Aquele que vende produtos a seu próximo e o comprador os plantou e não brotaram — mesmo que fosse semente de linho — não é responsável por eles. — Quando o produto vendido é do tipo que se compra tanto para comer quanto para plantar, e não foi especificado o propósito da compra, o vendedor pode sempre alegar que vendeu para consumo — mesmo em relação à semente de linho, que a maioria compra para plantio, pois há quem a compre para comer, e em questões de dinheiro não se segue a maioria.
Rabán Shimon ben Gamliel diz: sementes de horta que não se comem, é responsável por elas. — Rabán Shimon ben Gamliel distingue as sementes de plantas de horta — como as de repolho ou de alho-poró — que não servem de alimento algum; nesse caso, não há como o vendedor alegar que vendeu para consumo, e a venda se revela um engano de fato: certamente foram compradas para plantio.
Rambam esclarece que mesmo a semente de linho — que a maioria não compra senão para plantio — está isenta, e todos concordam que, quanto às sementes de horta que não se comem de forma alguma, o vendedor é responsável por elas, devendo pagar apenas o valor de seu dinheiro. Já Rabán Shimon ben Gamliel entende que ele deve pagar o dinheiro e tudo o que o comprador perdeu por causa da semente — como se dissesse que é responsável também pela despesa investida. E a lei não segue Rabán Shimon ben Gamliel.
Bartenura explica que "vende produtos" refere-se à venda sem especificação, sem dizer se é para comer ou para plantar; e que, sobre a semente de linho, embora a maioria a compre para plantio, o vendedor pode alegar que a vendeu para consumo, pois em questões monetárias não se segue a maioria. Traz também a leitura da Guemará, que reconstrói a mishná como incompleta, entendendo-a segundo Rabán Shimon ben Gamliel: mesmo semente de linho não gera responsabilidade — mas sementes de horta que não se comem geram responsabilidade, por constituírem venda enganosa, já que certamente foram vendidas para plantio.
Rashbam explica que "vende produtos" é venda sem especificação, sem dizer se é para plantar ou para comer; "e plantou" refere-se ao comprador. Quanto a "não brotaram": não é apenas o caso comum de produtos que uns compram para plantar e outros para comer, onde o vendedor sempre pode dizer "vendi-o para comer" e não há engano algum na venda — mas mesmo a semente de linho, da qual a maior parte comprada no mundo se destina ao plantio, é adquirida assim; e como há quem a compre também para comer, o vendedor não é responsável, pois pode dizer "vendi-a para comer", já que em dinheiro não se segue a maioria. E isso vale especificamente para a semente de linho, por ser própria também para comer; mas sementes de horta, como semente de repolho e de alho-poró, que não se comem de modo algum, o vendedor é responsável por elas — pois Rabán Shimon ben Gamliel assim ensina. Explica ainda "é responsável por elas": trata-se de venda enganosa, semelhante a quem vende madeira de oliveira e se revela ser de sicômoro, ou vinho que se revela vinagre — casos de engano na compra. E aqui é ainda mais grave, pois lá ao menos há quem se satisfaça com um resultado e quem se satisfaça com outro, mas aqui, como não servem para comer nem para plantar, não há remédio senão queimá-las como lenha — e o comprador nem sequer paga o valor da lenha, pois não obteve proveito algum delas, nem tampouco "estendeu a mão" sobre elas de modo a assumir responsabilidade por sua guarda. É como se o vendedor lhe tivesse dito "planta-as", pois certamente foram vendidas para plantio.