Talmud Yerushalmi · Massechet Kilayim · Perek Chet · Halachá 4 (última do perek)
כִּלְאַיִם

As protiot proibidas, o ramach permitido, e a classificação de behemá e chayá entre os animais

Perek Chet, Halachá 4 — encerramento do capítulo, no Talmud Yerushalmi, Massechet Kilayim

Quarta e última halachá do Perek Chet de Massechet Kilayim, abrindo uma Mishná nova: as protiot (crias de origem incerta, entre égua e jumento, cujas orelhas não permitem distinguir a ascendência) são proibidas, e o ramach (cavalo selvagem) é permitido; avnei hasadeh (as "pedras do campo") é considerado chayá (animal selvagem); Rabi Yossei ensina que contaminam em tenda como um ser humano. O kipod (ouriço) e o chuldat hasenaim (doninha dos arbustos) são chayá; quanto a este último, Rabi Yossei ensina que Beit Shamai o considera capaz de contaminar no volume de uma azeitona ao ser carregado, e no volume de uma lentilha ao ser tocado. O shor bar (o touro selvagem, o bisão) é espécie de behemá (animal doméstico); Rabi Yossei diz que é espécie de chayá. O cão é espécie de chayá; Rabi Meir diz que é espécie de behemá. O porco é espécie de behemá. O arod (jumento selvagem) é espécie de chayá. O elefante e o macaco são espécie de chayá. E o ser humano é permitido com todos eles, para arar e para puxar. A guemará explica primeiro o que é o ramach, um cavalo sem freio, citando o versículo de Ester sobre "os filhos dos cavalos selvagens"; discute a natureza das avnei hasadeh, explicadas como um homem da montanha que vive a partir do próprio umbigo, e a razão da opinião de Rabi Yossei, ligada ao versículo de Bamidbar sobre o que toca sobre a face do campo; classifica o yarror e a avestruz como aves para todo efeito, e a serpente como chayá; traz, em nome de Rabi Yochanan, a lista das seis dúvidas não resolvidas da tradição — o tzalaf entre as árvores, os vasos de barro entre os vasos de potassa, o chuldat hasenaim entre os répteis, o feijão egípcio entre as sementes, o androginus entre os seres humanos, e o koi entre os animais selvagens — acrescentando uma sétima dúvida, sobre o côvado do trixin no Templo, com a disputa entre Rabi Yossei e Rabi Maná sobre se ele se conta por dentro ou por fora do Santo dos Santos; retoma o shor bar, com a disputa entre os rabanan e Rabi Yossei sobre se sua origem é doméstica ou selvagem, e a consequência prática para a proibição de kilaim entre um boi comum e um shor bar; discute o ganso comum, o ganso do deserto e o ganso do mar, com um kal vachomer sobre a proibição entre eles; e fecha explicando, a partir do versículo de Devarim sobre não arar com boi e jumento juntos, que o ser humano pode legitimamente arar com um boi ou com um jumento, desde que sempre em conjunto consigo mesmo. Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Chet de Massechet Kilayim.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַפְּרוֹטִיּוֹת אֲסוּרוֹת וְהָרַמָּךְ מוּתָּר. וְאַדְנֵי הַשָּׂדֶה חַיָּה. רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר מְטַמְּאוֹת בְּאוֹהֶל כֶּאָדָם. הַקּוֹפָּד וְחוּלְדַּת הַסְּנָאִין חַיָּה. חוּלְדַּת הַסְּנָאִין רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר בֵּית שַׁמַּאי אוֹמֵר מְטַמֵּא בִּכְזַיִת בְּמַשָּׂא וְכַעֲדָשָׁה בְמַגָּע. שׁוֹר בַּר מִין בְּהֵמָה רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר מִין חַיָּה. כֶּלֶב מִין חַיָּה רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר מִין בְּהֵמָה. הַחֲזִיר מִין בְּהֵמָה. הֶעָרוֹד מִין חַיָּה. הַפִּיל וְהַקּוֹף מִין חַיָּה. וְהָאָדָם מוּתָּר עִם כּוּלָּן לַחֲרוֹשׁ וְלִמְשׁוֹךְ.

