A folha abre completando diretamente a frase interrompida ao final de 72a, na palavra "ensinou-se". O caso ensinado: quem pretendia levantar o que já estava destacado do solo (por exemplo, uma faca caída sobre um canteiro) e, por engano, cortou o que ainda estava preso à terra, é isento — porque, tratando-se de um mitasek (quem se ocupa de uma ação e realiza outra), não houve intenção alguma de cortar algo proibido: ele apenas pretendia levantar, não cortar. Mas há um segundo caso, mais sutil: quem pretendia cortar o que já estava destacado (um legume já colhido, por exemplo) e, por engano, cortou o que estava preso à terra. Aqui Rava e Abaye discordam: Rava isenta, porque a pessoa não pretendia especificamente um corte proibido — apenas pretendia cortar algo permitido, e por engano cortou algo proibido; Abaye responsabiliza, porque a pessoa pretendia, ao menos, um corte qualquer, e essa intenção genérica de cortar já basta para configurar a transgressão, mesmo que o objeto cortado não fosse o pretendido. Rava busca apoio para sua posição numa baraita que enuncia o duplo rigor entre o Shabat e os demais preceitos: o Shabat é mais rigoroso porque, fazendo-se duas ações proibidas dentro de um só esquecimento, há responsabilidade por cada uma separadamente — o que não ocorre nos demais preceitos, onde normalmente bastaria uma só oferenda; e os demais preceitos são mais rigorosos porque, mesmo quem erra sem ter qualquer intenção de transgredir, é ainda assim responsável — o que não ocorre no Shabat, onde o mitasek é isento, como acabou de se ensinar. A Guemará então investiga qual seria o caso exato de "duas ações em um só esquecimento" no Shabat, testando a hipótese de colheita e moagem, e comparando-a com o equivalente nos demais preceitos — comer sebo e sangue — mas encontra uma dificuldade: em ambos os casos haveria responsabilidade por duas, não configurando o contraste pretendido pela baraita. Testa-se então o caso inverso — comer sebo e sebo, dentro de um só esquecimento, nos demais preceitos, onde há responsabilidade por uma só — e seu equivalente no Shabat seria colheita e colheita, onde também há responsabilidade por uma só: também aqui a baraita não se sustentaria como enunciando um contraste real. A resolução final mantém o caso original — colheita e moagem no Shabat — mas identifica o "o que não ocorre nos demais preceitos" com a idolatria, segundo o ensinamento de Rabi Ami: quem sacrifica, queima incenso e derrama libação à idolatria em um só esquecimento não é responsável senão por uma oferenda, pois não há divisão de oferendas de pecado quanto à idolatria. A Guemará testa então a outra cláusula da baraita — o erro sem intenção alguma, que nos demais preceitos gera responsabilidade, mas não no Shabat — perguntando como esse erro se configuraria quanto à própria idolatria: não bastaria confundir um templo pagão com uma sinagoga e ali se prostrar, pois nesse caso o coração da pessoa estava voltado aos Céus, e não há responsabilidade alguma; nem bastaria curvar-se perante uma estátua honorífica sem aceitá-la como divindade, pois isso não é nada, e aceitá-la como divindade já seria transgressão deliberada. A solução: trata-se de quem se curva por amor ou temor de um homem, sem qualquer intenção de servir a idolatria — o que se ajusta bem à posição de Abaye, mas exige, para Rava, uma reformulação: o caso é de quem diz "é permitido", como um convertido que pensava, por desconhecimento, que a Torá não proibia a idolatria. A folha se fecha, então, com uma observação da Guemará sobre os limites exatos da pergunta original de Rava a Rav Nachman: até aqui, ele só havia perguntado se o mitasek seria responsável por uma ação ou por duas — nunca se seria totalmente isento. Essa terceira possibilidade, a da isenção completa, é precisamente o que a disputa entre Rava e Abaye, registrada no início desta folha, veio a estabelecer — e o desdobramento completo dessa observação só aparece no início de 73a.
...Pretendia levantar o que já estava destacado do solo, e cortou o que estava preso à terra — é isento. Mas quem pretendia cortar o que já estava destacado, e cortou o que estava preso à terra: Rava disse: é isento. Abaye disse: é responsável. Rava disse isento — pois não pretendia um corte proibido. Abaye disse responsável — pois pretendia um corte qualquer.
