Rambam explica que “o ofício mundano” [derech eretz] se refere ao que se ocupa do próprio sustento; e quanto a “traz pecado”, já se explicou em outro lugar que significa que acaba assaltando as pessoas por necessidade. E quanto a “e vós, eu vos credito grande recompensa como se tivésseis realizado”, é palavra do Eterno para os que labutam com a comunidade — pois às vezes deixam de cumprir algum preceito enquanto se ocupam das necessidades públicas, e Ele lhes credita recompensa como se tivessem cumprido aquele preceito, mesmo não o tendo feito, por se terem ocupado com a comunidade por amor ao Céu.
Bartenura explica que “ofício mundano” [derech eretz] é trabalho ou comércio. Sobre “pois a labuta de ambos faz esquecer o pecado”, explica que a Torá desgasta a força do homem, e o trabalho fatiga e quebranta o corpo, e assim a inclinação ao mal fica anulada nele. Sobre “e toda Torá que não tem consigo trabalho”, explica: se se dissesse que basta labutar sempre na Torá, cuja labuta já faz esquecer o pecado, para que serviria o trabalho? — por isso foi necessário dizer que toda Torá sem trabalho, no fim é abandonada, pois é impossível viver sem sustento, e o homem acaba assaltando as pessoas e esquecendo o que aprendeu. Sobre “que labutem com eles por amor ao Céu”, explica que não deve ser para receber uma coroa, dizendo ‘eis o que fiz pela comunidade’. Sobre “pois o mérito de seus pais os ajuda”, explica que é o mérito dos pais da comunidade, e sua justiça que permanece para sempre, que ajuda os que labutam com ela a revelar sua retidão — e não o mérito do próprio esforço de quem labuta. E sobre “e vós, eu vos credito grande recompensa”, explica: ainda que o resultado bom não venha por causa dos próprios atos, mas pelo mérito dos pais da comunidade, é-lhes creditada recompensa como se eles próprios tivessem realizado essa salvação em Israel, já que labutaram por amor ao Céu; e traz ainda a explicação de Rambam, segundo a qual, se durante a ocupação com a comunidade se deixou de cumprir algum preceito por causa dos negócios públicos, credita-se recompensa como se o tivessem cumprido.
Rashi anota que “filho de Rabi Yehudá HaNassi” é o nosso mestre, o Santo [Rabi]. Sobre “pois a labuta de ambos faz esquecer o pecado”, explica que, ocupando-se em aprender e em negociar para se sustentar, o homem não cobiça nem rouba bens alheios. Sobre “no fim é abandonada e traz pecado”, explica que assim está escrito na mishná, pois é impossível viver sem sustento, e o homem acaba assaltando as pessoas e esquecendo seu estudo. Sobre “e todos os que labutam com a comunidade, que labutem com eles por amor ao Céu”, explica que, ainda que labutem com eles, o mérito de seus pais os ajuda. E sobre “e vós, eu vos credito recompensa como se tivésseis feito”, explica que é como se a coisa se tivesse realizado por causa deles, já que se ocuparam por amor ao Céu.