Abre-se um novo perek
פֶּרֶק שְׁבִיעִי

Perek Zayin de Massechet Kilayim. O Perek Vav se encerrou por completo em 6:4, com o espeto de metal fincado no limite pretendido do crescimento e a disputa entre Rabi Chama bar Ukva e Rabi Yossei sobre os cachos de uva e as folhas pendentes. O Perek Zayin continua no tema do vinhedo, e abre tratando da havracha, a técnica de enterrar um ramo de videira no solo para que ele enraíze à distância, e das medidas de terra que permitem ou proíbem semear por cima dele.

Talmud Yerushalmi · Massechet Kilayim · Perek Zayin · Halachá 1
כִּלְאַיִם

A havracha da videira: o cano, a rocha, e o joelho da videira

Perek Zayin, Halachá 1, no Talmud Yerushalmi, Massechet Kilayim

Primeira halachá do Perek Zayin de Massechet Kilayim, abertura do capítulo: a Mishná trata da havracha (a técnica de dobrar um ramo de videira e enterrá-lo no solo, para que ele lance raízes num ponto novo e volte a emergir como se fosse outra videira) — quem enterra a videira no solo não deve trazer semente sobre ela, a menos que haja terra por cima dela de três palmos, mesmo que a tenha enterrado dentro de uma cabaça seca ou de um cano (usados para abrir caminho ao ramo sem que ele se misture à terra ao redor). Se a enterrou sob uma rocha, ainda que não haja terra por cima dela senão três dedos, é permitido trazer semente sobre ela. Quanto à videira em forma de joelho (que se dobra por si mesma, natural ou intencionalmente, e volta a emergir do solo mais adiante), não se mede o espaço de trabalho senão a partir do segundo tronco (o ponto onde ela reemerge, e não o tronco original). A guemará abre perguntando com o que se lida: se é por causa da proibição geral de sementes junto a uma árvore, por que mencionar justamente a videira, e não qualquer outra árvore? E se é por causa do espaço de trabalho, deveria mencionar seis palmos, ou ao menos três segundo Rabi Akiva — e, sendo assim, também do lado deveria valer a mesma medida; resolve-se, por Rabi Yirmeyá em nome de Rabi Chiya bar Aba, que se trata especificamente de sementes por cima da própria videira enterrada. Segue-se a comparação com a Mishná que afasta sementes, o arado e a urina da parede em três palmos, com a dificuldade levantada por Rabi Chama bar Ukva sobre se as raízes se espalham para o lado, resolvida por Rabi Yossei pela distinção entre afrouxar a terra e minar a base da parede, e contestada por Rabi Yossei filho de Rabi Bun quanto ao arado; a distinção entre o cano de barro, que ainda exige os três palmos de terra, e o cano de chumbo, que dispensa essa exigência; a distinção entre a rocha dura, que permite a leniência, e a rocha mole, que se rompe e não a permite; e o fechamento, explicando que a medida a partir do segundo tronco vale apenas quando o primeiro tronco não é visível — mas, se visível, dá-se seis palmos de espaço de trabalho para cada lado, confirmado pela Mishná seguinte, sobre quem enterra três videiras com os troncos visíveis.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַמַּבְרִיךְ אֶת הַגֶּפֶן בָּאָרֶץ אִם אֵין עָפָר עַל גַּבָּהּ שְׁלֹשָׁה טְפָחִים לֹא יָבִיא זֶרַע עָלֶיהָ אֲפִילוּ הִבְרִיכָהּ בִּדְלַעַת אוֹ בְסִילוֹן. הִבְרִיכָהּ בְּסֶלַע אַף עַל פִּי שֶׁאֵין עָפָר עַל גַּבָּהּ אֶלָּא שָׁלֹשׁ אֶצְבָּעוֹת מוּתָּר לְהָבִיא זֶרַע עָלֶיהָ. הָאַרְכּוּבָה שֶׁבְּגֶפֶן אֵין מוֹדְדִין אֶלָּא מֵעִיקָּר הַשֵּׁנִי.

