Talmud Yerushalmi · Massechet Sheviit · Perek Alef · Halachá 1 (abertura do tratado)
שְׁבִיעִית

Até quando se lavra no campo da árvore na véspera do sétimo ano — a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel

Perek Alef, Halachá 1, no Talmud Yerushalmi, Massechet Sheviit

Primeira halachá de Massechet Sheviit, abrindo o tratado: a Mishná pergunta até quando se lavra no campo da árvore na véspera do sétimo ano (o ano sabático), e traz a disputa entre Bet Shamai, que permite enquanto isso for bom para o fruto, e Bet Hilel, que fixa o limite em Atzeret (Shavuot) — concluindo que as duas opiniões, na prática, se aproximam uma da outra. A guemará abre derivando dos versículos "seis dias farás teu trabalho, e no sétimo dia descansarás" e "na lavra e na colheita descansarás" que esta última frase não trata do shabat semanal nem dos shabatot de anos em geral, já ambos explicitados em outros versículos, mas sim da proibição dos dois primeiros perakim do sétimo ano — a lavra da véspera que entra no sétimo ano, e a colheita do sétimo ano que sai para o ano seguinte. Discute-se então por que, apesar dessa proibição bíblica, se ensina que se lavra até Rosh Hashaná, citando que Rabán Gamliel e seu tribunal permitiram quanto a essa proibição, o que leva Rabi Yochanan a perguntar como um tribunal poderia anular as palavras de outro sem ser maior em sabedoria e em número — resolvido por Rabi Krusspi com a distinção entre praticar a permissão e registrá-la formalmente na Mishná. Rabi Yona objeta comparando com a parashá da consagração e a do dilúvio, que permanecem escritas mesmo sem vigência prática, a fim de dar a conhecer, e Rabi Mana aplica a mesma lógica à formulação precisa da tradição oral. Segue Rabi Acha em nome de Rabi Yonatan mostrando que tanto a proibição quanto a permissão se apoiam em versículos distintos, e a halachá fecha explicando por que Bet Hilel fixa Atzeret — limite após o qual a lavra já não beneficia o fruto, mas antes enfraquece a árvore, sem contudo constituir trabalho proibido de preparo — e por que a disputa não se classifica simplesmente como leniência de Bet Shamai e severidade de Bet Hilel, já que isso depende da disponibilidade das chuvas em cada ano.

Abre-se Massechet Sheviit · Perek Alefפֶּרֶק רִאשׁוֹן

A Mishná · מַתְנִיתִין

עַד אֵימָתַי חוֹרְשִׁין בִּשְׂדֵה הָאִלָן עֶרֶב שְׁבִיעִית בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים כָּל זְמָן שֶׁהוּא יָפֶה לַפֶּרִי. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים עַד הָעַצֶּרֶת. וּקְרוֹבִים דִּברֵי אֵלּוּ לִהְיוֹת כְּדִבְרֵי אֵלּוּ.

Mishná: Até quando se lavra no campo da árvore (um pomar, distinto do campo aberto de cereais) na véspera do sétimo ano (isto é, no sexto ano, antes que comece Shevi'it)? Bet Shamai (a Casa de Shamai) diz: todo o tempo em que isso é bom para o fruto (enquanto a lavra ainda beneficia os frutos que amadurecerão, mesmo que já seja o sétimo ano). E Bet Hilel (a Casa de Hilel) diz: até Atzeret (a festa de Shavuot, um limite fixo no calendário). E as palavras de uns se aproximam das palavras dos outros (pois, na prática, o período em que a lavra ainda beneficia o fruto costuma coincidir, ou quase, com a data de Atzeret).

