Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Alef
מִשֶּׁיַּכִּיר

A partir de quando se recita o Shemá pela manhã?

Perek Alef, Halachá 2 (completa)

A segunda Mishná do capítulo desloca a pergunta de abertura para a manhã: o marco não é mais a saída das estrelas, mas o instante em que se consegue distinguir entre o azul (techelet) e o branco de um tzitzit, e a discussão se estende até o nascer do sol, com Rabi Yehoshua propondo um prazo mais largo, até três horas do dia. O Yerushalmi abre esta halachá perguntando sobre qual "azul" e qual "branco" fala a Mishná — os de um mesmo fio de tzitzit, e não dois fios diferentes —, e a partir daí desenvolve uma bela alegoria: o azul lembra o mar, o mar lembra a relva, a relva lembra o firmamento, e o firmamento lembra o trono da glória. Depois vem uma opinião alternativa que mede o horário pela distância de reconhecer um conhecido a quatro amot, o costume dos "vatikin" que liam o Shemá bem cedo para juntar a redenção à oração no exato nascer do sol, uma lembrança pessoal de Rabi Yehudá sobre Rabi Elazar ben Azaria e Rabi Akiva, e uma extensa sugya final sobre quando se pode — ou não — interromper o estudo de Torá para recitar o Shemá ou a Amidá, com a posição diferente de Rabi Yochanan e de Rabi Shimon bar Yochai.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

מֵאֵימָתַי קוֹרִין אֶת שְׁמַע בְּשַׁחֲרִית מִשֶּׁיַּכִּיר בֵּין תְּכֵלֶת לְלָבָן. רִבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר בֵּין תְּכֵלֶת לְכַרְתָּן, וְגוֹמְרָהּ עַד הָנֵץ הַחַמָּה. רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר עַד שָׁלֹשׁ שָׁעוֹת, שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ מְלָכִים לַעֲמוֹד בְּשָׁלֹשׁ שָׁעוֹת. הַקּוֹרֵא מִכָּאן וָאֵילָךְ לֹא הִפְסִיד, כְּאָדָם הַקּוֹרֵא בַתּוֹרָה.

A partir de quando se recita o Shemá pela manhã? Desde que se consiga distinguir entre o azul (techelet) e o branco. Rabi Eliézer diz: entre o azul e o verde-alho (karti), e conclui-se a leitura até o nascer do sol. Rabi Yehoshua diz: até três horas do dia, pois assim é o costume dos reis, de se levantarem às três horas. Quem lê depois disso não perde nada, como um homem que lê na Torá.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Qual azul e qual branco: os dois fios de um mesmo tzitzit
Yerushalmi · Berachot 1:2
כֵּינִי מַתְנִיתָא בֵּין תְּכֵלֶת שֶׁבָּהּ לְלָבָן שֶׁבָּהּ. וּמַה טַעֲמוֹן דְּרַבָּנָן: "וּרְאִיתֶם אֹתוֹ" — מִן הַסָּמוּךְ לוֹ. וּמַה טַעֲמֵיהּ דְּרִבִּי אֱלִיעֶזֶר: "וּרְאִיתֶם אֹתוֹ" — כְּדֵי שֶׁיְּהֵא נִיכָּר בֵּין הַצְּבוּעִין.

Assim se ensina na Mishná: entre o azul que há nela e o branco que há nela — isto é, no próprio tzitzit, e não entre dois fios de peças diferentes. E qual é a razão dos Sábios? "E o vereis" — a partir do que lhe é próximo, ou seja, o que está diante dos olhos de quem olha. E qual é a razão de Rabi Eliézer? "E o vereis" — de modo que se torne reconhecível entre as cores tingidas.

