91a não abre nenhum assunto novo: continua, sem qualquer marca de transição, a mesma sugya da Guemará que se iniciara em 90b sobre a Mishná de abertura do Perek Yud (HaMatznia) — "quem guarda algo para semente, amostra ou remédio, e o transportou em Shabat, é responsável em qualquer quantidade". A folha abre respondendo a uma objeção implícita à resposta de Abaye (dada ao final de 90b) de que a Mishná trata de alguém que guardou algo e esqueceu o motivo: poderia se pensar que, ao esquecer, ele anulou por completo o seu pensamento original — mas a Guemará ensina que todo aquele que age sem uma intenção específica presente ainda age segundo a sua intenção primeira. Segue-se o ensinamento de Rav Yehuda em nome de Shmuel, de que Rabi Meir responsabilizava mesmo quem transportasse um único grão de trigo para plantio — o que a Guemará explica não ser óbvio a partir da própria expressão "qualquer quantidade" da Mishná —, e a forte objeção de Rav Yitzchak, filho de Rav Yehuda: se a intenção do transportador é o que conta, por que então quem pensa em transportar toda a sua casa de uma vez não seria responsável apenas quando termina de transportar tudo? A resposta: a intenção de transportar uma casa inteira de uma vez é irrealista, e por isso desconsiderada. A Guemará então observa que a cláusula da Mishná sobre "qualquer outra pessoa" — que só é responsável pela medida padrão — não segue a opinião de Rabi Shimon ben Elazar, que, numa baraita, responsabiliza também essa outra pessoa pela intenção de quem primeiro guardou o item, quando este se tornara apto para ela por essa guarda. Segue uma série de perguntas de Rava e respostas de Rav Nachman e do próprio Rava sobre casos em que a pessoa reconsidera, no meio do transporte, a finalidade do que transporta — de comer para plantar ou de plantar para comer —, cada caso testando se a medida mínima exigida (qualquer quantidade para plantio, uma grogueret para comida) precisa estar presente ao mesmo tempo sob um único pensamento, ou se pensamentos sucessivos, cada um com sua própria medida, ainda geram responsabilidade; um desses casos — o item que encolhe e depois volta a inchar, testando se existe a noção de "dechui" (desqualificação temporária) em relação a Shabat — fica sem solução, registrado como teiku. A folha se encerra no meio de uma nova pergunta de Rava a Rav Nachman, sobre quem lança um kezayit de teruma numa casa já impura, testando se a medida de uma grogueret (para Shabat) e a medida de um ovo de alimentos (para impureza) podem se combinar; a resposta de Rav Nachman, remetendo à baraita de Aba Shaul sobre a medida dos dois pães e do pão da proposição, e a pergunta que a Guemará levanta sobre essa própria resposta, permanecem interrompidas no fim do daf, prosseguindo diretamente em 91b.
90b terminara no meio da resposta de Abaye à pergunta sobre por que a Mishná precisou usar o verbo "guardar" (hamatznia) em vez de simplesmente "transporta". Confirmado via Sefaria, 91a não abre nenhum novo assunto: dá continuidade direta a essa mesma sugya, com uma nova consideração sobre a resposta de Abaye, seguida de uma sequência de sugyot relacionadas sobre a mesma Mishná.
Poderias pensar que ele, ao esquecer o motivo, anulou por completo o seu pensamento original de guardá-lo — por isso a Guemará nos ensina: todo aquele que age sem uma intenção específica presente no momento, age ainda segundo a intenção primeira.
Continuando diretamente a resposta de Abaye dada ao final de 90b, a Guemará antecipa e refuta uma objeção: poderia se pensar que, ao esquecer por que havia guardado o item, a pessoa anulou completamente sua intenção original, de modo que o transporte subsequente não teria nenhuma intenção significativa por trás dele — nem a de guardar (já esquecida) nem a de transportar (feita sem propósito declarado). A Guemará ensina que não é assim: o esquecimento não anula a intenção original; toda pessoa que age sem uma intenção específica no momento presume-se que ainda age segundo a sua intenção primeira, e por isso permanece responsável em qualquer quantidade.
