Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Zayin (Klal Gadol)
אַב מְלָאכָה

Completa-se a mishná Klal Gadol; abre-se a Guemará — por que "grande", a comparação com o ano sabático e o dízimo, a baraita da pea, e o bebê capturado entre os gentios

Shabbat 68a — completa-se a terceira cláusula da mishná interrompida em 67b (quem sabe que é Shabat, mas não sabe que os trabalhos são proibidos, é responsável por cada categoria de trabalho separadamente; quem repete a mesma categoria, só uma oferenda); abre-se então a Guemará, perguntando por que a regra se chama "grande" — comparando-a com o ano sabático (que também tem "categorias principais e derivadas") e com o dízimo (que não tem); depois, segundo Bar Kappara, comparando as penas de Shabat, ano sabático e dízimo entre si e com a pea, citando a baraita que define os critérios da obrigação de pea e de dízimo; por fim, Rav e Shmuel explicam a mishná como tratando do bebê capturado entre os gentios e do convertido, e não de quem conheceu o Shabat e depois o esqueceu — para quem a responsabilidade é maior, por cada Shabat separadamente.

A folha retoma exatamente onde 67b foi cortada, completando a terceira cláusula da mishná Klal Gadol: quem sabe que é Shabat, mas não sabe que os trabalhos realizados são proibidos, é responsável por cada categoria de trabalho e trabalho separadamente; e quem realiza muitos trabalhos de uma mesma categoria (duas derivadas de uma mesma categoria principal, por exemplo) não é responsável senão por uma única oferenda pelo pecado. Com a mishná completa, a Guemará pergunta por que ela foi chamada de "grande regra" — pergunta que se sustenta porque tanto a respeito do Shabat quanto a respeito do ano sabático se ensina, mais adiante em cada tratado, uma "outra regra", mas apenas o Shabat e o ano sabático recebem o qualificativo "grande", e não o dízimo, que também tem sua "outra regra". Rabi Yossei bar Avin propõe que Shabat e ano sabático têm categorias principais e derivadas de trabalho, o que falta ao dízimo — mas a objeção de que Bar Kappara ensina "grande regra" também a respeito do dízimo derruba essa explicação. A Guemará propõe então outra: a regra é chamada "grande" onde a pena é maior — o Shabat pune tanto o que já foi colhido quanto o que está preso à terra, o ano sabático pune apenas o que está preso à terra mas tanto o alimento humano quanto o animal, e o dízimo pune apenas o alimento humano; e, segundo Bar Kappara, o dízimo tem pena maior que a pea, pois se aplica ao figo e à verdura, o que a pea (por instituição rabínica) não tem — citando a baraita que define os cinco critérios da obrigação de pea (ser alimento, ser guardado, crescer da terra, ser colhido de uma vez, e se conservar), contrastados com os três critérios do dízimo (sem a colheita de uma vez e a conservação). Por fim, Rav e Shmuel explicam que a mishná — que isenta com uma única oferenda quem esqueceu o princípio do Shabat — trata apenas do bebê capturado entre os gentios ou do convertido, que nunca conheceram o Shabat; mas quem o conheceu e depois esqueceu é responsável por cada Shabat separadamente, questão que a Guemará resolve reinterpretando a expressão "aquele que esquece o princípio do Shabat" da mishná.

Conclusão da mishná Klal Gadol · סִיּוּם הַמִּשְׁנָה

Mishná (Shabat 7:1, continuação) · מִשְׁנָה
...אַב מְלָאכָה וּמְלָאכָה. הָעוֹשֶׂה מְלָאכוֹת הַרְבֵּה מֵעֵין מְלָאכָה אַחַת, אֵינוֹ חַיָּיב אֶלָּא חַטָּאת אַחַת.

...por cada categoria de trabalho e trabalho separadamente. Quem realiza muitos trabalhos de uma mesma categoria, não é responsável senão por uma única oferenda pelo pecado.

