Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Hei · Mishná 5 de 6

Este boi, esta casa: a palavra “sobre mim” que gera responsabilidade

שׁוֹר זֶה עוֹלָה בַּיִת זֶה קָרְבָּן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Consagração direta versus voto de trazer: o que ocorre se o boi morre ou a casa desaba antes da entrega

Este boi é holocausto, esta casa é oferenda — e morreu o boi e caiu a casa — não é obrigado a pagar. O preço deste boi está sobre mim como holocausto, ou o preço desta casa está sobre mim como oferenda — e morreu o boi e caiu a casa — é obrigado a pagar.

— Esta mishná desloca a discussão dos votos sobre pessoas para os votos sobre bens materiais, e isola uma distinção formal decisiva: a diferença entre consagrar diretamente um objeto específico (“este boi é holocausto”) e comprometer-se a trazer o preço de um objeto como oferenda (“o preço deste boi está sobre mim”). Quando alguém diz “este boi é holocausto” ou “esta casa é oferenda”, sem acrescentar “sobre mim”, a consagração recai imediata e exclusivamente sobre aquele animal ou aquela casa específicos — e se esse boi morre ou essa casa desaba antes de serem efetivamente entregues ao Templo, a pessoa nada mais deve, pois nunca se obrigou pessoalmente a garantir a existência do objeto, apenas o consagrou como estava. Mas quando alguém diz “o preço deste boi está sobre mim” ou acrescenta a expressão “sobre mim” ao consagrar, a fórmula cria uma obrigação pessoal, paralela à consagração do objeto: a pessoa se compromete a garantir que o Templo receba o valor correspondente, independentemente do que aconteça ao objeto original. Por isso, se esse boi morre ou essa casa desaba antes da entrega, a pessoa continua obrigada a pagar o preço equivalente do próprio bolso — a palavra “sobre mim” transformou uma consagração de objeto em uma dívida pessoal.

שׁוֹר זֶה עוֹלָה, בַּיִת זֶה קָרְבָּן, מֵת הַשּׁוֹר וְנָפַל הַבַּיִת, אֵינוֹ חַיָּב לְשַׁלֵּם. דְּמֵי שׁוֹר זֶה עָלָי עוֹלָה, אוֹ דְּמֵי בַיִת זֶה עָלָי קָרְבָּן, מֵת הַשּׁוֹר וְנָפַל הַבַּיִת, חַיָּב לְשַׁלֵּם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 5:5
שור זה עולה ובית זה קרבן מת השור (או) ונפל כו': הענין הזה מבואר מאליו ולא אמר אותו אלא כדי שלא תדמה שאם מת השור שאינו חייב כלום לפי שאין דמים למתים לפיכך הודיעך שמשערין כמה הוא שוה כשהוא מת שאין אנו אומרים אין דמים למתים אלא במין אדם בלבד:

Rambam observa que este assunto é evidente por si só, e a mishná só o enunciou para que não se pensasse, por analogia com o princípio de que “não há preço para os mortos” aplicado às pessoas, que o mesmo valeria aqui — ou seja, que a morte do boi o isentaria de pagar. Por isso a mishná esclarece que, no caso de bens materiais, avalia-se quanto o boi valia mesmo depois de morto, pois o princípio de que não há preço para os mortos se aplica exclusivamente à espécie humana, não a animais ou bens.

Bartenura · Arachin 5:5
בַּיִת זֶה קָרְבָּן. לְבֶדֶק הַבַּיִת: וְנָפַל הַבַּיִת. קֹדֶם שֶׁהֶחְזִיק בּוֹ גִּזְבָּר: מֵת הַשּׁוֹר וְכוּ' חַיָּב לְשַׁלֵּם. וְלֹא אָמְרִינַן אֵין דָּמִים לַמֵּתִים אֶלָּא בְאָדָם בִּלְבַד:

Bartenura precisa que “esta casa é oferenda” refere-se à manutenção do prédio do Templo, e que “caiu a casa” se refere ao caso em que ela desabou antes que o tesoureiro do Templo a tomasse posse. E confirma que, quando o voto foi feito “sobre mim”, a pessoa é obrigada a pagar mesmo depois da morte do boi, pois o princípio de que não há preço para os mortos aplica-se apenas à espécie humana.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 20b, sobre a Guemará desta mishná
ובית זה קרבן — לבדק הבית: ונפל הבית — קודם שהחזיק בו גזבר: לא שנו — דכי אמר עלי חייב לשלם אלא דאמר דמי עלי דאם אבד השור הדמים לא אבדו דהא לא אמר דמים הללו ולא היו בעין: עלי להביאו — לטרוח עד שיתקרב:

Rashi confirma que “esta casa é oferenda” se refere à manutenção do prédio do Templo, e que a queda mencionada é anterior à tomada de posse pelo tesoureiro. Explica ainda a distinção da Guemará sobre a fórmula exata que gera a obrigação: quando a pessoa disse “o preço deste boi está sobre mim”, ela se comprometeu com uma soma em dinheiro, e não com o boi específico — por isso, se o boi morre, a soma em dinheiro não se perde junto com ele, pois nunca foi essa soma específica que estava fisicamente presente, mas uma obrigação pessoal de trazê-la até que a oferenda se complete.