Mishná: As protiot são proibidas, e o ramach é permitido. E avnei hasadeh ("pedras do campo") é chayá. Rabi Yossei diz: contaminam em tenda como um ser humano (isto é, contaminam à distância, como um cadáver humano). O kipod (ouriço) e o chuldat hasenaim são chayá. Quanto ao chuldat hasenaim, Rabi Yossei diz: Beit Shamai diz que contamina no volume de uma azeitona ao ser carregado, e no volume de uma lentilha ao ser tocado. O shor bar é espécie de behemá; Rabi Yossei diz: é espécie de chayá. O cão é espécie de chayá; Rabi Meir diz: é espécie de behemá. O porco é espécie de behemá. O arod é espécie de chayá. O elefante e o macaco são espécie de chayá. E o ser humano é permitido com todos eles, para arar e para puxar.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01O ramach é o cavalo sem freio, segundo o versículo de Ester sobre os filhos dos cavalos selvagens
Yerushalmi · Kilayim 8:4
הַפְּרוֹטִיּוֹת אֲסוּרוֹת וְהָרַמָּךְ מוּתָּר כול'. רִבִּי אִימִּי בְשֵׁם רִבִּי לָעְזָר רַמְכָה דְּלָא כַלִינֹס. כְּמַה דְּתֵימַר בְּנֵי הָרַמָּכִים.

Halachá: "As protiot são proibidas, e o ramach é permitido" etc. Rabi Imi, em nome de Rabi Lazar: ramach é o cavalo sem chalinos (do grego χαλινός, "freio" — isto é, o cavalo que nunca foi domado). Como se diz: "os filhos dos ramachim" (Ester 8:10, onde o termo designa os cavalos selvagens usados no correio real).

02As avnei hasadeh: o homem da montanha que vive a partir do próprio umbigo
Yerushalmi · Kilayim 8:4
אַבְנֵי הַשָּׂדֶה חַיָּה. יַיסִי עַרְקִיי בַּר נַשׁ דְּטוּר הוּא וְהוּא חַיי מִן טִיבוּרֵייהּ אִיפְסַק טִיבוּרֵייהּ לָא חַיי. רִבִּי חָמָא בַּר עוּקְבָּא בְּשֵׁם רִבִּי יוֹסֵי בֶן חֲנִינָה טַעֲמָא דְּרִבִּי יוֹסֵי וְכָל אֲשֶׁר יִגַּע עַל פְּנֵי הַשָּׂדֶה בְּגָדֵל עַל פְּנֵי הַשָּׂדֶה.

Halachá: "Avnei hasadeh é chayá." Yassi de Arkia (um sábio ou uma tradição local citada pelo nome): é um homem da montanha, e ele vive a partir do seu umbigo; se o seu umbigo for cortado, não vive (descrição lendária da criatura chamada "pedras do campo"). Rabi Chama bar Ukva, em nome de Rabi Yossei ben Chanina: a razão de Rabi Yossei é o que está escrito: "e tudo o que tocar sobre a face do campo" (Bamidbar 19:16) — quando cresce sobre a face do campo (isto é, a criatura está ligada ao solo pelo próprio umbigo, tal como algo que "cresce" na terra, e por isso contamina como um ser humano).

03O yarror e a avestruz são como aves; a serpente é como chayá
Yerushalmi · Kilayim 8:4
הַיָּרוֹרוֹת וְהַנַּעֲמִית הֲרֵי הֵן כְּעוֹף לְכָל דָּבָר. וְהַנָּחָשׁ הֲרֵי הוּא כְּחַיָּה.

Halachá: Os yarorot (uma ave de andar semelhante ao de um chacal) e a avestruz são como ave para todo efeito. E a serpente é como chayá.

04As seis dúvidas não resolvidas de Rabi Yochanan, e o côvado do trixin no Templo
Yerushalmi · Kilayim 8:4
רִבִּי חִיָיה בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן שִׁשָּׁה סְפֵיקוֹת הֵן. הַצְּלָף בְּאִילָן כְּבֵית שַׁמַּי. כְּלֵי חֶרֶס בִּכְלֵי נֶתֶר כְּבֵית שַׁמַּי. חוּלְדַּת הַסְּנָאִים בִּשְׁרָצִים כְּבֵית שַׁמַּי. פּוּל מִצְרִי בִזְרָעִים. וְאַנְדְרוֹגִינֹס בָּאָדָם. כּוֹי בְּחַיָּה דִּבְרֵי הַכֹּל. רִבִּי חָמָא בַּר עוּקְבָּא אָמַר וְאַמָּה טְרִיקְסִין. מַהוּ וְאַמָּה טְרִיקְסִין רִבִּי יוֹנָה בוֹצְרָיָיה אָמַר טְרִיכְּסוֹן מַה מִבִּפְנִים מִבְּחוּץ. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי מִן מַה דִכְתִיב וְאַרְבָּעִים בָּאַמָּה הָיָה הַבַּיִת הוּא הַהֵיכָל לִפְנָיי הָדָא אָמְרָה מִבִּפְנִים. אָמַר לֵיהּ רִבִּי מָנָא וְהָכְתִיב וַיַּעַשׂ אֶת בֵּית קוֹדֶשׁ הַקֳּדָשִׁים עֶשְׂרִים אַמָּה אוֹרֶךְ וְעֶשְׂרִים רוֹחָב. הָדָא אָמְרָה מִבְּחוּץ.

