Os fiapos que o lavandeiro retira são seus; e os que o cardador retira são do dono da casa. — Quando o lavandeiro lava e alveja a roupa de lã, ele naturalmente remove uma pequena quantidade de fiapos soltos por meio da lavagem — e como o cliente presumivelmente não se importa com essa quantidade mínima, esses fiapos pertencem ao próprio lavandeiro. Já o cardador, que penteia e desembaraça a lã em quantidade maior, remove uma porção significativa e valiosa demais para se presumir desinteresse do cliente — por isso esse material pertence ao dono da peça.
O lavandeiro toma três fios, e eles são seus; mais que isso, pertencem ao dono da casa. — É costume tecer, na ponta de vestes de lã, três fios de outra cor como acabamento; o lavandeiro pode removê-los para aparar e embelezar a peça, e ficar com eles, sem que isso seja considerado prejuízo ao dono. Mas se há mais de três fios nessa condição, o excedente já não se enquadra no costume de descarte tolerado, e pertence ao dono da peça.
Se havia fio preto sobre fundo branco, toma tudo, e é seu. — Quando os fios excedentes são de cor escura contrastando com um tecido branco, a remoção completa deles efetivamente melhora a aparência da peça — o contraste seria esteticamente indesejável para o dono —, de modo que o lavandeiro pode retirar todos eles, independentemente da quantidade, e ficam com ele.
O alfaiate que deixou sobra de fio suficiente para costurar com ele, e o retalho que tem três dedos por três — pertencem ao dono da casa. — Quando o alfaiate termina seu trabalho e sobra um pedaço de linha do comprimento aproximado de uma agulha — suficiente ainda para ser usado em costura — ou um retalho de pano de tamanho considerável (três dedos por três), esses materiais são valiosos o bastante para presumir que o dono da peça os quer de volta, e por isso não podem ser retidos pelo artesão.
O que o carpinteiro retira com a plaina é seu, e com o machado é do dono da casa. E se estava trabalhando junto ao dono da casa, até a serragem é do dono da casa. — A plaina remove apenas lascas finas de madeira, das quais o dono presumivelmente não se importa — por isso pertencem ao carpinteiro. Já o machado produz lascas maiores e mais substanciais, que pertencem ao dono da madeira. E quando o carpinteiro trabalha na própria casa ou propriedade do cliente — como um trabalhador contratado por dia, sob supervisão direta —, até mesmo a serragem mais fina pertence ao dono, pois a proximidade constante do trabalho elimina qualquer presunção de abandono tácito dos resíduos.
Rambam esclarece o vocabulário técnico de cada ofício mencionado, encerrando formalmente seu Perush haMishnayot para o tratado; Bartenura detalha o critério de valor por trás de cada distinção.
Rambam fecha o tratado esclarecendo o vocabulário técnico de cada ofício mencionado: já foi explicado em Shabat que os "fiapos" (mochin) são pequenos pedaços de lã usados para encher travesseiros e almofadas; o "lavandeiro" é quem alveja e limpa a lã; o "cardador" é quem a penteia e desembaraça; "o suficiente para costurar" equivale ao comprimento de uma agulha; a "plaina" é o instrumento do carpinteiro usado para alisar a madeira; o "machado" (kashil) é o instrumento que corrige e desbasta a madeira em pedaços maiores; e a "serragem" é o pó fino produzido quando as madeiras são serradas para fazer tábuas. Com esta explicação, Rambam encerra formalmente seu Perush haMishnayot para todo o tratado Bava Kamma.
Bartenura precisa o critério comum a toda a mishná: o lavandeiro remove apenas uma quantidade mínima de fiapos por meio da lavagem, quantidade com a qual o dono da casa normalmente não se importa — e mesmo que excepcionalmente algum dono se importasse, essa objeção isolada não é levada em conta, pois a norma social é o desinteresse. Já o cardador, ao pentear e desembaraçar a lã, remove uma quantidade considerável e valiosa, pela qual as pessoas costumam sim se importar — e por isso, diferentemente do caso do lavandeiro, esse material reverte ao dono da peça.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 119a), no contexto da discussão final sobre os limites entre animais domesticados e selvagens aplicados por analogia às regras de posse.
Nesta última discussão registrada pela Guemará antes do encerramento do perek, Rashi observa que, do fato de a Guemará permitir comprar "quatro ou cinco" unidades de certo item "de qualquer lugar" sem suspeita, se conclui que a distinção anterior entre animais domesticados e selvagens se refere especificamente às duas categorias de gado discutidas — e que essa distinção tende para o lado mais permissivo (le-kula), facilitando o comércio lícito em vez de restringi-lo. Esta nota fecha, no plano da Guemará, a extensa sugyá sobre os limites da compra de bens de origem potencialmente duvidosa que ocupou boa parte deste último perek.
Com esta décima mishná do Perek Yud, encerra-se o Perek "הַגּוֹזֵל וּמַאֲכִיל" — e com ele, toda a Massechet Bava Kamma. A fórmula tradicional de encerramento, "hadran alach" ("voltaremos a ti"), expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado mesmo depois de concluído, seguida da declaração "vessalika lah massechet Bava Kamma", "e assim se encerra o tratado Bava Kamma".
Ao longo de seus dez perakim e setenta e nove mishnayot, Bava Kamma percorreu as quatro categorias-mãe de dano — o boi, o poço, o maabê e o fogo —, a distinção entre o animal inocente e o avisado, os obstáculos em via pública, a categoria-mãe do poço e do fogo, os pagamentos em dobro e em quádruplo pelo furto, os cinco pagamentos devidos por ferimento ao próximo, o mecanismo de aquisição do objeto roubado por mudança de forma (shinuy), o dever do ladrão de perseguir a vítima para se arrepender, e — neste último perek — a responsabilidade dos filhos de um ladrão, o princípio do desespero (yeush) como forma de aquisição, o resgate espontâneo de bens alheios, a distinção entre desastre regional e responsabilidade pessoal, e as regras práticas do comércio com pastores, guardas e artesãos — encerrando com a divisão do material residual entre lavandeiro, cardador, alfaiate e carpinteiro.
Com a conclusão de Massechet Bava Kamma, completa-se o primeiro tratado da Seder Nezikin — a quarta das seis Ordens da Mishná, seguindo as três já completas: Zeraim, Moed e Nashim. O estudo da Mishná prossegue agora em Massechet Bava Metzia, o segundo dos três tratados das "Portas" (Bavot).