Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet (Amar Rabi Akiva)
וְהָא טְבוּלֵי יוֹם נִינְהוּ

Mas não eram eles tevulei yom? A entrega da Torá ao povo que imergira na noite de Shabat; a dúvida de Rav Pappa sobre o sêmen de um israelita em entranhas de gentia ou de animal; e a nova baraita sobre em que dia do mês foram dados os Dez Mandamentos

Shabbat 86b — prossegue o tema da entrega da Torá, aberto em 86a com a discussão sobre em que dia da semana Israel se absteve de relações conjugais, agora perguntando se o povo, tendo imergido na noite de Shabat sem ainda ter passado o pôr do sol completo, não estaria em status de tevul yom ao receber a Torá, e por que não imergiram e a receberam ao crepúsculo ou pela manhã de Shabat; traz o ensinamento de Rabi Chiya em nome de Rabi Yochanan, de que a exigência de cinco períodos é apenas segundo Rabi Yishmael e Rabi Akiva, mas os sábios exigem seis períodos completos, e a distinção de Rav Chisda, contestada por Rav Sheshet, entre a emissão separada do corpo da mulher e a separada do corpo do homem; a dúvida não resolvida (teiku) de Rav Pappa sobre o sêmen de um israelita depositado nas entranhas de uma gentia ou de um animal; e abre uma nova baraita sobre em que dia do mês de Sivan foram dados os Dez Mandamentos, com a prova de Rava de que todos concordam sobre a chegada ao deserto do Sinai em Rosh Chodesh e sobre a entrega da Torá em Shabat — terminando em aberto, no meio da explicação sobre a disputa a respeito da fixação do mês, que só se completa em 87a.

86a fechara com a discussão sobre relações conjugais durante o dia e as leniências do quarto escuro e do talit — um fechamento gramatical completo, mas que deixara em aberto, tematicamente, toda a sugya da entrega da Torá e da abstinência que a precedeu. 86b retoma esse mesmo tema com uma nova pergunta, ainda dentro da mesma discussão: se o povo de Israel imergiu na noite de Shabat, antes de completar o pôr do sol, não estariam eles em status de tevulei yom (que já se banharam, mas ainda aguardam o anoitecer para a purificação plena) no momento de receber a Torá? A Guemará traz o ensinamento de que a Torá foi dada — ou, segundo a correção de Ravina, era apta a ser dada — a um tevul yom, e prossegue perguntando por que não imergiram e receberam a Torá ao crepúsculo, ou pela manhã de Shabat, com as respostas de Rabi Yitzchak. Em seguida, Rabi Chiya, em nome de Rabi Yochanan, qualifica a baraita anterior: a exigência de apenas cinco períodos de impureza é somente segundo Rabi Yishmael e Rabi Akiva, mas os sábios exigem seis períodos completos; e Rav Chisda distingue entre a emissão que se separa do corpo da mulher (sujeita à contagem de dias) e a que se separa do corpo do homem (impura enquanto úmida), distinção que Rav Sheshet tenta contestar com um verso e que a Guemará defende. Rav Pappa então levanta uma dúvida não resolvida: o sêmen de um homem israelita, depositado nas entranhas de uma mulher gentia, apodrece no mesmo prazo que o de uma israelita, ou o calor do corpo de quem se preocupa em cumprir os mandamentos é que causa a putrefação — e, se for o calor em geral, o mesmo se aplicaria às entranhas de um animal? A questão fica sem solução (teiku). A folha então abre uma nova baraita, sobre em que dia do mês de Sivan foram dados os Dez Mandamentos — no sexto, segundo a maioria, ou no sétimo, segundo Rabi Yosi —, com a demonstração de Rava de que ambas as opiniões concordam que o povo chegou ao deserto do Sinai no primeiro dia do mês e que a Torá foi dada num Shabat, divergindo apenas sobre em que dia da semana se fixou o novo mês. A explicação dessa fixação, e da sequência de ordens que Moshe deu ao povo dia após dia, fica interrompida no meio da frase — "no segundo dia da semana disse-lhes: 'e vós sereis para mim um reino de sacerdotes'" — e só se completa no início de 87a.

Nota — continuidade temática entre 86a e 86b

86a terminara com uma frase gramaticalmente completa, sobre as leniências do quarto escuro e do talit para relações conjugais de dia. 86b não continua essa frase, mas retoma o mesmo argumento maior — a discussão sobre a abstinência de Israel antes da entrega da Torá — com uma nova pergunta lançada pela Guemará: "וְהָא טְבוּלֵי יוֹם נִינְהוּ?" ("mas não são eles tevulei yom?"). Trata-se de continuidade temática, não de um corte no meio de uma frase: a Guemará havia estabelecido, ao longo de 86a, que o povo imergiu na noite de Shabat antes de receber a Torá; agora ela examina uma consequência dessa mesma conclusão — se, não tendo ainda passado o pôr do sol completo desde a imersão, o povo não estaria, tecnicamente, em status de tevul yom no momento da revelação.