Halachá: Rabi Chiya, em nome de Rabi Yochanan: há seis dúvidas não resolvidas na tradição: o tzalaf (a alcaparreira) entre as árvores, segundo Beit Shamai; os vasos de barro entre os vasos de potassa (quanto às leis de impureza), segundo Beit Shamai; o chuldat hasenaim entre os répteis, segundo Beit Shamai; o feijão egípcio entre as sementes; o androginus (pessoa de características sexuais ambíguas) entre os seres humanos; e o koi entre os animais selvagens, segundo todos. Rabi Chama bar Ukva disse: também o côvado do trixin (uma medida ligada à parede que separava o Santo do Santo dos Santos, no Templo). O que é o côvado do trixin? Rabi Yoná de Botzraia disse: trixon — o que é por dentro, o que é por fora (um termo grego que expressa essa dúvida). Disse Rabi Yossei: a partir do que está escrito, "e a casa, isto é, o hechal, tinha quarenta côvados diante dele" (Melachim I 6:17), isso ensina que o côvado do trixin se conta por dentro (como parte do Santo dos Santos). Disse-lhe Rabi Maná: mas não está escrito, "e fez a casa do Santo dos Santos, vinte côvados de comprimento e vinte de largura" (Divrei HaYamim II 3:8)? Isso ensina que se conta por fora.

05O shor bar: os rabanan dizem que fugiu para o selvagem; Rabi Yossei diz que sua raiz já era de lá
Yerushalmi · Kilayim 8:4
שׁוֹר בַּר מִין בְּהֵמָה. רַבָּנִין אָמְרִין מִיכֹּא הֲוָה וְעָרַק לְתַמָּן. רִבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר עִוקָּרֵיהּ מִן תַּמָּן הֲוָה. הָא שׁוֹר עִם שׁוֹר בַּר אֵינָן כִּלְאַיִם דְּלֹא כְרִבִּי יוֹסֵה דְּרִבִּי יוֹסֵה אָמַר כִּלְאַיִם. וְאִילֵּין דִּמְתַרְגְּמִין וְתוֹרֵי בַּר וְרִאמְנִין כְּרִבִּי יוֹסֵה.

Halachá: "O shor bar é espécie de behemá." Os rabanan dizem: ele era daqui (do rebanho doméstico) e fugiu para lá (tornando-se selvagem). Rabi Yossei diz: a sua raiz já era de lá (ele sempre foi, por natureza, uma espécie selvagem à parte). Eis que um boi com um shor bar não são kilaim um com o outro — isto não é segundo Rabi Yossei, pois Rabi Yossei diz que são kilaim. E aqueles que traduzem o versículo como "e bois selvagens e antílopes" seguem Rabi Yossei (tratando-os como espécies distintas do boi doméstico).

06O ganso, o ganso do deserto e o ganso do mar, e o kal vachomer entre eles
Yerushalmi · Kilayim 8:4
רִבִּי בָּא בְשֵׁם שְׁמוּאֵל אַוָוז עִם אַוַוז מִדְבָּר כִּלְאַיִם זֶה בְזֶה. אַוָוז עִם אַוַוז הַיָּם תַּנֶּה רִבִּי יוּדָה בֶּן פָּזִי דְּבַר דָּלָיָה וְלָא יָדְעִין מָאן תַּנֶּה. קַל וָחוֹמֶר מַה אִם בְּשָׁעָה שֶׁשְּׁנֵיהֶן בַּיַּבָּשָׁה אַתְּ אָמַר אָסוּר בְּשָׁעָה שֶׁאֶחָד בַּיַּבָּשָׁה וְאֶחָד בַּיָּם לֹא כָּל שֶּׁכֵּן.

Halachá: Rabi Ba, em nome de Shmuel: ganso com ganso do deserto são kilaim um com o outro. Ganso com ganso do mar — ensinou Rabi Yehuda ben Pazi, em nome de Bar Dalaya, e não sabemos o que ele ensinou (a tradição sobre esse caso específico se perdeu). Mas isso se resolve por kal vachomer: se, quando ambos estão em terra seca, dizes que é proibido, quando um está em terra seca e o outro está no mar, não é ainda mais evidente que é proibido?

