Seder Nezikin · Massechet Bava Batra · Perek Vav · Mishná 1 de 8

O que se compra para comer ou para plantar

זֵרְעוֹנֵי גִנָּה שֶׁאֵינָן נֶאֱכָלִין, חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A primeira mishná do Perek Vav abre a sequência sobre defeitos na venda de produtos agrícolas: quando o próprio tipo do produto vendido é ambíguo — podendo servir tanto para consumo quanto para plantio — o vendedor não responde se o comprador o plantou e ele não brotou, pois pode alegar que vendeu para comer. Rabán Shimon ben Gamliel distingue as sementes de horta, que não se comem de modo algum.

Aquele que vende produtos a seu próximo e o comprador os plantou e não brotaram — mesmo que fosse semente de linho — não é responsável por eles.Quando o produto vendido é do tipo que se compra tanto para comer quanto para plantar, e não foi especificado o propósito da compra, o vendedor pode sempre alegar que vendeu para consumo — mesmo em relação à semente de linho, que a maioria compra para plantio, pois há quem a compre para comer, e em questões de dinheiro não se segue a maioria.

Rabán Shimon ben Gamliel diz: sementes de horta que não se comem, é responsável por elas.Rabán Shimon ben Gamliel distingue as sementes de plantas de horta — como as de repolho ou de alho-poró — que não servem de alimento algum; nesse caso, não há como o vendedor alegar que vendeu para consumo, e a venda se revela um engano de fato: certamente foram compradas para plantio.

הַמּוֹכֵר פֵּרוֹת לַחֲבֵרוֹ וְלֹא צִמְּחוּ, וַאֲפִלּוּ זֶרַע פִּשְׁתָּן, אֵינוֹ חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, זֵרְעוֹנֵי גִנָּה שֶׁאֵינָן נֶאֱכָלִין, חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bava Batra 6:1
הַמּוֹכֵר פֵּירוֹת לַחֲבֵירוֹ וְזָרְעָן וְלֹא צָמְחוּ כוֹ׳:
אֲפִילוּ זֶרַע פִּשְׁתָּן שֶׁאֵין לוֹקְחִין אוֹתוֹ עַל הָרוֹב אֶלָּא לִזְרִיעָה, וְהַכֹּל מוֹדִים שֶׁזַּרְעוֹנֵי גִנָּה שֶׁאֵינָן נֶאֱכָלִין חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן לִיתֵּן לוֹ דְּמֵיהֶם בִּלְבַד. וְרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר הַדָּמִים וְכָל מַה שֶּׁהִפְסִיד בִּשְׁבִיל הַזֶּרַע, כְּאִלּוּ אָמַר חַיָּב בְּאַחֲרָיוּת הַהוֹצָאָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל:

Rambam esclarece que mesmo a semente de linho — que a maioria não compra senão para plantio — está isenta, e todos concordam que, quanto às sementes de horta que não se comem de forma alguma, o vendedor é responsável por elas, devendo pagar apenas o valor de seu dinheiro. Já Rabán Shimon ben Gamliel entende que ele deve pagar o dinheiro e tudo o que o comprador perdeu por causa da semente — como se dissesse que é responsável também pela despesa investida. E a lei não segue Rabán Shimon ben Gamliel.

Bartenura · Bava Batra 6:1
הַמּוֹכֵר פֵּירוֹת. סְתָם, וְלֹא פֵּרֵשׁ לַאֲכִילָה אוֹ לִזְרִיעָה: אֲפִלּוּ זֶרַע פִּשְׁתָּן. דְּרֻבָּא קוֹנִים אוֹתוֹ לִזְרִיעָה, מָצֵי לְמֵימַר אֲנִי לַאֲכִילָה מְכַרְתִּיו. דְּאֵין הוֹלְכִין בְּמָמוֹן אַחַר הָרֹב: רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר וְכוּ׳. בַּגְּמָרָא מוֹקֵי כֻּלָּהּ מַתְנִיתִין אַלִּיבָּא דְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל. וַחֲסוּרֵי מִחַסְּרָא וְהָכִי קָתָנֵי: אֲפִלּוּ זֶרַע פִּשְׁתָּן אֵינוֹ חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן, הָא זֵרְעוֹנֵי גִּנָּה שֶׁאֵינָן נֶאֱכָלִין חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן, דִּבְרֵי רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל. שֶׁרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר זֵרְעוֹנֵי גִּנָּה שֶׁאֵינָן נֶאֱכָלִין חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן, דַּהֲוֵי מִקַּח טָעוּת, דְּוַדַּאי לִזְרִיעָה זַבְּנִינְהוּ:

Bartenura explica que "vende produtos" refere-se à venda sem especificação, sem dizer se é para comer ou para plantar; e que, sobre a semente de linho, embora a maioria a compre para plantio, o vendedor pode alegar que a vendeu para consumo, pois em questões monetárias não se segue a maioria. Traz também a leitura da Guemará, que reconstrói a mishná como incompleta, entendendo-a segundo Rabán Shimon ben Gamliel: mesmo semente de linho não gera responsabilidade — mas sementes de horta que não se comem geram responsabilidade, por constituírem venda enganosa, já que certamente foram vendidas para plantio.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashbam · רשב״ם
Bava Batra 92a, sobre a mishná (no lugar de Rashi)
מַתְנִי׳ הַמּוֹכֵר פֵּירוֹת — סְתָם וְלֹא פֵּירֵשׁ אִם לִזְרִיעָה אִם לַאֲכִילָה: וְזָרְעָן — הַלּוֹקֵחַ: וְלֹא צָמְחוּ — לֹא מִבָּעֲיָא פֵּירוֹת דְּאִיכָּא דְּזָבֵין לִזְרִיעָה וְאִיכָּא דְּזָבֵין לַאֲכִילָה וּמָצֵי לְמֵימַר לַאֲכִילָה מְכַרְתִּיו לָךְ וְאֵין כָּאן מִקַּח טָעוּת כְּלָל, אֶלָּא אֲפִילּוּ זֶרַע פִּשְׁתָּן דְּרוֹב הַפִּשְׁתָּן הַנִּקָּח בָּעוֹלָם לִזְרִיעָה קוֹנִין אוֹתוֹ, דְּכֵיוָן דְּאִיכָּא דְּזָבֵין נַמִּי לַאֲכִילָה, אֵינוֹ חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן, דְּמָצֵי לְמֵימַר לַאֲכִילָה מְכַרְתִּיו לָךְ, דְּבְמָמוֹנָא לָא אָזְלִינַן בָּתַר רוּבָּא. וְדַוְקָא זֶרַע פִּשְׁתָּן מִשּׁוּם דַּחֲזֵי לַאֲכִילָה, אֲבָל זַרְעוֹנֵי גִנָּה כְּגוֹן זֶרַע כְּרוּב וְקַפְלוֹט שֶׁאֵינוֹ נֶאֱכָל כְּלָל, חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן, שֶׁרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר זַרְעוֹנֵי כוֹ׳: חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתָן — דְּהָוֵי מִקַּח טָעוּת, וַהֲרֵי הוּא כְּעֵצִים שֶׁל זַיִת וְנִמְצָא שֶׁל שִׁקְמָה, יַיִן וְנִמְצָא חֹמֶץ, דְּהָוֵי מִקַּח טָעוּת. וְכָל שֶׁכֵּן בְּכָאן, דְּהָתָם מִיהָא אִיכָּא דְּנִיחָא לֵיהּ בְּהָכִי וְאִיכָּא דְּנִיחָא לֵיהּ בְּהָכִי, אֲבָל הָכָא כֵּיוָן דְּלַאֲכִילָה לֹא חֲזוּ וְלִזְרִיעָה לֹא חֲזוּ, אֵין לוֹ תַּקָּנָה אֶלָּא לְהַסָּקָה, וַאֲפִילּוּ דְּמֵי עֵצִים לֹא יְשַׁלֵּם לוֹ הַלּוֹקֵחַ, דְּהָא לֹא נֶהֱנָה בָּהֶם כְּלוּם, וְגַם לֹא שָׁלַח בָּהֶן יָד לְהִתְחַיֵּיב בְּאַחֲרָיוּתוֹ. וּכְאִלּוּ אָמַר לוֹ מוֹכֵר: לָךְ זְרַע אוֹתָם, דְּוַדַּאי לְזֶרַע זַבְּנִינְהוּ:

Rashbam explica que "vende produtos" é venda sem especificação, sem dizer se é para plantar ou para comer; "e plantou" refere-se ao comprador. Quanto a "não brotaram": não é apenas o caso comum de produtos que uns compram para plantar e outros para comer, onde o vendedor sempre pode dizer "vendi-o para comer" e não há engano algum na venda — mas mesmo a semente de linho, da qual a maior parte comprada no mundo se destina ao plantio, é adquirida assim; e como há quem a compre também para comer, o vendedor não é responsável, pois pode dizer "vendi-a para comer", já que em dinheiro não se segue a maioria. E isso vale especificamente para a semente de linho, por ser própria também para comer; mas sementes de horta, como semente de repolho e de alho-poró, que não se comem de modo algum, o vendedor é responsável por elas — pois Rabán Shimon ben Gamliel assim ensina. Explica ainda "é responsável por elas": trata-se de venda enganosa, semelhante a quem vende madeira de oliveira e se revela ser de sicômoro, ou vinho que se revela vinagre — casos de engano na compra. E aqui é ainda mais grave, pois lá ao menos há quem se satisfaça com um resultado e quem se satisfaça com outro, mas aqui, como não servem para comer nem para plantar, não há remédio senão queimá-las como lenha — e o comprador nem sequer paga o valor da lenha, pois não obteve proveito algum delas, nem tampouco "estendeu a mão" sobre elas de modo a assumir responsabilidade por sua guarda. É como se o vendedor lhe tivesse dito "planta-as", pois certamente foram vendidas para plantio.