Mas não eram eles tevulei yom? A Torá dada a quem ainda aguardava o pôr do sol · נִיתְּנָה תּוֹרָה לִטְבוּל יוֹם

59A pergunta: mas não eram tevulei yom? Abaye bar Ravin e Rav Chanina bar Avin: a Torá foi dada a um tevul yom; a correção de Ravina a Marimar — "apta a ser dada", não "foi dada"
A Guemará; Abaye bar Ravin e Rav Chanina bar Avin; Marimar; Ravina
וְהָא טְבוּלֵי יוֹם נִינְהוּ? אַבָּיֵי בַּר רָבִין וְרַב חֲנִינָא בַּר אָבִין דְאָמְרִי תַּרְוַויְיהוּ: נִיתְּנָה תּוֹרָה לִטְבוּל יוֹם. יָתֵיב מָרִימָר וְקָאָמַר לַהּ לְהָא שְׁמַעְתָּא. אֲמַר לֵיהּ רָבִינָא לְמָרִימָר: נִיתְּנָה קָאָמְרַתְּ, אוֹ רְאוּיָה קָאָמְרַתְּ? אֲמַר לֵיהּ: רְאוּיָה קָאָמֵינָא.

Pergunta a Guemará: mas não são eles tevulei yom — pois imergiram na noite de Shabat, e ainda não haviam completado o pôr do sol quando receberam a Torá naquela manhã? Abaye bar Ravin e Rav Chanina bar Avin, que ambos disseram: a Torá foi dada a um tevul yom. Sentou-se Marimar e disse esse ensinamento diante dos sábios. Disse-lhe Ravina a Marimar: "foi dada" disseste, ou "era apta a ser dada" disseste? Disse-lhe: "era apta" eu disse.

Nota

A Guemará havia estabelecido que o povo de Israel imergiu na noite de Shabat, antes de receber a Torá na manhã seguinte. Mas, sem ter passado o pôr do sol completo depois da imersão, tecnicamente permaneciam em status de tevul yom — alguém que já se banhou mas cuja purificação só se completa ao anoitecer. Abaye bar Ravin e Rav Chanina bar Avin ensinam que a Torá foi dada a esse povo, mesmo em status de tevul yom. Quando Marimar repete esse ensinamento, Ravina lhe pergunta se a formulação exata era que a Torá "foi" dada a um tevul yom — implicando que de fato havia tevulei yom presentes na entrega — ou apenas que a Torá "seria apta" a ser dada a alguém nessa condição, uma afirmação teórica sobre a lei, sem implicar que tenha efetivamente ocorrido assim. Marimar esclarece que sua formulação era a segunda, mais cautelosa.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "veha tvulei yom ninhu" e "reuya kaamina"
והא טבולי יום נינהו - כיון דלכולהו שמעינן דבלילי שבת טבלו הוו להו טבולי יום כשקבלו תורה שלא היה להם הערב שמש אחר הטבילה וכיון דהכי הוא איכא למימר דמבע"י טבלו שם ואפ"ה פליטתן טהורה ובצרי להו חדא עונה אליבא דכולהו: ראויה קאמינא - ראויה לינתן לטבולי יום וקסברי הני תנאי לא הקפידה תורה על טבולי יום דלא כתיב הערב שמש אלא לענין קדשים הלכך כל ג' ימים האמורים לענין פרישה הוזקקו להיות קודם טבילה ומיהו לא ניתנה לטבולי יום לפי שטבלו מבעו"י ולא פלטו ואם היו פולטות יחזרו ויטבלו משתחשך אבל לא הוצרכו לכך:

"'Mas não são eles tevulei yom'" — pois de todos os sábios mencionados na baraita anterior ouvimos que na noite de Shabat imergiram, e por isso eram tevulei yom quando receberam a Torá, pois não tiveram o pôr do sol completo depois da imersão; e, sendo assim, pode-se dizer que já ali, antes do anoitecer, tinham imergido, e ainda assim a emissão deles , se ocorresse depois, é pura, e falta a eles um período a menos, na contagem, segundo todas as opiniões. "'Apta eu disse'" — apta a ser dada a um tevul yom, e esses tanaítas entendem que a Torá não se preocupou com o status de tevul yom, pois não está escrito "o pôr do sol" senão quanto ao consumo de coisas sagradas; portanto, todos os três dias mencionados quanto à abstinência precisavam ser antes da imersão; mas de fato não foi dada a um tevul yom, pois o povo imergiu ainda antes do anoitecer e não emitiu sêmen depois; e se emitissem, voltariam a imergir depois de escurecer, mas não precisaram disso.