02A alegoria: o azul, o mar, a relva, o firmamento e o trono da glória
Yerushalmi · Berachot 1:2
תַּנֵּי בְשֵׁם רִבִּי מֵאִיר: "וּרְאִיתֶם אוֹתָהּ" אֵין כְּתִיב כַּאן, אֶלָּא "וּרְאִיתֶם אֹתוֹ". מַגִּיד שֶׁכָּל הַמְקַיֵּים מִצְוַת צִיצִית כְּאִלּוּ מְקַבֵּל פְּנֵי שְׁכִינָה. מַגִּיד שֶׁהַתְּכֵלֶת דּוֹמֶה לְיָם, וְהַיָּם דּוֹמֶה לָעֲשָׂבִים, וְעֲשָׂבִים דּוֹמִין לָרָקִיעַ, וְרָקִיעַ דּוֹמֶה לְכִסֵּא הַכָּבוֹד, וְהַכִּסֵּא דּוֹמֶה לְסַפִּיר, דִּכְתִיב: "וָאֶרְאֶה וְהִנֵּה עַל הָרָקִיעַ אֲשֶׁר עַל רֹאשׁ הַכְּרוּב כְּאֶבֶן סַפִּיר כְּמַרְאֵה דְּמוּת כִּסֵּא".

Foi ensinado em nome de Rabi Meir: "e a vereis" não está escrito aqui, mas sim "e o vereis". Isto ensina que todo aquele que cumpre o preceito do tzitzit é como se recebesse a face da Shechiná. Ensina também que o azul se assemelha ao mar, e o mar se assemelha à relva, e a relva se assemelha ao firmamento, e o firmamento se assemelha ao trono da glória, e o trono se assemelha à safira, como está escrito: "e vi, e eis que sobre o firmamento que estava sobre a cabeça do querubim havia algo como pedra de safira, com semelhança de forma de um trono".

03A opinião alternativa: reconhecer um conhecido a quatro amot
Yerushalmi · Berachot 1:2
אֲחֵרִים אוֹמְרִים: "וּרְאִיתֶם אֹתוֹ" — כְּדֵי שֶׁיְּהֵא אָדָם רָחוֹק מֵחֲבֵרוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת וּמַכִּירוֹ. רַב חִסְדָּא אָמַר כַּהֲדָא דַאֲחֵרִים: מַה אֲנַן קַיָּימִין? אִם רָגִיל — אֲפִלּוּ רָחוֹק כַּמָּה חַכִּים לֵיהּ. וְאִם בְּשֶׁאֵינוֹ רָגִיל — אֲפִלּוּ קָרוֹב לֵיהּ לָא חַכִּים לֵיהּ. אֶלָּא כֵּן אֲנַן קַיָּימִין בְּרָגִיל וְשֶׁאֵינוֹ רָגִיל, בְּהַהוּא דְאָזִיל לֵיהּ לְאַכְסַנְיָא וְאָתֵי לְקִצִּין.

Outros dizem: "e o vereis" — de modo que um homem, à distância de quatro amot de seu companheiro, o reconheça. Disse Rav Chisda, concordando com a opinião de "outros": em que caso estamos tratando? Se ele lhe é habitual, mesmo de longe o reconheceria; e se não lhe é habitual, mesmo de perto não o reconheceria. Antes, estamos tratando de alguém que lhe é habitual e não habitual ao mesmo tempo — daquele que vai para hospedagem e vem de tempos em tempos.

04Reconciliando as tradições: até o nascer do sol, para juntar a redenção à oração
Yerushalmi · Berachot 1:2
אִית תַּנָּיֵי תַּנֵּי: בֵּין זְאֵב לְכֶלֶב, בֵּין חֲמוֹר לַעֲרוֹד. וְאִית תַּנָּיֵי תַּנֵּי: כְּדֵי שֶׁיְּהֵא אָדָם רָחוֹק מֵחֲבֵרוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת וּמַכִּירוֹ. הֲוָה בָּעֵי מֵימַר: מַאן דָּמַר "בֵּין זְאֵב לְכֶלֶב, בֵּין חֲמוֹר לַעֲרוֹד" — כְּמַאן דָּמַר "בֵּין תְּכֵלֶת לְכַרְתָּן"; וּמַאן דָּמַר "כְּדֵי שֶׁיְּהֵא אָדָם רָחוֹק מֵחֲבֵרוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת וּמַכִּירוֹ" — כְּמַאן דָּמַר "בֵּין תְּכֵלֶת לְלָבָן". אֲבָל אָמְרוּ: מִצְוָתָהּ עִם הָנֵץ הַחַמָּה, כְּדֵי שֶׁיִּסְמוֹךְ גְּאוּלָּה לִתְפִלָּה, וְנִמְצָא מִתְפַּלֵּל בַּיּוֹם. אָמַר רִבִּי זְעִירָא: וַאֲנָא אָמְרִית טַעֲמָא — "יִירָאוּךָ עִם שָׁמֶשׁ". אָמַר מָר עוּקְבָּא: הַוָּתִיקִין הָיוּ מַשְׁכִּימִין וְקוֹרִין אוֹתָהּ, כְּדֵי שֶׁיִּסְמְכוּ לָהּ תְּפִלָּתָן עִם הָנֵץ הַחַמָּה.

