amarração de mão e pé, como a de Yitzchak, filho de Avraham, pois está escrito (Bereshit 22): "e o amarrou" — dobrou suas mãos e seus pés para trás, e amarrou mão e pé juntos, e esticou seu pescoço para trás.

14Rav Ashi: não atar camelos em fileira, pois parece uma procissão festiva rumo ao mercado
Rav Ashi
וְלֹא יִקְשׁוֹר גְּמַלִּים. מַאי טַעְמָא? אָמַר רַב אָשֵׁי: מִשּׁוּם דְּמֶיחְזֵי כְּמַאן דְּאָזֵיל לְחִינְגָּא.

"E não se deve atar camelos." Qual é a razão? Disse Rav Ashi: porque parece com quem vai a uma procissão festiva.

Nota

A Guemará explica a razão da proibição de atar vários camelos uns aos outros para conduzi-los em fileira única: não se trata de receio de queda ou de transgressão material direta, mas de aparência — um comboio de camelos atados uns aos outros lembra visualmente uma procissão festiva (chinga), como as caravanas que se dirigem ao mercado para vender os animais, ocasião marcada por música e dança circular; tal aparência é imprópria para Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lechinga"
לחינגא - לשוק למוכרם חינגא ע"ש שסובבין את השוק מחולות מחולות עגולות של בני אדם:

"A uma procissão festiva" — ao mercado, para vendê-los; chamada "chinga" porque rodeiam o mercado em rodas e danças circulares de pessoas.

As cordas na mão: kilayim, não de pessoa mas de cordas, e a medida de um ou dois palmos · כִּלְאַיִם דַּחֲבָלִים

15Rav Ashi: pode segurar as cordas na mão — só se ensinou por causa de kilayim; não da pessoa, pois ela é permitida com todos os animais
Rav Ashi
אֲבָל מַכְנִיס. אָמַר רַב אָשֵׁי: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא לְעִנְיַן כִּלְאַיִם. כִּלְאַיִם דְּמַאי? אִילֵּימָא כִּלְאַיִם דְּאָדָם, וְהָתְנַן: אָדָם מוּתָּר עִם כּוּלָּם לַחֲרוֹשׁ וְלִמְשׁוֹךְ!

"Mas coloca (as cordas na mão)." Disse Rav Ashi: não se ensinou isto senão quanto ao (assunto de) kilayim. Kilayim de quê? Se dirias, kilayim da pessoa — mas não aprendemos: a pessoa é permitida (conduzir) com todos (os animais) juntos, para arar e para puxar?

Nota

Rav Ashi esclarece que a restrição da Mishná contra enrolar as cordas juntas ("ubilvad shelo yichroch") não decorre de nenhuma proibição de Shabat, mas do âmbito de kilayim (mistura proibida de espécies). Levanta-se então a pergunta: kilayim de quê exatamente? Se fosse kilayim referente à própria pessoa — isto é, o receio de que, enrolando as cordas de espécies diferentes ao redor da mão, ela ficasse "atrelada" a dois animais de espécies distintas simultaneamente —, isso não faria sentido, pois já se ensinou alhures que a pessoa pode conduzir, arar e puxar com quaisquer animais juntos, sem que isso constitua kilayim (a proibição bíblica limita-se a atrelar duas espécies de animais entre si, como boi e asno, não à pessoa que os conduz).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "le'inyan kilayim shanu" e "ilema kilayim de'adam"
לענין כלאים שנוי - האי שלא יכרוך דמתני' לא שייך ביה איסור שבת אלא משום כלאים אסר ליה כדמפרש ואזיל:

"Ensinou-se quanto ao (assunto de) kilayim" — este "não enrole" da Mishná não se relaciona com a proibição de Shabat, mas por causa de kilayim se proibiu, como se explica adiante.

אי נימא כלאים דאדם - דכי כריך להן סביבות ידו נמצא קשור עם הגמלים ופעמים שהן מושכין שום דבר ונמצא אדם וגמל מנהיגין יחד:

"Se dirias, kilayim da pessoa" — pois, quando as enrola ao redor de sua mão, encontra-se atado junto com os camelos, e às vezes eles puxam alguma coisa, e encontram-se a pessoa e o camelo conduzindo juntos.

16Antes, kilayim das cordas de lã e linho; mas uma só costura não é considerada união! Na verdade, é o enrolar e amarrar que se proíbe
Guemará
אֶלָּא כִּלְאַיִם דַּחֲבָלִים. וְהָתַנְיָא: הַתּוֹכֵף תְּכִיפָה אַחַת — אֵינָהּ חִיבּוּר? לְעוֹלָם כִּלְאַיִם דַּחֲבָלִים, וְהָכִי קָאָמַר: וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִכְרוֹךְ וְיִקְשׁוֹר.

Antes, kilayim das cordas. Mas não se ensinou: quem une (dois materiais) com uma única costura não é considerado uma união? Na verdade, (trata-se) de kilayim das cordas, e isto é o que se diz: contanto que não as enrole e as amarre.