"'Poderias pensar'" — visto que ele esqueceu, no momento do transporte para fora, não estando lembrado do momento em que o guardou. "'Anulou o seu pensamento'" — e não há aqui nem a importância do pensamento de guardar, nem a importância do pensamento de transportar para fora. "'Isso nos ensina'" — que todo aquele que age sem especificação age segundo a intenção primeira, e permanece na sua importância original.
Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: Rabi Meir responsabilizava mesmo quem transportasse um único grão de trigo para plantio. É óbvio — pois aprendemos na Mishná: "qualquer quantidade"! Poderias pensar: "qualquer quantidade" vem para excluir a medida de uma grogueret (a medida dos demais alimentos), mas na verdade a medida mínima seria até que haja um kezayit (bulbo de azeitona) — por isso nos ensina que mesmo um único grão basta. Rav Yitzchak, filho de Rav Yehuda, objeta fortemente: mas então, se alguém pensasse em transportar toda a sua casa de trigo, de uma vez, também diríamos que ele não é responsável até transportar tudo por completo?! Ali — sua intenção é anulada perante a intenção de qualquer pessoa , pois ninguém realmente pretende transportar uma casa inteira de uma vez, e por isso essa intenção não conta.
Shmuel ensina que Rabi Meir aplicava a medida de "qualquer quantidade" para plantio de modo literal, responsabilizando até por um único grão de trigo. A Guemará esclarece que isso não é óbvio apenas pela expressão "qualquer quantidade" da Mishná, pois poderia se pensar que essa expressão apenas exclui a medida padrão de comida (a grogueret), mas ainda exigiria um mínimo — um kezayit. Rav Yitzchak objeta: se a intenção da pessoa é o que determina a medida, então também deveria valer que, se alguém pretende transportar sua casa inteira de trigo de uma só vez, ele só seria responsável ao completar o transporte de tudo — o que soa absurdo. A resposta: uma intenção assim tão irrealista é desconsiderada, anulada perante o senso comum de qualquer pessoa, e por isso não afeta a medida mínima de responsabilidade a cada transporte.
"'Aprendemos: qualquer quantidade'" — e uma mishná anônima (sem atribuição) segue Rabi Meir. "'Para excluir da grogueret'" — a medida dos demais alimentos. "'Mas então'" — já que se atribui a medida da Mishná à sua intenção, como disseste, porque a intenção primeira é que faz o seu pensamento gerar essa medida mínima. "'Pensou em transportar toda a sua casa'" — num único transporte, pois então ela não seria significativa a menos que ele a transportasse toda de uma vez. "'Também diríamos isso'" — que, quando ele a transporta pouco a pouco, não é responsável. "'Sua intenção é anulada'" — e só a medida que as pessoas em geral consideram significativa é significativa.
Ensinamos na Mishná: "e qualquer outra pessoa não é responsável por ele senão pela sua medida padrão". A nossa Mishná não segue Rabi Shimon ben Elazar, pois foi ensinado numa baraita: um princípio geral disse Rabi Shimon ben Elazar: tudo o que não é apto para ser guardado, e não se costuma guardar algo semelhante a ele, mas se tornou apto para esta pessoa, e ela o guardou, e veio outra pessoa e o transportou — esta última torna-se responsável pelo pensamento daquela primeira.
A Guemará observa que a segunda cláusula da Mishná — segundo a qual qualquer outra pessoa, que não seja quem guardou o item, só é responsável pela medida padrão ao transportá-lo — implicitamente rejeita a posição de Rabi Shimon ben Elazar. Este último, numa baraita, estabelece que, quando um item normalmente sem valor de guarda se torna significativo para uma pessoa específica (por exemplo, por razão pessoal ou sentimental) e ela o guarda com essa intenção, uma segunda pessoa que o transporte, mesmo sem compartilhar dessa intenção, torna-se responsável pela intenção da primeira. A nossa Mishná, ao contrário, mantém a outra pessoa sujeita apenas à medida padrão, independentemente da intenção de quem guardou o item.
"'E qualquer outra pessoa não é responsável senão pela sua medida'" — mesmo que o item se tenha tornado apto para esta pessoa e ela o tenha guardado — a nossa Mishná ainda assim não segue Rabi Shimon ben Elazar, que responsabilizaria também a outra pessoa pela intenção da primeira.
