Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Hei · Mishná 1 de 6

Animais desqualificados de consagração: venda no açougue, exceto primogênito e dízimo

כָּל פְּסוּלֵי הַמֻּקְדָּשִׁין נִמְכָּרִין בָּאִטְלִיז
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Todos os animais desqualificados de consagração são vendidos e abatidos no açougue, pesados pela libra — exceto o primogênito e o dízimo, cujo benefício é dos donos

Todos os desqualificados de consagração — seu benefício pertence ao Templo — são vendidos no açougue e abatidos no açougue e pesados pela libra, exceto o primogênito e o dízimo, cujo benefício pertence aos donos.

— Trata-se de animais que haviam sido consagrados ao Templo e que, tendo desenvolvido um defeito físico permanente, foram resgatados de sua santidade: o dinheiro do resgate entra para a santidade que o animal tinha, e o animal em si sai para uso comum. Mas como o próprio resgate foi originalmente propriedade do Templo, todo lucro adicional obtido na venda ainda pertence ao Templo — por isso a mishná permite vendê-los e abatê-los no açougue, o mercado de maior movimento, onde a demanda — e portanto o preço — é mais alta, e pesá-los pela libra, do modo como se vende carne comum, para que o Templo não saia prejudicado. Isso não vale, porém, para o primogênito e para o dízimo do gado: seu benefício, mesmo depois de abatidos com defeito, pertence aos donos — o sacerdote no caso do primogênito, o dono no caso do dízimo — e não é apropriado tratar coisas sagradas com o desprendimento de mercadoria comum apenas para render mais lucro ao particular.

כָּל פְּסוּלֵי הַמֻּקְדָּשִׁין, הֲנָאָתָן לַהֶקְדֵּשׁ, נִמְכָּרִין בָּאִטְלִיז וְנִשְׁחָטִין בָּאִטְלִיז וְנִשְׁקָלִין בְּלִטְרָא, חוּץ מִן הַבְּכוֹר וּמִן הַמַּעֲשֵׂר, שֶׁהֲנָיָתָן לַבְּעָלִים.
Reafirmação: o benefício dos desqualificados de consagração é do Templo; e no primogênito pesa-se porção contra porção

Os desqualificados de consagração — seu benefício pertence ao Templo. E pesa-se porção contra porção no primogênito.

— A mishná repete o princípio para deixar claro que ele é a razão de toda a permissão anterior de tratar esses animais como mercadoria comum. E acrescenta uma permissão adicional específica do primogênito: mesmo não sendo pesado pela libra como carne comum, permite-se pesar uma porção de carne de primogênito contra uma porção de carne comum já pesada — um modo de igualar valores sem que isso pareça uma venda regular por peso. O dízimo do gado, porém, não admite sequer esse expediente, pois a Torá o proíbe de ser vendido de qualquer forma, vivo ou abatido, íntegro ou defeituoso.

פְּסוּלֵי הַמֻּקְדָּשִׁין הֲנָיָתָן לַהֶקְדֵּשׁ. וְשׁוֹקְלִין מָנֶה כְנֶגֶד מָנֶה בַּבְּכוֹר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 5:1
כל פסולי המוקדשין נמכרים באיטליז כו': איטליז שם מקום מיועד למכור בו הבשר וכשאנו מתירים מכירת פסולי המוקדשים בשווקים כבשר חולין מוסיפין בדמיהן כשלוקחין אותן מן ההקדש... אבל הבכור הנאכל במומיו כמו שנתבאר אינו נמכר אלא בבתים לא בשווקים. ושוקלים מנה כנגד מנה חלק בחלק... וזה מותר בבכור בלבד אבל מעשר לא לפי שנראה כאילו הוא מוכר... ואע"פ שנפל בו מום ונשחט במומו לא באיטליז ולא בבית כמו שאמר עליו לא יגאל ולא נאמר בו לא יפדה כמו שנאמר כבכור.

