O daf abre concluindo a frase que 53b deixara interrompida no limite exato da página: a citação de Provérbios 7:10 sobre a mulher que sai ao encontro do incauto "com traje de meretriz e coração dissimulado" — completando assim a prova de que o termo "shechuzot" carrega o sentido de exposição. A Guemará passa então a explicar os demais termos obscuros da baraita sobre as ovelhas e cabras: "kevulot" designa as ovelhas cuja cauda é atada para baixo, para impedir que os machos as montem, numa etimologia provada pelo versículo sobre as cidades que Shlomo deu a Chiram, chamadas "Eretz Kavul" por não produzirem — explicada por Rav Huna como referência a uma população rica e adornada de prata e ouro, mas ociosa e improdutiva, e por Rav Nachman bar Yitzchak como uma terra salgada onde o pé afunda até o tornozelo. Em seguida explica-se "kevunot": os cordeiros recém-nascidos, de lã ainda limpa, são envolvidos num pano para preservar essa lã fina destinada a um tecido especial, tal como a Mishná de Negaim compara a mancha de tzaraat "se'et" à lã branca. Retomando o tema das cabras amarradas, a Guemará traz, em três versões sucessivas, a disputa entre Rav (que segue Rabi Yehuda) e Shmuel (que segue Rabi Yossi, ou proíbe ambos os casos), incluindo a posição de Rabi Yehuda ben Beteira — que permite para secar mas não para ordenhar, ainda que reconhecendo a impossibilidade prática de distinguir um caso do outro — e a decisão final de Rabi Yochanan, transmitida por Ravin, de que a lei segue o tana kama, que permite em ambos os casos. O daf então introduz uma nova Mishná, ainda dentro do mesmo capítulo: o camelo não deve sair com uma coberta (metultelet), nem amarrado (akud), nem com a perna dobrada (ragul), regra que se estende aos demais animais; tampouco se deve atar vários camelos uns aos outros para conduzi-los em fileira, ainda que seja permitido segurar as cordas na mão, contanto que não sejam enroladas. A Guemará correspondente distingue onde a coberta pode e não pode ser atada no camelo, traz a explicação de Rav Yehuda para "akud" e "ragul" — comparando o amarrar de mão e pé ao próprio Yitzchak na Akedá —, enfrenta e resolve uma objeção de uma baraita alternativa, explica por meio de Rav Ashi por que atar camelos em fileira é proibido (por parecer uma procissão festiva) e por que segurar as cordas na mão só foi restringido por causa de kilayim — não da pessoa, mas das próprias cordas de lã e linho —, e fecha com a disputa entre Shmuel e a escola de Shmuel sobre se o limite da corda pendente é de um ou de dois palmos, resolvida por Abaye como duas camadas de uma mesma diretriz prática.
"...com traje de meretriz e coração dissimulado."
Este daf abre completando, palavra por palavra, o versículo de Provérbios 7:10 cuja citação fora interrompida exatamente no limite de 53b: "e eis que uma mulher lhe sai ao encontro, com traje de meretriz e coração dissimulado." A prova buscada pela Guemará — que o termo "shechuzot" (as ovelhas cuja cauda se prende para cima, expondo-as) carrega o sentido de exposição — completa-se assim: o versículo descreve uma mulher que se expõe deliberadamente, com trajes provocantes, ainda que dissimulando no coração; dessa mesma raiz se extrai o sentido de "exposição" aplicado às ovelhas "shechuzot".
"Traje (shit) de meretriz" — é um acrônimo (notarikon) de "shechuzot".
"Traje" (shit) — (alude) à casa da vergonha (isto é, às partes íntimas expostas).
As ovelhas saem "kevulot". O que é "kevulot"? Que se ata a cauda delas para baixo, para que os machos não montem sobre elas. De onde se infere que este termo "kavul" é uma expressão que significa "não produz frutos"? Pois está escrito: "que cidades são estas que me deste, meu irmão?" — e chamou-as terra de Kavul até o dia de hoje.