60Por que não imergiram e receberam a Torá ao crepúsculo? Rabi Yitzchak: "não em segredo falei". Por que não pela manhã de Shabat? Para que uns não fossem receber a Torá enquanto outros ainda iam imergir
A Guemará; Rabi Yitzchak
וְלִיטְבְּלוּ בֵּינֵי שִׁימְשֵׁי, וְלִיקַבְּלוּ תּוֹרָה בֵּינֵי שִׁימְשֵׁי? אָמַר רַבִּי יִצְחָק: ״לֹא מֵרֹאשׁ בַּסֵּתֶר דִּבַּרְתִּי״. וְלִיטְבְּלוּ בְּצַפְרָא דְשַׁבְּתָא, וְלִיקַבְּלוּ תּוֹרָה בְּצַפְרָא דְשַׁבְּתָא? אָמַר רַבִּי יִצְחָק: שֶׁלֹּא יְהֵא הַלָּלוּ הוֹלְכִין לְקַבֵּל תּוֹרָה וְהַלָּלוּ הוֹלְכִין לִטְבִילָה.

Pergunta ainda a Guemará: e que o povo imergisse ao crepúsculo da noite de Shabat, e recebesse a Torá ao crepúsculo , evitando de vez o status de tevul yom? Disse Rabi Yitzchak: "não desde o princípio em segredo falei" (Isaías 45:19) — a revelação da Torá deveria ocorrer à luz clara do dia, não no crepúsculo, que se assemelha ao sigilo da noite. E que imergissem na manhã de Shabat, e recebessem a Torá na manhã de Shabat , evitando também assim o status de tevul yom? Disse Rabi Yitzchak: para que não fosse que uns estivessem indo receber a Torá enquanto outros ainda estivessem indo à imersão.

Nota

A Guemará propõe duas soluções alternativas para evitar que o povo recebesse a Torá em status de tevul yom, e Rabi Yitzchak rejeita ambas. A primeira: se tivessem imergido e recebido a Torá ambos ao crepúsculo da sexta-feira para o Shabat, não haveria intervalo algum em que permanecessem tevulei yom — mas Rabi Yitzchak explica, com o verso de Isaías, que a revelação da Torá precisava ocorrer abertamente, à luz do dia, e o crepúsculo, por se assemelhar às trevas, não seria apropriado. A segunda: se tivessem esperado e imergido apenas na manhã de Shabat, momento em que também receberiam a Torá, evitariam igualmente o intervalo problemático — mas Rabi Yitzchak explica que isso criaria uma cena incongruente, com parte do povo já a caminho de receber a revelação enquanto outra parte ainda se dirigia à imersão ritual, uma falta de coesão inadequada para o momento mais solene da história de Israel.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "veliitvelu bei shimshei", "lo besseter dibarti" e "liitvelu beshabta betzafra"
וליטבלו בי שמשי וליקבלו תורה בי שמשי - לילי שבת קרי בי שמשא בכל דוכתא מפני שבין השמשות שלו חלוק מכל ימים והוצרך להזכירו בכמה מקומות והכי פריך לר' עקיבא דאמר הקפידה תורה על מנין העונות ולא הקפידה אלא על חמש למה לא קבלוה בלילה מדהמתין עד הבקר איכא למימר שהקפידה על פליטת הלילה ואיכא ו' עונות: לא בסתר דברתי - במקום ארץ חשך ולילה חשך הוא: ליטבלו בשבתא בצפרא - ולמה הוצרך לירד בהשכמה דיום אי פרשו עם חשכה בד' ויטבלו בשבת שחרית ואם פלטו לאחר טבילה טהורין דהא עברו ה' עונות שלמות ואם פלטו לילי שבת ונטמאו לא איכפת לן וטובלין שחרית דהא בעל קרי טובל ביומו ואת אמרת ניתנה תורה לטבולי יום ויש ספרים דגרסינן ביה תרי לישני וגרסינן הכי לרבי אלעזר לישמשו ביממא דחמשא לר' ישמעאל לישמשו בליליא דחמשא לרבי עקיבא לישמשו ביממא דארבעה ואומר אני שהוא שיבוש והגורסו טעה ולא ידע לפרש מהו שאמר ר' ישמעאל פעמים שהן ה' עונות כו':