A Halachá · הֲלָכָה א

01Os versículos-base: "na lavra e na colheita descansarás" não trata do shabat semanal nem dos shabatot de anos, mas dos dois primeiros perakim do sétimo ano
Yerushalmi · Sheviit 1:1
עַד אֵימָתַי חוֹרְשִׁין כו׳. כְּתִיב שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲשֶׂה מַעֲשֶׂיךָ וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי תִּשְׁבּוֹת. וּכְתִיב בֶּחָרִישׁ וּבַקָּצִיר תִּשְׁבּוֹת. מַה אֲנָן קַיָימִין אִם לְעִנְיַין שַׁבָּת בְּרֵאשִׁית וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ. וְאִם לְעִנְיַין שַׁבְּתוֹת שָׁנִים וַהֲלֹא כְּבָר נֶאֱמַר שֵׁשׁ שָׁנִים תִּזְרַע שָׂדֶךָ וְשֵׁשׁ שָׁנִים תִּזְמוֹר כַּרְמֶךָ. אֶלָּא אִם אֵינוֹ עִנְיָין לְשַׁבָּת בְּרֵאשִׁית וְלֹא לְעִנְיַין שַׁבְּתוֹת שָׁנִים תְּנֵיהוּ עִנְיָין בְּאִיסּוּר שְׁנֵי פְּרָקִים הָרִאשׁוֹנִים. בֶּחָרִישׁ וּבַקָּצִיר תִּשְׁבּוֹת בֶּחָרִישׁ שֶׁקְּצִירוֹ אָסוּר וְאֵי זֶה זֶה. זֶה חָרִישׁ שֶׁל עֶרֶב שְׁבִיעִית שֶׁהוּא נִכְנַס לַשְּׁבִיעִית. וּבַקָּצִיר שֶׁחָרִישׁוֹ אָסוּר וְאֵי זֶה זֶה. זֶה קָצִיר שֶׁל שְׁבִיעִית שֶהוּא יוֹצֵא לְמוֹצָאֵי שְׁבִיעִית.

A Mishná ensina: "Até quando se lavra..." etc. Está escrito (Shemot 34:21): "seis dias farás teu trabalho, e no sétimo dia descansarás." E está escrito, no mesmo versículo: "na lavra e na colheita descansarás." Sobre o que estamos a tratar aqui? Se é a respeito do shabat da Criação (o shabat semanal), não já foi dito (no mesmo versículo, logo antes): "seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra"? Essa frase já bastaria para ensinar o shabat semanal, tornando supérflua "na lavra e na colheita descansarás" para o mesmo propósito. E se é a respeito dos shabatot de anos (o ano sabático em geral), não já foi dito (Shemot 23:10): "seis anos semearás teu campo, e seis anos podarás tua vinha"? Também essa frase já bastaria para ensinar a proibição geral de lavrar e podar no sétimo ano. Mas, se a frase "na lavra e na colheita descansarás" não é necessária a respeito do shabat da Criação, nem a respeito dos shabatot de anos em geral, aplica-a ao assunto da proibição dos dois primeiros perakim (os dois períodos-limite que tocam o sétimo ano por ambos os lados). "Na lavra e na colheita descansarás" — na lavra cuja colheita é proibida, e qual é essa? É a lavra da véspera do sétimo ano, que seus efeitos entram no sétimo ano (isto é, a lavra do sexto ano feita perto demais do início de Shevi'it, cujo benefício se estenderia à colheita do próprio sétimo ano). E na colheita cuja lavra é proibida, e qual é essa? É a colheita do sétimo ano, que seus efeitos saem para o pós-sétimo ano (isto é, a colheita feita no fim de Shevi'it de um modo que pressupõe lavra proibida).

02Por que então se ensina que se lavra até Rosh Hashaná — Rabán Gamliel e seu tribunal permitiram, e a pergunta de Rabi Yochanan sobre um tribunal anular outro
Yerushalmi · Sheviit 1:1
וְאִם כֵּן לָמָּה נֶאֱמַר חוֹרְשִׁין עַד רֹאשׁ הַשָּׁנָה. רִבִּי קְרוּסְפִּי בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן רַבָּן גַּמְלִיאֵל וּבֵית דִּינוֹ הִתִּירוּ בְאִיסּוּר שְׁנֵי פְרָקִים הָרִאשׁוֹנִים. רִבִּי יוֹחָנָן בָּעֵי לֹא כֵן תַּנִּינָן אֵין בֵית דִּין יָכוֹל לְבַטֵּל דִּבְרֵי בֵית דִּין חֲבֵירוֹ עַד שֶׁיְּהֵא גָדוֹל מִמֶּנּוּ בְחָכְמָה וּבְמִינְיָין. רִבִּי קְרוּסְפִּי בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן שֶׁאִם בִּקְּשׁוּ לַחֲרוֹשׁ יַחֲרוֹשׁוּ. וְיַעַקְרוּ אוֹתָן מִן הַמִּשְׁנָה. רִבִּי קְרוּסְפִּי בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן שֶׁאִם בִּקְּשׁוּ לַחֲזוֹר יַחֲזוֹרוּ.

