Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Zayin · Mishná 3 de 11

Se estava trabalhando com as mãos

הָיָה עוֹשֶׂה בְיָדָיו
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando a definição dos limites do direito de comer, a mishná esclarece que a analogia com o boi que debulha (hekesh) não exige que o trabalhador esteja envolvido fisicamente com todo o corpo — mãos e pés — para ter direito de comer; basta qualquer forma de trabalho ativo sobre o produto.

Se estava trabalhando com as mãos, mas não com os pés; com os pés, mas não com as mãos; ainda que apenas com o ombro — eis que este come.A mishná esclarece que o direito de comer, embora derivado da comparação com o boi que "debulha com as mãos e os pés" (isto é, com todo o corpo, pisando o grão), não exige do trabalhador humano essa mesma amplitude física: qualquer forma de trabalho ativo — carregar aos ombros, por exemplo — já qualifica o trabalhador para comer da produção.

Rabi Yossei, filho de Rabi Yehudá, diz: até que trabalhe com as mãos e com os pés.Rabi Yossei b'Rabi Yehudá discorda, levando a analogia com o boi ao pé da letra: assim como o boi debulha com as quatro patas — o equivalente a "mãos e pés" —, também o trabalhador humano só teria direito de comer quando seu trabalho envolvesse mãos e pés simultaneamente. A halachá, porém, não segue essa posição mais restritiva.

הָיָה עוֹשֶׂה בְיָדָיו אֲבָל לֹא בְרַגְלָיו, בְּרַגְלָיו אֲבָל לֹא בְיָדָיו, אֲפִלּוּ בִכְתֵפוֹ, הֲרֵי זֶה אוֹכֵל. רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, עַד שֶׁיַּעֲשֶׂה בְיָדָיו וּבְרַגְלָיו:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 7:3
הָיָה עוֹשֶׂה בְיָדָיו אֲבָל לֹא בְרַגְלָיו בְּרַגְלָיו אֲבָל כוּ': רַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה אוֹמֵר, מַה שּׁוֹר בְּיָדָיו וְרַגְלָיו, אַף פּוֹעֵל בְּיָדָיו וְרַגְלָיו. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה:

Rambam resume a lógica de Rabi Yossei b'Rabi Yehudá — a analogia estrita com o boi, que trabalha com todas as patas — e confirma que a halachá não segue essa opinião: prevalece a leitura mais ampla, segundo a qual qualquer forma de trabalho ativo, ainda que parcial, basta para gerar o direito de comer.

Bartenura · Bava Metzia 7:3
עַד שֶׁיַּעֲשֶׂה בְיָדָיו וְרַגְלָיו. מַה שּׁוֹר בְּיָדָיו וּבְרַגְלָיו, אַף פּוֹעֵל בְּיָדָיו וּבְרַגְלָיו, דְּהָא אִתַּקַּשׁ חוֹסֵם לְנֶחְסָם. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה:

Bartenura explica que a posição de Rabi Yossei b'Rabi Yehudá se apoia na mesma comparação textual (hekesh) entre quem amordaça e quem é amordaçado, mas a leva a uma exigência física mais estrita — trabalho simultâneo com mãos e pés, tal como o boi debulha com todas as patas. A halachá, porém, não segue essa posição: a lei aceita qualquer modo genuíno de trabalho como suficiente para o direito de comer.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Bava Metzia 91b
מתני' ואפילו בכתיפו - דאינו מזיז ידיו ורגליו:

Rashi esclarece que o exemplo do "ombro" na mishná refere-se a um trabalhador que carrega a carga sem sequer movimentar as mãos e os pés de forma que se enquadre nas categorias anteriores — e, ainda assim, tem direito de comer, confirmando que o critério é o trabalho ativo em si, não uma forma corporal específica.