Estas são as máculas pelas quais não se abate o primogênito, nem no Templo nem no país: a mancha esbranquiçada e as lágrimas que não são contínuas; os dentes internos que ficaram lesados, mas não os que foram arrancados; aquele que tem sarna; aquele que tem verruga; aquele que tem uma erupção cutânea; o velho; o doente; o malcheiroso; aquele com quem se cometeu uma transgressão; e aquele que matou um homem — por testemunho de uma única testemunha, ou pela palavra dos próprios donos.
— Depois de doze mishnayot listando máculas permanentes, a mishná fecha o capítulo com o contraste: condições que nem sequer permitem o abate fora do Templo, porque não são máculas fixas e reconhecidas pela Torá — nem transitórias como a mancha e as lágrimas ainda não comprovadamente crônicas (vistas na mishná 6:3), nem doenças com cura como a sarna, a verruga sem pelo e certas erupções, nem condições que afetam a qualidade sem afetar a estrutura física, como velhice, doença ou mau cheiro. Todas essas desqualificam o animal apenas para a oferenda no Templo (que exige o melhor exemplar), mas, não sendo máculas permanentes reconhecidas, também não autorizam seu abate comum — o animal permanece com seu status de primogênito consagrado, à espera de desenvolver uma mácula de fato. O mesmo vale para o animal envolvido em bestialidade ou que matou um ser humano, quando isso é sabido apenas pelo testemunho de uma única testemunha ou pela palavra dos próprios donos — testemunho insuficiente para uma condenação judicial, mas suficiente, como estringência, para excluir o animal do Templo sem por isso liberá-lo para abate comum.
E o tumtum e o androginos — nem no Templo nem no país. Rabi Yishmael diz: não há mácula maior que esta. E os sábios dizem: não é primogênito, mas sim tosquiado e usado para trabalho.
— O tumtum (cujos órgãos genitais estão fisicamente ocultos e indeterminados) e o androginos (que apresenta ambos os conjuntos de órgãos) fecham a mishná com o caso mais radical: sua condição sexual é permanentemente indefinida, e por isso nenhuma das duas alternativas se aplica com certeza. Não podem ser oferecidos no Templo, porque talvez sejam fêmeas (e o primogênito consagrado é sempre macho); e não podem ser abatidos como bechor defeituoso fora do Templo, porque talvez sejam machos sem mácula alguma, caso em que o abate seria proibido. Rabi Yishmael dissente, considerando que a própria ambiguidade sexual já é, em si, a maior de todas as máculas possíveis — permitindo, portanto, o abate comum. Os sábios discordam de modo ainda mais radical: para eles, o animal simplesmente não é tratado como primogênito algum, pois a própria incerteza sobre seu sexo o retira, desde o nascimento, da categoria de bechor — e por isso ele é tratado como qualquer animal comum e não consagrado, podendo ser tosquiado e usado para trabalho, usos normalmente proibidos ao primogênito.
Rambam explica o princípio geral: nada com qualquer uma dessas condições pode ser oferecido no Templo, pois este exige perfeição absoluta; e, como não são máculas permanentes, também não se abatem fora do Templo. Distingue os dois casos finais: o tumtum permanece consagrado por dúvida, segundo todos, e é seu próprio dono quem come sua carne quando ganha mácula, pois o princípio de que “quem quer tirar do outro tem o ônus da prova” impede que o sacerdote lhe tome o animal; já a posição dos sábios é apenas sobre o androginos. Conclui que a lei não segue Rabi Yishmael.
Bartenura distingue os dois tipos de sarna e de erupção — a versão que a Torá considera mácula é seca; a discutida aqui, e por isso não desqualificante, é úmida e tem cura. Esclarece que a verruga aqui referida não tem pelo (ao contrário da mácula real vista na mishná 6:10). Explica a lógica do tumtum e do androginos por sua dupla dúvida — talvez macho, e então consagrado; talvez fêmea, e então não. E localiza a posição de Rabi Yishmael especificamente no androginos, cuja carne, segundo ele, poderia ser abatida como bechor com mácula; mas a lei segue os sábios, que o tratam como criatura própria, sequer bechor.
Rashi distingue esta verruga (sem pelo, ou no branco do olho sem osso próprio) da mácula real da mishná anterior, chamando-a de mero excesso de pele (“tiltul”) e não mácula. Traduz sarna e erupção para o vernáculo como tipos de doença de pele, e o malcheiroso como aquele que exala mau cheiro. Sobre bestialidade e homicídio por testemunho único ou pela palavra dos próprios donos, explica que essa evidência é insuficiente para execução judicial, que exigiria duas testemunhas para condenar o animal à lapidação e proibir seu benefício por completo — mas já basta, como estringência, para vedar seu abate.