A guemará pergunta: e se assim (se a Torá proíbe lavrar já a partir do momento em que isso beneficiaria o sétimo ano, o que pode ser bem antes de Rosh Hashaná), por que se diz que se lavra até Rosh Hashaná (isto é, por que se ensina noutro lugar que a lavra é permitida até o próprio início do sétimo ano)? Disse Rabi Krusspi, em nome de Rabi Yochanan: Rabán Gamliel e seu tribunal permitiram, quanto à proibição dos dois primeiros perakim (isto é, suspenderam, para a prática, a proibição derivada do versículo, permitindo lavrar até Rosh Hashaná). Rabi Yochanan perguntou: não é assim que ensinamos (Mishná Eduyot 1:5): nenhum tribunal pode anular as palavras de outro tribunal, a menos que seja maior do que ele em sabedoria e em número? Como pôde então o tribunal de Rabán Gamliel anular uma proibição já derivada da própria Torá pela guemará? Disse Rabi Krusspi, em nome de Rabi Yochanan: que, se quiserem lavrar (seguindo a permissão do tribunal de Rabán Gamliel), que lavrem — mas que a arranquem da Mishná (isto é, que a prática seja seguida de fato, mas sem que a permissão seja registrada como halachá formal e definitiva, evitando assim o problema de um tribunal menor anular o de um maior). Disse Rabi Krusspi, em nome de Rabi Yochanan: que, se quiserem retornar (à proibição original), que retornem.

03A objeção de Rabi Yona: a parashá da consagração e a do dilúvio permanecem escritas para dar a conhecer — e a precisão de Rabi Mana na transmissão da tradição
Yerushalmi · Sheviit 1:1
הָתִיב רִבִּי יוֹנָה הֲרֵי פָּרְשַׁת מִילּוּאִין הֲרֵי פָּרְשַׁת דּוֹר הַמַּבּוּל הֲרֵי אֵינָן עֲתִידִין לַחֲזוֹר מֵעַתָּה יַעַקְרוּ אוֹתָן מִן הַמִּשְׁנָה. אֶלָּא כְדֵי לְהוֹדִיעָךְ. וְכָא כְדֵי לְהוֹדִיעָךְ. אָמַר רִבִּי מָנָא כַּיי דְתַנִּינָן תַּמָּן שֶׁאִם יֹאמַר אָדָם כָּךְ אֲנִי מְקוּבָּל יֹאמְרוּ לוֹ כְדִבְרֵי רִבִּי אִישׁ פְּלוֹנִי שָׁמַעְתָּ. וְכֵן שֶׁאִם יֹאמַר אָדָם שָׁמַעְתִּי שֶׁאָסוּר לַחֲרוֹשׁ עַד רֹאשׁ הַשָּׁנָה יֹאמַר לוֹ בְּאִיסּוּר שְׁנֵי פְּרָקִים הָרִאשׁוֹנִים שָׁמַעְתָּ.

Objetou Rabi Yona: eis a seção sobre os sacrifícios de consagração (parashat miluim, Vaicrá 8–9, cujas leis não têm mais aplicação prática desde que o Mishcan e o serviço de consagração dos sacerdotes cessaram), eis a seção sobre a geração do dilúvio (parashat dor hamabul, Bereshit 6–9) — elas não estão destinadas a retornar (isto é, essas passagens descrevem eventos ou leis que não voltarão a se repetir ou vigorar); e, se assim, segundo a tua lógica, deveriam arrancá-las também do texto transmitido! Mas permanecem escritas a fim de te dar a conhecer (o que ocorreu, mesmo sem vigência prática atual). Também aqui (quanto à permissão de Rabán Gamliel de lavrar até Rosh Hashaná), é a fim de te dar a conhecer (o que se passou, ainda que a prática já tenha retornado à proibição original). Disse Rabi Mana: isso é como ensinamos ali (Mishná Eduyot 1:3): que, se um homem disser "assim eu recebi por tradição", dir-lhe-ão: "segundo as palavras de Rabi Fulano ouviste isso" (isto é, corrige-se a formulação vaga de uma tradição recebida, atribuindo-a com precisão à sua fonte). E do mesmo modo, se um homem disser "ouvi que é proibido lavrar até Rosh Hashaná", dir-lhe-ão: "quanto à proibição dos dois primeiros perakim ouviste isso" (corrigindo a formulação simples e absoluta para a formulação precisa e tecnicamente correta, que reconhece a distinção entre a proibição bíblica derivada e a permissão prática posterior).