Completa-se aqui a frase interrompida ao final de 72a. O primeiro caso é simples e consensual: quem pretendia apenas levantar algo já destacado do solo (uma faca caída sobre um canteiro de legumes, segundo Rashi) e, por engano, cortou o que ainda estava preso à terra, é isento — pois sua intenção era levantar, não cortar; trata-se de um mitasek puro, alguém que se ocupa de uma ação e, sem querer, realiza outra completamente diferente. O segundo caso é mais sutil, e por isso gera disputa: quem pretendia cortar algo já destacado (um legume já colhido, por exemplo) e, por engano, cortou o que estava preso à terra. Aqui a pessoa tinha, sim, a intenção de cortar — mas não o objeto certo. Rava isenta, porque considera que a intenção deve mirar especificamente o corte proibido (cortar o que está preso à terra); como isso não ocorreu, não há responsabilidade. Abaye responsabiliza, porque considera que basta a intenção genérica de cortar — a identidade do objeto cortado é irrelevante para a configuração da melachá.
"'Pretendia levantar o que já estava destacado'" — como quando caiu uma faca sobre o canteiro de legumes, e ele pretendia levantá-la. "'E cortou o que estava preso à terra — é isento'" — pois está escrito "que pecou nela" (Levítico 4:23), e expusemos em Keritot: excluindo aquele que se ocupa de uma coisa e realiza outra. E o erro, como se configura? Como quem pretendia fazer exatamente aquilo, mas errou pensando que hoje não era Shabat, ou pensando que este trabalho era permitido; mas este estava ocupado em levantar, e não em cortar. "'Pois não pretendia um corte proibido'" — por erro quanto ao Shabat, ou erro quanto aos trabalhos proibidos; mas estava ocupado num corte permitido, pois sabia que era Shabat, e sabia que cortar o que está preso à terra é proibido.
Disse Rava: de onde o digo? Pois se ensina: há rigor do Shabat sobre os demais preceitos, e há rigor dos demais preceitos sobre o Shabat. Rigor do Shabat sobre os demais preceitos: que, quanto ao Shabat, quem fez duas ações proibidas em um só esquecimento é responsável por cada uma delas, o que não ocorre quanto aos demais preceitos. E rigor dos demais preceitos sobre o Shabat: que, quanto aos demais preceitos, quem errou sem ter intenção alguma de transgredir é responsável, o que não ocorre quanto ao Shabat.
Rava traz apoio para sua posição — de que o mitasek do segundo caso é isento — de uma baraita bem conhecida sobre o duplo rigor entre o Shabat e os demais preceitos. Por um lado, o Shabat é mais rigoroso: quem realiza duas ações proibidas distintas dentro de um só esquecimento (sem tomar conhecimento entre elas) é responsável por cada uma separadamente, o que não ocorre, em geral, nos demais preceitos, onde uma só oferenda costuma bastar. Por outro lado, os demais preceitos são mais rigorosos: mesmo quem erra sem ter qualquer intenção de transgredir — um caso ainda mais fraco do que o erro comum — é responsável, o que não ocorre no Shabat, onde, como acabou de se estabelecer, o mitasek (que nem sequer pretendia o ato específico) é isento. Esta segunda cláusula é exatamente a prova que Rava buscava.
"'O que não ocorre quanto aos demais preceitos'" — tudo isto a Guemará passa a explicar adiante. "'Errou sem ter intenção'" — mais adiante se explica.
Disse o Mestre: há rigor do Shabat sobre os demais preceitos, que quanto ao Shabat quem fez duas em um só esquecimento é responsável por cada uma, o que não ocorre quanto aos demais preceitos. Como se configura isto? Se dissermos que fez colheita e moagem — o equivalente, quanto aos demais preceitos, seria comer sebo e sangue: aqui é responsável por duas, e ali também é responsável por duas! Mas então, quanto aos demais preceitos, o caso em que não é responsável senão por uma, como se configura? Que comeu sebo e sebo. O equivalente, quanto ao Shabat, seria fazer colheita e colheita: aqui é responsável por uma só, e ali também é responsável por uma só!