Mishná: Quem enterra a videira (dobra um ramo e o enterra) no solo (para que ele enraíze à distância) — se não há terra por cima dela de três palmos, não deve trazer semente sobre ela, mesmo que a tenha enterrado dentro de uma cabaça (seca, usada como uma espécie de duto) ou de um cano. Se a enterrou sob uma rocha, ainda que não haja terra por cima dela senão três dedos (medida menor que um palmo), é permitido trazer semente sobre ela. Quanto ao joelho da videira (o ramo que se dobra e volta a emergir do solo, como se formasse uma nova videira), não se mede o espaço de trabalho senão a partir do segundo tronco (o ponto onde ela reemerge).

A Halachá · הֲלָכָה א

01Com o que se lida? Rabi Yirmeyá em nome de Rabi Chiya bar Aba: sementes sobre a videira
Yerushalmi · Kilayim 7:1
לֹא יָבִיא זֶרַע עָלֶיהָ הָא מִן הַצַּד מוּתָּר. מַה נָן קַיָימִין אִי מִשֵּׁם זְרָעִים בְּאִילָן לָמָּה לִי גֶפֶן אֲפִילוּ שְׁאָר כָּל הָאִילָן. אִי מִשּׁוּם עֲבוֹדָה נִיתְנִי שִׁשָּׁה. אֶלָּא כְרִבִּי עֲקִיבָה דְּרִבִּי עֲקִיבָה אָמַר שְלֹשָׁה. אִין כְרִבִּי עֲקִיבָה אֲפִילוּ מִן הַצַּד נִיתְנִי שְׁלֹשָׁה. רִבִי יִרְמְיָה בְשֵׁם רִבִּי חִיָיא בַּר אַבָּא מִשֻּׁם זְרָעִים עַל גַּבֵּי הַגֶּפֶן.

Halachá: Não deve trazer semente sobre ela — logo, do lado é permitido. Com o que estamos lidando (o que a Mishná pretende proibir)? Se é por causa da proibição de sementes junto a uma árvore, por que preciso que se mencione especificamente a videira? Mesmo qualquer outra árvore estaria incluída. Se é por causa do espaço de trabalho, que se mencione seis palmos! Antes, é segundo Rabi Akiva, pois Rabi Akiva disse três. Mas se é segundo Rabi Akiva, mesmo do lado que se mencione três! Rabi Yirmeyá em nome de Rabi Chiya bar Aba: trata-se de sementes sobre a própria videira (uma proibição à parte, restrita ao que está diretamente por cima do ramo enterrado, e não à medida geral do espaço de trabalho).

02A pergunta de Rabi Chama bar Ukva sobre raízes que se espalham para o lado
Yerushalmi · Kilayim 7:1
תַּמָּן תַּנִּינָן מַרְחִיקִין אֶת הַזְּרָעִים וְאֶת הַמַּחֲרֵישָׁה וְאֶת מֵי רַגְלַיִם מִן הַכּוֹתֶל שְׁלֹֹשָׁה טְפָחִים. רִבִּי יִרְמְיָה אָמַר רִבִּי חָמָא בַּר עוּקְבָּא מַקְשֵׁי תַּמָּן אַתְּ אָמַר אֵין הַשָּׁרָשִׁין מְהַלְּכִין מִן הַצַּד. וְהָכָא אַתְּ אָמַר הַשָּׁרָשִׁין מְהַלְּכִין מִן הַצַּד. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי כָאן וְכָאן אֵין הַשָּׁרָשִׁין מְהַלְּכִין מִן הַצַּד. אֶלָּא שֶׁהֵן עוֹשִׂין עָפָר תִּחוּחַ וְהֵן מַלְקִין אַרְעִיתוֹ שֶׁל כּוֹתֶל. תֵּדַע לָךְ שֶׁהוּא כֵן דְּתַנִּינָן תַּמָּן מֵי רַגְלַיִם. וּמֵי רַגְלַיִם מְהַלְּכִין מִן הַצַּד. הָתִיב רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן וְהָתַנִּינָן מַחֲרֵישָׁה. אִית לָךְ מֵימַר מַחֲרֵישָׁה מְהַלֶּכֶת מִן הַצַּד.