Há tannaítas que ensinam: entre um lobo e um cão, entre um jumento e um asno selvagem. E há tannaítas que ensinam: de modo que um homem, à distância de quatro amot de seu companheiro, o reconheça. Poder-se-ia dizer: quem ensina "entre um lobo e um cão, entre um jumento e um asno selvagem" fala como quem ensina "entre o azul e o verde-alho"; e quem ensina "de modo que um homem, à distância de quatro amot, o reconheça" fala como quem ensina "entre o azul e o branco". Mas disseram: o seu preceito próprio é com o nascer do sol, para que se junte a redenção à oração, de modo que a pessoa acabe orando já de dia. Disse Rabi Zeira: e eu disse a razão — "temer-te-ão enquanto durar o sol". Disse Mar Ukva: os vatikin (os piedosos antigos) se levantavam cedo e a recitavam, para juntar a ela a sua oração exatamente com o nascer do sol.

05A lembrança de Rabi Yehudá: caminhando atrás de Rabi Elazar ben Azaria e Rabi Akiva
Yerushalmi · Berachot 1:2
תַּנֵּי אָמַר רִבִּי יוּדָה: מַעֲשֶׂה שֶׁהָיִיתִי מְהַלֵּךְ בַּדֶּרֶךְ אַחֲרֵי רִבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה וְאַחֲרֵי רִבִּי עֲקִיבָה, וְהָיוּ עֲסוּקִין בְּמִצְוֹת, וְהִגִּיעַ עוֹנַת קְרִיאַת שְׁמַע, וְהָיִיתִי סָבוּר שֶׁמָּא נִתְיָאֲשׁוּ מִקְּרִיאַת שְׁמַע, וְקָרִיתִי וְשָׁנִיתִי, וְאַחַר כָּךְ הִתְחִילוּ הֵם, וּכְבָר הָיְתָה הַחַמָּה עַל רָאשֵׁי הֶהָרִים.

Foi ensinado, disse Rabi Yehudá: aconteceu que eu caminhava pelo caminho atrás de Rabi Elazar ben Azaria e atrás de Rabi Akiva, e eles estavam ocupados com os preceitos, e chegou o horário da recitação do Shemá, e eu pensei que talvez eles tivessem desistido de recitar o Shemá; e eu o recitei e o repeti, e só depois eles começaram — e o sol já estava sobre os cumes dos montes.

06Até o nascer do sol: o gotejar da luz sobre os montes, e a lei segundo Rabi Yehoshua para quem esqueceu
Yerushalmi · Berachot 1:2
עַד הָנֵץ הַחַמָּה. רִבִּי זְבַדְיָה בְּרֵיהּ דְּרִבִּי יַעֲקֹב בַּר זַבְדִּי בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָה: כְּדֵי שֶׁתְּהֵא הַחַמָּה מְטַפְטֶפֶת עַל רָאשֵׁי הֶהָרִים. רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר עַד שָׁלֹשׁ שָׁעוֹת. רִבִּי אִידִי וְרַב הַמְנוּנָא וְרַב אַדָּא בַּר אַחֲוָא בְשֵׁם רַב: הֲלָכָה כְּרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בְּשׁוֹכֵחַ. רִבִּי הוּנָא אָמַר: תְּרֵין אֲמוֹרָאִין — חַד אָמַר בְּשׁוֹכֵחַ. מֵגִיב לֵיהּ חַבְרֵיהּ: וְכִי יֵשׁ הֲלָכָה בְּשׁוֹכֵחַ? כָּךְ הִיא הֲלָכָה, וְלָמָּה אָמְרוּ "בְּשׁוֹכֵחַ"? כְּדֵי שֶׁיְּהֵא אָדָם מְזָרֵז בְּעַצְמוֹ לִקְרוֹתָהּ בְּעוֹנָתָהּ.