A Guemará testa a primeira cláusula da baraita, buscando um caso concreto que ilustre o contraste pretendido. Se o exemplo do Shabat for colheita e moagem (duas melachot distintas realizadas dentro de um só esquecimento), o equivalente nos demais preceitos seria comer sebo e sangue (duas proibições distintas comidas em um só esquecimento) — mas, nesse caso, há responsabilidade por duas tanto no Shabat quanto nos demais preceitos, sem contraste algum. Tentando o caminho inverso — buscando primeiro o caso, nos demais preceitos, em que há responsabilidade por uma só (comer sebo e sebo, a mesma proibição repetida, dentro de um só esquecimento) — o equivalente no Shabat seria fazer colheita e colheita (a mesma melachá repetida): mas também aqui há responsabilidade por uma só em ambos os lados, e novamente nenhum contraste se estabelece. A dificuldade permanece em aberto até a resolução seguinte.
"'Sebo e sangue'" — semelhante a moagem e colheita, que são dois corpos de proibição distintos. "'Mas, quanto aos demais preceitos, como se configura'" — o caso em que a pessoa é isenta do segundo. "'Como comer sebo e sebo'" — em um só esquecimento.
Na verdade, trata-se de quem fez colheita e moagem; e o que significa "o que não ocorre quanto aos demais preceitos"? Refere-se à idolatria, e como ensinou Rabi Ami. Pois disse Rabi Ami: quem sacrificou, e queimou incenso, e derramou libação à idolatria em um só esquecimento, não é responsável senão por uma oferenda.
A Guemará resolve a dificuldade mantendo o exemplo original do Shabat — colheita e moagem — mas reinterpretando o que a baraita quis dizer com "o que não ocorre quanto aos demais preceitos": não se trata de comer sebo e sangue, mas de idolatria, conforme o ensinamento independente de Rabi Ami: quem realiza três atos distintos de culto idólatra (sacrificar, queimar incenso e derramar libação) dentro de um só esquecimento não é responsável senão por uma só oferenda de pecado — pois, quanto à idolatria, a Torá não divide a responsabilidade entre atos distintos como faz com outras proibições. Assim, o contraste da baraita fica restaurado: no Shabat, colheita e moagem geram responsabilidade dupla; na idolatria, sacrificar, queimar incenso e libar geram responsabilidade única — exatamente o rigor maior do Shabat que a baraita pretendia ilustrar.
"'E como ensinou Rabi Ami'" — em Massechet Sanhedrin, no capítulo "Quatro Mortes" de execução, ele deduz seu ensinamento de um versículo: que não há divisão de oferendas de pecado quanto à idolatria.
Em que caso a estabeleceste — quanto à idolatria? Diz então a última cláusula: há rigor dos demais preceitos sobre o Shabat, que quanto aos demais preceitos quem errou sem ter intenção é responsável, o que não ocorre quanto ao Shabat — este "errou sem ter intenção" quanto à idolatria, como se configura? Se dissermos que pensava que era uma sinagoga e se prostrou perante o ídolo — eis que seu coração estava voltado para os Céus! Mas então, que viu uma estátua e se curvou perante ela, como se configura? Se a aceitou sobre si como divindade — é transgressor deliberado. E se não a aceitou sobre si como divindade — não é nada.
Tendo fixado a idolatria como o caso da primeira cláusula, a Guemará testa se ela também se ajusta à segunda cláusula da mesma baraita — o erro sem intenção alguma, que nos demais preceitos gera responsabilidade, mas não no Shabat. Um primeiro candidato: alguém que confunde um templo pagão com uma sinagoga, e ali se prostra pensando estar orando aos Céus — mas este caso não serve, pois, tendo o coração voltado aos Céus, não há responsabilidade alguma, nem sequer parcial. Um segundo candidato: alguém que vê uma estátua honorífica (erguida em homenagem a um rei, não como ídolo) e se curva perante ela — mas este caso também não serve, pois se divide em apenas duas possibilidades extremas: se a pessoa aceitou a estátua como divindade, é uma transgressão deliberada, plena; se não a aceitou como divindade, o gesto não é nada, sem responsabilidade alguma. Nenhum dos dois candidatos produz o "erro sem intenção" intermediário que a baraita exige.
"'E se prostrou perante ela'" — e isto é o erro de que era idolatria, sem ter intenção, pois não pretendia prostrar-se perante a idolatria. "'Eis que seu coração estava voltado para os Céus'" — e que responsabilidade há aqui? Mesmo que soubesse que era uma casa de idolatria, e nela se prostrasse com o coração voltado para os Céus, não há responsabilidade aqui. "'Estátua'" — a figura do rei que se faz em honra ao rei, e se prostrou perante ela, mas não em nome de divindade.