"'E que imergissem ao crepúsculo, e recebessem a Torá ao crepúsculo'" — a noite de Shabat é chamada "crepúsculo" (bein hashmashot) em todo lugar, porque o seu crepúsculo é diferente do de todos os outros dias, e por isso a Guemará precisou mencioná-lo em vários lugares; e assim a Guemará objeta contra Rabi Akiva, que diz que a Torá se preocupou com a contagem dos períodos, e não se preocupou senão com cinco: por que não a receberam à noite? Responde a Guemará que, visto que Moshe esperou até de manhã, pode-se dizer que a Torá se preocupou também com a emissão da noite, e por isso há seis períodos. "'Não em segredo falei'" — isto é, não falei num lugar de terra de trevas, e a noite é trevas. "'Que imergissem em Shabat, de manhã'" — e por que precisou Moshe descer de madrugada do dia, se bastaria que o povo se abstivesse ao anoitecer do quarto dia e imergisse no Shabat pela manhã? E se emitissem depois da imersão, seriam puros, pois já se passaram cinco períodos completos; e se emitissem na noite de Shabat e ficassem impuros, não haveria problema, e imergiriam pela manhã, pois quem tem emissão por polução noturna imerge no mesmo dia; e tu dizes que a Torá foi dada a um tevul yom, o que implica que ainda não haviam imergido antes de recebê-la! E há livros em que se lê duas versões diferentes deste ensinamento, lendo assim: segundo Rabi Elazar, tiveram relações de dia na quinta-feira; segundo Rabi Yishmael, tiveram relações na noite de quinta-feira; segundo Rabi Akiva, tiveram relações de dia na quarta-feira. E eu digo que isso é um erro, e quem assim o lê se equivocou e não soube explicar o que disse Rabi Yishmael, que às vezes são cinco períodos, etc.

Rabi Yochanan: seis períodos completos segundo os sábios; Rav Chisda e Rav Sheshet sobre a emissão da mulher e a do homem · שֵׁשׁ עוֹנוֹת שְׁלֵמוֹת בָּעֵינַן

61Rabi Chiya em nome de Rabi Yochanan: a baraita é de Rabi Yishmael e Rabi Akiva, mas os sábios exigem seis períodos completos; Rav Chisda distingue a emissão da mulher e a do homem; objeção de Rav Sheshet, respondida
Rabi Chiya, filho de Rabi Abba, em nome de Rabi Yochanan; Rav Chisda; Rav Sheshet
אָמַר רַבִּי חִיָּיא בְּרַבִּי אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: זוֹ דִּבְרֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל וְרַבִּי עֲקִיבָא, אֲבָל חֲכָמִים אוֹמְרִים: שֵׁשׁ עוֹנוֹת שְׁלֵמוֹת בָּעֵינַן. אָמַר רַב חִסְדָּא: מַחֲלוֹקֶת שֶׁפֵּירְשָׁה מִן הָאִשָּׁה, אֲבָל פֵּירְשָׁה מִן הָאִישׁ — טְמֵאָה כׇּל זְמַן שֶׁהִיא לַחָה. מֵתִיב רַב שֵׁשֶׁת: ״וְכׇל בֶּגֶד וְכׇל עוֹר אֲשֶׁר יִהְיֶה עָלָיו שִׁכְבַת זָרַע״ — פְּרָט לְשִׁכְבַת זֶרַע שֶׁהִיא סְרוּחָה. מַאי לָאו שֶׁפֵּירְשָׁה מִן הָאִישׁ? לָא, שֶׁפֵּירְשָׁה מִן הָאִשָּׁה.

Disse Rabi Chiya, filho de Rabi Abba, em nome de Rabi Yochanan: isto — a baraita anterior, com as opiniões de Rabi Elazar ben Azaria, Rabi Yishmael e Rabi Akiva sobre quantos períodos tornam impura a emissão tardia — são as palavras de Rabi Yishmael e Rabi Akiva; mas os sábios (chachamim) dizem: seis períodos completos são necessários. Disse Rav Chisda: a disputa é apenas sobre a emissão que se separou do corpo da mulher , isto é, o sêmen que ela recebeu do homem e depois expele; mas o sêmen que se separou do corpo do homem , sobre uma roupa ou objeto, é impuro por todo o tempo em que estiver úmido , sem depender da contagem de períodos. Objeta Rav Sheshet: "e toda roupa e todo couro sobre o qual houver sêmen" (Levítico 15:17, que ensina a impureza do sêmen sobre roupa ou couro) — excetua-se o sêmen que está putrefeito , o qual não transmite mais impureza. Isso não se refere ao sêmen que se separou do corpo do homem , o que contradiria Rav Chisda? Responde a Guemará: não, refere-se ao sêmen que se separou do corpo da mulher.

