Seder Nezikin · Massechet Bava Kamma · Perek Tet · Mishná 4 de 12

O tintureiro que estraga a lã

הַנּוֹתֵן צֶמֶר לְצַבָּע, וְהִקְדִּיחָתוֹ יוֹרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o caso do artesão, a mishná detalha o do tintureiro: quando a lã é totalmente arruinada na caldeira, quando é tingida malfeita, e quando é tingida de uma cor diferente da pedida — comparando, em cada caso, o valor da valorização (shevach) com o valor da despesa do tintureiro (yetziá), e registrando a disputa entre Rabi Meir e Rabi Yehuda quanto à troca de cor.

Quem dá lã a um tintureiro, e a caldeira a queimou — dá-lhe o valor de sua lã.Quando a lã é totalmente destruída no processo, não há nenhuma valorização a comparar com a despesa; resta apenas a perda total, e o tintureiro compensa o dono pelo valor pleno da lã crua que recebeu.

Tingiu-a malfeita — se a valorização é maior que a despesa, dá-lhe a despesa; e se a despesa é maior que a valorização, dá-lhe a valorização.Aqui a lã não foi destruída, apenas tingida de forma inferior, de modo que ainda há algum aumento de valor sobre o material cru. A regra compara dois valores: o quanto a lã se valorizou com o tingimento malfeito, e o quanto o tintureiro gastou para realizá-lo. O dono paga sempre o menor dos dois — nunca mais do que aquilo que efetivamente ganhou com o serviço, nem mais do que aquilo que o tintureiro efetivamente gastou.

Para tingir de vermelho para ele, e tingiu de preto; de preto, e tingiu de vermelho — Rabi Meir diz: dá-lhe o valor de sua lã. Rabi Yehuda diz: se a valorização é maior que a despesa, dá-lhe a despesa; e se a despesa é maior que a valorização, dá-lhe a valorização.Quando o tintureiro desvia-se da instrução recebida e tinge numa cor diferente da encomendada, Rabi Meir considera que ele agiu, em certo sentido, como quem danifica intencionalmente — e por isso o dono simplesmente recebe o valor de sua lã crua, sem ficar obrigado a pagar nada pela valorização, ainda que o tingimento tenha algum valor de mercado. Rabi Yehuda discorda: mesmo neste caso, aplica-se a mesma comparação entre valorização e despesa que se aplica ao tingimento malfeito, pois afinal a lã foi tingida, e ambas as partes se beneficiam ou se prejudicam proporcionalmente.

הַנּוֹתֵן צֶמֶר לְצַבָּע, וְהִקְדִּיחָתוֹ יוֹרָה, נוֹתֵן לוֹ דְּמֵי צַמְרוֹ. צְבָעוֹ כָאוּר, אִם הַשֶּׁבַח יוֹתֵר עַל הַיְצִיאָה, נוֹתֵן לוֹ אֶת הַיְצִיאָה, וְאִם הַיְצִיאָה יְתֵרָה עַל הַשֶּׁבַח, נוֹתֵן לוֹ אֶת הַשֶּׁבַח. לִצְבֹּעַ לוֹ אָדֹם, וּצְבָעוֹ שָׁחֹר, שָׁחֹר, וּצְבָעוֹ אָדֹם, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, נוֹתֵן לוֹ דְּמֵי צַמְרוֹ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם הַשֶּׁבַח יָתֵר עַל הַיְצִיאָה, נוֹתֵן לוֹ אֶת הַיְצִיאָה, וְאִם הַיְצִיאָה יְתֵרָה עַל הַשֶּׁבַח, נוֹתֵן לוֹ אֶת הַשֶּׁבַח:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam ilustra o cálculo de valorização e despesa com um exemplo numérico; Bartenura explica os termos técnicos e confirma que a lei segue Rabi Yehuda.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Kamma 9:4
וְעִנְיַן שֶׁבַח וְהוֹצָאָה כְּמוֹ שֶׁאוֹמֵר לְךָ עַל דֶּרֶךְ מָשָׁל אִלּוּ הָיָה הַבֶּגֶד שָׁוֶה דִּינָר וְאַחַר צְבִיעָתוֹ שָׁוֶה דִּינָר וָחֵצִי וְהוֹצִיא בּוֹ הַצַּבָּע רֹבַע לֹא יִתֵּן לוֹ אֶלָּא רֹבַע דִּינָר. וְאִם הוֹצִיא עָלָיו שְׁלֹשׁ רְבִיעֵי דִּינָר יִתֵּן הַחֵצִי מֵאֲשֶׁר הוֹתִיר בְּדָמָיו. וְהַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

Rambam ilustra o cálculo com um exemplo numérico: se o tecido valia um dinar e, depois de tingido, passou a valer um dinar e meio, e o tintureiro gastou um quarto de dinar no processo, o dono lhe dá apenas esse quarto de dinar — a despesa integral, pois ela é menor que a valorização. Mas se o tintureiro gastou três quartos de dinar, o dono lhe dá apenas a metade — o valor da valorização, que é menor que a despesa. Em ambos os casos, paga-se o menor dos dois valores. E a lei segue Rabi Yehuda.

