Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Bet · Mishná 8 de 11

Achou livros, lê-os uma vez a cada trinta dias

מָצָא סְפָרִים, קוֹרֵא בָהֶן אַחַת לִשְׁלֹשִׁים יוֹם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do dever de conservação de achados que não trabalham nem comem — livros, vestes, utensílios de metal —, cada categoria exigindo um tipo próprio de cuidado para que não se deteriore enquanto aguarda o dono, e conclui com o caso do que sequer deve ser recolhido.

Achou livros, lê neles uma vez a cada trinta dias. E se não sabe ler, desenrola-os. Mas não aprenderá neles pela primeira vez, nem lerá outro com ele.Os rolos de pergaminho precisam ser abertos periodicamente para não apodrecerem ou grudarem; ler é a forma natural de manuseá-los sem desgaste desnecessário. Quem não sabe ler ao menos os desenrola de ponta a ponta, deixando o ar circular. Mas não deve usar o achado para estudar algo totalmente novo — o que exigiria detê-lo diante de si por tempo prolongado — nem lê-lo em companhia de outra pessoa, pois o manuseio simultâneo por duas mãos tende a rasgar o pergaminho.

Achou uma veste, sacode-a uma vez a cada trinta dias. E a estende para seu próprio bem, mas não para sua própria honra. Utensílios de prata e de cobre, usa-os para o seu próprio bem, mas não para desgastá-los. Utensílios de ouro e de vidro, não tocará neles até que venha Elias.A veste precisa ser sacudida periodicamente para que a traça não a corroa, e pode ser estendida ao sol quando isso é necessário para sua própria conservação — mas nunca para que o achador a use como adorno pessoal, ostentando-a. Os utensílios de prata e cobre podem ser usados moderadamente, pois o próprio uso os preserva do desgaste do metal parado — mas não a ponto de gastá-los pelo uso excessivo. Já os utensílios de ouro e vidro — que não enferrujam nem se beneficiam do uso, e que correm risco de quebrar — não devem ser tocados de forma alguma; ficam simplesmente guardados, à espera de uma resolução que só o próprio Eliahu, no futuro, poderá trazer.

Achou um saco ou um cesto, e tudo que não é seu costume carregar — eis que não pegará.Objetos cujo transporte seria indigno para a condição da pessoa que os encontrou — como um sábio carregando um saco tosco pelas ruas — estão isentos do dever de recolher, pois a própria Torá reconhece limites de dignidade pessoal na aplicação deste preceito.

מָצָא סְפָרִים, קוֹרֵא בָהֶן אַחַת לִשְׁלֹשִׁים יוֹם. וְאִם אֵינוֹ יוֹדֵעַ לִקְרוֹת, גּוֹלְלָן. אֲבָל לֹא יִלְמֹד בָּהֶן בַּתְּחִלָּה, וְלֹא יִקְרָא אַחֵר עִמּוֹ. מָצָא כְסוּת, מְנַעֲרָהּ אַחַת לִשְׁלֹשִׁים יוֹם. וְשׁוֹטְחָהּ לְצָרְכָּהּ, אֲבָל לֹא לִכְבוֹדוֹ. כְּלֵי כֶסֶף וּכְלֵי נְחֹשֶׁת, מִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶן לְצָרְכָּן, אֲבָל לֹא לְשָׁחֳקָן. כְּלֵי זָהָב וּכְלֵי זְכוּכִית, לֹא יִגַּע בָּהֶן עַד שֶׁיָּבֹא אֵלִיָּהוּ. מָצָא שַׂק אוֹ קֻפָּה, וְכָל דָּבָר שֶׁאֵין דַּרְכּוֹ לִטֹּל, הֲרֵי זֶה לֹא יִטֹּל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que ouro e vidro nunca podem ser tocados, e liga o caso do saco à ideia de "esconder-se" com propósito, como faz o versículo de Devarim; Bartenura detalha o cuidado prático de cada material.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 2:8
מָצָא סְפָרִים קוֹרֵא בָהֶן אַחַת לִשְׁלֹשִׁים יוֹם כוּ': בִּגְדֵי הַצֶּמֶר צָרִיךְ לְנַעֲרָם כְּדֵי שֶׁלֹּא יִרְקְבוּ וְיִתְקַלְקְלוּ, אֲבָל בִּגְדֵי הַפִּשְׁתָּן לֹא יִגַּע בָּהֶן כְּלָל. וּכְלֵי זָהָב וּזְכוּכִית אֵינָם מַעֲלִים חֲלוּדָה לְעוֹלָם, לְפִיכָךְ לֹא יִגַּע בָּהֶן, לְפִי שֶׁאֵינָם צְרִיכִין לְהִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶם כְּדֵי שֶׁיִּמְנָעֵם מִן הַחֲלוּדָה. וְאָמְרוּ אֵין דַּרְכּוֹ לִטֹּל הוּא שֶׁיִּהְיֶה זָקֵן וְאֵינָהּ לְפִי כְבוֹדוֹ... וְהָרֶמֶז לָזֶה מַה שֶּׁנֶּאֱמַר "וְהִתְעַלַּמְתָּ מֵהֶם", כְּאִלּוּ צִוָּה שֶׁיִּתְעַלֵּם מֵהֶם בְּעִנְיָן מִן הָעִנְיָנִים, וְהוּא מַה שֶּׁאָמְרוּ רַבּוֹתֵינוּ זִכְרוֹנָם לִבְרָכָה: פְּעָמִים שֶׁאַתָּה מִתְעַלֵּם.