04Rabi Acha em nome de Rabi Yonatan: quando proibiram apoiaram-se no versículo, e quando permitiram apoiaram-se no versículo
Yerushalmi · Sheviit 1:1
רִבִּי אָחָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָתָן בְּשָׁעָה שֶׁאָסְרוּ לַמִּקְרָא סָמְכוּ וּבְשָׁעָה שֶׁהִתִּירוּ לַמִּקְרָא סָמְכוּ. בְּשָׁעָה שֶׁאָסְרוּ לַמִּקְרָא סָמְכוּ בֶּחָרִישׁ וּבַקָּצִיר תִּשְׁבּוֹת בֶּחָרִישׁ שֶׁקְּצִירוֹ אָסוּר וְאֵי זֶה זֶה זֶה חָרִישׁ שֶׁל עֶרֶב שְׁבִיעִית שֶׁהוּא נִכְנַס לַשְּׁבִיעִית. וּבַקָּצִיר שֶׁחָרִישׁוֹ אָסוּר וְאֵי זֶה זֶה זֶה קְצִיר שֶׁל שְׁבִיעִית שֶהוּא יוֹצֵא לְמוֹצָאֵי שְׁבִיעִית. וּבְשָׁעָה שֶׁהִתִּירוּ לַמִּקְרָא סָמְכוּ. שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבוֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ מַה עֶרֶב שַׁבָּת בְּרֵאשִׁית אַתְּ מוּתָּר לַעֲשׂוֹת מְלָאכָה עַד שֶׁתִּשְקַע הַחַמָּה אַף עֶרֶב שַׁבְּתוֹת שָׁנִים אַתְּ מוּתָּר לַעֲשׂוֹת מְלָאכָה עַד שֶׁתִּשְקַע הַחַמָּה.

Disse Rabi Acha, em nome de Rabi Yonatan: no momento em que proibiram (a lavra próxima ao sétimo ano), apoiaram-se no versículo; e no momento em que permitiram (a lavra até Rosh Hashaná), também apoiaram-se no versículo. No momento em que proibiram, apoiaram-se em "na lavra e na colheita descansarás" — na lavra cuja colheita é proibida, e qual é essa? É a lavra da véspera do sétimo ano, que entra no sétimo ano; e na colheita cuja lavra é proibida, e qual é essa? É a colheita do sétimo ano, que sai para o pós-sétimo ano. E no momento em que permitiram, apoiaram-se em (Shemot 34:21): "seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra" — assim como na véspera do shabat da Criação és permitido a fazer trabalho até que o sol se ponha, também na véspera dos shabatot de anos és permitido a fazer trabalho até que o sol se ponha (isto é, até o próprio momento em que entra o sétimo ano, em Rosh Hashaná, e não antes disso — fundamentando assim, a partir de um segundo versículo, a permissão de lavrar até essa data).

05Por que até Atzeret: até ali é bom para o fruto, depois enfraquece a árvore — mas quem lavra depois não tem intenção voltada para o trabalho da terra
Yerushalmi · Sheviit 1:1
וְלָמָּה עַד הָעֲצֶרֶת עַד כָּאן הוּא יָפֶה לַפֶּרִי מִיכָּן וָאֵילַךְ הוּא מְנַבֵּל פֵּירוֹתֵיו. וְהָא תַנִּינָן אֶחָד אִילַן סְרָק וְאֶחָד אִילַן מַאֲכָל עַד כָּאן הוּא מְעַבֶּה אֶת הָכּוֹרֶת מִיכָּן וְהֵילַךְ הוּא מַתִּישׁ אֶת כּוֹחוֹ. וְיַחֲרוֹשׁ מִתּוֹךְ שֶׁהוּא יוֹדֵעַ שֶׁהוּא מַתִּישׁ כּוֹחוֹ שֶׁל אִילָן אַף הוּא אֵינוֹ מִתְכַּוֵּין לַעֲבוֹדַת הָאָרֶץ.