Nota

Completa-se aqui a mishná Klal Gadol, cortada em 67b no meio de sua terceira cláusula. Quem sabe que é Shabat, mas não sabe que os trabalhos realizados são proibidos, e os realiza muitas vezes em muitos Shabatot, é responsável por uma oferenda para cada categoria principal de trabalho separadamente — pois, quanto ao erro sobre os próprios trabalhos, a passagem dos dias não lhe ensina nada de novo, e todas as repetições de uma mesma categoria contam como um único erro contínuo. A cláusula final acrescenta que, mesmo dentro de uma única categoria, se ele realizou duas derivadas de um mesmo tronco (ou o tronco e sua derivada), isso ainda conta como um único erro, e ele não é responsável senão por uma única oferenda — pois só há divisão de oferendas, dentro de um único período de inadvertência, quando os próprios atos da transgressão pertencem a categorias diferentes, ou pela divisão entre Shabatot distintos, no que toca ao erro sobre o próprio Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "av melachá" e a regra da inadvertência única
אב מלאכה דנקט לאו למעוטי תולדות דה"ה לתולדות ובלבד שיהו תולדות דשני אבות אלא למעוטי היכא דהוו ב' תולדות דאב אחד או אב ותולדה שלו דאינו חייב אלא אחת כדקתני סיפא העושה מלאכות הרבה מעין מלאכה אחת שתי תולדות של אב אחד אינו חייב אלא חטאת אחת דהרי הוא כעושה וחוזר ועושה בהעלם אחד ואין חילוק חטאות בהעלם אחד אלא בגופי עבירה שאינן דומין או בחילוק שבתות לענין שגגת שבת:

"Categoria de trabalho" — o que a mishná menciona não é para excluir as derivadas, pois o mesmo vale para elas, contanto que sejam derivadas de duas categorias principais distintas; mas é para excluir o caso em que há duas derivadas de uma mesma categoria principal, ou uma categoria principal e sua própria derivada, pois nesse caso não é responsável senão por uma oferenda, como se ensina na cláusula final: "quem realiza muitos trabalhos de uma mesma categoria" — duas derivadas de uma mesma categoria principal — "não é responsável senão por uma única oferenda pelo pecado", pois isso é como quem realiza e volta a realizar num único período de inadvertência; e não há divisão de oferendas num único período de inadvertência, senão quando os próprios atos da transgressão são diferentes entre si, ou pela divisão entre Shabatot, quanto ao erro sobre o Shabat.

Guemará: por que "uma grande regra"? · מַאי טַעְמָא תְּנָא כְּלָל גָּדוֹל

01A pergunta: por que "grande"? A objeção do dízimo
Guemará
גְּמָ׳ מַאי טַעְמָא תְּנָא ״כְּלָל גָּדוֹל״? אִילֵּימָא מִשּׁוּם דְּקָבָעֵי לְמִיתְנֵי: ״עוֹד כְּלָל אַחֵר אָמְרוּ״, תְּנָא ״כְּלָל גָּדוֹל״. וְגַבֵּי שְׁבִיעִית נָמֵי, מִשּׁוּם דְּקָבָעֵי לְמִיתְנֵי: ״עוֹד כְּלָל אַחֵר אָמְרוּ״, תְּנָא ״כְּלָל גָּדוֹל״. וְהָא גַּבֵּי מַעֲשֵׂר, דְּקָתָנֵי: ״כְּלָל אַחֵר אָמְרוּ״, וְלָא תָּנֵי ״כְּלָל גָּדוֹל״!

Guemará. Por que razão a mishná ensinou "uma grande regra"? Se disseres: porque pretende ensinar, mais adiante, "outra regra disseram" — por isso ensinou "uma grande regra" — também a respeito do ano sabático, porque pretende ensinar, mais adiante, "outra regra disseram", deveria ter ensinado "uma grande regra"! Mas eis que, a respeito do dízimo, onde se ensina "outra regra disseram", não se ensina "uma grande regra"!