07O ser humano pode arar com boi ou com jumento, desde que sempre junto de si mesmo
Yerushalmi · Kilayim 8:4
וְאָדָם מוּתָּר בְּכוּלָּן לַחֲרוֹשׁ וְלִמְשׁוֹךְ. כְּתִיב לֹא תַחֲרוֹשׁ בְּשׁוֹר וּבַחֲמוֹר יַחְדָּיו. בְּשׁוֹר וּבַחֲמוֹר אֵין אַתְּ חוֹרֵשׁ אֲבָל חוֹרֵשׁ אַתְּ בְּשׁוֹר עִם אָדָם בַּחֲמוֹר עִם אָדָם.

Halachá: "E o ser humano é permitido com todos eles, para arar e para puxar." Está escrito: "Não ararás com boi e com jumento juntos" (Devarim 22:10). Com boi e com jumento juntos não araras; mas araras com boi junto com um ser humano, com jumento junto com um ser humano (pois a proibição é apenas entre duas espécies diferentes de animais, não entre um animal e o próprio lavrador).

Nota

Esta é a quarta e última halachá do Perek Chet de Massechet Kilayim, e abre uma Mishná nova, deixando para trás o tema da carroça e do cordame de reboção para tratar da classificação de animais entre behemá (doméstico) e chayá (selvagem), com suas consequências para as leis de kilaim e de impureza: as protiot — crias de origem incerta entre égua e jumento — são proibidas, enquanto o ramach, o cavalo selvagem, é permitido; as avnei hasadeh são consideradas chayá, e contaminam em tenda como um ser humano, segundo Rabi Yossei; o ouriço e a doninha dos arbustos são chayá, esta última com um limite específico de contaminação segundo Beit Shamai; o touro selvagem, o cão, o porco, o jumento selvagem, o elefante e o macaco recebem cada qual sua classificação, por vezes disputada entre os sábios anônimos e Rabi Yossei ou Rabi Meir; e a Mishná fecha autorizando o ser humano a arar e puxar com qualquer um desses animais.

A guemará abre esclarecendo que o ramach é o cavalo sem freio, citando o versículo de Ester sobre "os filhos dos cavalos selvagens" usados no correio real; em seguida discute a natureza lendária das avnei hasadeh, descritas como um homem da montanha que vive a partir do próprio umbigo, e liga a opinião de Rabi Yossei sobre sua impureza ao versículo de Bamidbar sobre o que toca sobre a face do campo; classifica o yarror e a avestruz como aves para todo efeito, e a serpente como chayá. Segue-se, em nome de Rabi Yochanan, a célebre lista das seis dúvidas não resolvidas da tradição — o tzalaf entre as árvores, os vasos de barro entre os vasos de potassa, a doninha dos arbustos entre os répteis, o feijão egípcio entre as sementes, o androginus entre os seres humanos, e o koi entre os animais selvagens —, à qual Rabi Chama bar Ukva acrescenta uma sétima, sobre o côvado do trixin no Templo, resolvida em disputa entre Rabi Yossei e Rabi Maná quanto a se esse espaço se conta como parte interna ou externa do Santo dos Santos, cada um apoiado em um versículo diferente sobre as medidas do Templo. A guemará então retoma o touro selvagem, registrando a disputa entre os rabanan, que o consideram um animal doméstico que fugiu para o estado selvagem, e Rabi Yossei, que o considera selvagem por origem — disputa da qual decorre a consequência prática de saber se um boi comum e um touro selvagem constituem kilaim entre si. Discute-se em seguida o ganso comum, o ganso do deserto e o ganso do mar, com a tradição sobre este último tendo se perdido, mas resolvida por um argumento a fortiori a partir do caso já conhecido do ganso do deserto. E a halachá — e com ela todo o Perek Chet — fecha explicando, a partir do versículo de Devarim sobre não arar com boi e jumento juntos, que a proibição de kilaim na lavoura recai apenas sobre duas espécies de animais atreladas entre si, mas não impede que um ser humano are com um boi, ou com um jumento, cada um em conjunto consigo mesmo. Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Chet de Massechet Kilayim. Massechet Kilayim, por ser um "tratado menor" dentro do Seder Zeraim, não recebeu Guemará no Talmud Bavli, nem comentário tradicional de Rashi; o texto aqui é o Yerushalmi em sua integridade.