Nota

Rabi Chiya, em nome de Rabi Yochanan, esclarece que a exigência de contar apenas cinco períodos (a disputa entre Rabi Yishmael e Rabi Akiva) é uma posição específica desses dois tanaítas; os sábios em geral, porém, exigem seis períodos completos antes de considerar pura a emissão tardia. Rav Chisda então introduz uma distinção importante: essa disputa sobre a contagem de períodos aplica-se apenas ao sêmen que uma mulher recebeu de um homem e depois expele de seu próprio corpo — cuja pureza depende do tempo decorrido, medido em períodos. Mas o sêmen que sai diretamente do corpo do homem, e cai sobre uma roupa ou objeto, segue outra regra: permanece impuro simplesmente enquanto estiver fisicamente úmido, sem relação com a contagem de dias ou períodos. Rav Sheshet tenta refutar essa distinção com um verso que exclui expressamente o sêmen "putrefeito" da impureza sobre roupas — argumentando que, se a regra fosse apenas "enquanto úmido", não haveria necessidade de mencionar a putrefação. A Guemará responde que o verso, na verdade, trata do sêmen que passou pelo corpo da mulher (e por isso pode apodrecer mesmo estando ainda fisicamente úmido sobre a roupa), preservando a distinção de Rav Chisda.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "aval chachamim omrim vav onot", "sheperesha min haisha" e "mai lav"
אבל חכמים אומרים ו' עונות שלמות - סברי להו כר' יוסי דאמר בארבעה עביד פרישה ובהשכמה כר' עקיבא ולית להו שטבלו בלילי שבת אלא סבירא להו דאותן שטבלו לילי שבת ופלטו לאחר טבילה הוצרכו לטבול בשבת שחרית ולפיכך נתעכבה שכינה מליתן עד הבקר ולא משום לא בסתר דברתי לחודיה: שפירשה מן האשה - כגון פולטת שכבת זרע שקבלה מזכר הוא דאמר ר' אלעזר בן עזריה דבתרי יומי מסרחת מפי שמתחממת בגופה: אבל פירשה מן האיש - על הבגד מטמאה לעולם: כל זמן שהיא לחה - ומיהו משיבשה לא מטמיא דתו לא חזיא להזריע: מאי לאו שפירשה מן האיש - על הבגד ומטהר לה לחה מסרחת דלא קתני פרט לכשיבשה:

"'Mas os sábios dizem seis períodos completos'" — entendem a questão como Rabi Yosi, que diz que na quarta-feira o povo fez a abstinência, e, quanto ao horário, como a regra de madrugada de Rav Adda bar Ahavá, aplicada à opinião de Rabi Akiva; e não sustentam que imergiram na noite de Shabat, mas entendem que aqueles que imergiram na noite de Shabat e emitiram depois da imersão precisaram imergir de novo no Shabat pela manhã, e por isso a Divina Presença se atrasou em dar a Torá até de manhã, e não apenas por causa de "não em segredo falei" isoladamente. "'Que se separou da mulher'" — como a que expele sêmen que recebeu de um homem, é sobre isso que disse Rabi Elazar ben Azaria que em dois dias apodrece, pois se aquece dentro do corpo dela. "'Mas se separou do homem'" — sobre a roupa, torna impuro para sempre. "'Enquanto estiver úmido'" — mas depois de secar não torna impuro, pois já não é apto para gerar. "'Isso não é o que se separou do homem'" — sobre a roupa, e a baraita declara puro o sêmen que ainda está úmido mas já apodrecido, pois não ensina "exceto quando secar".

A dúvida de Rav Pappa: o sêmen de um israelita nas entranhas de uma gentia, ou de um animal · שִׁכְבַת זֶרַע שֶׁל יִשְׂרָאֵל בִּמְעֵי גוֹיָה

62Rav Pappa: o corpo do israelita, que se preocupa com os mandamentos, é quente — ou é o corpo do gentio, que come répteis, que também é quente? E, se for o calor em geral, o mesmo se aplicaria a um animal? Teiku
Rav Pappa
בָּעֵי רַב פָּפָּא: שִׁכְבַת זֶרַע שֶׁל יִשְׂרָאֵל בִּמְעֵי גוֹיָה מַהוּ? יִשְׂרָאֵל דִּדְאִיגִי בְּמִצְוֹת — חֲבִיל גּוּפַיְיהוּ, גּוֹיִם דְּלָא דְּאִיגִי בְּמִצְוֹת — לָא. אוֹ דִילְמָא: כֵּיוָן דְּאָכְלִין שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים חֲבִיל גּוּפַיְיהוּ. וְאִם תִּמְצֵי לוֹמַר כֵּיוָן דְּאָכְלִי שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים חֲבִיל גּוּפַיְיהוּ: בִּמְעֵי בְּהֵמָה מַהוּ? אִשָּׁה הִיא דְּאִית לַהּ פְּרוֹזְדוֹר — מַסְרְחָא, אֲבָל בְּהֵמָה דְּלֵית לַהּ פְּרוֹזְדוֹר — לָא, אוֹ דִילְמָא לָא שְׁנָא. תֵּיקוּ.