A guemará pergunta: e por que Bet Hilel fixou o limite até Atzeret? Até ali a lavra é boa para o fruto; daqui em diante ela deteriora seus frutos (isto é, depois de Atzeret, lavrar já não beneficia o fruto que amadurece naquele ano — ao contrário, prejudica-o). A guemará objeta: mas não ensinamos (Mishná Sheviit 2:3) que, tanto a árvore estéril quanto a árvore frutífera, até ali a lavra engrossa o tronco, e daqui em diante ela enfraquece sua força (isto é, depois de Atzeret a lavra prejudica a própria árvore, não apenas o fruto — o que deveria, se algo, tornar essa lavra ainda mais indesejável, e não apenas neutra)? A guemará responde: e lavrará, sabendo ele que isso enfraquece a força da árvore? Sim — precisamente porque se sabe que a lavra depois de Atzeret prejudica a árvore, também ele (quem ainda assim lavra depois de Atzeret) não tem intenção voltada para o trabalho da terra (isto é, não pode ser essa lavra tardia considerada um preparo proibido em vista do sétimo ano, pois ninguém a faria com esse propósito, sabendo que ela prejudica; por isso é permitida, apesar de próxima a Shevi'it).

06Fechamento: por que a disputa não se classifica como leniência de Bet Shamai e severidade de Bet Hilel — depende da disponibilidade das chuvas
Yerushalmi · Sheviit 1:1
וְלָמָּה לֹא תַנִּיתָהּ מִקּוּלֵּי בֵית שַׁמַּאי וּמֵחוּמְרֵי בֵית הִלֵּל. פְּעָמִים שֶׁאֵין הַגְּשָׁמִים מְצוּיִין וְאֵין הַלֵּיחָה מְצוּיָה וְהוּא עָתִיד לַחֲרוֹשׁ קוֹדֶם לָעֲצֶרֶת כְדִבְרֵי בֵית שַׁמַּאי. בֵּית הִלֵּל אוֹמְרִים עַד הָעַצֶּרֶת.

A guemará pergunta: e por que não a ensinaste (a esta disputa) entre as leniências de Bet Shamai e as severidades de Bet Hilel (isto é, por que a Mishná não a classificou, como de costume noutras disputas, dizendo simplesmente qual posição é mais leniente e qual é mais severa)? Porque há vezes em que as chuvas não são abundantes, e a umidade do solo não é abundante, e ele (o agricultor) está destinado a lavrar antes de Atzeret, conforme as palavras de Bet Shamai (pois, em ano seco, o período em que a lavra ainda beneficia o fruto termina antes de Atzeret, tornando a posição de Bet Shamai, nesse caso, mais restritiva do que a de Bet Hilel); enquanto Bet Hilel diz: até Atzeret (permitindo lavrar até essa data fixa, mesmo quando, naquele ano seco, isso já não seja bom para o fruto — sendo, nesse caso, mais leniente do que Bet Shamai). Por isso a disputa não pode ser classificada de modo fixo como leniência de uma casa e severidade da outra, pois isso varia conforme as condições de cada ano — o que já é indicado pela própria Mishná ao concluir que as duas opiniões se aproximam uma da outra.

Nota

Esta é a primeira halachá de Massechet Sheviit, abrindo o tratado: a Mishná pergunta até quando se lavra no campo da árvore na véspera do sétimo ano, com Bet Shamai permitindo enquanto for bom para o fruto e Bet Hilel fixando o limite em Atzeret — duas opiniões que, na prática, se aproximam.

A guemará deriva dos versículos "seis dias farás teu trabalho, e no sétimo dia descansarás" e "na lavra e na colheita descansarás" que esta última frase, sendo supérflua tanto para o shabat semanal quanto para os shabatot de anos em geral, refere-se à proibição dos dois primeiros perakim do sétimo ano: a lavra da véspera que entra em Shevi'it, e a colheita de Shevi'it que sai para o ano seguinte.

Discute-se então por que, apesar dessa proibição bíblica, se ensina que se lavra até Rosh Hashaná — resposta atribuída a Rabán Gamliel e seu tribunal, que a guemará defende da objeção de Rabi Yochanan sobre um tribunal anular outro, distinguindo entre a prática e o registro formal na Mishná. Rabi Yona compara essa permanência textual com a parashá da consagração e a do dilúvio, e Rabi Mana aplica o mesmo princípio à formulação precisa da tradição oral recebida.

Segue Rabi Acha, em nome de Rabi Yonatan, mostrando que tanto a proibição quanto a permissão se apoiam em versículos distintos. A halachá fecha explicando por que Bet Hilel fixa Atzeret — limite depois do qual a lavra já não beneficia o fruto e enfraquece a árvore, mas ainda assim é permitida, por faltar-lhe intenção de trabalho da terra —, e por que a disputa entre as casas não se classifica simplesmente como leniência e severidade, já que isso depende da disponibilidade das chuvas em cada ano particular.