Rambam explica que já se ensinou, no quarto capítulo, que não se deve apartar da comunidade senão por causa de sua corrupção; e diz que o homem, ainda que tenha adquirido e fortalecido em si um caráter estimável, não deve deixar de repetir a prática do bem para reforçar essa firmeza, nem confiar dizendo ‘esta virtude já é minha e não pode se perder’ — pois é possível que se perca, e este é o sentido de “até o dia da tua morte”. E “algo que não pode ser ouvido” refere-se a algo cujo sentido literal parece muito distante e sem base, mas que, examinado com cuidado, revela-se correto; adverte-se aqui que as palavras não devem exigir interpretação distante e exame excessivo para serem compreendidas pelo ouvinte. “Quando eu tiver tempo livre” significa “quando estiver livre desta ocupação”, o que se assemelha ao que já disse Shamai, seu colega: “faze da tua Torá algo fixo”.
Bartenura explica que “faze a vontade dEle como se fosse a tua vontade” significa dispor os próprios bens conforme os desejos do Céu, como se dispusesse conforme os próprios desejos — pois, se assim se fizer, Ele fará a vontade do homem como se fosse a Sua, dando-lhe o bem de bom grado. Sobre “para que Ele anule a vontade de outros diante da tua vontade”, explica que Ele frustrará o plano de todos os que se levantam contra o homem para o mal — havendo quem ouça nisso apenas uma forma de honra para com o Alto, como se estivesse escrito ‘para que Ele anule a Sua vontade diante da tua vontade’, à semelhança do que se disse em Shabat: quem cumpre um preceito como é devido, mesmo um decreto de setenta anos se anula sobre ele. Sobre “não te apartes da comunidade”, explica que se deve participar de sua angústia, pois todo aquele que se aparta da comunidade não vê o consolo da comunidade. Sobre “não confies em ti mesmo até o dia da tua morte”, traz o caso de Yochanan, o Sumo Sacerdote, que serviu oitenta anos e ao final se tornou saduceu. Sobre “não julgues o teu próximo até chegares ao seu lugar”, explica que, se se vê o companheiro em provação e ele tropeça, não se deve julgá-lo culpado até se chegar a uma provação semelhante e se ser salvo dela. Sobre “não digas algo que não pode ser ouvido, pois no fim será ouvido”, explica que as palavras não devem ser tão obscuras que não possam ser entendidas de imediato, confiando que o ouvinte, aprofundando-se, no fim as entenderá — pois isso leva as pessoas a errar, podendo até resvalar para a heresia; traz ainda outra explicação, segundo a qual não se deve revelar o próprio segredo nem a si mesmo, pois no fim será ouvido, já que a ave do céu leva a voz; e anota que Rashi lê de modo diferente, referindo-se a palavras de Torá: não adiar para depois o que se pode ouvir agora, mas inclinar os ouvidos e ouvir de imediato. E sobre “quando eu tiver tempo livre”, explica: livre dos próprios afazeres, estudarei.
Rashi anota que “ele dizia” refere-se a Rabban Gamliel. Sobre “faze a Sua vontade como se fosse a tua vontade”, explica que mesmo ao fazer a própria vontade se deve fazê-la por amor ao Céu. Sobre “para que Ele faça a tua vontade como se fosse a dEle”, explica que assim se concederá do Céu o bem de bom grado. Sobre “anula a tua vontade diante da vontade dEle”, explica que se deve pensar a perda de um preceito diante do seu ganho. Anota que “Hillel diz” refere-se a Hillel, o Zaquen, já mencionado no primeiro capítulo. Sobre “não te apartes da comunidade”, explica que se deve participar com ela na sua angústia, para depois se alegrar com ela, pois todo aquele que não se une à comunidade não vê o consolo da comunidade nem sinal de bênção para sempre. Sobre “não confies em ti mesmo”, repete o caso de Yochanan, o Sumo Sacerdote. Sobre “até chegares ao seu lugar”, explica que é até que a provação chegue também a quem julga, e este seja salvo dela. E sobre “não digas algo...”, explica que não se deve adiar para depois o que se pode ouvir de Torá agora, mas inclinar o ouvido de imediato para ouvir.