Perguntou Rav Pappa: sêmen de um israelita, depositado nas entranhas de uma gentia, qual é a lei — apodrece no mesmo prazo de dois dias, tornando-se puro no terceiro, como o de uma israelita, ou não? Será que os israelitas, que se preocupam com os mandamentos, têm o corpo quente — e é esse calor que faz o sêmen apodrecer depressa —, enquanto os gentios, que não se preocupam com os mandamentos, não têm o corpo quente da mesma forma? Ou talvez, já que os gentios comem répteis e criaturas repugnantes, o corpo deles também é quente , e o sêmen apodreceria igualmente depressa dentro deles. E se disseres que, já que comem répteis e criaturas repugnantes, o corpo deles é quente , e por isso apodrece no mesmo prazo: nas entranhas de um animal, qual é a lei? Será que é especificamente a mulher, que tem um vestíbulo (prozdor, a parte externa do útero), que faz o sêmen apodrecer, mas o animal, que não tem vestíbulo, não o faz apodrecer da mesma forma? Ou talvez não haja diferença alguma entre eles. Teiku — a questão permanece sem solução.

Nota

Rav Pappa levanta uma dúvida em duas camadas, nunca resolvida pela Guemará. A primeira: o ensinamento de que o sêmen depositado no corpo de uma mulher apodrece em dois dias (tornando-se puro no terceiro) foi dito a respeito de uma mulher israelita — mas aplicar-se-ia também ao sêmen de um israelita depositado nas entranhas de uma gentia? A resposta poderia depender de saber se o motivo do apodrecimento é o calor específico do corpo de quem se preocupa em cumprir os mandamentos (o que excluiria a gentia) ou simplesmente o calor corporal em geral, presente também nos gentios (que, segundo esse raciocínio, teriam o corpo aquecido por comerem alimentos proibidos e repugnantes). A segunda camada: se se concluir que o calor é geral, e não específico de quem cumpre mandamentos, então o mesmo sêmen depositado nas entranhas de um animal deveria igualmente apodrecer no mesmo prazo — a menos que o fator decisivo não seja o calor, mas sim o vestíbulo (prozdor) anatômico específico da mulher, ausente no animal. A Guemará deixa ambas as perguntas sem solução, com a palavra teiku.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shel Israel bimei kutit", "dedaygei bemitzvot" e "deit lah prozdor"
של ישראל במעי כותית מהו - מי מסרחת בג' ימים כישראלית ואי פלטה ליה בתר ג' טהור הנוגע בטיפה או לא ולהכי נקט שכבת זרע של ישראל דאילו דכותי אמרינן במסכת נדה קריו טהור בפ' בנות כותים (נדה דף לד.): דדייגי במצות - לקיים מצות וחרדים בדבר ומתוך דאגה מתחממין כדכתיב (תהילים ל״ט:ד׳) חם לבי בקרבי: חביל - חם: דאית לה פרוזדור - בשר כותלי בית הרחם בולט מן השינים ולחוץ ובית הרחם הוי מן השינים ולפנים: אשה אית לה פרוזדור - לפיכך לא שליט בה אויר בגופה ומתחממת:

"'De um israelita, nas entranhas de uma cutita'" — a questão é se o sêmen apodrece em três dias como o de uma mulher israelita, e se ela o expelisse depois de três dias, aquele que tocasse na gota seria puro, ou não; e por isso a Guemará menciona sêmen de um israelita, pois quanto ao sêmen de um cuti (gentio), dizemos no tratado Nidá, no capítulo "Bnot Kutim" (Nidá 34a), que sua emissão é pura desde o início, sem depender do apodrecimento. "'Que se preocupam com os mandamentos'" — preocupam-se em cumprir os mandamentos e são cuidadosos com isso, e por causa dessa preocupação se aquecem, conforme está escrito: "aqueceu-se meu coração dentro de mim" (Salmos 39:4). "'Chavil'" — quente. "'Que tem um vestíbulo (prozdor)'" — a carne das paredes do útero que se projeta dos dentes (a entrada) para fora, e o próprio útero fica dos dentes para dentro. "'A mulher tem um vestíbulo'" — por isso o ar não penetra nela, e o corpo dela se aquece.

