Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Hei · Mishná 2 de 6

Quem pode comer o primogênito defeituoso; a sangria do primogênito congestionado

בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים לֹא יִמָּנֶה יִשְׂרָאֵל עִם הַכֹּהֵן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Beit Shammai proíbe o israelita comum de se juntar ao sacerdote para comer o primogênito defeituoso; Beit Hillel permite, e até ao gentio

Beit Shammai dizem: o israelita não se junta ao sacerdote quanto ao primogênito. Beit Hillel permitem, e até ao gentio.

— A carne do primogênito defeituoso, abatido fora do Templo, é comida por qualquer pessoa, não apenas por sacerdotes — ao contrário do primogênito íntegro, que é oferecido no altar e cuja carne é reservada aos sacerdotes. Beit Shammai sustenta que, mesmo com defeito, o primogênito continua sendo um dom sacerdotal, e por isso um israelita comum não pode se juntar a um grupo de sacerdotes para comê-lo em sociedade — a refeição precisa ser toda de sacerdotes. Beit Hillel discorda: uma vez que o animal tem defeito, ele já não guarda a restrição do dom sacerdotal quanto à companhia da refeição, e por isso qualquer pessoa pode integrar o grupo — inclusive, segundo Beit Hillel, um gentio.

בֵית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, לֹא יִמָּנֶה יִשְׂרָאֵל עִם הַכֹּהֵן עַל הַבְּכוֹר. בֵּית הִלֵּל מַתִּירִין, וַאֲפִלּוּ נָכְרִי.
O primogênito congestionado de sangue: se e como se pode fazer sangria sem causar defeito ou mesmo causando-o

O primogênito que o sangue congestionou — ainda que ele venha a morrer — não se faz sangria nele: palavras de Rabi Yehudá. E os sábios dizem: faz-se a sangria, desde que não se cause nele um defeito; e se causou nele um defeito, este não será abatido por causa dele. Rabi Shimon diz: faz-se a sangria, ainda que se cause nele um defeito.

— Trata-se de um primogênito íntegro, ainda destinado ao altar, que adoeceu por excesso de sangue e cuja vida só se salvaria com uma sangria. Como sangrar um animal consagrado em certos pontos pode deixar uma marca permanente que se conta como defeito, e é proibido causar defeito propositalmente num animal sagrado, Rabi Yehudá proíbe totalmente a sangria — mesmo que o animal morra sem ela — por receio de que, uma vez permitida em pontos seguros, o dono acabe se arriscando também em pontos perigosos, levado pela ansiedade de salvar seu bem. Os sábios permitem a sangria, mas apenas em locais onde não se produz defeito; se ainda assim um defeito surgiu, o próprio dono não pode abatê-lo com base nesse defeito — como penalidade por tê-lo causado — até que surja nele, por si só, um outro defeito independente. Rabi Shimon é mais permissivo ainda: como seu princípio geral é que um ato cujo efeito colateral não é intencional nem inevitável permanece permitido, ele autoriza a sangria mesmo em pontos que costumam causar defeito.

בְּכוֹר שֶׁאֲחָזוֹ דָם, אֲפִלּוּ הוּא מֵת, אֵין מַקִּיזִין לוֹ דָם, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, יַקִּיז, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂה בוֹ מוּם. וְאִם עָשָׂה בוֹ מוּם, הֲרֵי זֶה לֹא יִשָּׁחֵט עָלָיו. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר יַקִּיז, אַף עַל פִּי שֶׁהוּא עוֹשֶׂה בוֹ מוּם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 5:2
ב"ש אומרים לא ימנה ישראל עם הכהן כו': ב"ש אומרים שאפי' בכור בעל מום לא יאכל אלא בחבורות הכהנים מצד הכתוב שנא' בו ובשרם יהיה לך וגו', והואיל והוא ממתנות כהן לא יאכל אותו אלא כהן. וב"ה אומרים לא נאמר זה אלא בתמים בלבד, אבל בעל מום יכול הכהן למוכרו ולהאכילו למי שירצה ואפי' לעובד כוכבים, לפי שנאמר בבעל מום כצבי וכאיל... והלכה כר'ש שיהא נשחט עליו ג"כ.

Rambam explica que, segundo Beit Shammai, o versículo "e a carne deles será tua" (Bamidbar 18) aplica-se também ao primogênito defeituoso, tornando-o dom exclusivo dos sacerdotes; Beit Hillel restringe esse versículo apenas ao primogênito íntegro, e trata o defeituoso como carne comparada ao cervo e ao gamo (Devarim 12) — que qualquer um pode comer. Quanto à sangria, Rambam esclarece que a disputa entre Rabi Yehudá, os sábios e Rabi Shimon gira em torno de quando um defeito surge como efeito colateral de um ato necessário: a halachá segue Rabi Shimon, permitindo a sangria mesmo quando ela acaba causando defeito, e o animal pode ser abatido por conta desse próprio defeito.

