Todos os desqualificados de consagração — seu benefício pertence ao Templo — são vendidos no açougue e abatidos no açougue e pesados pela libra, exceto o primogênito e o dízimo, cujo benefício pertence aos donos.
— Trata-se de animais que haviam sido consagrados ao Templo e que, tendo desenvolvido um defeito físico permanente, foram resgatados de sua santidade: o dinheiro do resgate entra para a santidade que o animal tinha, e o animal em si sai para uso comum. Mas como o próprio resgate foi originalmente propriedade do Templo, todo lucro adicional obtido na venda ainda pertence ao Templo — por isso a mishná permite vendê-los e abatê-los no açougue, o mercado de maior movimento, onde a demanda — e portanto o preço — é mais alta, e pesá-los pela libra, do modo como se vende carne comum, para que o Templo não saia prejudicado. Isso não vale, porém, para o primogênito e para o dízimo do gado: seu benefício, mesmo depois de abatidos com defeito, pertence aos donos — o sacerdote no caso do primogênito, o dono no caso do dízimo — e não é apropriado tratar coisas sagradas com o desprendimento de mercadoria comum apenas para render mais lucro ao particular.
Os desqualificados de consagração — seu benefício pertence ao Templo. E pesa-se porção contra porção no primogênito.
— A mishná repete o princípio para deixar claro que ele é a razão de toda a permissão anterior de tratar esses animais como mercadoria comum. E acrescenta uma permissão adicional específica do primogênito: mesmo não sendo pesado pela libra como carne comum, permite-se pesar uma porção de carne de primogênito contra uma porção de carne comum já pesada — um modo de igualar valores sem que isso pareça uma venda regular por peso. O dízimo do gado, porém, não admite sequer esse expediente, pois a Torá o proíbe de ser vendido de qualquer forma, vivo ou abatido, íntegro ou defeituoso.
Rambam explica que itliz é o nome do mercado destinado à venda de carne, onde, ao se permitir vender ali os desqualificados de consagração como carne comum, os compradores pagam mais por eles — e esse acréscimo, sendo o dinheiro originalmente do Templo, continua pertencendo a ele. Já o primogênito, comido pelos donos quando tem defeito, não é vendido em mercados, apenas em casa. Quanto a pesar porção contra porção, isso só é permitido no primogênito, e não no dízimo, porque tal prática pareceria uma venda regular — e o dízimo, ao contrário do primogênito (do qual a Torá diz que "não será resgatado", indicando que pode ser vendido), tem escrito a seu respeito "não será remido", do que se aprende que não pode ser vendido de nenhuma forma: nem vivo, nem abatido, nem íntegro, nem defeituoso.
Bartenura explica que animais consagrados que desenvolveram defeito, se vendidos por preço mais alto, esse acréscimo é benefício do Templo — por isso são vendidos no itliz, o mercado onde se vende carne comum e onde os preços são mais altos. Já o primogênito e o dízimo ficam de fora dessa regra, pois seu benefício, se vendidos por preço mais alto, pertence aos donos — e por causa do benefício de um particular não se rebaixa o que é sagrado a ser tratado como coisa comum, vendendo-o no mercado; vende-se apenas em casa. Quanto a pesar porção contra porção, isso vale apenas para o primogênito — se o dono tem um pedaço de carne comum já pesado, pode pesar carne de primogênito contra ele; mas o dízimo não admite esse expediente, pois pareceria uma venda, e o animal do dízimo está proibido de ser vendido em qualquer circunstância.
Rashi identifica os "desqualificados de consagração" como animais sagrados que desenvolveram um defeito, e explica que, se vendidos por preço mais alto, esse ganho é benefício do Templo — remetendo à Guemará a explicação completa. Define o itliz como o mercado de grande movimento, onde a demanda é maior e o preço, portanto, mais alto; e explica que "pesados pela libra" significa vendidos do mesmo modo como os açougueiros vendem carne comum.