Nota

A Guemará abre perguntando por que esta mishná é chamada de "grande regra", e não apenas "regra". Uma primeira hipótese seria: porque, mais adiante no mesmo tratado (Shabat 75b), ensina-se ainda "outra regra" sobre o mesmo tema, e por isso a primeira precisa de um qualificativo que a distinga. Mas essa explicação não resiste, pois o mesmo padrão se repete a respeito do ano sabático (onde também se ensina, mais adiante em Mishná Sheviit, uma "outra regra"), e ali também se diria "grande regra" — o que de fato ocorre. A verdadeira dificuldade vem do dízimo: também ali se ensina, no tratado Maasserot, uma "regra" seguida de "outra regra", mas nunca se diz "grande regra" a respeito do dízimo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "od kelal acher" e as localizações em Sheviit e Maasserot
גמ' עוד כלל אחר - לקמן בפירקין (שבת דף עה:) ולא כלל בו אלא ב' דברים כל הכשר להצניע וכל שאינו כשר להצניע וכאן כלל יותר ומשום הכי קרי להו גדול: וגבי שביעית - בפרק (בנות שוח): גבי מעשר - בפ"ק דמסכת מעשרות:

Guemará: "Outra regra disseram" — mais adiante, neste mesmo perek (Shabat 75b), onde não se inclui senão duas coisas: "tudo o que é próprio para guardar" e "tudo o que não é próprio para guardar"; e aqui inclui-se mais, e por isso a chama de "grande". "E a respeito do ano sabático" — no capítulo Banot Shuach (Mishná Sheviit 9). "A respeito do dízimo" — no primeiro capítulo do tratado Maasserot.

02Primeira resposta: categorias principais e derivadas — refutada por Bar Kappara
Rabi Yossei bar Avin
אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בַּר אָבִין: שַׁבָּת וּשְׁבִיעִית דְּאִית בְּהוּ אָבוֹת וְתוֹלָדוֹת — תְּנָא ״גָּדוֹל״, מַעֲשֵׂר דְּלֵית בֵּהּ אָבוֹת וְתוֹלָדוֹת, לָא תְּנָא ״כְּלָל גָּדוֹל״. וּלְבַר קַפָּרָא, דְּתָנֵי ״כְּלָל גָּדוֹל״ בְּמַעֲשֵׂר, מַאי אָבוֹת וּמַאי תּוֹלָדוֹת אִיכָּא?

Disse Rabi Yossei bar Avin: Shabat e ano sabático, que têm em si categorias principais e derivadas, ensinou-se "grande"; o dízimo, que não tem categorias principais e derivadas, não se ensinou "uma grande regra". Mas, segundo Bar Kappara, que ensina "uma grande regra" a respeito do dízimo, que categorias principais e que derivadas há ali?

Nota

Rabi Yossei bar Avin propõe uma primeira solução: Shabat e ano sabático se distinguem por terem, cada um, uma estrutura de "categorias principais" de trabalho e suas "derivadas" semelhantes — as trinta e nove categorias do Shabat, aprendidas do Tabernáculo, e as quatro categorias do ano sabático (semear, ceifar, podar, vindimar); o dízimo, por não ter essa estrutura, não recebe o qualificativo "grande". Mas a Guemará objeta de imediato: há uma tradição de Bar Kappara (preservada em sua própria Tosefta) que também chama a regra do dízimo de "grande" — e, se assim é, que categorias principais e derivadas poderia haver no dízimo, que consiste apenas em separar uma porção fixa dos frutos?