Disse Rava, disse Rav Nachman: transportou algo na medida de uma grogueret para comer, e durante o transporte reconsiderou quanto a ela, para plantio; ou também o transportou para plantio, e reconsiderou quanto a ela, para comer — é responsável. É óbvio — vai por este lado — há a medida exigida, e vai por aquele lado — há a medida exigida! Poderias pensar que exigimos que o levantamento (akirá) e o pouso (hanachá) ocorram sob um único pensamento, e aqui isso não há , pois o pensamento mudou no meio do caminho — por isso nos ensina que isso não é exigido, e ele permanece responsável.
Rava, em nome de Rav Nachman, estabelece que alguém que transporta um item com uma intenção, e muda de intenção no meio do transporte (entre o levantar e o pousar), ainda é responsável, desde que cada intenção, por si só, tivesse a medida mínima exigida. A Guemará explica por que isso não é óbvio: poderia se pensar que a lei exige que o levantamento e o pouso ocorram sob a mesma intenção específica, e, como aqui a intenção mudou no meio do caminho, faltaria essa unidade — mas a lei ensina que essa unidade de pensamento entre levantamento e pouso não é necessária, bastando que cada fase, isoladamente, tivesse a medida correspondente à sua própria intenção.
"'Na medida de uma grogueret'" — há nela a medida para comer e para o transporte em geral, e tanto mais para plantio, cuja medida é qualquer quantidade.
Perguntou Rava: transportou meia grogueret para plantio, e ela então inchou , atingindo a medida completa, e reconsiderou quanto a ela, para comer — qual é a lei? Se dissesses: ali , no caso anterior, é que ele é responsável — porque vai por este lado há a medida, e vai por aquele lado há a medida; aqui, porém, visto que no momento em que a transportou para fora não havia nela a medida mínima para comer — não é responsável; ou então, visto que, se ele tivesse ficado calado e não tivesse reconsiderado a respeito dela, seria responsável pelo pensamento de plantio , pois qualquer quantidade já basta para isso, — agora também é responsável.
Rava questiona um caso mais sutil que o anterior: alguém transporta apenas meia grogueret — quantidade insuficiente para comida, mas já suficiente para plantio — e, enquanto o item ainda está sendo carregado, ele incha até atingir o tamanho completo de uma grogueret; a pessoa então reconsidera, passando a querer o item para comida. A dúvida de Rava é se essa mudança de intenção conta, dado que, no momento exato em que o item saiu de seu lugar original, ele ainda não tinha a medida suficiente para a nova intenção (comida). Rava propõe que sim: como o pensamento de plantio, por si só, já teria gerado responsabilidade com aquela mesma meia grogueret, e o pensamento posterior de comida se apoia sobre uma medida ainda maior, a responsabilidade se mantém.
"'E ela inchou'" — e chegou ao tamanho de uma grogueret antes do pouso. "'E reconsiderou quanto a ela, para comer'" — e a pousou — qual é a lei? "'Se dissesses'" — naquele caso anterior, ainda que o levantamento e o pouso não tenham sido sob um único pensamento, ele é responsável. "'Ali é que'" — no momento do primeiro pensamento já havia nela a medida suficiente para o seu primeiro pensamento e a medida para o segundo pensamento; por isso o levantamento e o pouso se somam. "'Mas aqui, no momento em que a transportou para fora, não havia nela a medida'" — para o segundo pensamento, o do pouso, e o pouso não se soma ao levantamento. "'Visto que, se ele tivesse ficado calado'" — nesse segundo momento já havia nela a medida para plantio, e ele seria responsável. "'Agora também é responsável'" — visto que há a medida para o último pensamento, e nessa medida já está incluída a medida para o primeiro pensamento, e mais.
E se dissesses: visto que, se ele tivesse ficado calado e não tivesse reconsiderado a respeito dela, seria responsável pelo pensamento de plantio, agora também é responsável — então pergunta-se: transportou algo na medida de uma grogueret para comer, e ela encolheu, e reconsiderou quanto a ela, para plantio — qual é a lei? Aqui, certamente, se ele tivesse ficado calado — pelo primeiro pensamento não seria responsável , pois já não há a medida de comida; ou então seguimos o estado de agora, e é responsável. E se dissesses: seguimos o estado de agora, e é responsável — então pergunta-se: transportou algo na medida de uma grogueret para comer, e encolheu, e voltou a inchar — qual é a lei? Há "dechui" (desqualificação temporária) quanto a Shabat, ou não há "dechui" quanto a Shabat? Teiku (a questão permanece sem solução).