Bartenura · Bava Kamma 9:4
וְהִקְדִּיחָתוֹ יוֹרָה. שֶׁשְּׂרָפַתּוּ יוֹרָה. שֶׁהִרְתִּיחוֹ יוֹתֵר מִדַּאי. נוֹתֵן לוֹ דְּמֵי צַמְרוֹ. וְהָכָא לֵיכָּא שְׁבָחָא כְּלָל, שֶׁהֲרֵי נִשְׂרַף לְגַמְרֵי, וְלֵיכָּא לְמֵימַר אִם הַשֶּׁבַח יָתֵר. צְבָעוֹ כָאוּר. כְּמוֹ כָּעוּר. שֶׁצְּבָעוֹ בִּפְסֹלֶת שֶׁל צֶבַע. וּמַזִּיק בְּכַוָּנָה הוּא, לְפִיכָךְ יָדוֹ עַל הַתַּחְתּוֹנָה לְדִבְרֵי הַכֹּל. לִצְבֹּעַ לוֹ אָדֹם וְכוּ׳. קַנְיֵהּ בְּשִׁנּוּי. לְרַבִּי מֵאִיר לֹא יָהֵיב אֶלָּא דְּמֵי צַמְרוֹ, אוֹ זֶה יִתֵּן שְׂכָרוֹ מִשָּׁלֵם וְיִקַּח הַצֶּמֶר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר וְכוּ׳. דְּקָנֵיס לֵיהּ לְהַאי דְּשִׁנָּה לִהְיוֹת יָדוֹ עַל הַתַּחְתּוֹנָה וְלֹא נִתְהַנֵּי מִשְּׁבָחָא, וְאַגְרָא נַמִּי לֹא נִשְׁקֹל אֶלָּא יְצִיאָה. וְאִם יְצִיאָה יְתֵרָה עַל הַשֶּׁבַח, יִתֵּן לוֹ הַשֶּׁבַח שֶׁהִשְׁבִּיחַ. וְאִם יִרְצֶה לָתֵת אֶת שְׂכָרוֹ מִשָּׁלֵם, שֶׁשֶּׁבַח יוֹתֵר עַל הַשָּׂכָר, יִתֵּן שְׂכָרוֹ. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

Bartenura explica que a caldeira "queima" a lã fervendo-a além da conta, destruindo-a por completo — por isso não há valorização alguma a comparar, e o dono recebe apenas o valor de sua lã. Sobre "tingiu malfeito", explica que se trata de tingir com resíduo de tinta de qualidade inferior — um dano intencional, por isso o tintureiro fica sempre em desvantagem em qualquer cálculo. Quanto à troca de cor, explica que, segundo Rabi Meir, o tintureiro adquiriu a lã por mudança (shinuy): ou dá apenas o valor da lã crua, ou o dono paga o salário integral e fica com a lã tingida. Rabi Yehuda pune quem trocou a cor fazendo-o ficar sempre em desvantagem no cálculo — sem receber o benefício pleno da valorização nem o salário integral —, mas ainda assim aplica a mesma fórmula de comparação. E a lei segue Rabi Yehuda.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 101a), na sugya que discute os resíduos de tinta que sobram na caldeira do tintureiro.

Rashi · · רש״י
Bava Kamma 101a, s.v. כופרא דודי
כֻּפְרָא דוֹדֵי - קִנֵּחַ בּוֹ אֶת הַיּוֹרָה כְּלוֹמַר בְּשִׁירֵי צֶבַע שֶׁנִּשְׁתַּיְּרוּ בַּיּוֹרָה צְבָעוֹ כּוֹפְרָא לְשׁוֹן קִנּוּחַ

Rashi explica a expressão "kufra dedei" (resíduo da caldeira): trata-se do material usado para limpar a caldeira, isto é, os restos de tinta que sobram nela depois do tingimento — a mesma "peslet shel tzeva" (resíduo de tinta de qualidade inferior) que a mishná considera um tingimento malfeito, feito propositalmente com sobras em vez da tinta própria. É precisamente esse tipo de resíduo que está por trás do caso de "tzevao cha'ur" (tingiu malfeito) discutido nesta mishná.