Por estas máculas se abate o primogênito: se sua orelha ficou lesada, faltando algo a partir da cartilagem, mas não a partir da pele; se ela se rachou, ainda que nada lhe falte; se foi perfurada com um buraco do tamanho de uma ervilha-forrageira; ou se ficou ressecada. Qual é a orelha ressecada? Toda aquela que, ao ser perfurada, não faz sair gota de sangue. Rabi Yossei ben Meshulam diz: ressecada é aquela que se esfarela ao toque.
— Abre-se aqui o longo capítulo conhecido como “Elu Mumin” (“estas são as máculas”), que enumera de modo sistemático os defeitos permanentes que desqualificam o primogênito do altar e, por isso mesmo, permitem seu abate como carne comum fora do Templo. A mishná começa pela orelha: uma lesão só é mácula se atingir a cartilagem, o tecido rígido que sustenta a orelha — se atingir apenas a pele ou a aba mole, o animal sara e não fica permanentemente marcado, de modo que não há mácula. Já uma rachadura conta como mácula mesmo sem faltar tecido algum, e um furo do tamanho de uma ervilha-forrageira (medida padrão usada repetidamente neste capítulo) também desqualifica. Por fim, a orelha ressecada: o teste é prático — perfura-se a orelha, e se não sai sangue, está morta por dentro, e é mácula permanente. Rabi Yossei ben Meshulam propõe um critério ainda mais tátil: a orelha ressecada é a que se esfarela quando se a manuseia.
Rambam esclarece que “lesada” significa faltando algo, como quando se corta parte do corpo da cartilagem — não a extremidade superior mais mole, que se assemelha à pele. Explica a medida da ervilha-forrageira como a área total do buraco, seja ele comprido ou de qualquer formato, desde que some esse tamanho. E define a orelha esfarelada como aquela que, manuseada entre os dedos, se desfaz em pedaços — concluindo que a lei não segue Rabi Yossei.
Bartenura fixa a medida da lesão em geral: o suficiente para que uma unha se prenda nela. Distingue a cartilagem (tecido rígido da orelha) da aba mole, que sara e por isso não conta. Explica a medida da ervilha-forrageira e o teste tátil da orelha esfarelada. E, o mais importante, deriva de Devarim 15:21, por meio da regra hermenêutica de “regra geral, caso específico, regra geral”, o princípio que rege todo o capítulo: só é mácula o defeito visível e permanente — nunca o interno ou o passageiro.
Rashi identifica a cartilagem (chasuchus) com o termo vernáculo usado em sua época para o tecido rígido da orelha, e explica que a pele que não conta como mácula é a aba mole da orelha, que sara e volta ao normal. Distingue precisamente a pegimá (lesão com falta de tecido) da rachadura simples, que é mácula mesmo sem faltar nada. E confirma o teste tátil: a orelha ressecada é a que se esfarela quando manuseada.