"Até o nascer do sol." Disse Rabi Zevadia, filho de Rabi Yaakov bar Zavdi, em nome de Rabi Yoná: até que o sol comece a gotejar sobre os cumes dos montes. Rabi Yehoshua diz: até três horas do dia. Rabi Idi, Rav Hamnuna e Rav Ada bar Achva, em nome de Rav: a lei segue Rabi Yehoshua no caso de quem esqueceu. Disse Rabi Huna: houve dois amoraim — um disse "no caso de quem esqueceu". Objetou-lhe o seu companheiro: acaso existe lei apenas "no caso de quem esqueceu"? Assim é a lei mesma; e por que disseram "no caso de quem esqueceu"? Para que o homem se apresse por si mesmo a recitá-la no seu horário próprio.

07Interromper para o Shemá, mas não para a Amidá: as razões dos Sábios
Yerushalmi · Berachot 1:2
תַּמָּן תַּנִּינָן: מַפְסִיקִין לִקְרִיאַת שְׁמַע וְאֵין מַפְסִיקִין לִתְפִלָּה. אָמַר רִבִּי אָחָא: קְרִיאַת שְׁמַע דְּבַר תּוֹרָה, תְּפִלָּה אֵינָהּ דְּבַר תּוֹרָה. אָמַר רִבִּי בָּא: קְרִיאַת שְׁמַע זְמַנָּהּ קָבוּעַ, תְּפִלָּה אֵין זְמַנָּהּ קָבוּעַ. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי: קְרִיאַת שְׁמַע אֵינָהּ צְרִיכָה כַוָּנָה, תְּפִלָּה צְרִיכָה כַוָּנָה. אָמַר רִבִּי מָנִי: הִקְשֵׁיתִיהָ קֳדָם רִבִּי יוֹסֵי, וַאֲפִלּוּ תֵּימַר קְרִיאַת שְׁמַע אֵינָהּ צְרִיכָה כַוָּנָה, שְׁלֹשָׁה פְּסוּקִים הָרִאשׁוֹנִים צְרִיכִים כַוָּנָה. מִגּוֹ דְּאִינּוּן צִבְחָר, מִיכַוֵּין.

Ali ensinamos: interrompe-se para a recitação do Shemá, mas não se interrompe para a Amidá. Disse Rabi Acha: a recitação do Shemá é preceito da Torá; a Amidá não é preceito da Torá. Disse Rabi Ba: a recitação do Shemá tem horário fixo; a Amidá não tem horário fixo. Disse Rabi Yossei: a recitação do Shemá não requer intenção; a Amidá requer intenção. Disse Rabi Mani: eu levantei esta dificuldade diante de Rabi Yossei — mesmo dizendo que a recitação do Shemá não requer intenção, os três primeiros versículos requerem intenção. Já que são poucos, é fácil ter intenção neles.