Halachá: Ali (noutra Mishná) ensinamos: afastam-se as sementes, o arado e a urina da parede em três palmos. Rabi Yirmeyá disse que Rabi Chama bar Ukva levanta uma dificuldade: ali dizes que as raízes não se espalham para o lado, e aqui dizes que as raízes se espalham para o lado (uma aparente contradição entre as duas fontes)? Disse Rabi Yossei: aqui e ali as raízes não se espalham para o lado; antes, elas afrouxam a terra e minam a base da parede (sem propriamente atravessá-la lateralmente, mas enfraquecendo-a por baixo). Sabe que é assim, pois ensinamos ali também sobre a urina — e a urina se espalha para o lado (logo, o afastamento de três palmos não pressupõe raízes que caminham para o lado, mas apenas o efeito indireto de amolecer o solo, tal como faz a urina). Rabi Yossei filho de Rabi Bun objetou: mas não ensinamos ali também sobre o arado? Podes dizer que o arado se espalha para o lado (a analogia com a urina não se sustenta plenamente para o caso do arado, e a pergunta permanece em aberto)?

03O cano de barro e o cano de chumbo
Yerushalmi · Kilayim 7:1
אֲפִילוּ הִבְרִיכָהּ בִּדְלַעַת אוֹ בְסִילוֹן. הָדָא דְתֵימָר בְּסִילוֹן שֶׁל חֶרֶס אֲבָל בְּסִילוֹן שֶׁל אֵבֶר אֵינוֹ צָרִיךְ עַד שֶׁיְּהֵא שָׁם שְׁלֹשָׁה טְפָחִים עָפָר מִלְּמַעֲלָן.

Halachá: "Mesmo que a tenha enterrado dentro de uma cabaça ou de um cano" — isto se diz a respeito de um cano de barro; mas a respeito de um cano de chumbo, não é necessário que haja ali três palmos de terra por cima (pois o metal, ao contrário do barro, não se desfaz com o tempo, e já isola por si só o ramo enterrado).

04A rocha dura e a rocha mole que se rompe
Yerushalmi · Kilayim 7:1
הִבְרִיכָהּ בְּסֶלַע הָדָא דְתֵימָר בְּהָדֵין צַלְמָא בְּרַם בְּהָדֵין רְכִיכָה מִתְפַּתְפֶּתֶת הוּא.

Halachá: "Se a enterrou sob uma rocha" — isto se diz a respeito desta, a rocha dura; mas a respeito desta, a mole, ela se rompe (a raiz a atravessa com facilidade, e por isso a leniência dos três dedos não se aplica a ela, exigindo-se a medida plena de três palmos como sobre terra comum).

05O primeiro tronco visível ou não visível, e a confirmação pela Mishná seguinte
Yerushalmi · Kilayim 7:1
וְהַאי כְּשֶׁאֵין הָרִאשׁוֹן נִרְאֵית אֵבָל אִם הָיָה הָרִאשׁוֹן נִרְאֶה נוֹתֵן שִׁשָּׁה טְפָחִים לְכָאן וְשִׁשָּׁה טְפָחִים לְכָאן. תֵּדַע לָךְ שֶׁהוּא כֵן דְּתַנִּינָן דְּבַתְרָהּ הַמַּבְרִיךְ שְׁלֹשָׁה גְפָנִים וְעִיקְּרֵיהֶן נִרְאִין וְתַנֵּי עֲלָהּ בְּמַה דְבָרִים אֲמוּרִים לְעִנְיַין הַכֶּרֶם אֲבָל לְעִנְיַין עֲבוֹדָה נוֹתֵן שִׁשָּׁה טְפָחִים לְכָאן וְשִׁשָּׁה טְפָחִים לְכָאן.