Rambam explica que itliz é o nome do mercado destinado à venda de carne, onde, ao se permitir vender ali os desqualificados de consagração como carne comum, os compradores pagam mais por eles — e esse acréscimo, sendo o dinheiro originalmente do Templo, continua pertencendo a ele. Já o primogênito, comido pelos donos quando tem defeito, não é vendido em mercados, apenas em casa. Quanto a pesar porção contra porção, isso só é permitido no primogênito, e não no dízimo, porque tal prática pareceria uma venda regular — e o dízimo, ao contrário do primogênito (do qual a Torá diz que "não será resgatado", indicando que pode ser vendido), tem escrito a seu respeito "não será remido", do que se aprende que não pode ser vendido de nenhuma forma: nem vivo, nem abatido, nem íntegro, nem defeituoso.

Bartenura · Bechorot 5:1
כָּל פְּסוּלֵי הַמֻּקְדָּשִׁין. קָדָשִׁים שֶׁנָּפַל בָּהֶם מוּם, אִם מוֹכְרִין אוֹתָן בְּיֹקֶר, טוֹבַת הֲנָאָה לַהֶקְדֵּשׁ הוּא. הִלְכָּךְ נִמְכָּרִים בָּאִטְלִיז, דְּהַיְנוּ שׁוּק שֶׁמּוֹכְרִים בּוֹ שְׁאָר בְּשַׂר חֻלִּין וְשָׁם נִמְכָּר בְּיֹקֶר: חוּץ מִן הַבְּכוֹר וּמִן הַמַּעֲשֵׂר. שֶׁאִם נִמְכָּרִים בְּיֹקֶר הֲנָאָתָן לַבְּעָלִים... וּמִשּׁוּם הֲנָאַת הֶדְיוֹט לֹא מְזַלְזְלִינַן בַּקָּדָשִׁים לִנְהֹג בָּהֶן מִנְהַג חֻלִּין לְמָכְרָן בָּאִטְלִיז, אֶלָּא בְּבֵיתוֹ... וְשׁוֹקְלִין מָנָה כְנֶגֶד מָנָה בַּבְּכוֹר. שֶׁאִם יֵשׁ לוֹ חֲתִיכַת בְּשַׂר חֻלִּין שֶׁנִּשְׁקְלָה בְּלִטְרָא יָכוֹל לִשְׁקֹל בְּשַׂר בְּכוֹר כְּנֶגְדָּהּ. אֲבָל מַעֲשֵׂר אֵין שׁוֹקְלִים מָנָה כְּנֶגֶד מָנָה, דְּמֵחֲזֵי כְאִלּוּ מוֹכְרוֹ, וּבֶהֱמַת מַעֲשֵׂר אָסוּר לְמָכְרָהּ כְּלָל.

Bartenura explica que animais consagrados que desenvolveram defeito, se vendidos por preço mais alto, esse acréscimo é benefício do Templo — por isso são vendidos no itliz, o mercado onde se vende carne comum e onde os preços são mais altos. Já o primogênito e o dízimo ficam de fora dessa regra, pois seu benefício, se vendidos por preço mais alto, pertence aos donos — e por causa do benefício de um particular não se rebaixa o que é sagrado a ser tratado como coisa comum, vendendo-o no mercado; vende-se apenas em casa. Quanto a pesar porção contra porção, isso vale apenas para o primogênito — se o dono tem um pedaço de carne comum já pesado, pode pesar carne de primogênito contra ele; mas o dízimo não admite esse expediente, pois pareceria uma venda, e o animal do dízimo está proibido de ser vendido em qualquer circunstância.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 31a
מתני' כל פסולי המוקדשין — קדשים שנפל בהן מום: הנאתן להקדש — אם מוכרין אותן ביוקר הנאת הקדש היא. ובגמרא מפרשא כולה: באיטליז — בשוק שלוקחין הרבה ונמכר ביוקר: ונשקלין בליטרא — כדרך שהקצבין מוכרין בשר חולין:

Rashi identifica os "desqualificados de consagração" como animais sagrados que desenvolveram um defeito, e explica que, se vendidos por preço mais alto, esse ganho é benefício do Templo — remetendo à Guemará a explicação completa. Define o itliz como o mercado de grande movimento, onde a demanda é maior e o preço, portanto, mais alto; e explica que "pesados pela libra" significa vendidos do mesmo modo como os açougueiros vendem carne comum.