Seder Nezikin · Massechet Bava Kamma · Perek Yud · Mishná 10 de 10 — última do tratado

Os fiapos que o lavandeiro retira

מוֹכִין שֶׁהַכּוֹבֵס מוֹצִיא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná de Bava Kamma encerra o tratado com uma série de casos práticos sobre a quem pertence o material residual do trabalho de artesãos contratados — lavandeiro, cardador, alfaiate e carpinteiro —, com o critério geral de que o resíduo pertence a quem normalmente não se importaria em perdê-lo, e ao dono da peça quando o resíduo é significativo demais para presumir desinteresse.

Os fiapos que o lavandeiro retira são seus; e os que o cardador retira são do dono da casa.Quando o lavandeiro lava e alveja a roupa de lã, ele naturalmente remove uma pequena quantidade de fiapos soltos por meio da lavagem — e como o cliente presumivelmente não se importa com essa quantidade mínima, esses fiapos pertencem ao próprio lavandeiro. Já o cardador, que penteia e desembaraça a lã em quantidade maior, remove uma porção significativa e valiosa demais para se presumir desinteresse do cliente — por isso esse material pertence ao dono da peça.

O lavandeiro toma três fios, e eles são seus; mais que isso, pertencem ao dono da casa.É costume tecer, na ponta de vestes de lã, três fios de outra cor como acabamento; o lavandeiro pode removê-los para aparar e embelezar a peça, e ficar com eles, sem que isso seja considerado prejuízo ao dono. Mas se há mais de três fios nessa condição, o excedente já não se enquadra no costume de descarte tolerado, e pertence ao dono da peça.

Se havia fio preto sobre fundo branco, toma tudo, e é seu.Quando os fios excedentes são de cor escura contrastando com um tecido branco, a remoção completa deles efetivamente melhora a aparência da peça — o contraste seria esteticamente indesejável para o dono —, de modo que o lavandeiro pode retirar todos eles, independentemente da quantidade, e ficam com ele.

O alfaiate que deixou sobra de fio suficiente para costurar com ele, e o retalho que tem três dedos por três — pertencem ao dono da casa.Quando o alfaiate termina seu trabalho e sobra um pedaço de linha do comprimento aproximado de uma agulha — suficiente ainda para ser usado em costura — ou um retalho de pano de tamanho considerável (três dedos por três), esses materiais são valiosos o bastante para presumir que o dono da peça os quer de volta, e por isso não podem ser retidos pelo artesão.

O que o carpinteiro retira com a plaina é seu, e com o machado é do dono da casa. E se estava trabalhando junto ao dono da casa, até a serragem é do dono da casa.A plaina remove apenas lascas finas de madeira, das quais o dono presumivelmente não se importa — por isso pertencem ao carpinteiro. Já o machado produz lascas maiores e mais substanciais, que pertencem ao dono da madeira. E quando o carpinteiro trabalha na própria casa ou propriedade do cliente — como um trabalhador contratado por dia, sob supervisão direta —, até mesmo a serragem mais fina pertence ao dono, pois a proximidade constante do trabalho elimina qualquer presunção de abandono tácito dos resíduos.