Concluída a citação, a Guemará retoma a explicação dos termos técnicos da baraita sobre os pequenos animais, citada em 53b. "Kevulot" designa as ovelhas cuja cauda é presa e amarrada para baixo, contra o corpo, exatamente o oposto do que se fazia às ovelhas "shechuzot" (cuja cauda era erguida para facilitar a monta): aqui, o propósito é impedir que os machos as montem fora do tempo apropriado. A Guemará justifica a raiz "kavul" com o sentido de infertilidade ou improdutividade, citando o relato de Melachim I (9:11-13): Shlomo dera a Chiram vinte cidades na Galileia, mas quando este foi vê-las, não lhe agradaram, e ele as chamou "Eretz Kavul" — terra que não produz — até hoje.
"Que se ata (mechabelin)" — expressão de amarras de ferro atadas.
"E chamou-as" — o versículo fala das vinte e duas cidades que Shlomo deu a Chiram.
O que é "Eretz Kavul"? Disse Rav Huna: que havia nela pessoas adornadas com prata e ouro. Disse-lhe Rava: se assim, é isto o que está escrito, que "não foram retas a seus olhos"? Por serem adornadas com prata e ouro não foram retas a seus olhos? Disse-lhe: sim; visto que eram ricas e mimadas, não faziam o trabalho (da terra).
Rav Huna explica que "kavul" alude aos próprios habitantes daquelas cidades, ricamente adornados com joias de prata e ouro. Rava objeta: se a população era próspera e adornada, isso deveria ter agradado a Chiram — mas o versículo diz o contrário, que as cidades "não foram retas a seus olhos"! Rav Huna responde que é exatamente o oposto: sendo ricos e mimados, os habitantes não trabalhavam a terra, de modo que as cidades, apesar da riqueza aparente de seu povo, eram improdutivas — e por isso desagradaram a Chiram, que buscava terras produtivas.
"Adornadas" (mechubalin) — envoltas e atadas (em joias).
"O trabalho" (avidta) — o trabalho forçado (angaria) a serviço do rei.
Rav Nachman bar Yitzchak disse: era uma terra salgada. E por que a chamam de "Kavul"? Porque nela o pé afunda até o tornozelo. E dizem as pessoas: "terra amarrada" é a que não produz frutos.
Rav Nachman bar Yitzchak propõe uma explicação alternativa, agora sobre a própria terra: tratava-se de solo salgado e pantanoso, no qual o pé de quem caminhava afundava até o tornozelo — e é esse afundar, esse "prender" do pé, que dá origem ao nome "Kavul", associado à raiz de amarras e grilhões. Cita-se ainda um ditado popular, segundo o qual "terra amarrada" é expressão corrente para designar terra estéril, incapaz de produzir frutos — encerrando, com duas explicações complementares (a dos habitantes e a da terra), a etimologia de "Eretz Kavul" e, por extensão, de "kevulot".
"Terra salgada" (chomton) — salgada e rachada.
"Que nela o pé afunda" — o pé se afunda nela.
"Até o tornozelo" (kavla) — a articulação inferior, chamada em língua estrangeira "coville".
"Kevunot." O que é "kevunot"? Que as envolvem (com um pano) para (fazer delas) lã fina. Como aprendemos: (a mancha) "se'et" é como lã branca. O que é "lã branca"? Disse Rav Bibi bar Abaye: como lã limpa, de um dia, que se envolve para (fazer) lã fina.
Passa-se ao último termo obscuro da mesma baraita, já mencionado em 53b como a exceção de Rabi Yossi ("chutz min harechelot hakevunot"): as ovelhas "kevunot" são aquelas cujos cordeiros recém-nascidos, ainda com a lã limpa e intacta, são envolvidos num pano especial logo ao nascer, para preservar essa lã fina destinada à confecção de um tecido de qualidade superior, chamado "meilat". A Guemará ilustra o sentido de "lã fina e limpa" remetendo à Mishná de Negaim, que compara a mancha de tzaraat chamada "se'et" à cor da lã branca — explicada por Rav Bibi bar Abaye como a lã de um cordeiro no primeiro dia de vida, ainda limpa, do tipo que se envolve para fazer essa mesma lã fina.