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "it beih avot" e Bar Kappara
אית ביה אבות - ארבעים חסר אחת שהוצרכו למשכן ותולדות הדומות לכל אחת הויא תולדות דידיה אבות דשביעית זריעה וקצירה וזמירה ובצירה דכתיבן תולדות שאר עבודות שבשדה וכרם כדאמרינן במועד קטן בפ"ק (דף ג.): ולבר קפרא דתנא - בתוספתא דידיה במעשר מאי אבות כו':

"Tem em si categorias principais" — as trinta e nove que foram necessárias para o Tabernáculo, e as derivadas semelhantes a cada uma delas são suas derivadas; as categorias principais do ano sabático são semear, ceifar, podar e vindimar, que estão escritas explicitamente; as derivadas são as demais lavras do campo e da vinha, como dizemos em Moed Katan, no primeiro capítulo (3a). "Mas, segundo Bar Kappara, que ensina" — em sua própria Tosefta, a respeito do dízimo, "que categorias principais ", etc.

03Segunda resposta: a gravidade da pena — Shabat, ano sabático e dízimo
Guemará
אֶלָּא לָאו הַיְינוּ טַעְמָא, גָּדוֹל עוֹנְשָׁהּ שֶׁל שַׁבָּת יוֹתֵר מִשֶּׁל שְׁבִיעִית, דְּאִילּוּ שַׁבָּת אִיתַהּ בֵּין בְּתָלוּשׁ בֵּין בִּמְחוּבָּר, וְאִילּוּ שְׁבִיעִית בְּתָלוּשׁ לֵיתַהּ בִּמְחוּבָּר אִיתַהּ. וְגָדוֹל עוֹנְשָׁהּ שֶׁל שְׁבִיעִית יוֹתֵר מִן הַמַּעֲשֵׂר, דְּאִילּוּ שְׁבִיעִית אִיתַהּ בֵּין בְּמַאֲכַל אָדָם בֵּין בְּמַאֲכַל בְּהֵמָה, וְאִילּוּ מַעֲשֵׂר בְּמַאֲכַל אָדָם אִיתֵהּ בְּמַאֲכַל בְּהֵמָה לֵיתֵהּ.

Mas não é essa a razão: maior é a pena do Shabat do que a do ano sabático, pois o Shabat se aplica tanto ao que já foi colhido, quanto ao que ainda está preso à terra, enquanto o ano sabático não se aplica ao que já foi colhido, mas apenas ao que está preso à terra. E maior é a pena do ano sabático do que a do dízimo, pois o ano sabático se aplica tanto ao alimento humano quanto ao alimento animal, enquanto o dízimo se aplica ao alimento humano, mas não se aplica ao alimento animal.

Nota

Abandonada a explicação de "categorias e derivadas", a Guemará propõe outro critério: chama-se "grande" a regra cuja pena é mais abrangente do que a de outra regra semelhante. O Shabat é mais severo que o ano sabático porque suas proibições atingem tanto o produto já colhido (como moer ou amassar) quanto o que ainda está preso à terra desde a entrada do dia; o ano sabático, por sua vez, só se aplica ao que estava preso à terra desde o início do ano sabático, não ao que já havia sido colhido antes. E o ano sabático é mais severo que o dízimo porque se aplica tanto ao alimento humano quanto ao animal (por estar dito "e para teu animal e para o animal selvagem"), enquanto o dízimo bíblico se aplica apenas a grão, mosto e azeite — alimento humano — sem abranger o alimento animal.

04E, segundo Bar Kappara: o dízimo é mais severo que a pea — a baraita da pea
Guemará; Baraita
וּלְבַר קַפָּרָא דְּתָנֵי ״כְּלָל גָּדוֹל״ בַּמַּעֲשֵׂר: גָּדוֹל עוֹנְשׁוֹ שֶׁל מַעֲשֵׂר יוֹתֵר מִשֶּׁל פֵּיאָה, דְּאִילּוּ מַעֲשֵׂר אִיתֵהּ בִּתְאֵנָה וְיָרָק וְאִילּוּ פֵּיאָה לֵיתַהּ בִּתְאֵנָה וְיָרָק. דִּתְנַן, כְּלָל אָמְרוּ בַּפֵּיאָה: כׇּל שֶׁהוּא אוֹכֶל וְנִשְׁמָר וְגִידּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ וּלְקִיטָתוֹ כְּאַחַת וּמַכְנִיסוֹ לְקִיּוּם — חַיָּיב בְּפֵיאָה.