Rambam explica que roupas de lã precisam ser sacudidas para não apodrecerem, mas roupas de linho não devem sequer ser tocadas — pois o linho não sofre esse tipo de deterioração pelo simples repouso. Utensílios de ouro e vidro nunca enferrujam, e por isso não há razão nenhuma para usá-los — o uso serviria apenas para desgastá-los ou arriscar quebrá-los, sem qualquer benefício de conservação. Quanto ao objeto que "não é seu costume carregar", Rambam esclarece que se refere a uma pessoa idosa ou de posição para quem tal carga seria indigna; ele conecta essa isenção diretamente à própria linguagem do versículo "e te esconderás deles" — como se a Torá já tivesse previsto e autorizado, em certas circunstâncias, que a pessoa "se esconda", isto é, se exima do dever, exatamente como ensinaram os sábios: "às vezes tu te escondes".

Bartenura · Bava Metzia 2:8
אַחַת לִשְׁלֹשִׁים יוֹם. שֶׁמִּתְעַפְּשִׁין כְּשֶׁשּׁוֹהִין מִלְּפָתְחָן. וְכָל סִפְרֵיהֶן הָיוּ עֲשׂוּיִין כְּעֵין גִּלָּיוֹן: גּוֹלְלָן. מִתְּחִלָּתָן לְסוֹפָן, שֶׁיִּכָּנֵס בָּהֶם הָאֲוִיר: בַּתְּחִלָּה. מַה שֶּׁלֹּא לָמַד מֵעוֹלָם... וְלֹא יִקְרָא אַחֵר עִמּוֹ. לְפִי שֶׁזֶּה מוֹשֵׁךְ אֶצְלוֹ וְזֶה מוֹשֵׁךְ אֶצְלוֹ וְנִקְרָע: שׁוֹטְחָהּ לְצָרְכָּהּ. לִשְׁלֹט בָּהּ אֲוִיר, שֶׁלֹּא תֹאכַלֶּנָּה עָשׁ: לְצָרְכָּן. שֶׁמִּתְעַפְּשִׁים בַּקַּרְקַע... וּלְפִיכָךְ מִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶם לִפְרָקִים: אֲבָל לֹא לְשָׁחֳקָן. וְלֹא יִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶן זְמַן אָרֹךְ עַד שֶׁיִּשְׁחָקֵם: לֹא יִגַּע בָּהֶן. זָהָב אֵינוֹ מִתְעַפֵּשׁ בָּאָרֶץ, וְכֵן זְכוּכִית, וְעוֹד שֶׁהוּא נוֹחַ לְהִשָּׁבֵר: שֶׁאֵין דַּרְכּוֹ לִטֹּל. דָּבָר שֶׁגְּנַאי הוּא לוֹ. וְהַתּוֹרָה אָמְרָה וְהִתְעַלַּמְתָּ מֵהֶם, פְּעָמִים שֶׁאַתָּה מִתְעַלֵּם, כְּגוֹן זָקֵן וְאֵינוֹ לְפִי כְּבוֹדוֹ:

Bartenura explica que os rolos apodreciam se ficassem muito tempo sem serem abertos, pois eram feitos em forma de folha enrolada. Quem não sabe ler ao menos os desenrola de ponta a ponta para arejá-los. Não deve estudar algo totalmente novo neles — o que exigiria mantê-los abertos diante de si por muito tempo — nem lê-los junto com outra pessoa, pois cada um puxaria o rolo para seu próprio lado, rasgando-o. A veste se estende para deixar o ar circular e evitar traças, mas nunca para exibição pessoal. Utensílios de prata e cobre apodrecem no chão se ficarem parados — daí o uso periódico ser sua própria forma de conservação —, mas sem uso excessivo que os desgaste. Ouro não se deteriora no chão, e o mesmo vale para o vidro, que além disso quebra com facilidade — por isso nenhum dos dois deve ser tocado. E o "que não é seu costume carregar" é algo que seria degradante para quem o encontrou — a própria Torá, ao dizer "e te esconderás deles", reconhece que há momentos em que a pessoa está autorizada a se eximir, como no caso de um idoso para quem tal carga feriria sua dignidade.