"Que as envolvem" — atam um pano ao redor (do cordeiro) no dia em que nasce, quando sua lã está limpa, e assim se preserva a lã para que não se suje.
"Envolvem" (mechabnin) — porque fazem uma espécie de fivelas de metal para unir o pano, como em "que se me dê minha fivela para minhas casas" (Guitin 15a); em língua estrangeira, "nosca".
"Lã fina" (meilat) — para fazer, de sua lã, um tecido fino.
E as cabras saem amarradas. Disse-se: Rav disse: a lei é como Rabi Yehuda; e Shmuel disse: a lei é como Rabi Yossi.
Retomando a Mishná já citada por Rav Yosef em 53b (as cabras saem amarradas; Rabi Yossi proíbe em todos os casos, exceto para as ovelhas cobertas; Rabi Yehuda permite para secar, mas não para ordenhar), a Guemará agora registra a decisão prática: Rav decide como Rabi Yehuda, permitindo quando a bolsa serve para secar; Shmuel decide como Rabi Yossi, mais restritivo.
E há quem ensine este dito de modo independente: Rav disse: para secar é permitido, e não para ordenhar; e Shmuel disse: tanto isto quanto aquilo é proibido.
Uma segunda versão da mesma disputa é transmitida não como comentário à disputa da Mishná entre Rabi Yehuda e Rabi Yossi, mas como um dito independente dos próprios amoraítas: Rav distingue diretamente entre secar (permitido) e ordenhar (proibido), enquanto Shmuel proíbe ambos os casos sem distinção — resultado prático semelhante ao da primeira versão, mas fundamentado de outro modo.
"De modo independente" — e não como (comentário) sobre a disputa da Mishná.
E há quem ensine isto ligado a isto: as cabras saem amarradas para secar, mas não para ordenhar. Em nome de Rabi Yehuda ben Beteira disseram: assim é a lei; mas quem pode distinguir qual é para secar e qual é para ordenhar? E, por não se poder reconhecer, tanto isto quanto aquilo é proibido. Disse Shmuel — e há quem diga que disse Rav Yehuda em nome de Shmuel: a lei é como Rabi Yehuda ben Beteira. Quando veio Ravin, disse em nome de Rabi Yochanan: a lei é como o tana kama.
Uma terceira versão liga essa disputa a um ensinamento anterior sobre secar ou ordenhar, e acrescenta a posição de Rabi Yehuda ben Beteira: em princípio, a lei permitiria secar mas proibiria ordenhar — mas, na prática, ninguém consegue distinguir de fora qual cabra está amarrada para um propósito e qual para o outro; por isso, para evitar que se permita indevidamente o caso da ordenha, ambos os casos acabam proibidos. Shmuel decide a lei conforme essa posição de Rabi Yehuda ben Beteira. Mas a palavra final vem de Ravin, transmitindo em nome de Rabi Yochanan (a autoridade de Eretz Israel) que a lei segue o tana kama da Mishná — o primeiro sábio anônimo, que permite em ambos os casos, sem essa distinção.
"E há quem ensine" — este dito de Shmuel ligado a isto.
"Assim é a lei" — que para secar é permitido, e para ordenhar é proibido.
"Mas quem pode distinguir" — quem lança sortes e discerne qual é para secar e qual é para ordenhar? E quem as vir amarradas para secar dirá que é para ordenhar, e virá a permitir ambas.
"Como o tana kama" — o da Mishná, que permite em ambos os casos.
E com que (o animal) não sai? Não sai o camelo com uma coberta (metultelet), nem amarrado (akud), nem com a perna dobrada (ragul); e o mesmo vale para todos os demais animais. Não se deve atar camelos uns aos outros e puxá-los (em fileira); mas pode-se colocar as cordas dentro da mão e puxá-los, contanto que não as enrole.