08Rabi Yochanan e Rabi Shimon bar Yochai: quando o estudo de Torá se sobrepõe ao Shemá
Yerushalmi · Berachot 1:2
רִבִּי יוֹחָנָן בְּשֵׁם רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחָי: כְּגוֹן אָנוּ שֶׁעוֹסְקִין בְּתַלְמוּד תּוֹרָה, אֲפִלּוּ לִקְרִיאַת שְׁמַע אֵין אָנוּ מַפְסִיקִין. רִבִּי יוֹחָנָן אֲמָרָהּ עַל גַּרְמֵיהּ: כְּגוֹן אָנוּ שֶׁאֵין אָנוּ עֲסוּקִין בְּתַלְמוּד תּוֹרָה, וַאֲפִלּוּ לִתְפִלָּה אָנוּ מַפְסִיקִין. דֵּין כְּדַעְתֵּיהּ וְדֵין כְּדַעְתֵּיהּ. רִבִּי יוֹחָנָן כְּדַעְתֵּיהּ, דְּאָמַר רִבִּי יוֹחָנָן: וְלוּאֵי שֶׁיִּתְפַּלֵּל אָדָם כָּל הַיּוֹם כֻּלּוֹ, לָמָּה? שֶׁאֵין תְּפִלָּה מַפְסֶדֶת. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי כְּדַעְתֵּיהּ, דְּאָמַר רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: אִלּוּ הָיִיתִי עוֹמֵד עַל הַר סִינַי בְּשָׁעָה שֶׁנִּתְּנָה תּוֹרָה לְיִשְׂרָאֵל, הָיִיתִי מִתְבַּקֵּשׁ לִפְנֵי הָרַחֲמָן שֶׁיִּבָּרְאוּ לְבֶן אָדָם שְׁנֵי פִיּוֹת: אֶחָד שֶׁיִּהְיֶה עוֹסֵק בַּתּוֹרָה, וְאֶחָד שֶׁיַּעֲשֶׂה בּוֹ כָּל צָרְכּוֹ. חָזַר וְאָמַר: וּמָה אִם כְּשֶׁיֵּשׁ לוֹ פֶּה אֶחָד, אֵין הָעוֹלָם יָכוֹל לַעֲמֹד מִפְּנֵי לְשׁוֹן הָרָע שֶׁלּוֹ — אִלּוּ הָיוּ לוֹ שְׁנַיִם, עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה!

Disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Shimon bar Yochai: pessoas como nós, que estamos ocupados com o estudo da Torá, nem mesmo para a recitação do Shemá interrompemos. Rabi Yochanan disse isto sobre si mesmo: pessoas como nós, que não estamos ocupados com o estudo da Torá, até mesmo para a Amidá interrompemos. Este segundo a sua opinião, e aquele segundo a sua opinião. Rabi Yochanan segue a sua própria opinião, pois disse Rabi Yochanan: e quem dera que o homem orasse o dia inteiro! Por quê? Porque a oração não causa prejuízo algum. Rabi Shimon bar Yochai segue a sua própria opinião, pois disse Rabi Shimon bar Yochai: se eu estivesse sobre o monte Sinai na hora em que a Torá foi dada a Israel, eu pediria diante do Misericordioso que se criassem para o homem duas bocas: uma que se ocupasse da Torá, e outra que fizesse por ele todas as suas necessidades. E voltou a dizer: se, quando ele tem apenas uma boca, o mundo já não pode suportar a sua maledicência, se tivesse duas, quanto mais!

אָמַר רִבִּי יוֹסֵי קֳדָם רִבִּי יִרְמְיָה: אַתְיָא דְרִבִּי יוֹחָנָן כְּרִבִּי חֲנִינָא בֶן עֲקַבְיָה, דְּתַנֵּי: כּוֹתְבֵי סְפָרִים תְּפִלִּין וּמְזוּזוֹת מַפְסִיקִין לִקְרִיאַת שְׁמַע וְאֵין מַפְסִיקִין לִתְפִלָּה. רִבִּי חֲנִינָא בֶן עֲקַבְיָה אוֹמֵר: כְּשֵׁם שֶׁמַּפְסִיקִין לִקְרִיאַת שְׁמַע, כָּךְ מַפְסִיקִין לִתְפִלָּה, וְלִתְפִלִּין, וּלְשָׁאָר כָּל מִצְוֹתֶיהָ שֶׁל תּוֹרָה. וְלֹא מוֹדֶה רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי שֶׁמַּפְסִיקִין לַעֲשׂוֹת סֻכָּה וְלַעֲשׂוֹת לוּלָב? וְלֵית לֵיהּ לְרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: הַלּוֹמֵד עַל מְנָת לַעֲשׂוֹת, וְלֹא הַלּוֹמֵד שֶׁלֹּא לַעֲשׂוֹת — שֶׁהַלּוֹמֵד שֶׁלֹּא לַעֲשׂוֹת נוֹחַ לוֹ שֶׁלֹּא נִבְרָא. וְאָמַר רִבִּי יוֹחָנָן: הַלּוֹמֵד שֶׁלֹּא לַעֲשׂוֹת, נוֹחַ לוֹ אִלּוּ נֶהֶפְכָה שִׁלְיָתוֹ עַל פָּנָיו וְלֹא יָצָא לָעוֹלָם.