מוֹכִין שֶׁהַכּוֹבֵס מוֹצִיא, הֲרֵי אֵלּוּ שֶׁלּוֹ. וְשֶׁהַסּוֹרֵק מוֹצִיא, הֲרֵי אֵלּוּ שֶׁל בַּעַל הַבָּיִת. הַכּוֹבֵס נוֹטֵל שְׁלשָׁה חוּטִין וְהֵן שֶׁלּוֹ. יָתֵר מִכֵּן, הֲרֵי אֵלּוּ שֶׁל בַּעַל הַבָּיִת. אִם הָיָה הַשָּׁחוֹר עַל גַּבֵּי הַלָּבָן, נוֹטֵל אֶת הַכֹּל וְהֵן שֶׁלּוֹ. הַחַיָּט שֶׁשִּׁיֵּר מִן הַחוּט כְּדֵי לִתְפֹּר בּוֹ, וּמַטְלִית שֶׁהִיא שָׁלשׁ עַל שָׁלשׁ, הֲרֵי אֵלּוּ שֶׁל בַּעַל הַבָּיִת. מַה שֶּׁהֶחָרָשׁ מוֹצִיא בַמַּעֲצָד, הֲרֵי אֵלּוּ שֶׁלּוֹ, וּבַכַּשִּׁיל, שֶׁל בַּעַל הַבָּיִת. וְאִם הָיָה עוֹשֶׂה אֵצֶל בַּעַל הַבַּיִת, אַף הַנְּסֹרֶת שֶׁל בַּעַל הַבָּיִת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece o vocabulário técnico de cada ofício mencionado, encerrando formalmente seu Perush haMishnayot para o tratado; Bartenura detalha o critério de valor por trás de cada distinção.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Kamma 10:10 (encerrando o tratado)
כְּבָר הִתְבָּאֵר בְּשַׁבָּת כִּי הַמּוֹכִין הֵם חֲתִיכוֹת צֶמֶר קְטַנִּים שֶׁמְּמַלְּאִים בָּהֶם הַכְּסָתוֹת וְהַכָּרִים וְכַיּוֹצֵא בָּהֶם. וְכוֹבֵס הוּא שֶׁמְּלַבֵּן אֶת הַצֶּמֶר. וְסוֹרֵק הוּא הַסּוֹרְקוֹ וְהַמְנַפְּצוֹ. וּכְדֵי לִתְפֹּר הוּא כְּמוֹ אֹרֶךְ מַחַט. וּמַעֲצָד כְּלִי הַנַּגָּר שֶׁמַּחֲלִיק בּוֹ אוֹ כַּיּוֹצֵא בּוֹ. וְכַשִּׁיל הוּא כְּלִי הַנַּגָּר שֶׁמְּתַקֵּן בּוֹ הָעֵץ. וּנְסֹרֶת הוּא שְׁחִיקַת הָעֵצִים כְּשֶׁנּוֹסְרִין הָעֵצִים לַעֲשׂוֹת מֵהֶן לוּחוֹת. סָלִיק פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָיוֹת לְהָרַמְבַּ״ם מִמַּסֶּכֶת בָּבָא קַמָּא

Rambam fecha o tratado esclarecendo o vocabulário técnico de cada ofício mencionado: já foi explicado em Shabat que os "fiapos" (mochin) são pequenos pedaços de lã usados para encher travesseiros e almofadas; o "lavandeiro" é quem alveja e limpa a lã; o "cardador" é quem a penteia e desembaraça; "o suficiente para costurar" equivale ao comprimento de uma agulha; a "plaina" é o instrumento do carpinteiro usado para alisar a madeira; o "machado" (kashil) é o instrumento que corrige e desbasta a madeira em pedaços maiores; e a "serragem" é o pó fino produzido quando as madeiras são serradas para fazer tábuas. Com esta explicação, Rambam encerra formalmente seu Perush haMishnayot para todo o tratado Bava Kamma.

Bartenura · Bava Kamma 10:10
מוֹכִין שֶׁהַכּוֹבֵס מוֹצִיא. מְלַבֵּן הַצֶּמֶר מוֹצִיא מִן הַצֶּמֶר דָּבָר מֻעָט עַל יְדֵי שְׁטִיפָה: הֲרֵי אֵלּוּ שֶׁלּוֹ. שֶׁאֵין הַבַּעַל הַבַּיִת מַקְפִּיד. וְאִם הִקְפִּיד לֹא הָוֵי קְפֵידָא: וְשֶׁהַסּוֹרֵק מוֹצִיא. הַסּוֹרֵק אֶת הַצֶּמֶר וְהַמְנַפְּצוֹ, מַה שֶּׁמּוֹצִיא הָוֵי דָּבָר חָשׁוּב וּרְגִילִים לְהַקְפִּיד