Encerrada a discussão sobre ovelhas e cabras, a Guemará introduz uma nova Mishná — ainda dentro do mesmo Perek Heh, que trata do que os animais podem e não podem sair usando em Shabat. Agora o foco recai sobre o camelo (e, por extensão, os demais animais): ele não pode sair com uma coberta ou manta (metultelet) presa de certas formas, nem "akud" (amarrado, com uma pata dianteira e uma traseira presas juntas, para impedir fuga), nem "ragul" (com uma pata dianteira dobrada e presa ao corpo, restando-lhe apenas três pernas livres). A Mishná acrescenta uma regra sobre conduzir vários camelos: é proibido atá-los uns aos outros em fileira para conduzi-los assim atrelados, mas é permitido ao condutor segurar as cordas de vários camelos na própria mão e puxá-los individualmente, contanto que não enrole essas cordas juntas.
Mishná. "Coberta" (metultelet) — há quem explique (como) a correia sob a cauda (que sustenta o arreio), e há quem explique (como) a manta; e esta última explicação me parece (correta), pois, se fosse a correia sob a cauda, amarrada e presa à sela, como cairia? E a razão da Mishná é o receio de que caia, e ele venha a trazê-la de volta.
"Nem amarrado, nem com a perna dobrada" — explicaremos na Guemará que se amarram suas patas dianteiras com as traseiras em grilhões, para que não fujam.
"Não se deve atar camelos uns aos outros e puxá-los" — um (atrás do outro), como se explica na Guemará.
"Contanto que não as enrole" — as cordas, todas juntas; e a Guemará explica a razão.
Ensinou-se: não sai o camelo com a coberta amarrada apenas em sua cauda; mas sai com a coberta amarrada em sua cauda e em sua corcova. Disse Rabah bar Rav Huna: sai o camelo com a coberta amarrada por meio de sua correia.
A Guemará detalha a proibição da Mishná quanto à coberta do camelo: se ela está presa apenas à cauda, corre o risco de escorregar e cair, e o condutor viria a recolhê-la, transgredindo o limite de Shabat — por isso é proibida. Mas se está presa tanto à cauda quanto à corcova, dupla fixação que a mantém firme, é permitida. Rabah bar Rav Huna acrescenta que também é permitida quando presa por meio de uma correia própria (shilyata), que a segura com igual firmeza, sem risco de queda.
GUEMARÁ. "Em sua cauda e em sua corcova" — pois, estando amarrada em ambas, não cai.
"Sua corcova" — a corcova que todos os camelos têm sobre o dorso.
"Por meio de sua correia" — pois, doendo (se solta), não se separa (dele). E a mim parece que "coberta" (aqui) é uma pequena almofada cheia de estopa, que se coloca sob a cauda, para que a correia não danifique a carne, pois, quando o camelo desce (uma ladeira), a carga sobre seu dorso pesa e desliza em direção ao seu pescoço, mas a correia o retém.
"Nem amarrado, nem com a perna dobrada." Disse Rav Yehuda: "akud" é a amarração de mão e pé, como (a amarração de) Yitzchak, filho de Avraham. "Ragul" é para que não dobre sua perna sobre seu antebraço e a amarre.
Rav Yehuda define os dois termos da Mishná com uma comparação notável: "akud" — o particípio que dá nome à própria Akedá de Yitzchak — designa a amarração de uma pata dianteira junto com uma pata traseira, tal como Avraham amarrou as mãos e os pés de seu filho no altar; "ragul" designa dobrar uma das patas dianteiras do animal para cima, contra o próprio antebraço, e prendê-la nessa posição, deixando-lhe apenas três patas livres para andar — uma restrição de movimento que impede a fuga, mas que a Mishná proíbe por dar ao animal a aparência de estar sendo levado para vender, ou por outros motivos que a Guemará ainda discutirá.
"Mão e pé" — amarra juntos uma das (patas dianteiras) e uma das (patas traseiras).
"A perna sobre seu antebraço" — dobra uma de suas (patas dianteiras) para cima e a amarra, de modo que lhe restem apenas três pernas para fugir.
Levantaram uma objeção: "akud" é (a amarração de) duas mãos e duas pernas; "ragul" é para que não dobre sua perna sobre seu antebraço e a amarre! Ele (Rav Yehuda) falou segundo este tanaíta, pois se ensinou: "akud" é a amarração de mão e pé, ou de duas mãos e duas pernas; "ragul" é para que não dobre sua perna sobre seu antebraço e a amarre.