Halachá: E isto (a regra de medir apenas a partir do segundo tronco) vale quando o primeiro tronco não é visível; mas, se o primeiro fosse visível, dá-se seis palmos de espaço de trabalho para este lado e seis palmos para aquele lado (tratando ambos os troncos, o antigo e o novo, como videiras plenas e independentes). Sabe que é assim, pois ensinamos, logo depois desta Mishná: "Quem enterra três videiras e seus troncos são visíveis" — e foi ensinado a respeito dela: em que caso se disseram estas palavras? Quanto ao que conta como vinhedo; mas quanto ao espaço de trabalho, dá-se seis palmos para este lado e seis palmos para aquele lado.

Nota

Esta é a primeira halachá do Perek Zayin de Massechet Kilayim, que abre o capítulo. Encerrado por completo o Perek Vav em 6:4, com o espeto de metal fincado no limite pretendido do crescimento e a disputa sobre os cachos de uva e as folhas pendentes, o Perek Zayin permanece no tema do vinhedo e passa a tratar da havracha: a técnica de dobrar um ramo de videira e enterrá-lo no solo, para que ele lance raízes num ponto novo e volte a emergir como se fosse outra videira. A Mishná proíbe trazer semente sobre o ramo enterrado a menos que haja terra por cima dele de três palmos, mesmo que se tenha usado uma cabaça seca ou um cano para abrir caminho ao ramo sem misturá-lo à terra ao redor; mas, se o ramo foi enterrado sob uma rocha, basta que haja terra por cima dele de três dedos, medida bem menor que um palmo, para que seja permitido semear ali. Fecha com a regra da videira em forma de joelho — o ramo que se dobra e reemerge do solo mais adiante — cujo espaço de trabalho se mede apenas a partir do ponto de reemergência, o "segundo tronco", e não a partir do tronco original.

A guemará abre perguntando com que proibição a Mishná está lidando: se fosse a proibição geral de sementes junto a uma árvore, não haveria razão para mencionar especificamente a videira, já que qualquer árvore estaria incluída; e se fosse a medida do espaço de trabalho, a Mishná deveria ter mencionado seis palmos — ou, seguindo Rabi Akiva, ao menos três, e nesse caso também a medida lateral, "do lado", deveria ser de três, e não permitida sem limite algum. Resolve-se, por Rabi Yirmeyá em nome de Rabi Chiya bar Aba, que a proibição da Mishná é específica: sementes diretamente sobre a própria videira enterrada, distinta da medida geral do espaço de trabalho. Segue-se a comparação com a Mishná que exige afastar sementes, arado e urina de uma parede em três palmos, e a dificuldade de Rabi Chama bar Ukva sobre uma aparente contradição — ali as raízes pareceriam não se espalhar para o lado, e aqui pareceriam se espalhar —, resolvida por Rabi Yossei com a distinção entre o espalhamento lateral propriamente dito e o efeito indireto de afrouxar a terra e minar a base da parede, ilustrado pela urina; e a objeção de Rabi Yossei filho de Rabi Bun, que nota que essa mesma explicação parece não se sustentar plenamente para o caso do arado, permanecendo a questão sem resposta explícita. A guemará então distingue o cano de barro do cano de chumbo — este último, por não se desfazer com o tempo, dispensa os três palmos de terra por cima —, e a rocha dura da rocha mole, que se rompe e por isso não permite a leniência dos três dedos. Fecha explicando que a medida a partir do segundo tronco, na regra da videira em forma de joelho, vale apenas quando o primeiro tronco não é mais visível; se ele permanece visível, ambos os troncos — o original e o que reemergiu — recebem seus próprios seis palmos de espaço de trabalho, cada um tratado como uma videira independente, confirmação trazida da Mishná seguinte, sobre quem enterra três videiras cujos troncos permanecem visíveis, onde se distingue entre o que conta para a definição do vinhedo e o que conta para o espaço de trabalho de cada uma. Massechet Kilayim, por ser um "tratado menor" dentro do Seder Zeraim, não recebeu Guemará no Talmud Bavli, nem comentário tradicional de Rashi; o texto aqui é o Yerushalmi em sua integridade.