Bartenura precisa o critério comum a toda a mishná: o lavandeiro remove apenas uma quantidade mínima de fiapos por meio da lavagem, quantidade com a qual o dono da casa normalmente não se importa — e mesmo que excepcionalmente algum dono se importasse, essa objeção isolada não é levada em conta, pois a norma social é o desinteresse. Já o cardador, ao pentear e desembaraçar a lã, remove uma quantidade considerável e valiosa, pela qual as pessoas costumam sim se importar — e por isso, diferentemente do caso do lavandeiro, esse material reverte ao dono da peça.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 119a), no contexto da discussão final sobre os limites entre animais domesticados e selvagens aplicados por analogia às regras de posse.

Rashi · · רש״י
Bava Kamma 119a, s.v. מדקאמר בכל מקום
מִדְּקָאָמַר בְּכָל מָקוֹם - לוֹקְחִין אַרְבָּעָה וַחֲמִשָּׁה, אַלְמָא הַאי דְּקָמְפַלֵּיג בֵּין בַּיְּתוֹת לְמִדְבָּרִיּוֹת אַשְׁתֵּי צֹאן פְּלִיג, וּלְקוּלָּא קָאֵי

Nesta última discussão registrada pela Guemará antes do encerramento do perek, Rashi observa que, do fato de a Guemará permitir comprar "quatro ou cinco" unidades de certo item "de qualquer lugar" sem suspeita, se conclui que a distinção anterior entre animais domesticados e selvagens se refere especificamente às duas categorias de gado discutidas — e que essa distinção tende para o lado mais permissivo (le-kula), facilitando o comércio lícito em vez de restringi-lo. Esta nota fecha, no plano da Guemará, a extensa sugyá sobre os limites da compra de bens de origem potencialmente duvidosa que ocupou boa parte deste último perek.

Encerrando o tratado · הֲדָרָן עֲלָךְ

הֲדַרָן עֲלָךְ הַגּוֹזֵל וּמַאֲכִיל, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת בָּבָא קַמָּא

Com esta décima mishná do Perek Yud, encerra-se o Perek "הַגּוֹזֵל וּמַאֲכִיל" — e com ele, toda a Massechet Bava Kamma. A fórmula tradicional de encerramento, "hadran alach" ("voltaremos a ti"), expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado mesmo depois de concluído, seguida da declaração "vessalika lah massechet Bava Kamma", "e assim se encerra o tratado Bava Kamma".

Ao longo de seus dez perakim e setenta e nove mishnayot, Bava Kamma percorreu as quatro categorias-mãe de dano — o boi, o poço, o maabê e o fogo —, a distinção entre o animal inocente e o avisado, os obstáculos em via pública, a categoria-mãe do poço e do fogo, os pagamentos em dobro e em quádruplo pelo furto, os cinco pagamentos devidos por ferimento ao próximo, o mecanismo de aquisição do objeto roubado por mudança de forma (shinuy), o dever do ladrão de perseguir a vítima para se arrepender, e — neste último perek — a responsabilidade dos filhos de um ladrão, o princípio do desespero (yeush) como forma de aquisição, o resgate espontâneo de bens alheios, a distinção entre desastre regional e responsabilidade pessoal, e as regras práticas do comércio com pastores, guardas e artesãos — encerrando com a divisão do material residual entre lavandeiro, cardador, alfaiate e carpinteiro.

Com a conclusão de Massechet Bava Kamma, completa-se o primeiro tratado da Seder Nezikin — a quarta das seis Ordens da Mishná, seguindo as três já completas: Zeraim, Moed e Nashim. O estudo da Mishná prossegue agora em Massechet Bava Metzia, o segundo dos três tratados das "Portas" (Bavot).