Objeta-se contra Rav Yehuda com outra baraita, que define "akud" de modo diferente: não a combinação de uma pata dianteira com uma traseira, mas duas patas dianteiras juntas ou duas traseiras juntas. A Guemará resolve identificando a fonte de Rav Yehuda com um terceiro tanaíta, cuja baraita combina as duas definições: "akud" pode ser tanto a amarração de mão e pé (como Yitzchak) quanto a de duas mãos ou duas pernas juntas — ambas recebendo o mesmo nome.
"Duas mãos" — juntas, ou duas pernas juntas.
Mas ainda assim não é semelhante: convém, é certo, a cláusula inicial e a final; mas a cláusula intermediária é difícil! Antes, ele falou segundo este outro tanaíta: "akud" é a amarração de mão e pé, como (a amarração de) Yitzchak, filho de Avraham; "ragul" é para que não dobre sua perna sobre seu antebraço e a amarre.
A harmonização anterior é ainda insuficiente: se essa baraita combinada fosse mesmo a fonte de Rav Yehuda, sua cláusula inicial (mão e pé) e final (ragul) se ajustariam bem à posição dele, mas a cláusula intermediária — que acrescenta "ou duas mãos e duas pernas" como definição alternativa e igualmente válida de "akud" — contradiz Rav Yehuda, que restringira "akud" apenas à combinação de mão e pé. A Guemará conclui, então, que Rav Yehuda na verdade segue um terceiro tanaíta distinto, cuja baraita define "akud" exclusivamente como a amarração de mão e pé — tal como a de Yitzchak —, sem a alternativa de duas mãos ou duas pernas juntas.
"Mas ainda assim não é semelhante" — este tanaíta, à opinião de Rav Yehuda.
"A cláusula inicial e a final convêm" — segundo Rav Yehuda; mas a cláusula intermediária, que ensina "ou duas mãos, ou duas pernas", é difícil para Rav Yehuda, que não chama de "akud" senão a amarração de mão e pé, como a de Yitzchak, filho de Avraham, pois está escrito (Bereshit 22): "e o amarrou" — dobrou suas mãos e seus pés para trás, e amarrou mão e pé juntos, e esticou seu pescoço para trás.
"E não se deve atar camelos." Qual é a razão? Disse Rav Ashi: porque parece com quem vai a uma procissão festiva.
A Guemará explica a razão da proibição de atar vários camelos uns aos outros para conduzi-los em fileira única: não se trata de receio de queda ou de transgressão material direta, mas de aparência — um comboio de camelos atados uns aos outros lembra visualmente uma procissão festiva (chinga), como as caravanas que se dirigem ao mercado para vender os animais, ocasião marcada por música e dança circular; tal aparência é imprópria para Shabat.
"A uma procissão festiva" — ao mercado, para vendê-los; chamada "chinga" porque rodeiam o mercado em rodas e danças circulares de pessoas.
"Mas coloca (as cordas na mão)." Disse Rav Ashi: não se ensinou isto senão quanto ao (assunto de) kilayim. Kilayim de quê? Se dirias, kilayim da pessoa — mas não aprendemos: a pessoa é permitida (conduzir) com todos (os animais) juntos, para arar e para puxar?
Rav Ashi esclarece que a restrição da Mishná contra enrolar as cordas juntas ("ubilvad shelo yichroch") não decorre de nenhuma proibição de Shabat, mas do âmbito de kilayim (mistura proibida de espécies). Levanta-se então a pergunta: kilayim de quê exatamente? Se fosse kilayim referente à própria pessoa — isto é, o receio de que, enrolando as cordas de espécies diferentes ao redor da mão, ela ficasse "atrelada" a dois animais de espécies distintas simultaneamente —, isso não faria sentido, pois já se ensinou alhures que a pessoa pode conduzir, arar e puxar com quaisquer animais juntos, sem que isso constitua kilayim (a proibição bíblica limita-se a atrelar duas espécies de animais entre si, como boi e asno, não à pessoa que os conduz).
