Beit Shammai dizem: o israelita não se junta ao sacerdote quanto ao primogênito. Beit Hillel permitem, e até ao gentio.
— A carne do primogênito defeituoso, abatido fora do Templo, é comida por qualquer pessoa, não apenas por sacerdotes — ao contrário do primogênito íntegro, que é oferecido no altar e cuja carne é reservada aos sacerdotes. Beit Shammai sustenta que, mesmo com defeito, o primogênito continua sendo um dom sacerdotal, e por isso um israelita comum não pode se juntar a um grupo de sacerdotes para comê-lo em sociedade — a refeição precisa ser toda de sacerdotes. Beit Hillel discorda: uma vez que o animal tem defeito, ele já não guarda a restrição do dom sacerdotal quanto à companhia da refeição, e por isso qualquer pessoa pode integrar o grupo — inclusive, segundo Beit Hillel, um gentio.
O primogênito que o sangue congestionou — ainda que ele venha a morrer — não se faz sangria nele: palavras de Rabi Yehudá. E os sábios dizem: faz-se a sangria, desde que não se cause nele um defeito; e se causou nele um defeito, este não será abatido por causa dele. Rabi Shimon diz: faz-se a sangria, ainda que se cause nele um defeito.
— Trata-se de um primogênito íntegro, ainda destinado ao altar, que adoeceu por excesso de sangue e cuja vida só se salvaria com uma sangria. Como sangrar um animal consagrado em certos pontos pode deixar uma marca permanente que se conta como defeito, e é proibido causar defeito propositalmente num animal sagrado, Rabi Yehudá proíbe totalmente a sangria — mesmo que o animal morra sem ela — por receio de que, uma vez permitida em pontos seguros, o dono acabe se arriscando também em pontos perigosos, levado pela ansiedade de salvar seu bem. Os sábios permitem a sangria, mas apenas em locais onde não se produz defeito; se ainda assim um defeito surgiu, o próprio dono não pode abatê-lo com base nesse defeito — como penalidade por tê-lo causado — até que surja nele, por si só, um outro defeito independente. Rabi Shimon é mais permissivo ainda: como seu princípio geral é que um ato cujo efeito colateral não é intencional nem inevitável permanece permitido, ele autoriza a sangria mesmo em pontos que costumam causar defeito.
Rambam explica que, segundo Beit Shammai, o versículo "e a carne deles será tua" (Bamidbar 18) aplica-se também ao primogênito defeituoso, tornando-o dom exclusivo dos sacerdotes; Beit Hillel restringe esse versículo apenas ao primogênito íntegro, e trata o defeituoso como carne comparada ao cervo e ao gamo (Devarim 12) — que qualquer um pode comer. Quanto à sangria, Rambam esclarece que a disputa entre Rabi Yehudá, os sábios e Rabi Shimon gira em torno de quando um defeito surge como efeito colateral de um ato necessário: a halachá segue Rabi Shimon, permitindo a sangria mesmo quando ela acaba causando defeito, e o animal pode ser abatido por conta desse próprio defeito.
Bartenura explica que Beit Shammai proíbe o israelita de se juntar ao grupo de sacerdotes para comer a carne do primogênito com defeito, apoiando-se no versículo "e a carne deles será tua, como o peito do movimento e a coxa direita" — assim como o peito e a coxa são exclusivos dos sacerdotes, também o primogênito, íntegro ou defeituoso, é reservado a eles. Beit Hillel responde com o versículo que compara o primogênito defeituoso ao cervo e ao gamo — animais que qualquer pessoa, até um gentio, pode comer. Quanto à sangria, Bartenura resume que a halachá segue Rabi Shimon: permite-se sangrar mesmo num ponto onde isso causará defeito, contanto que seja necessário para não deixar o animal morrer.
Rashi esclarece o alcance da proibição de Beit Shammai: mesmo que um sacerdote convide voluntariamente um israelita como seu convidado para a refeição do primogênito defeituoso, ainda assim o israelita não pode comer com ele — a restrição não depende da vontade do sacerdote anfitrião, mas da própria natureza sacerdotal da carne.
Rashi identifica "congestionado de sangue" como uma enfermidade provocada pelo excesso de sangue, e explica a razão de Rabi Yehudá: mesmo em um local do corpo onde a sangria não costuma causar defeito — um ferimento que ainda pode cicatrizar completamente — ele proíbe a sangria, pois teme que a aflição do dono por seu bem o leve, uma vez liberado ali, a arriscar-se também em um local onde a sangria de fato causa defeito permanente, como cortar ou rachar a orelha ou o lábio de forma que não voltem a sarar. Rashi explica ainda que, se um defeito ainda assim surgiu por causa da sangria permitida, o próprio dono não pode abatê-lo com base nesse defeito específico, precisamente por tê-lo causado, até que surja outro defeito independente; e que Rabi Shimon, por considerar permitido o efeito colateral não-intencional de um ato necessário, autoriza a sangria mesmo em pontos que costumam causar defeito.