E, segundo Bar Kappara, que ensina "uma grande regra" a respeito do dízimo: maior é a pena do dízimo do que a da pea, pois o dízimo se aplica ao figo e à verdura, enquanto a pea não se aplica ao figo nem à verdura — como se ensina: disseram uma regra a respeito da pea: tudo o que é alimento, e é guardado, e seu crescimento é da terra, e sua colheita se dá de uma só vez, e se recolhe para conservação — é obrigado à pea.

Nota

Para conciliar a tradição de Bar Kappara com o critério da gravidade da pena, a Guemará explica: o dízimo é mais severo que a pea porque se aplica (por instituição rabínica) ao figo e à verdura, ao passo que a pea não se aplica a esses dois — uma baraita é citada para estabelecer os cinco critérios que tornam um produto obrigado à pea: ser alimento (excluindo o que não se come), ser guardado (excluindo o que é de ninguém), crescer da terra (excluindo cogumelos e trufas, que não crescem propriamente da terra), ser colhido de uma só vez (excluindo o figo, que amadurece aos poucos) e se destinar à conservação (excluindo a verdura, que não se conserva). Por não atender aos dois últimos critérios, nem o figo nem a verdura são obrigados à pea — mas são obrigados ao dízimo, cujos critérios, como se verá a seguir, são mais amplos.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a razão do "grande" e os critérios da baraita da pea
אלא לאו היינו טעמא - משום אבות ותולדות אלא דבר שנאמר בו כלל ועונשו גדול מדבר אחר שנאמר בו כלל תני ביה כלל גדול: שבת איתא - לאיסור דידה בין בדבר שהיה תלוש מבעוד יום כגון טוחן ולש בין בדבר שמחובר משקדש היום: ואילו שביעית - בדבר שהיה מחובר משקדש שביעית איתא אבל בדבר שהיה תלוש לפני שביעית ליתא: שביעית - נמי איתיה במאכל בהמה דכתיב ולבהמתך ולחיה וגו' (ויקרא כה:ז) מעשר ליתיה במאכל בהמה דמדאורייתא דגן תירוש ויצהר כתיב ורבנן תקון פירות האילן וירק דמאכל אדם כדקתני כל שהוא אוכל כו': איתיה בתאנה וירק - מדרבנן: כל שהוא אוכל כו' - דגבי פיאה קציר כתיב מה קציר מיוחד שיש בו כל אלו:

"Mas não é essa a razão" — por causa de categorias principais e derivadas, mas porque, quando uma coisa em que se disse "regra" tem pena maior do que outra coisa em que também se disse "regra", ensina-se nela "grande regra". "O Shabat se aplica" — à sua proibição, tanto no que já estava separado da terra antes do início do dia, como quem mói e amassa, quanto no que está preso à terra desde que o dia se santificou. "Enquanto o ano sabático" — no que estava preso à terra desde que o ano sabático se santificou, aplica-se; mas no que já estava separado antes do ano sabático, não se aplica. "O ano sabático" — também se aplica ao alimento animal, como está escrito: "e para teu animal e para o animal selvagem, etc." (Levítico 25:7); o dízimo não se aplica ao alimento animal, pois, segundo a Torá, está escrito grão, mosto e azeite, e os sábios instituíram o dízimo sobre os frutos da árvore e a verdura, que são alimento humano, como se ensina: "tudo o que é alimento", etc. "Aplica-se ao figo e à verdura" — por instituição dos sábios. "Tudo o que é alimento, etc." — pois, a respeito da pea, está escrito "ceifa"; assim como a ceifa é algo específico, a pea abrange apenas o que tem em si todas essas condições.

