Uma cidade cujos telhados formam sua muralha, e a que não está cercada por muralha desde os dias de Yehoshua bin Nun, não é como as casas de cidades muralhadas. E estas são as casas de cidades muralhadas: três pátios de duas casas cada, cercados por muralha desde os dias de Yehoshua bin Nun, como a antiga Katzrá de Tzipori, e Chakrá de Gush Chalav, e a antiga Yodfat, e Gamla, e Gedod, e Chadid, e Ono, e Jerusalém, e semelhantes a estas.
— A mishná precisa agora o que conta como “cidade muralhada” para efeito desta lei. Uma cidade cujas casas simplesmente se encostam umas às outras, formando com seus telhados contínuos algo que parece uma muralha, mas sem que uma muralha de fato tenha sido construída, não se qualifica — a Torá exige uma muralha real, não uma aparência de proteção. Da mesma forma, uma cidade que não estava cercada por muralha desde a época da conquista da terra por Yehoshua bin Nun não se qualifica, mesmo que uma muralha tenha sido erguida posteriormente: o estatuto depende da condição da cidade naquele momento histórico específico, não da situação atual. A mishná então define o tamanho mínimo: uma cidade precisa ter ao menos três pátios, cada um contendo duas casas, cercada por muralha desde os dias de Yehoshua — e cita cidades conhecidas que preenchiam essa condição, entre elas a antiga fortaleza de Tzipori, a fortaleza de Gush Chalav, a antiga Yodfat, Gamla, Gedod, Chadid, Ono, e a própria Jerusalém.
Rambam resume o princípio central da mishná em uma regra simples e memorável: o que importa é a condição da cidade na época da conquista de Yehoshua, não sua condição atual. Uma cidade que estava murada então, mesmo que hoje tenha perdido sua muralha, mantém o estatuto pleno de cidade muralhada. E uma cidade que não estava murada então, mesmo que hoje esteja cercada por uma muralha nova, é tratada como campo aberto, sem o estatuto especial.
Bartenura explica que uma cidade “cujos telhados formam sua muralha” é aquela que nunca teve uma muralha construída propositalmente, mas apenas casas justapostas cuja continuidade cria uma barreira acidental. Confirma o princípio de que a condição na época de Yehoshua é o que determina o estatuto, independentemente da situação atual. E sobre a menção de Jerusalém na lista de cidades muralhadas, traz uma dificuldade conhecida: sabe-se que uma casa vendida em Jerusalém a Cidade Santa nunca se torna definitivamente perdida ao vendedor — ela pode sempre ser resgatada, mesmo depois de um ano. Por isso, alguns entendem que existiam duas cidades chamadas Jerusalém, e que a mishná se refere aqui a uma Jerusalém diferente da Cidade Santa, também murada desde os dias de Yehoshua, onde a casa vendida segue a regra comum das cidades muralhadas.
Rashi confirma que uma cidade “cujos telhados formam sua muralha” nunca teve uma muralha real construída — apenas a continuidade das próprias casas criando uma barreira. Sobre o tamanho mínimo, confirma que dois pátios já bastam para chamar o lugar de cidade, desde que haja três deles com duas casas cada. E sobre a base textual do princípio de que basta ter sido muralhada nos dias de Yehoshua, ainda que hoje não o seja, Rashi aponta um recurso da grafia bíblica: a palavra que a Torá usa para “muralha” nesse contexto está escrita de um jeito que pode ser lido tanto como “não tem” quanto como “tem para ele” — sugerindo que mesmo uma cidade que não tem muralha agora, mas teve antes, mantém o estatuto de casa definitivamente perdida ao vendedor.