Disse Rabi Yossei diante de Rabi Yirmiyá: a opinião de Rabi Yochanan se harmoniza com a de Rabi Chanina ben Akavia, que ensinou: os que escrevem rolos, tefilin e mezuzot interrompem para a recitação do Shemá, mas não interrompem para a Amidá. Rabi Chanina ben Akavia diz: assim como interrompem para a recitação do Shemá, também interrompem para a Amidá, para os tefilin e para todos os demais preceitos da Torá. E acaso Rabi Shimon bar Yochai não concorda que se interrompe para fazer a sucá e para fazer o lulav? E não sustenta Rabi Shimon bar Yochai que aquele que estuda com a intenção de praticar é diferente daquele que estuda sem a intenção de praticar — pois quem estuda sem a intenção de praticar, melhor lhe seria não ter sido criado? E disse Rabi Yochanan: a quem estuda sem a intenção de praticar, melhor lhe seria que a sua placenta se tivesse virado sobre o seu rosto, e não tivesse saído ao mundo.

טַעְמֵיהּ דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: זֶה שִׁנּוּן וְזֶה שִׁנּוּן, וְאֵין מְבַטְּלִין שִׁנּוּן מִפְּנֵי שִׁנּוּן. וְהָא תַנִּינָן: הַקּוֹרֵא מִכָּאן וָאֵילָךְ לֹא הִפְסִיד, כְּאָדָם הַקּוֹרֵא בַתּוֹרָה — הָא בְעוֹנָתָהּ חֲבִיבָה מִדִּבְרֵי תוֹרָה, הִיא הִיא. אָמַר רִבִּי יוּדָן: רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי, עַל יְדֵי שֶׁהָיָה תָדִיר בְּדִבְרֵי תוֹרָה, לְפִיכָךְ אֵינָהּ חֲבִיבָה יוֹתֵר מִדִּבְרֵי תוֹרָה עֲבוּרוֹ. אָמַר רִבִּי אַבָּא מָרִי: לֹא תַנִּינָן אֶלָּא "כְּאָדָם הַקּוֹרֵא בַתּוֹרָה" — הָא בְעוֹנָתָהּ כְּמִשְׁנָה הִיא. רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי כְּדַעְתֵּיהּ, דְּאָמַר רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי: הָעוֹסֵק בַּמִּקְרָא — מִדָּה שֶׁאֵינָהּ מִדָּה. וְרַבָּנָן עָבְדִין מִקְרָא כְּמִשְׁנָה.

A razão de Rabi Shimon bar Yochai: isto é estudo repetido, e aquilo é estudo repetido, e não se anula um estudo repetido por causa de outro estudo repetido. Mas não ensinamos: "quem lê depois disso não perde nada, como um homem que lê na Torá"? Isto ensina que, no seu horário próprio, ela é mais querida do que as palavras de Torá comuns — sim, é isso mesmo. Disse Rabi Yudan: como Rabi Shimon bar Yochai estava constantemente ocupado com as palavras de Torá, por isso, para ele, ela não era mais querida do que as palavras de Torá. Disse Rabi Abba Mari: não ensinamos senão "como um homem que lê na Torá" — o que mostra que, no seu horário próprio, ela equivale à Mishná. Rabi Shimon bar Yochai segue a sua própria opinião, pois disse Rabi Shimon bar Yochai: quem se ocupa com a Escritura pratica uma medida que não é medida alguma; mas os Sábios tratam a Escritura como a Mishná.

Este longo fechamento da halachá — sobre interromper ou não o estudo para o Shemá e para a Amidá — não é apenas uma digressão: ele retoma a última frase da própria Mishná, "quem lê depois disso não perde nada, como um homem que lê na Torá", e a examina de todos os ângulos, perguntando se a leitura do Shemá no seu horário certo é mais valiosa do que o estudo comum de Torá, ou se equivale apenas à Mishná. A discórdia entre Rabi Yochanan e Rabi Shimon bar Yochai — um dizendo que a oração nunca atrapalha, o outro elevando o estudo ininterrupto da Torá acima de quase tudo — é um dos debates mais conhecidos do Yerushalmi sobre a relação entre estudo e prática.