Mas trata-se de quem se curvou por amor ou por temor de um homem. Isto está bem para Abaye, que diz responsável. Mas para Rava, que diz isento, o que há para dizer? Mas trata-se de quem diz "é permitido". O que não ocorre quanto ao Shabat, onde é isento — completamente?!
A Guemará propõe, então, um terceiro candidato: alguém que se curva diante da idolatria não por devoção alguma, mas por amor ou por temor de algum homem poderoso — pensando, erradamente, que, como seu coração não estava voltado para a divindade, o ato seria permitido. Este caso funciona bem para Abaye, que responsabiliza mesmo quem tinha apenas uma intenção genérica (aqui, curvar-se fisicamente), sem intenção específica de idolatria — pois o corpo já realizou o gesto proibido. Mas, para Rava — que no primeiro caso desta folha isentou justamente quem não tinha intenção específica do ato proibido —, este exemplo não deveria gerar responsabilidade alguma, contradizendo sua própria posição. A Guemará ajusta então o caso para Rava: trata-se de quem diz "é permitido" — como um convertido que, por desconhecimento sincero, pensava que a Torá não proibia a idolatria, e por isso a praticou sem qualquer consciência de transgressão. Este é um erro mais completo, que gera responsabilidade mesmo para Rava, mantendo o contraste com o Shabat, onde o mitasek equivalente — sem qualquer intenção do ato proibido — é isento por completo, como a Guemará reafirma em tom de espanto ao final.
"'Por amor ou por temor'" — por amor de algum homem, ou por temor de algum homem, prostrou-se perante a idolatria; e chama-se a isto "errou sem ter intenção", isto é, errou nisto pensando que, já que seu coração não tinha a intenção de servir a divindade, era permitido. "'Mas trata-se de quem diz "é permitido""" — como um convertido que se converteu entre os gentios, e pensava que não havia proibição de idolatria na Torá; e chama-se a isto "errou sem ter intenção". "'É isento — completamente'" — em tom de espanto.
Até aqui, Rava perguntou a Rav Nachman apenas se era para responsabilizá-lo por uma, ou para responsabilizá-lo por duas; mas para isentá-lo completamente — não perguntou.
A folha se fecha com uma observação da Guemará que delimita, com precisão, o alcance de uma pergunta anterior de Rava a Rav Nachman — referente ao esquecimento de "isto e aquilo estão em minha mão" (discutido acima, em 70b), que Rashi liga ao caso de quem diz "é permitido" tratado no beat anterior. Até este ponto da sugia, esclarece a Guemará, a pergunta de Rava se limitava a saber se a pessoa seria responsável por uma ação ou por duas — nunca chegou a perguntar se ela poderia ser totalmente isenta. Esta terceira possibilidade — a isenção completa — é exatamente o que ficou estabelecido pela disputa entre Rava e Abaye registrada no início desta mesma folha, sobre o mitasek que pretendia cortar o já destacado e cortou o preso à terra. A frase está gramaticalmente completa e fecha o pensamento; seu desdobramento pleno — de que o caso de "isto e aquilo em minha mão" se equipara ao próprio mitasek, e como isso se resolve entre Rava e Abaye — é retomado apenas no início de Shabat 73a, confirmado de forma independente via Sefaria.
"'Até aqui Rava não perguntou a Rav Nachman'" — sobre o esquecimento de "isto e aquilo estão em minha mão", qual é sua lei, acima neste capítulo (Shabat 70b) — isto é, quem diz "é permitido", que afirma que não há Shabat na Torá: isto é o mesmo que o esquecimento de "isto e aquilo".
Este último segmento está gramaticalmente fechado — termina com a palavra "לָא" ("não"), completando a frase "mas para isentá-lo completamente, Rava não perguntou". O início de Shabat 73a abre com uma nova frase completa ("אֶלָּא לָאו, רֵישָׁא בַּעֲבוֹדָה זָרָה..." — "mas não é assim: a primeira cláusula trata da idolatria..."), que retoma e aprofunda o mesmo tema desta folha, mas sem cortar nenhuma palavra no meio.