"Ensinou-se quanto ao (assunto de) kilayim" — este "não enrole" da Mishná não se relaciona com a proibição de Shabat, mas por causa de kilayim se proibiu, como se explica adiante.
"Se dirias, kilayim da pessoa" — pois, quando as enrola ao redor de sua mão, encontra-se atado junto com os camelos, e às vezes eles puxam alguma coisa, e encontram-se a pessoa e o camelo conduzindo juntos.
Antes, kilayim das cordas. Mas não se ensinou: quem une (dois materiais) com uma única costura não é considerado uma união? Na verdade, (trata-se) de kilayim das cordas, e isto é o que se diz: contanto que não as enrole e as amarre.
A Guemará propõe, então, que o kilayim em questão é o das próprias cordas: entre elas há cordas de lã e cordas de linho, e enrolá-las juntas ao redor da mão constituiria a mistura proibida de shaatnez. Objeta-se, porém, com uma baraita sobre roupas: uma única costura ou um único nó unindo lã e linho não é considerado uma "união" (chibur) suficiente para configurar shaatnez, que exige uma ligação firme e duradoura — logo, o simples ato de segurar cordas de materiais diferentes na mão, sem mais, não deveria ser proibido. A Guemará esclarece que o kilayim das cordas permanece a explicação correta, mas a Mishná refere-se especificamente ao ato de enrolar e amarrar as cordas juntas — um vínculo mais firme, equivalente a mais de uma costura, que de fato constitui união proibida.
"Kilayim das cordas" — pois há entre elas cordas de lã e cordas de linho, e, ao enrolá-las, tornam-se kilayim, e sua mão se aquece ao segurá-las; e ele sustenta que uma coisa não intencional (mas inevitável) é proibida.
"Mas não aprendemos: a pessoa é permitida com todos" — com todos os animais, para arar e para puxar, pois a Torá não proibiu senão duas espécies de animais juntas, como boi e asno; e esta Mishná está no tratado de Kilayim.
"Quem une" (hatokef) — vestes de lã e de linho.
"Com uma única costura" — por exemplo, com uma agulha, uma única vez, ou (prendendo) com um único nó.
"Não é considerado uma união" — pois está escrito (Devarim 22): "lã e linho juntos" — a Torá não proibiu senão uma união firme e duradoura.
"Enrolar e amarrar" — com duas costuras (ou dois nós).
Disse Shmuel: contanto que a corda não saia de baixo de sua mão um palmo. Mas não ensinou a escola de Shmuel (que o limite é de) dois palmos? Disse Abaye: agora que Shmuel disse um palmo, e a escola de Shmuel ensinou dois palmos — Shmuel veio ensinar a lei aplicada na prática.
Fecha-se o daf com uma precisão de medida trazida por Shmuel: a corda segura na mão do condutor não deve pender abaixo dela mais do que um palmo (tefach), pois, se ultrapassar essa medida, passa a parecer que ele está carregando a corda solta na mão, e não simplesmente segurando o cabresto do camelo — o que poderia ser confundido com transporte proibido. Objeta-se que a academia de Shmuel transmitiu, em nome do próprio mestre, um limite mais generoso, de dois palmos. Abaye resolve a aparente contradição distinguindo dois planos: em termos estritamente legais, a medida vai até dois palmos, sem transgressão; mas Shmuel, ao ser consultado na prática por quem viesse pedir orientação, respondia com a medida mais restritiva de um palmo, por prudência, para não ser leniente em matéria de possíveis proibições — sem que isso alterasse a lei teórica, que permanece em dois palmos.
"Que a corda não saia" — a ponta da corda não deve sair de baixo de sua mão um palmo para baixo, pois (caso contrário) parece como quem a carrega na mão, e não se reconhece que é o cabresto dos camelos.
"Shmuel" — que disse um palmo, veio ensinar a lei aplicada na prática, ou seja, que a quem vier se aconselhar perante nós dizemos um palmo, para não sermos leves em matéria de proibições; mas, na verdade, até dois palmos não há proibição.