Bartenura · Bechorot 5:2
לֹא יִמָּנֶה יִשְׂרָאֵל עִם הַכֹּהֵן. לֶאֱכֹל עִמּוֹ בַּחֲבוּרָה מִבְּשַׂר בְּכוֹר בַּעַל מוּם... דִּכְתִיב וּבְשָׂרָם יִהְיֶה לָּךָ כַּחֲזֵה הַתְּנוּפָה וּכְשׁוֹק הַיָּמִין, מָה חָזֶה וְשׁוֹק כֹּהֲנִים אִין יִשְׂרָאֵל לֹא, אַף בְּכוֹר בֵּין תָּמִים בֵּין בַּעַל מוּם כֹּהֲנִים אִין יִשְׂרָאֵל לֹא: וּבֵית הִלֵּל מַתִּירִין וַאֲפִלּוּ נָכְרִי. דִּכְתִיב כַּצְּבִי וְכָאַיָּל, מַה צְּבִי וְאַיָּל אֲפִלּוּ נָכְרִי, אַף בְּכוֹר נַמִּי... יַקִּיז. אַף בְּמָקוֹם שֶׁעוֹשֶׂה בּוֹ מוּם, אִם הוּא צָרִיךְ לְהַקִּיז מֵאוֹתוֹ אֵבָר. וְלֹא יַנִּיחֶנּוּ שֶׁיָּמוּת. וְהֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן:

Bartenura explica que Beit Shammai proíbe o israelita de se juntar ao grupo de sacerdotes para comer a carne do primogênito com defeito, apoiando-se no versículo "e a carne deles será tua, como o peito do movimento e a coxa direita" — assim como o peito e a coxa são exclusivos dos sacerdotes, também o primogênito, íntegro ou defeituoso, é reservado a eles. Beit Hillel responde com o versículo que compara o primogênito defeituoso ao cervo e ao gamo — animais que qualquer pessoa, até um gentio, pode comer. Quanto à sangria, Bartenura resume que a halachá segue Rabi Shimon: permite-se sangrar mesmo num ponto onde isso causará defeito, contanto que seja necessário para não deixar o animal morrer.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 32b
מתני' לא ימנה — אפי' אם זימן כהן אורח ישראל על הבכור בעל מום לא יאכל עמו:

Rashi esclarece o alcance da proibição de Beit Shammai: mesmo que um sacerdote convide voluntariamente um israelita como seu convidado para a refeição do primogênito defeituoso, ainda assim o israelita não pode comer com ele — a restrição não depende da vontade do sacerdote anfitrião, mas da própria natureza sacerdotal da carne.

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 33b
מתני' שאחזו דם — אפינדו"ר: אפי' מת — אם לא יקיזוהו: אין מקיזין לו את הדם — ואפי' במקום שאין עושין מום דיכול לחזור ולהתרפאות המכה... מתוך שאדם בהול על ממונו אי שרית ליה במקום שאין עושה בו מום אתי למיעבד במקום שעושה בו מום: יקיז ובלבד שלא יעשה מום — שלא יחתוך ושלא יפגום את אזנו ואת ניב שפתיו שאין עתיד לחזור ולהתרפאות... לא ישחט עליו — במום הזה הואיל והטילו עד שיפול בו מום אחר: יקיז אף במקום שעושה מום — דסבר ר"ש דבר שאין מתכוין מותר:

Rashi identifica "congestionado de sangue" como uma enfermidade provocada pelo excesso de sangue, e explica a razão de Rabi Yehudá: mesmo em um local do corpo onde a sangria não costuma causar defeito — um ferimento que ainda pode cicatrizar completamente — ele proíbe a sangria, pois teme que a aflição do dono por seu bem o leve, uma vez liberado ali, a arriscar-se também em um local onde a sangria de fato causa defeito permanente, como cortar ou rachar a orelha ou o lábio de forma que não voltem a sarar. Rashi explica ainda que, se um defeito ainda assim surgiu por causa da sangria permitida, o próprio dono não pode abatê-lo com base nesse defeito específico, precisamente por tê-lo causado, até que surja outro defeito independente; e que Rabi Shimon, por considerar permitido o efeito colateral não-intencional de um ato necessário, autoriza a sangria mesmo em pontos que costumam causar defeito.