05Os cinco critérios da pea, um a um
Guemará
אוֹכֶל — לְמַעוֹטֵי סְפִיחֵי סְטִיס וְקוֹצָה. וְנִשְׁמָר — לְמַעוֹטֵי הֶפְקֵר. וְגִידּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ — לְמַעוֹטֵי כְּמֵיהִין וּפִטְרִיּוֹת. וּלְקִיטָתוֹ כְּאַחַת — לְמַעוֹטֵי תְּאֵנָה. וּמַכְנִיסוֹ לְקִיּוּם — לְמַעוֹטֵי יָרָק.

"Alimento" — para excluir os rebentos espontâneos do isatis e do açafrão bastardo. "E é guardado" — para excluir o que é abandonado, sem dono. "E seu crescimento é da terra" — para excluir as trufas e os cogumelos. "E sua colheita se dá de uma só vez" — para excluir o figo. "E se recolhe para conservação" — para excluir a verdura.

Nota

A Guemará detalha o que cada um dos cinco critérios da baraita vem excluir: "alimento" exclui plantas tintureiras como o isatis e o açafrão bastardo, cujos rebentos não se destinam ao consumo; "guardado" exclui o que cresce livremente, sem dono, pois a pea pressupõe um campo cultivado e cuidado; "crescimento da terra" exclui trufas e cogumelos, cujo modo de crescimento os sábios não consideram "da terra" no sentido pleno; "colheita de uma só vez" exclui o figo, que amadurece e se colhe aos poucos, ao longo do tempo; e "recolhido para conservação" exclui a verdura, que se consome fresca e não se guarda.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "sefichei setis vekotza" e "yarok"
למעוטי ספיחי סטיס וקוצה - שעומדים לצבע להכי נקט ספיחים דאין דרך ללוקטן בשנה שנזרעים אלא לסוף ד' וה' שנים שהשרשין מתפשטין בארץ ומשביחין ושורש שלהן עיקר והא דנקט הני ולא נקט שאר מינים שאינן ראוין לאכילה משום דאיידי דגבי שביעית תני להו דיש להן שביעית נקט הכא דבפיאה ומעשר ליתנהו לשון רבינו הלוי: סטיס ווישד"א: ומכניסו לקיום למעוטי ירק - כגון לפת וקפלוטות:

"Para excluir os rebentos espontâneos do isatis e do açafrão bastardo" — que se destinam a tingir; por isso menciona os rebentos, pois não é costume colhê-los no ano em que são semeados, mas apenas ao fim de quatro ou cinco anos, quando as raízes se espalham pela terra e se aperfeiçoam, sendo a raiz o que importa; e o motivo de mencionar estes, e não outras espécies não próprias para alimento, é que, por serem mencionados a respeito do ano sabático — pois têm leis de ano sabático —, menciona-os aqui, ensinando que, na pea e no dízimo, não se aplicam a eles; assim é a explicação de Rabenu HaLevi. Isatis: em francês antigo, guède. "E se recolhe para conservação, para excluir a verdura" — como o nabo e o alho-porro.

06O dízimo tem apenas três dos cinco critérios
Guemará
וְאִילּוּ גַּבֵּי מַעֲשֵׂר תְּנַן, כְּלָל אָמְרוּ בַּמַּעֲשֵׂר: כׇּל שֶׁהוּא אוֹכֶל וְנִשְׁמָר וְגִידּוּלוֹ מִן הָאָרֶץ — חַיָּיב בְּמַעֲשֵׂר. וְאִילּוּ לְקִיטָתוֹ כְּאַחַת וּמַכְנִיסוֹ לְקִיּוּם לָא תְּנַן.

Já a respeito do dízimo, ensinamos: disseram uma regra a respeito do dízimo: tudo o que é alimento, e é guardado, e seu crescimento é da terra — é obrigado ao dízimo; mas "sua colheita se dá de uma só vez" e "se recolhe para conservação" não ensinamos.

