Tanto quem consagra seus bens quanto quem avalia a si mesmo — não tem direito nem sobre a vestimenta de sua mulher nem sobre a vestimenta de seus filhos, nem sobre as tinturas que tingiram em nome deles, nem sobre sandálias novas que comprou para eles. Ainda que tenham dito: os escravos são vendidos com sua vestimenta para melhor valor — por exemplo, se comprou para ele um escravo vestimenta de trinta dinares, essa valoriza o escravo em cem dinares. E o mesmo quanto à vaca: se esperou por ela até que chegasse ao dia de feira, valoriza-se. E o mesmo quanto à pérola: se a trouxe à cidade grande, valoriza-se. Mas o consagrado não tem senão o seu lugar e o seu momento.
— A última mishná do perek fecha com dois princípios complementares que limitam o alcance da consagração e da avaliação de uma pessoa. O primeiro retoma e generaliza o que já se via na mishná anterior sobre os obrigados a valores fixos: tanto quem consagra a totalidade de seus bens ao Templo quanto quem faz o voto de avaliar a si mesmo (erech) não têm, em nenhum dos dois casos, qualquer direito sobre os pertences pessoais de sua mulher e de seus filhos — nem suas roupas, nem tecidos tingidos especificamente para eles, nem mesmo sandálias novas já compradas para seu uso, ainda que tecnicamente ainda não usadas. O segundo princípio, mais elaborado, trata de uma tentação oposta: a de o tesoureiro do Templo tentar extrair o valor máximo teoricamente alcançável por um bem, adiando sua venda até encontrar as condições ideais de mercado. A mishná reconhece que, no comércio comum, escravos se vendem por mais quando trajam boas roupas, que uma vaca vale mais se aguardada até o dia de feira, e que uma pérola vale mais se levada à cidade grande, onde há compradores dispostos a pagar mais — mas insiste que, para o consagrado, essa lógica especulativa não se aplica: o Templo recebe apenas o valor que o bem tem, no seu lugar e no seu momento presentes, sem que se possa exigir do devedor que aguarde ou viaje para maximizar o preço em benefício do tesouro.
Rambam funda a regra final diretamente no versículo “e no mesmo dia se pagará a avaliação” (Vayikrá 27:23): a Torá exige que o pagamento se faça sem demora, e da continuação, “consagrada ao Eterno”, entende-se que todo bem consagrado de modo genérico, destinado à manutenção do Templo, tem esse mesmo regime: não se posterga seu prazo, nem se transfere sua venda visando algum benefício futuro, pois esse eventual ganho não é certo — é apenas uma possibilidade, e às vezes, ao tentarmos aumentar o valor com essas manobras, acabamos causando o efeito oposto e diminuindo o preço. Por isso chegamos ao princípio geral: não se especula comercialmente com bens do consagrado, e o mesmo vale para bens destinados aos pobres.
Bartenura explica que ele não tem direito sobre a vestimenta de sua mulher e de seus filhos porque esses bens simplesmente não são dele. Sobre “que tingiram em nome deles”: significa especificamente em nome de sua mulher e de seus filhos. Sobre “sandálias novas”: a mishná ensina algo notável — mesmo que ainda não as tenham calçado, já se consideram posse deles desde o momento da compra, e não do consagrante. Sobre a vestimenta que valoriza escravos: uma roupa bonita os valoriza e eleva seu preço — como se vê, por exemplo, em relação aos bens de órfãos, onde, se se compra para um escravo uma vestimenta de trinta dinares, ele se valoriza em cem dinares acima do preço que valia antes. “Ao dia de feira” refere-se ao dia de mercado; “à cidade grande” porque é costume dos mercadores irem até lá comprar pérolas por preços mais altos. “O consagrado não tem senão o seu lugar” aplica-se à pérola, e “o seu momento” aplica-se ao escravo, pois está escrito “e no mesmo dia se pagará a avaliação”, ensinando que não se deve adiar o pagamento; e “consagrada ao Eterno” implica que tudo o que é consagrado ao Eterno, como as doações genéricas destinadas à manutenção do Templo, deve ser entregue no mesmo dia, imediatamente, sem demora.
Rashi confirma, cláusula por cláusula, que a vestimenta da mulher e dos filhos não pertence ao consagrante, que “em nome deles” significa em nome da mulher e dos filhos especificamente, e que a menção às sandálias novas nos ensina algo notável: mesmo que ainda não tenham sido usadas, já pertencem à mulher e aos filhos desde o momento em que foram adquiridas. Sobre a vestimenta que valoriza escravos, ilustra com o exemplo dos bens de órfãos: uma vestimenta de trinta dinares comprada para um escravo pode valorizá-lo em cem dinares acima do que valia. Sobre a expressão final, explica que “seu lugar” refere-se à pérola e “seu momento” ao escravo e à vaca: quando alguém pobre faz o voto de avaliar a si mesmo e paga conforme sua capacidade, e possui um escravo avaliado agora em vinte zuz, não se diz que se deve considerar como se lhe tivessem comprado uma roupa de trinta zuz, elevando seu valor de venda para cento e vinte zuz, e cobrar do dono a diferença — avalia-se apenas pelo seu momento presente. E o mesmo vale para a vaca e para a pérola: numa aldeia, não se avalia senão conforme o valor local daquele lugar.