Baraita: em que dia do mês foram dados os Dez Mandamentos · בְּשִׁשִּׁי בַּחֹדֶשׁ נִיתְּנוּ עֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת

63Baraita: no sexto ou no sétimo dia do mês? Rava: todos concordam sobre a chegada ao deserto em Rosh Chodesh e sobre a entrega da Torá em Shabat; divergem apenas sobre a fixação do mês — interrompida, no meio da explicação de Rabi Yosi, no que Moshe disse na segunda-feira
A baraita; Rava; Rabi Yosi
תָּנוּ רַבָּנַן: בְּשִׁשִּׁי בַּחֹדֶשׁ נִיתְּנוּ עֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת לְיִשְׂרָאֵל. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: בְּשִׁבְעָה בּוֹ. אָמַר רָבָא: דְּכוּלֵּי עָלְמָא בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ אֲתוֹ לְמִדְבָּר סִינַי. כְּתִיב הָכָא: ״בַּיּוֹם הַזֶּה בָּאוּ מִדְבַּר סִינָי״, וּכְתִיב הָתָם: ״הַחֹדֶשׁ הַזֶּה לָכֶם רֹאשׁ חֳדָשִׁים״ — מָה לְהַלָּן רֹאשׁ חֹדֶשׁ, אַף כָּאן רֹאשׁ חֹדֶשׁ. וּדְכוּלֵּי עָלְמָא, בְּשַׁבָּת נִיתְּנָה תּוֹרָה לְיִשְׂרָאֵל. כְּתִיב הָכָא: ״זָכוֹר אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת לְקַדְּשׁוֹ״, וּכְתִיב הָתָם: ״וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל הָעָם זָכוֹר אֶת הַיּוֹם הַזֶּה״ — מָה לְהַלָּן בְּעִצּוּמוֹ שֶׁל יוֹם, אַף כָּאן בְּעִצּוּמוֹ שֶׁל יוֹם. כִּי פְּלִיגִי בִּקְבִיעָא דְיַרְחָא: רַבִּי יוֹסֵי סָבַר — בְּחַד בְּשַׁבָּא אִיקְּבַע יַרְחָא, וּבְחַד בְּשַׁבָּא לָא אֲמַר לְהוּ וְלָא מִידֵּי מִשּׁוּם חוּלְשָׁא דְּאוֹרְחָא; בִּתְרֵי בְּשַׁבָּא אֲמַר לְהוּ: ״וְאַתֶּם תִּהְיוּ לִי מַמְלֶכֶת כֹּהֲנִים״;

Ensinaram os sábios numa baraita: no sexto dia do mês de Sivan foram dados os Dez Mandamentos a Israel. Rabi Yosi diz: no sétimo dia dele. Disse Rava: todos concordam que o povo chegou ao deserto do Sinai no princípio do mês (Rosh Chodesh). Isso porque está escrito aqui: "neste dia vieram ao deserto do Sinai" (Êxodo 19:1), e está escrito ali: "este mês será para vós o princípio dos meses" (Êxodo 12:2) — assim como ali se fala do princípio do mês, também aqui se fala do princípio do mês. E todos concordam que no Shabat foi dada a Torá a Israel. Isso porque está escrito aqui: "lembra-te do dia de Shabat, para santificá-lo" (Êxodo 20:8), e está escrito ali: "e disse Moshe ao povo: lembrai-vos deste dia" (Êxodo 13:3) — assim como ali se fala do próprio dia, no seu decurso, também aqui se fala do próprio dia, no seu decurso. Sobre que ponto então discordam? Sobre a fixação do mês: Rabi Yosi entende que no primeiro dia da semana (domingo) se fixou o mês, e nesse primeiro dia Moshe não lhes disse absolutamente nada, por causa do cansaço da viagem; no segundo dia (segunda-feira) disse-lhes: "e vós sereis para mim um reino de sacerdotes" (Êxodo 19:6); — a explicação de Rabi Yosi continua, dia após dia, mas a frase fica aqui interrompida; completa-se apenas no início de 87a —