Nota

Eis a diferença que torna o dízimo mais abrangente que a pea: sua obrigação exige apenas os três primeiros critérios (ser alimento, ser guardado, crescer da terra), sem exigir que a colheita se dê de uma só vez nem que o produto se destine à conservação — por isso o figo e a verdura, isentos de pea, são obrigados ao dízimo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre por que o dízimo não distingue espécie por espécie
ואילו מכניסו לקיום ולקיטתו כאחד לא תנן - דכי תקון רבנן אדידהו לא פלוג בפירות האילן ובירק בין מין למין:

"Mas 'se recolhe para conservação' e 'sua colheita se dá de uma só vez' não ensinamos" — pois, quando os sábios os instituíram, não distinguiram, entre os frutos da árvore e a verdura, espécie por espécie.

O bebê capturado entre os gentios, e quem conheceu o Shabat e o esqueceu · תִּינוֹק שֶׁנִּשְׁבָּה

07Rav e Shmuel: a mishná trata só de quem nunca conheceu o Shabat
Rav e Shmuel
רַב וּשְׁמוּאֵל דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: מַתְנִיתִין בְּתִינוֹק שֶׁנִּשְׁבָּה לְבֵין הַגּוֹיִם, וְגֵר שֶׁנִּתְגַּיֵּיר לְבֵין הַגּוֹיִם. אֲבָל הִכִּיר וּלְבַסּוֹף שָׁכַח — חַיָּיב עַל כׇּל שַׁבָּת וְשַׁבָּת. תְּנַן: ״הַשּׁוֹכֵחַ עִיקַּר שַׁבָּת״, לָאו מִכְּלָל דְּהַוְיָא לֵיהּ יְדִיעָה מֵעִיקָּרָא?! לָא, מַאי ״כׇּל הַשּׁוֹכֵחַ עִיקַּר שַׁבָּת״ — שֶׁהָיְתָה שְׁכוּחָה מִמֶּנּוּ עִיקָּרָהּ שֶׁל שַׁבָּת.

Rav e Shmuel, ambos disseram: a mishná trata do bebê capturado entre os gentios, e do convertido que se converteu vivendo entre os gentios. Mas quem conheceu o Shabat e depois esqueceu — é responsável por cada Shabat e Shabat separadamente. Objeta-se: ensinamos: "aquele que esquece o princípio do Shabat" — não se deduz daí que ele teve conhecimento desde o princípio?! Não; o que significa "todo aquele que esquece o princípio do Shabat"? Que o princípio do Shabat lhe era desconhecido por completo.

Nota

Voltando à primeira cláusula da mishná — quem esquece o princípio do Shabat e realiza muitos trabalhos em muitos Shabatot, sendo responsável por apenas uma oferenda —, Rav e Shmuel restringem seu alcance: ela só se aplica a quem jamais conheceu o Shabat, como um bebê capturado e criado entre gentios, ou um convertido que viveu entre gentios antes de se converter — pessoas que nunca tiveram, em momento algum, conhecimento da instituição do Shabat. Mas quem conheceu o Shabat e depois o esqueceu é mais severamente responsabilizado: uma oferenda para cada Shabat separado, pois presume-se que, no intervalo, de alguma forma voltou a saber que aquele dia era Shabat. A princípio, isso pareceria contradizer a própria linguagem da mishná, que fala em "esquecer" o princípio do Shabat — o que sugeriria conhecimento prévio; a resposta é que "esquecer o princípio do Shabat", aqui, significa que a própria noção da instituição do Shabat lhe era, desde sempre, totalmente desconhecida.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "tinok shenishba" e "hikir ulevasof shachach"
מתניתין - דפטר בחד חטאת: בתינוק שנשבה - ולא ידע שבת מעולם: אבל הכיר ולבסוף שכח - הוה ליה כשוכח שהיום שבת ויודע עיקר שבת וחייב על כל שבת ושבת: שהיתה שכוחה ממנו - מעולם:

"A mishná" — que isenta com uma única oferenda pelo pecado. "Trata do bebê que foi capturado" — e nunca conheceu o Shabat. "Mas quem conheceu e depois esqueceu" — este é como quem esquece que hoje é Shabat, mas conhece o princípio do Shabat, e é responsável por cada Shabat e Shabat. "O princípio do Shabat lhe era desconhecido" — desde sempre.