Nota

A Guemará propõe, então, que o kilayim em questão é o das próprias cordas: entre elas há cordas de lã e cordas de linho, e enrolá-las juntas ao redor da mão constituiria a mistura proibida de shaatnez. Objeta-se, porém, com uma baraita sobre roupas: uma única costura ou um único nó unindo lã e linho não é considerado uma "união" (chibur) suficiente para configurar shaatnez, que exige uma ligação firme e duradoura — logo, o simples ato de segurar cordas de materiais diferentes na mão, sem mais, não deveria ser proibido. A Guemará esclarece que o kilayim das cordas permanece a explicação correta, mas a Mishná refere-se especificamente ao ato de enrolar e amarrar as cordas juntas — um vínculo mais firme, equivalente a mais de uma costura, que de fato constitui união proibida.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kilayim dachavalim", "hatokef", "bitchifah achat", "eino chibur" e "kericha ukeshirah"
כלאים דחבלים - שיש בהן חבלי צמר וחבלי פשתן וכי כריך להו הוו כלאים וידו מתחממת באחיזתן וקסבר דבר שאין מתכוין אסור:

"Kilayim das cordas" — pois há entre elas cordas de lã e cordas de linho, e, ao enrolá-las, tornam-se kilayim, e sua mão se aquece ao segurá-las; e ele sustenta que uma coisa não intencional (mas inevitável) é proibida.

והתנן אדם מותר עם כולם - עם כל הבהמות לחרוש ולמשוך שלא אסרה תורה אלא שני מיני בהמה יחד כעין שור וחמור ומשנה זו במסכת כלאים:

"Mas não aprendemos: a pessoa é permitida com todos" — com todos os animais, para arar e para puxar, pois a Torá não proibiu senão duas espécies de animais juntas, como boi e asno; e esta Mishná está no tratado de Kilayim.

התוכף - בגדי צמר ופשתים:

"Quem une" (hatokef) — vestes de lã e de linho.

בתכיפה אחת - כגון ע"י מחט פעם אחת או שקשר קשר אחד:

"Com uma única costura" — por exemplo, com uma agulha, uma única vez, ou (prendendo) com um único nó.

אינו חיבור - דכתיב (דברים כב) צמר ופשתים יחדו לא אסרה התורה אלא חבור יפה המתקיים:

"Não é considerado uma união" — pois está escrito (Devarim 22): "lã e linho juntos" — a Torá não proibiu senão uma união firme e duradoura.

כריכה וקשירה - בשתי תכיפות:

"Enrolar e amarrar" — com duas costuras (ou dois nós).

17Shmuel: a corda não deve sair da mão além de um palmo; mas a escola de Shmuel ensinou dois palmos! Abaye: Shmuel veio ensinar a lei aplicada na prática
Shmuel; Abaye
אָמַר שְׁמוּאֵל: וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יֵצֵא [חֶבֶל] מִתַּחַת יָדוֹ טֶפַח. וְהָא תָּנָא דְּבֵי שְׁמוּאֵל טִפְחַיִים! אָמַר אַבָּיֵי: הַשְׁתָּא דְּאָמַר שְׁמוּאֵל טֶפַח, וְתָנָא דְּבֵי שְׁמוּאֵל טִפְחַיִים — שְׁמוּאֵל הֲלָכָה לְמַעֲשֶׂה אֲתָא לְאַשְׁמוֹעִינַן.

Disse Shmuel: contanto que a corda não saia de baixo de sua mão um palmo. Mas não ensinou a escola de Shmuel (que o limite é de) dois palmos? Disse Abaye: agora que Shmuel disse um palmo, e a escola de Shmuel ensinou dois palmos — Shmuel veio ensinar a lei aplicada na prática.

Nota

Fecha-se o daf com uma precisão de medida trazida por Shmuel: a corda segura na mão do condutor não deve pender abaixo dela mais do que um palmo (tefach), pois, se ultrapassar essa medida, passa a parecer que ele está carregando a corda solta na mão, e não simplesmente segurando o cabresto do camelo — o que poderia ser confundido com transporte proibido. Objeta-se que a academia de Shmuel transmitiu, em nome do próprio mestre, um limite mais generoso, de dois palmos. Abaye resolve a aparente contradição distinguindo dois planos: em termos estritamente legais, a medida vai até dois palmos, sem transgressão; mas Shmuel, ao ser consultado na prática por quem viesse pedir orientação, respondia com a medida mais restritiva de um palmo, por prudência, para não ser leniente em matéria de possíveis proibições — sem que isso alterasse a lei teórica, que permanece em dois palmos.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shelo yetze chevel" e "Shmuel"
שלא יצא חבל - ראש החבל לא יצא מתחת ידו טפח למטה דדמי כמי שנושאה בידו ולא מתחזיא שהיא מאפסר הגמלים:

"Que a corda não saia" — a ponta da corda não deve sair de baixo de sua mão um palmo para baixo, pois (caso contrário) parece como quem a carrega na mão, e não se reconhece que é o cabresto dos camelos.

שמואל - דאמר טפח לאורויי הלכה למעשה אתא לאשמעינן דהבא לימלך לפנינו אמרינן ליה טפח שלא להקל באיסורין ומיהו עד טפחיים ליכא איסור:

"Shmuel" — que disse um palmo, veio ensinar a lei aplicada na prática, ou seja, que a quem vier se aconselhar perante nós dizemos um palmo, para não sermos leves em matéria de proibições; mas, na verdade, até dois palmos não há proibição.