Nota — a folha se fecha aqui, em aberto

A nova baraita traz uma disputa sobre em que dia exato do mês de Sivan foram dados os Dez Mandamentos: no sexto, segundo a opinião anônima (a maioria dos sábios), ou no sétimo, segundo Rabi Yosi. Rava demonstra que essa disputa não é sobre os fatos bíblicos centrais, nos quais todos concordam: que o povo chegou ao deserto do Sinai precisamente no primeiro dia do mês (Rosh Chodesh), derivado por uma analogia verbal (gzerá shavá) entre "neste dia" em Êxodo 19:1 e "este mês" em Êxodo 12:2; e que a Torá foi dada especificamente num Shabat, derivado de outra analogia verbal entre "lembra-te" no mandamento do Shabat e "lembrai-vos deste dia" a respeito da saída do Egito. A disputa real está em outro ponto, mais técnico: em que dia da semana caiu o primeiro dia daquele mês — pois, dependendo disso, a contagem de dias entre a chegada ao Sinai e o Shabat da entrega da Torá muda, afetando se o sexto ou o sétimo dia do mês corresponde ao Shabat. Rabi Yosi explica que o mês se fixou num domingo; nesse mesmo domingo, por causa do cansaço da longa viagem, Moshe não deu nenhuma instrução ao povo; apenas na segunda-feira começou a transmitir as ordens que os preparariam para a revelação, começando pela promessa de que se tornariam "um reino de sacerdotes e uma nação santa". A explicação de Rabi Yosi prossegue, dia após dia da semana, até chegar ao Shabat — mas a frase da baraita é interrompida exatamente neste ponto, no meio da descrição do que Moshe disse na segunda-feira, e a continuação, com as ordens dadas na terça, quarta e quinta-feira, e a resposta dos sábios sobre sua própria contagem, só aparece na abertura de 87a.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "beshishi bachodesh", "ketiv hacha", "mah lehalan", "bikvia deyarcha" e "beterei beshabba"
בו' בחדש כו' - דהא דכתיב ויכסהו הענן ששת ימים ויקרא אל משה ביום השביעי סבירא להו כר' יוסי הגלילי דאמר בפ"ק דיומא (דף ד.) זה היה מעשה אחר עשרת הדברות ור' יוסי סבירא ליה דמשה וכל ישראל עומדים לקבל עשרת הדברות ולא בא הכתוב אלא לחלק כבוד למשה: כתיב הכא - הזה הזה לגזירה שוה: מה להלן - זכור את היום הזה בעצמו של יום הזכירה דיציאת מצרים נאמר להו כדכתיב הזה אף כאן בעצמו של יום הזכירה דשבת נאמר להן זכור את יום וגו': בקביעא דירחא - באיזה יום הוקבע החדש: משום חולשא דאורחא גרסינן: בתרי בשבא אמר להו ואתם תהיו לי - ומשה עלה ויקרא אליו כל הענין עד אלה הדברים אשר תדבר וגו' הדברים האלה נאמרו לו למחרת ביאתם כדאמרינן כל עליותיו בהשכמה היו ואפי' למאן דלית ליה בהשכמה ירד דלא אקיש אית ליה בהשכמה עלה דהא בהדיא כתיב קרא:

"'No sexto dia do mês, etc.'" — pois isto que está escrito: "e a nuvem o cobriu seis dias, e chamou a Moshe no sétimo dia" (Êxodo 24:16), os sábios entendem como Rabi Yosi Haglili, que diz, no primeiro capítulo de Yomá (4a), que isso aconteceu depois dos Dez Mandamentos; e Rabi Yosi ben Rabi Yehuda, autor desta baraita, entende que Moshe e todo Israel estavam parados para receber os Dez Mandamentos, e o texto daquele outro verso veio apenas para conferir honra a Moshe. "'Está escrito aqui'" — "este" e "este", palavras idênticas usadas para uma gzerá shavá (analogia verbal). "'Assim como ali'" — "lembra-te deste dia" (Êxodo 13:3), no próprio dia foi dita a eles a lembrança da saída do Egito, conforme está escrito "este"; também aqui, no próprio dia foi dada a eles a lembrança do Shabat, pois foi dito: "lembra-te do dia..." etc. "'Sobre a fixação do mês'" — em que dia da semana se fixou o mês. A leitura correta é: "por causa do cansaço da viagem". "'No segundo dia disse-lhes: e vós sereis para mim'" — "e Moshe subiu, e o Eterno o chamou do monte" (Êxodo 19:3), toda essa passagem, até "estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel" (Êxodo 19:6), foi dita a ele no dia seguinte à chegada deles ao deserto, conforme dizemos que todas as suas subidas foram de madrugada; e mesmo segundo quem não sustenta que a descida também foi de madrugada, por não fazer a comparação (hekesh), sustenta que a subida foi de madrugada, pois isso está escrito explicitamente no verso.

A folha termina aqui, no meio da explicação de Rabi Yosi sobre o que Moshe disse ao povo dia após dia após a fixação do mês — interrompida na frase "no segundo dia disse-lhes: 'e vós sereis para mim um reino de sacerdotes'". A continuação, com as ordens da terça, quarta e quinta-feira e a resposta dos sábios, abre a folha 87a.