08Última objeção: por que a mishná não disse isso diretamente?
Guemará
אֲבָל הִכִּיר וּלְבַסּוֹף שָׁכַח מַאי — חַיָּיב עַל כׇּל שַׁבָּת וְשַׁבָּת? אַדְּתָנֵי הַיּוֹדֵעַ עִיקַּר שַׁבָּת וְעָשָׂה מְלָאכוֹת הַרְבֵּה בְּשַׁבָּתוֹת הַרְבֵּה חַיָּיב עַל כׇּל שַׁבָּת וְשַׁבָּת, לִיתְנֵי ״הִכִּיר וּלְבַסּוֹף שָׁכַח״, וְכׇל שֶׁכֵּן הָא! מַאי ״הַיּוֹדֵעַ עִיקַּר שַׁבָּת״ — מִי שֶׁהָיָה יוֹדֵעַ עִיקָּרָהּ שֶׁל שַׁבָּת וּשְׁכֵחָהּ.

Mas, quanto a quem conheceu e depois esqueceu, o que se diz — que é responsável por cada Shabat e Shabat separadamente? Em vez de ensinar "aquele que conhece o princípio do Shabat, e realiza muitos trabalhos em muitos Shabatot, é responsável por cada Shabat e Shabat", deveria ter ensinado diretamente: "quem conheceu e depois esqueceu" — e, com muito mais razão, isto se aplicaria! O que significa "aquele que conhece o princípio do Shabat"? Aquele que sabia o princípio do Shabat e o esqueceu.

Nota

Uma última dificuldade: se a regra "responsável por cada Shabat separadamente" se aplica precisamente a quem conheceu o Shabat e depois esqueceu, por que a mishná não formulou isso explicitamente, em vez de usar a expressão mais ampla "aquele que conhece o princípio do Shabat"? Pois, se já se ensina a regra mais severa para o caso mais brando de esquecimento intermitente, com muito mais razão ela valeria para quem esqueceu de vez o princípio do Shabat depois de tê-lo conhecido. A Guemará resolve reinterpretando a própria expressão da mishná: "aquele que conhece o princípio do Shabat" não descreve alguém que atualmente o conhece, mas sim aquele que chegou a saber o princípio do Shabat e depois o esqueceu — é exatamente o caso de "conheceu e depois esqueceu", apenas formulado de outro modo. Com esta resposta, fecha-se a segunda cláusula da mishná; a discussão prossegue, já em Shabat 68b, com a pergunta sobre quem conheceu o Shabat e não o esqueceu.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "liteni hikir ulevasof shachach"
לתני הכיר ולבסוף שכח - דחייב ואע"ג דליכא למימר ימים שבינתים הוויין ידיעה לחלק וכ"ש הא דאיכא למימר שימים שבינתים הוויין ליה ידיעה לחלק:

"Deveria ter ensinado 'quem conheceu e depois esqueceu'" — que é responsável, e isso mesmo quando não se pode dizer que os dias intermediários lhe servem de conhecimento para dividir a responsabilidade; e tanto mais se aplicaria a este caso da mishná, em que se pode dizer que os dias intermediários lhe servem de conhecimento para dividir a responsabilidade.

Este último segmento fecha-se com uma resposta completa (reinterpretando "aquele que conhece o princípio do Shabat"), sem deixar nenhuma cláusula pendente. A Guemará prossegue, já em Shabat 68b, com uma pergunta nova e distinta: "mas, se não o esqueceu, o que se diz?" — sobre quem conheceu o Shabat e jamais o esqueceu.