Rava avança para um caso inverso: o item transportado para comer encolhe abaixo da medida de grogueret, e só então a pessoa reconsidera para plantio — aqui, ao contrário do caso anterior, o primeiro pensamento (comer) já não teria medida suficiente no momento em que faltaria, tornando a dúvida mais aguda: seguimos o estado do item no momento de cada pensamento, ou o estado final? Rava propõe que seguimos o estado de agora. Isso leva a uma terceira pergunta, ainda mais complexa: se o item encolhe e depois volta a inchar antes do pouso, há uma espécie de "desqualificação temporária" (dechui) que impede a responsabilidade de "voltar", ou não? Essa última pergunta permanece sem resposta, registrada como teiku — uma das questões não resolvidas do Talmud.
"'Não é responsável'" — pois, no momento do pouso, não há a medida para o primeiro pensamento. "'Seguimos o de agora'" — seguimos o pensamento de agora quanto ao pouso. "'Há dechui'" — quanto ao momento em que ela faltou no meio do processo: se ele a tivesse pousado naquele momento, não seria responsável — dizemos, então, que se aplica a lei do dechui, que ele fica afastado da responsabilidade da oferenda pelo pecado, e o levantamento se anula; e, quando ela voltou a inchar e ele a pousou, isso é um pouso sem o correspondente levantamento?
Perguntou Rava a Rav Nachman: quem lançou um kezayit de teruma para dentro de uma casa impura — qual é a lei? A respeito de quê se pergunta? Se quanto a Shabat — precisamos da medida de uma grogueret; se quanto à impureza — precisamos da medida de um ovo de alimentos! Na verdade, a pergunta é quanto a Shabat, e trata-se de um caso em que já havia na casa menos que a medida de um ovo de alimentos, e este kezayit a completa até a medida de um ovo. O que é a lei: visto que ele se soma quanto à impureza, é também responsável quanto a Shabat, ou então: quanto a Shabat sempre precisamos da medida completa de uma grogueret? Disse-lhe Rav Nachman: já a aprendeste numa baraita. Aba Shaul diz: os dois pães (shtei halechem) e o pão da proposição (lechem hapanim) — a sua medida é a de uma grogueret; e por quê? Digamos que a razão é: visto que quanto a… (o texto prossegue no daf seguinte, 91b)
A folha termina no meio da resposta de Rav Nachman: ele remete Rava a uma baraita já conhecida, de Aba Shaul, sobre a medida dos dois pães (oferecidos em Shavuot) e do pão da proposição (lechem hapanim), fixada em uma grogueret quando transportados em Shabat. A Guemará começa a perguntar por que essa medida não seria, em vez disso, um kezayit — mas a frase é interrompida no fim do daf. Confirmado via Sefaria: o daf 91b abre exatamente na continuação dessa frase ("...יוֹצֵא — בִּכְזַיִת, לְעִנְיַן שַׁבָּת נָמֵי — בִּכְזַיִת!..."), de modo que a pergunta de Rava a Rav Nachman sobre a teruma lançada na casa impura, e a discussão sobre a baraita de Aba Shaul, prosseguem sem interrupção real no daf seguinte.
"'Se quanto à impureza'" — pois perguntas se o alimento se torna impuro para tornar impuros outros alimentos, ou se não precisamos da medida de um ovo. "'E este kezayit a completa'" — a teruma lançada repousou junto a ele e o completou, e por meio desse pouso ambos se tornaram impuros. "'A sua medida é a de uma grogueret'" — se os transportou para o domínio público em Shabat. "'E por quê? Digamos'" — que com um kezayit já seria responsável, pois o transporte já é significativo quanto a desqualificá-los pela saída (yotzei, ao sair do recinto sagrado), pois, se os comesse, transgrediria uma proibição, já que o versículo vem impor uma proibição sobre comer o que é impróprio dentro do sagrado, e esse comer se mede em kezayit.